Bem-vindes a Marginália 3

Quadrinhos, música brasileira e outras coisas a mais. É somente requentar e usar! Made in Brasil

Ame vilões, não anti-heróis pt. 2

ele é literalmente eu (ironia)

No texto anterior defini um processo que considero natural, saudavél e uma comunicação padrão - por mais que não goste dessa palavra - do público com as obras, ou do autor com as obras de certa maneira.

Só que há algumas produções mais ousadas que bagunçam com muito prazer os dilemas morais da nossa sociedade e as convenções narrativas, ao apresentar personagens com todos os traços e esteriotipias de vilões como protagonistas, mais do que vilões clássicos de quadrinhos, figuras que deveriam ser detestáveis, comentendo atrocidades e plenamente consciente disso. O mundo nerd gosta de chamar de "anti-heróis" outros de vilões cinzas, não gosto dessas nomeclaturas além de seus significados terem sidos totalmente abstraídos, ao ponto de não significar mais absolutamente nada, por isso, não vou me prender a elas aqui. Díficil até de dizer que foram abstraídos, duvido que tenham significado alguma coisa.

LEMBRANDO QUE:

Isso é um mero artigo de opinião baseado em experiencia anedótica, NÃO É um estudo de caso! E nem pretendo chegar a alguma conclusão de fato aqui. Pense por si mesmo e faça suas próprias críticas, aliás de preferencia discorde de mim.

Vou ser direto ao ponto, para traçar um padrão de análise de qual personagem está sendo debatido. Personagens como Rorschach do Watchmen, Walter White, Capitão Nascimento, Homelander, Coringa (de 2019), Travis Bickle (Taxi Driver, que é o Coringa original), o Patrick Bateman (psicopata americano) e as inúmeras séries de truecrime são um problema cultural? Elas não deveriam acontecer? Essecialmente não. Toda forma de expressão de cultura é válida, todo tipo de convenção narrativa também, digo mais ao trazer que quanto mais personagens fora da casinha (em questão de roteiro mesmo) melhor para o nosso cinema e cultura pop, as regras e glichés são melhores quando subvertidos... PORÉM, tais personagens correm um grande perigo: Serem aclamados, identificados por parte do público como heróis, e não é aquele tipo de afeicção que alguns vilões geram. Perpassando entre a audiência apenas como meros heróis, tendo fanbase, tendo torcida e algumas fotos de perfis meio vergonhosas

Ficando a pergunta no ar, a audiência é burra ou a obra é mal feita? O mundo geek ou algumas pessoas da crítica de cultura infelizmente adota a postura mais liberal em condenar o individuo que faz uma "interpretação errada" já que a dita inteção do autor foi X, então se você não entende X, tu é burro. Mas calma lá, 1º nem sempre as obras fornecem com clareza toda suas intenções, estando limitada por questões culturais, técnicas ou até ideológicas e 2º A partir do momento que a obra completa é publicada, toda interpretação a partir dela é válida*. A depender do contexto cultural e do momento de seu lançamento, ela significará uma coisa totalmente diferente e cada tempo histórico tratará aquela obra de uma maneira diferente, ao mesmo tempo que essas intepretações sempre são baseadas naquilo que a obra nos diz; Por exemplo, Blade Runner no ano de seu lançamento foi um FRACASSO comercial, com muita dificuldades quase não passou o valor investido no projeto, e hoje é indiscutivelmente uns dos maiores clássicos cult de todos os tempos.

* claro, se não for a porra de uma teoria da conspiração, mas isso não conta como interpretção.  

Se você perguntasse para um cidadão de 1982 o que ele achava do filme, dificilmente ele sequer teria ouvido falar, ou achou chatão, hoje em dia ocupa um cargo de prestígio.

Travado o embate, qual interpretação é a melhor? Quem estava no calor do momento do filme ou quem presenciou 40 anos depois? A resposta é evidente! Nenhuma! 40 anos atrás haviam de fato razões para achar o filme uma draga e atualmente existem razões para ser um clássico, até considero ele muito a frente do seu tempo, acabou pagando por isso. 


Se não existem elementos objetivos para dizer se uma obra é clássica ou um flop, imagina se existem para dizer se tal personagem é X ou Y, a obra sempre vai dizer por si só, não o autor, não os produtores. Por mais que sejam forte suas vontades. 

Porém, porém... Dialeticamente a isto, o autor também possui meios e recursos narrativos para guiar o enredo, a obra fala por si só, mas o autor a começa do zero, se ele pretende falar X e não coloca elementos narrativos ou até não consegue transparecer isso, como que o público vai advinhar? Não dá pra cobrar dessa maneira. 

Um erro muito comum, em minha pespectiva, é quando o autor cria um personagem principal problemático e de forma inconsciente, por estar adequado a ESTRUTURA presentes para um protagonista, faz que todo o universo esteja na pespectiva do personagem problemático.

Para clarificar: Pense em um personagem fascista, o autor não é fascista, mas cria um mundo decadente, cria um cenário onde o governo é sem rumo, cria um cenário de depravação de fato da sociedade (o lugar é mostrado como violento, altos indices de prostituição), cria motivos que justifiquem seu ressentimento com alguma coisa (exemplo uma guerra perdida por aquele país) e outros fatores que se encaixam no discurso fascista. Aquele personagem, em um cenário como esse, é um vilão ou um herói? Como ele pode ser tratado como um vilão se não está deslocado no world bulding do lugar? Ou até se sua presença se faz necessária? Fica muito díficil cobrar da audiência uma exegese completa quando a obra não consegue voiceferar suas próprias inteções, ou pior, quando parece que o autor concorda com as ideias do personagem/gosta do personagem e não o consegue colocar em situações constrangedoras, assim sempre mantendo o status de vencedor ou coisas parecidas. 

Pra mim é o caso do Walter White, muito popular e querido, mas na verdade é um pai de família que abandona a própria família, negocia com nazistas, abusa a esposa grávida na segunda temporada, explode um asilo, envenena crianças, pouco demonstra remorso e a todo momento manipula seu parceiro do crime para conseguir o que quer, e sempre consegue; Ele sempre está resolvendo os problemas e sempre consegue também, é o agente modificador da trama; Quase um escolhido, um simples professor de química que vira um chefão do tráfico de Albuquerque; Ele apresenta alguns traços vilanescos como crueldade, frieza, egoísmo, mas de certa maneira o universo de Breaking Bad sempre conspira ao seu favor, só perceber o quão Vince Gilligan faz a Skyler White, esposa de Walter, alguém insuportável por toda série e ela era a pessoa que estava fazendo a coisa "correta" ao afastar sua família de um evidente maníaco das ideia, mas a série a transforma em vilã em alguns casos. O Jesse a todo momento é mostrado como alguém de pouca confiança e dentre outros fatores, o Vince embarca na visão de mundo do próprio personagem que ele criou, fazendo alguém incontroverso, obstinado e machão! Um verdadeiro herói de própria história, que escolheu viver como homem do que aceitar morrer como um fracassado (que acha que era).

Esse ponto de frustação do Walter poderia ser melhor trabalhado, ao invés de justificado no sentido que ele realmente parecia ter razão em alguns pontos. Na minha interpretação é apenas um homem realizando suas próprias fantasias de poder, mas muita gente lê o Heisenberg como um gênio, um personagem fodão e essa interpretação tem muita margem de acontecer, assim como as pessoas que odeiam completamente a Skyler, a audiência encontra pé em pensar dessa maneira.

É só notar como uma cena de um contexto onde o Walter estar totalmente errado, quase revela sua identidade no episódio anterior, um ataque de macheza passando vergonha e até pede desculpas para Skyler no mesmo episódio virou seu bordão tema, possivelmente o grande momento icônico que tem suas intenções "desapercebidas" porque a narrativa não consegue mostrar.

"i Am ThE dAnGeR" porra nenhuma, carequinha... porra nenhuma...


Campeão em justificar persoangem babaca são produções policiais, especialmente aquelas do policial fodão que é torturador, mestre em abuso de autoridade e mata a rodo porque o ""sistema"" é corrupto ou seus superiores não estão entregues de coração. Entrando naquela pespectiva de ser o agente moralizador em um lugar imoral, tanto que a maioria dos desfechos desses filmes são o policial descumprindo as ordens, mas sendo beneficiado ao final por conseguir seu objetivo. 

Algo que a mídia também adora abusar são produçoes com assassinos em série, levando para um caminho quase-fantasioso sobre matar aos montes, isso quando não atribui sempre conotações positivas aos asssassinos, como genios, sedutores, manipuladores, bom de conversa, em uma completa glamourização que pouco ajuda a entender o fenomeno pretendido e acaba por alimentar um público viciado em um tipo de conteúdo tóxico e desensibilizado, que vai atrás das produções mais bizarras possíveis.

Sem falar quando as produções não tem a devida permissão das famílias das vítimas, que são obrigadas a reviver todo um trauma. Esse tipo de produção é visão sobre "psicopatas" (termo incorreto) gera alguns conteúdos terríveis de internet de "como identificar um serial killer", como se houvesse realmente um padrão ou um elemento essencial que caracteriza um assassino em série, sendo que na verdade apenas ficam famosos aqueles que obedecem o padrão imposto pelas mídias de true crime. 

Sim, estou falando de Dahmer. Assassinos em série reais NÃO PODEM virar cultura pop.

mais uma cagada da netflix, e contando.

Então algo com a premissa de tecnico-forense-documental acaba por criar um baita espetaculo, a mídia em alguns casos é a responsável pelos casos não terem uma solução correta de fato. True Crime é um problemão e tanto na minha opinião, não tem nada de fascinante em canibalismo, assassinatos brutais que resultam traumas familiares por toda vida ou determinadas personalidades do crime. 

Teve até um abençoado que se fantasiou de Dahmer. É complicado...

Existe inclusive um meme que toca a respeito desse assunto. Ver um filhote de cervo sendo morto em um documentário de caça das leoas é algo bacana, um pouco brutal e épico! Mas quando o documentário é sobre a vida dos cervos a coisa fica triste. O mesmo objeto (morte de um filhote) pode ser demonstrado de duas formas diferentes, aquela pessoa que está torcendo para o filhote ser destroçado pelo grupo de leoas no documentário de caça é mal carater? Burra? Talvez não, porque a obra dá margem para isso, através de seus recursos estéticos e narrativos. 

Como diria Andressa Urach: MÃS...

Tem outro ponto...

A apropriação de determinados personagens por grupos de direita e misóginos. 

Com todo respeito, existem uma diferença entre uma visão de determinado fato e pura conspiração perante eles, em outras palavras, se você vê o Patrick Bateman e subentende que ele é um "homem alfa"/sigma, simplesmente não entendeu a porra do filme, isso se assistiu. É apenas um comentário bem ácido sobre a cultura yuppie, que pode ser chamado de equivalente oitentista dos atuais faria limers, através de um personagem supostamente serial killer. Aliás o livro original foi escrito por um homem gay e o filme é dirigido por uma mulher, só de trivia.

Travis Bickle do Táxi Driver é um caso um pouco mais complexo, porque é um personagem muito sensível de se colocar em tela, pelos problemas comuns que apontei aqui, mesmo assim não tem toda Nova York por sua ótica, o Scorsese consegue não o heroificar, por mais que o enredo caminhe por esse lado. Esse é um ponto interessante em Táxi Driver, a história é um desenvolvimento de herói, mas esse heroismo existe apenas na cabeça e nas fantasias do Travis (algo que poderia ter acontecido em Breaking Bad), porque todo o resto do filme o trata como um fracasso/esquisitão que é, então o filme sabidamente faz que apenas o personagem problemático tenha a pespectiva problemática, o resto da história não está sobre a ótica dele. Psicopata Americano também, já que no final do filme não dá nem pra ter certeza se o que aconteceu foi real.

Tanto o Travis tanto o Patrick são mostrados como párias, ao invés de só mais um cara bem malvado no meio de tantos (como nos filmes policiais), assemelham-se mais como vilões protagonistas do que essa classificação mais cinzenta de anti-heroi, que até hoje ninguém conseguiu definir direito. A desmontração desses tipos de personagem como párias é uma das soluções para não imputar a função narrativa de agente modificador, moralizador e outras estruturas narrativas utilizadas para a criação de heróis, por consequencia, ninguém irá torcer para o seu sucesso ou se sensibilizar/se enxergar no personagem. Exceto por aqueles que estão presos em teorias da conspiração. E aí, aí é outro debate.


Historicamente movimentos mais extremos a direita como o fascismo se apropria de símbolos já criados para difundir seus ideais, a suástica era um símbolo religioso budista, além de outros símbolos de culturas indio-européias apropriadas pelo nazismo, do mesmo vale para o período neoclássico, que sua vez é uma baita romantização da cultura greco-romana. O oportunismo e bagunça de certos debates é marca registrada desses grupos, também como a comunicação por símbolos ocultos, nomeados mais recentemente na internet como apitos de cachorro; por óbvio, nesses casos, é sacanagem da audiência, a obra não tem culpa em nada disso. 

No fringir dos ovos...

Não é uma questão CONDENAR "falhas" de representação, o autor é responsável, mas a culpa é da obra. É apenas uma tentativa de entender o comportamento da audiência e a formação de arquetipos na nossa cultura, também quais elementos nos levam a simpatizar ou odiar tais personagens.

Se uma gama de pessoas entende tal obra de uma maneira é mais fácil daquela obra não ter conseguido dizer o que pretendia do que a gama de pessoas serem burras.

Por favor, não considere a maioria das pessoas burras, esse discurso é no mínimo perigoso, para ser educado, 


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Ame vilões, não anti-heróis pt. 1


(essa postagem não tem nada a ver com o MF DOOM)

Não tem nada de errado em se afeiçoar por alguns vilões da ficção, realmente alguns são dotados de carisma e essenciais para a história, diria mais: bons vilões podem ter heróis ruins, mas os bons heróis nunca tem vilões ruins!

Se afeiçoar, ou ter um carinho pelo personagem nem sempre significa concordar, gostar de fato ou se espelhar no individuo. 

Aí mora o problema. Quando certos personagens que são criados com a intenção de serem ácido ou críticos a determinado, ou até serem os mais genuínos filhos da puta possíveis, mas acabam sofrendo o efeito contrário, ou seja, tratados como heróis, vangloriados ou até geram uma identificação nas pessoas. 


Antes de mais nada, 2 disclaimers:

1) Isso é um mero artigo de opinião baseado em experiencia anedótica, NÃO É um estudo de caso! E nem pretendo chegar a alguma conclusão de fato aqui. Pense por si mesmo e faça suas próprias críticas, aliás de preferencia discorde de mim.
2) O texto será dividido em duas partes.

Narrativamente, o herói é o ideal, apesar de um pouco atrapalhado as vezes, mas ele está sempre no ideal, fazendo o correto e apresentando os valores que a obra quer. Ou seja, a pessoa que vai resolver a história e solucionar o problema da trama sempre vai trazer consigo os valores (morais mesmo) que a obra quer repassar, como amizade, humildade, sacrifício, tolerância e sentimentos bons. 

Aliás nos contos, mitos ou lendas da antiguidade aquele que é o herói é o ideal, no sentido de ideia mesmo, de um povo, cultura ou religião. Ele é um simbolísmo de algo desejado por aquela comunidade.

Não é incomum que também os heróis sejam amigos do poder (polícia e o governo), eu trato bem melhor disso quando discuto o Homem Animal, recomendo leitura. E quando o herói não está no poder, ele está em busca dele, e sempre apresenta as motivações morais certas, ainda que não sejam as motivações normativas daquele universo ficcional, porque na narrativa aquele que o herói não está aliado carrega a moralidade ruim, e sempre atribuíndo características ruins e motivações para que não se faça alianças. Pra clarificar: Os guerrilheiros intergaláticos (jedis) de Star Wars, eles estão fodendo o governo, e o governo é filho da puta e opressor, então eles tem a motivação moral certa para serem heróis.

Em outras palavras, a história sempre se adequa ao herói, de modo que sua presença ali seja justificada, e não só isso, ele é um agente modificador dentro da ficção criada, o herói vai ser aquele que resolve a realidade. Tendo um caminho de mão dupla, a história é adequada para o protagonista e o protagonista é adequado a história, carregando na sua bagagem todos os princípios necessários para comunicar as intenções do autor. (ainda que meio inconscientes).

Tem a questão de sempre estarem atuando de improsivo, mas ainda assim sempre prontos e quando perdem dão o troco depois. O herói não tem respiro, tá sempre salvando alguma coisa de última hora. 

Dá também pra falar do herói como ideal até na questão de aparência, alguém trincadão, de rostinho bonito, pense consigo quantas figuras monstruosas são vilões das tramas. Isso seria assunto de outra postagem. 

Menciono o Peter do Sam Raimi ficando bombado depois que levou aquela picada gostosa.

O herói é esteticamente ideal, moralmente ideal e narrativamente ideal também, já que toda história tem que se adequar para sua existência. Falei disso quando fiz análise do Batman vampirão, recomendo leitura. 

(É óbvio que apenas descrevi aspectos generalistas, essas convenções são quebradas e questionadas o tempo inteiro. Se você lembrou de alguma exceção, ela apenas confirma a regra.)

E os vilões? O vilão é o invasor da história, díficilmente está adequado com a média dos outros personagens, sendo um nível abaixo (ou cima, se o vilão for uma bigtech). Os vilões também tendem a ser destemidos, sem escrúpulos, sádicos e cruéis. Suas motivações nunca são muito claras e ainda quando ele explica seus planos é sempre motivado por coisas mesquinhas, como dominação mundial, ego, dinheiro ou qualquer coisa que, para os padrões morais da obra, são supérfluos. Um grande vilão clássico: Goldenfinger do 007, ele só quer roubar a maior reserva de ouro do mundo, nada além disso.

Além de terem traços detestavéis, como traidores, trapaceadores, infiéis, passionais (SIM, o discurso iluminista tendo a valorizar escolhas "mais racionais" do que pessoas impulsivas) e quase nenhum dos seus atos não justificados, sempre são injustiças, por mais que tenham razão, ou um fundo de razão, não conseguem organizar um pensamento racional e buscar real solução dos problemas. Em outras palavras, os vilões são incapazes de solucionar, nem trazer a mensagem necessária que a obra quer. Pelo seus traços morais tortuosos. O melhor exemplo disso é o Magneto, que apesar de estar certo na estúpida maioria dos casos, nunca apresenta uma solução de fato (apesar de eu considerar o Magneto mais denso do que heroi x vilao, ja falei daqui).

Esse papo de ideais, beleza superior, solução final, enquanto os vilões são feios, deformados e imorais me lembra uma certa ideologia e uma teoria de um barbudinho inglês muito famoso. 


Outro tipo de vilão é o puramente diabólico, eles não tem motivação, nem objetivos, só praticam o mal desenfreadamente porque podem e porque querem, sem razões para isso. Além do próprio diabo, um Coringa BEM FEITO é o exemplo de vilão diabólico pra mim. Ele não tem história de fundo, sem traumas, sem nada que motive ele a fazer o que faz, apenas o puro agente do caos - sim, existens algumas histórias de origem do Coringa, mas elas não agregam tanto ao personagem na minha opinião, o ar de mistério sobre o princípe do crime é melhor. Esses vilões passam mais a sensação de invasores, como um objeto de perturbação da ordem, só pensar como existe a porra de um palhaço raquítico de 1,96 metros de terno roxo rindo o tempo inteiro. Esse elemento do riso do Coringa é bem diabólico, ele não tem motivo e sempre envolve um mistério por trás, exceto as histórias que tentam justificar que na minha opinião nem são boas. (cof cof Joker 2019 e Piada Mortal)
(É óbvio que apenas descrevi aspectos generalistas, essas convenções são quebradas e questionadas o tempo inteiro. Se você lembrou de alguma exceção, ela apenas confirma a regra.)

Nesse tópico de perturbação, acaba por criar vilões queers, como já conhecido o fenomeno queer coded villains da disney, porra Ursula é cópia da Divine, uma das drag queens mais famosas na história, porque os antagonistas são tão descolocados do universo que fazem parte ao ponto de também estarem fora do ideal de gênero também! E essa é minha primeira hipótese de porque amamos vilões:

Com o passar dos anos, os valores sociais mudam. Aquilo que era imoral a pouco tempo passar a ter mais aceitação, pelo menos para determinado grupo. É o caso dos vilões da disney, eram feitos para representar aquilo de "pior", só que o pior é a gente e sempre nos simpatizamos com os nossos. Da mesma forma que os heróis são feitos mais dentro de um padrão para agradar a maioria do público e cativar o carisma dos expectadores, não atoa, existem tantos policiais que são heróis, principalmente na DC. O bias do autor nem sempre vai prevalecer por todo sempre, e é até engraçado imaginar como determinados vilões que são caricaturas para serem maus acabam revelando bastante carisma ou até começa-se a questionar se ele é tão ruim assim...

Segunda teoria, esse é um pouco mais óbvio: vilões aparecem muito menos do que heróis, então é de se criar uma certa expectativa do que aquele sujeito vai planejar, até porque na maioria das histórias o antagonista só aparece nos momentos cruciais, porque não tem construção de personagem, então os heróis que estão pelo processo de descoberta do que irão fazer há vários momentos de "encheção de linguiça", oscilando mais, naturalmente. É até uma questão lógica, se determinado personagem aparece menos na trama, ele tende a ter menos pontos baixos, até por aparecer sempre em climax, grande batalha final ou momentos cruciais da trama. Não atoa o Darth Vader é uns dos personagens mais aclamados da ficção, se o Luke fica pegando a Princesa Leia, o homem só aparece para tacar a porrada em geral, com aquela trilha sonora épica.

se você reconhece esse meme...

Terceira teoria: alguns vilões são simpáticos por serem falhos, mais humanos. É até um pouco contraditório falar que os piores personagens são os mais humanos. Segue a linha do pensamento. Enquanto aquele escolhido da narrativa tem tudo o que quer, o vilão tende a ser isolado, falho, odiado injustamente em alguns casos e apenas toma algumas escolhas erradas, o que é plenamente plausível, oras, ninguém é perfeito. Tem bastante obra consciente disso, principalmente as infantis as quais se dedicam a explicar o "passado do vilão" e daí todo mundo passa a entender o seu lado, apesar de não deixar de cumprir o papel de vilão que expliquei acima.

Assim, eles experiementam emoções humanas reais (inveja, frustação, ódio, desilusão), ao invés das ideações virtuais que os heróis passam (triunfos, glórias, orgulhos). Os sentimetnos dos vilões são reais, palpáveis, enquanto o herói vive de utopia. 

Por último e menos importante, estética. Pelo que apresentei que os vilões precisam ser esteticamente desalinhados você tem a produção de figuras mais interessantes do que homens bombados de collant, de uma certa maneira há mais liberdade criativa para se pensar no visual dos vilões e tudo é sempre exagerado, fica uma beleza. Nunca teríamos heróis como o Doutor Destino, Duende Verde, Thanos, Juggernaut, Darkseid, Dr Frio sei lá o homem calendário... AQUELE BONECO DO BATMAN!

acredito que o nome dele é Scarface

Visualmente, na maioria dos casos (minha opinião) eles são mais interessantes do que os velhos e batidos collants, que também adoro, não sejam por isso. 

Assim, acredito que dá pra finalizar por dizer que um fascínio por vilões da ficção é um movimento plenamente razoável, algumas obras se utilizam disso, principalmente novelas, onde a grande vilã má sempre precisa de muito mais carisma e personalidade do que a coitadinha da personagem principal. Quem não gosta de Raquel, Carminha, Nazaré, Odette Roitman e dentre outras? Os antagonistas são ponto cruciais na história. 

Pacificado esse ponto, há um grande problema quando o personagem não está bem colocado narrativamente entre um herói e um vilão, fazendo que ganhe a popularidade errada, é um fenomeno totalmente diferente, será que a culpa são dos autores ou da audiência? Saberemos na próxima postagem, então fique de olho no Marginália 3!

Aguardemos cenas do próximo capítulo...




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Receita de bolo é tão fácil quanto dizem? X-Men '97 (2024)

 

Resenha SEM SPOILERS! 

Vou te falar, quando vi o trailer desse negócio fiquei até um pouco triste dos meus queridos mutantes serem mais uma vítima da cultura da lacração (piada) revival dos anos 90, ou seja, refazer obras muitos populares naquela época só pra arrancar dinheiro dos hoje quarentões. Saiu uma penca de filme HORRÍVEL nessa pegada, Indiana Jones, Pequena Sereia, Rei Leão (e os outros milhões de "live actions" da Disney) e The Flash que trouxe o Keaton como Batman de novo, totalmente não solicitado. 

Vendo esse histórico e o debate de "crise criativa" em hollywood, quando sai uma produção dessas você fica com o pé atrás, mas... Não é que começou a ser bem falado? Me Convenci a ver e não me arrependo. 

Já digo: X-Men '97 VALE A PENA DE SER VISTO, não é só uma obra boba que se apega a nostalgia como único recurso. Vamos investigar como isso é feito...

 Ele tem o mesmo trato com as obras originais que Pabllo Vittar teve em Batidão Tropical 2 (Confira a resenha) que é trabalhar dando um passo pra frente e não olhar pra trás. Isso fica muito claro quando não recorre a um período em genérico, esse é o erro de muitas produções que tentam apelar para nostalgia, não definem um modelo para se inspirar e ficam supracitando coisas aleatórias. Ou só pega as coisas mais famosas.

Vou dar um exemplo. Se fosse uma obra que só apegasse na nostalgia sem fundamento, iria ter um monte de música de rap aleatória, isso é bem anos 90, mas não tem nada a ver com os X-Men (sem um encaixo pra isso ser feito, deixando claro). O trabalho não é feito para você lembrar como era bons os tempos de criança, pelo contrário, ele tem a mesma estética e estrutura narrativa das histórias daquele período, gasta suas energias em sintetizar o movimento estético da época, do que meramente reproduzir coisas já prontas. 

Exatamente como Pabllo Vittar faz em Batidão Tropical (tanto 1 quanto o 2), não é tratar o antigo como antigo, mas tratar o passado como uma memória viva, que ainda pode ser plenamente reproduzida e dar bons frutos, basta ENTENDER o objeto que se tem nas mãos. Um exemplo contrário do que estou explicitando é a porra do Batman do Keaton reaparecendo quase QUARENTA ANOS DEPOIS e aquele bem fraquinho do Spielberg, Jogador Nº1 (2018):

tudo isso pros nerdola ficar apontando pra tela "olha ali olha ali caraca velhooo"

Assim como outras obras, apesar de jogar na tela ostentando compra de direitos de imagem não conseguem replicar a sensação/estética dos filmes do período, ficando em um tipo de vale da estranheza narrativo onde o personagem ou objeto da história é antigo, mas todo polido para os padrões atuais, não tendo competência de reproduzir a estética anterior e nem coragem de romper para fazer algo totalmente diferente. 

 X-Men '97 é dotado de PERSONALIDADE que é advinda da competência em entender o que é X-Men e o que foi X-Men dos anos 90. e dir mais, consegue SUPERAR o desenho original (X-Men de 1992), quando dá justamente mais PERSONALIDADE as personagens femininas, só olhar o próprio visual delas, deu uma ajeitada na anatomia e agora não se parecem mais com figuras de filmes eróticos:

Vampira no desenho original.
É justamente a necessidade de dar o passo para frente, chegar onde a obra original não conseguiu por questões de limitações técnicas (o visual do desenho de 1992 é bem esquisito) ou limitações ideológicas. Atualizando, encaixando para o mais razoável nos tempos atuais, incluindo o traço, que tá bem mais limpo.

Reproduzir a estética e elementos não significa repetir os erros, ao mesmo tempo não é sobre fazer diferente, mas revitalizar, por isso, tem algumas mudanças estéticas. Diria que são mais correções que casam melhor com a proposta do desenho, o seu objetivo final é bem delimitado, adaptar as histórias do Chris Claremont (tão falado aqui) junto com os personagens do desenho Original (que foram baseados nas histórias do Chris), só que tem um porém! Não é qualquer história do Chris, é especificamente do período Uncanny X-Men #200 pra frente. Isso fica bem evidente no visual da Tempestade, que tá com aquele moicano maravilhoso. 

Dois fatores que são bem Claremont é o ritmo frenético que é quase de HQ mesmo, o que gera uma enorme exaustão mental nos personagens, marca registrada do período e um protagonismo melhor elaborado de personagens femininas. Coisa que é bem rara nas produções de herói, esse é o diferencial muita das vezes.

Há também a velha história de genocídio e debates raciais. Mesmo que as abordagens mais modernas falem de questões de gênero de sexualidade (como o filme de 2000 e Grant Morisson) pelo menos em minha percepção não está presente aqui de forma tão clarevidente. 

Diria inclusive que a obra é bem discreta no quesito inovação, se arrisca muito pouco, não ousa mexer em muita coisa. É uma receita de bolo, que por muito tempo o meio nerd usou quase como uma forma pejorativa pra dizer que é fácil de fazer, apenas te desafio a fazer aquele bolo de fubá que tua vó fazia todo domingo, cê num ia conseguir... Porque em um bolo até se você errar a porra da temperatura do leite já foi, estraga completamente, além das texturas, sabor e outros fatores. Ou seja, pra fazer algo na base da receita de bolo, precisa saber cozinhar. X-Men '97 consegue aplicar a receitinha do vovô Claremont na medida certa.

É mais uma inteligência em saber dosar os ingredientes já estabelecidos, do trazer algo novo. O confortável ainda é capaz de levar a bons caminhos, quem precisa inovar quando se tem X-Men?

Por isso serve bastante para quem já conhece as histórias dos mutantes e vai saber se situar em qual período estamos e também vai servir, pelo seu modelo narrativo, pra quem nunca viu nada dos X-Men. Porque se parece muito com os desenhos que eram mostrados na TV Globinho e Bom Dia e Cia, porradaria comendo solta, arcos bem curtos de história. A dublagem tá maestral. Não consigo elogiar mais do que isso.

Apesar de tratar de assuntos como genocídio, o desenho é leve, colorido e até brega (no bom sentido) em alguns pontos, me trouxe a infância quando eu via X-Men Evolution na SBT, mas sem necessariamente precisar copiar nada ou esfregar na sua cara dizendo "SINTA SAUDADES SINTA SAUDADES".
"Sinta nostalgia Sinta Nostalgia... Compre remake pro seu millennial" 

É mais efetivo em alguns casos entregar algo no sobretexto do que expor para o mundo o que você está pensando. É claro que eles estão se apoiando na nostalgia também? Sim, mas esse não é a força motriz do desenho. Parece só mais um remaster/remake/reboot, entretanto X-Men '97 pode te pegar desprevenido, apesar de prometer muito pouco e jogar em um terreno certo, acerta na mosca em sua proposta e entrega um trabalho muito sólido.

Solidez, personalidade e frescor ao invés de cheiro de morfo... Não é sr. Keaton? 


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E se o Batman fosse vampiro? Batman - Trilogia de Sangue de Doug Monch & Kelley Jones (1991)


Amadurecer é perceber que Piada Mortal não é nem de longe a melhor história do Batman. 

Resenha com alguns spoilers!

Não é polêmico para ninguém dizer que as histórias do Batman tem um histórico de roteiros fracos, principalmente nos quadrinhos. Meio que Batman sempre vende muito, e os fãs notórios do morcegão estão mais atento a perfomance/maneirismos do que de fato o emaranhado de tramas. Só pegar as histórias que são elencadas como 5 melhores, parecem ligar apenas para o fator de vendas porque tem cada uma, melhor deixar baixo.

Tem outro fator, dos anos 90 pra cá (na verdade Batman pós-Frank Miller) ele entrou numas aventuras estranhas, cada vez mais violento e mais solitário, como diz o geek médio "BATMAN BOM É O QUE MATA!!!" esse senso comum está muito atrelado ao sucesso comercial que o revival do morcego teve nos anos 90, por conta dos inúmeros jogos, filmes, animação e obviamente: quadrinhos. 

Particularmente, não gosto dessa pegada dita como séria/adulta/meio emo do Batman. 

Nesse contexto CAVERNOSO (se me permitem o trocadilho) é que nasce a trilogia de sangue, na ideia de repaginar o herói, que era muito mais brincadeira do que traumas. Se vocês foram lembrar das histórias dos anos 50-70.

Batman o Bravo e o Audaz #85 do Neal Adams e Dennis O'Neil

E a cada novo trabalho noventista, com sucesso ou não, cada quadrinista tentava dar a sua interpretação do Batman, ou apenas imitar o Frank Miller copiosamente (cof cof Longo Dia das Bruxas) o que Monch e Jones trazem de novo para o Batman? Iremos descobrir agora. 

1. Desenhos
Primeiramente, como rito do Marginália 3, observos a questão gráfica: Kelley Jones é um quadrinista bastante famoso por essa HQ em específico, seu traço é sujo, tenebroso e tem um carater meio de monstruosidade, brincando bastante com proporções e forma do corpo. Definindo muito bem seria algo GROTESCO,  consegue tirar uma expressividade e movimento, casando muito bem com a proposta que conta com muitas cenas de porrada seca, saltos entre prédios e planagens de capa.

A sequência de ações mescla o estilo mais cinemátográfico (como closes de rosto e cenas SPLASH!) com algo mais próprio dos quadrinhos (como contar duas narrativas na mesma página) sabendo oscilar muito bem entre momentos de mais corridos e momentos mais dramáticos. Ou seja, não se demora nas cenas de ação, nem passa voando nas cenas de drama. O layout é bem conservador com poucas quebras de "barra branca" nem inventa layouts tortos, tudo retinho e segmentado.

Tudo isso só pra abrir um bueiro

Tudo é muito exagerado, emocional, pesado. Aquele quêzinho de novela mexicana com temática gótica. Nesse tema, há bastante ornamentos tipo as das gárgulas, a presença de muitas cenas no esgosto e arquitetura que me lembra de relance a versão do Tim Burton do Batman, MAS não fizeram o erro de pintar ele de preto. Por falar em cores elas entregam uma mistura sombria sem ser escura, rola uns constrantes, uma presença muito forte de roxo e umas estilísticas que deixam a coloração "suja", mais ou menos é um tom pastel invertido, no lugar de ser leve e desaturado, utiliza a saturação para entregar algo mais denso. PORÉM, sem nada que precise apertar os olhos para ver. 
Se ficou confuso, só pensar em qualquer álbum do The Cure, é nessa pegada. Apesar de muitas cores, é bastante sombrio.

Achei Chuva Rubra muito melhor elaborada no quesito artístico, já a segunda parte da trilogia que é Tempestade de Sangue a coloração e traços deixa muitíssimo a desejar... Pelo menos no scan que li.

Refaço minha colocação, talvez por um prazo mais apertado a questão técnica, em anatomias e formas cai em queda livre. Atrapalhando na intepretação de algumas cenas, mas... Quando é pra valer mesmo, as cenas chave, não deixam a desejar em nada. Kelley Jones pelo menos não falhou na hora errada.

Mesmo com a presença de cores fortes como amarelo, a composição continua sombria em Tempestade de Sangue. 

Belíssima composição de cores

Vou cornetar o Kelley Jones, tem o seu estilo, que ok, é mais grotesco, umas "erradas" ou "exagero" são toleráveis, mas tem umas cagadas de anatomia que não dá... Principalmente esse close supersexy na Selina Kyle, que tinha acabado de sofrer um ataque que poderia ser interpretado como tentativa de estupro... Enfim, eis a cena:

"ainn que delisiã, cair num rio de noitinhaaa"

Queria eu cair no lago PODRE de Gotham e sair pleníssima assim. Quer dizer, nem tanto... do que jeito que tá torta no primeiro quadro. O segundo quadro está até aceitável, de qualquer jeito a sexualização bizonha de qualquer personagem feminina é um problema crônico, nem dá pra falar em erro exclusivo aqui. Forçando a barra, a mulher-gato sempre teve um componete sexy, MAS DEPOIS DE SER ATACADA NÃO DÁ PORRA!

Outra coisa que o Jones peca muito são as partículas de sangue, além de mal desenhadas, na coloração fica parecendo calda de chocolate, aquelas de sorvete mesmo. 

Help me a help you

Lembrando sempre de culpar o patrão, existe apenas a remota possibilidade dos editores da DC colocarem aquele prazo no talo, o que dificulta a criação artística. Mesmo assim não carece de boas ideias, talvez se Kelley Jones se entregasse mais e confiasse no próprio estilo poderia sair algumas coisas interessantes, por mais que abstratas em alguns momentos.
No geral, é um trabalho na média do que os quadrinhos entregam, tendo alguns momentos de absolute cinema e outros de Rob Liefeld. Não irá estragar sua experiência com a obra, aliás o bom roteiro e a história envolve te faz ignorar algumas questões. Pois então iremos falar do bonito:

2. Roteiro

Essa vai para aqueles fiscais de fidelidade que fica em cima de qualquer adaptação que mude a menor coisa possível dos quadrinhos, o Batman do Doug Monch não é um garoto de oito anos que não cresceu, nem um investigador perfeito, ele é um completo lunático que se acha moralmente superior aos determinados "vilões" só porque ele não mata. Não matava, nessa ele mata. Então o Batman aqui está mais para PM do que Sherlock Homes. Aliás, Monch quebra algumas "premissas" básicas de qualquer história do Batman, em outros termos é o seguinte: No imaginário nerd geral há uma imagem do Batman, há uma imagem do Homem Aranha, há uma imagem dos X-Men que são um ponto de convergência das histórias mais lidas, na verdade um tipo de "sumário" do que aquele personagem é. Nem sempre, em verdade, representam de fato o "espírito" do personagem, o que importa é que ele existe.
No caso do Batman (por ser um personagem de muitas mãos em cima e muito antigo) é um pouco mais díficil de definir, mais ou menos seria um ricaço traumatizado que faz vigilância numa cidade muito caótica, e é um herói "sem poderes"* que trabalha mais de investigador na maioria das vezes.

*Apesar da premissa do Batman é não ter superpoderes ele notoriamente faz atividade que são muito além do que qualquer ser humano, e isso está presente em qualquer mídia do herói, então... Eu mesmo nem considero muito isso aí.

Vamos partir do princípio: O primeiro título trilogia, Chuva Rubra se passa em um mundo alternativo, onde a data não é específicada e nem nada sobre o Batman é apresentado, salve engano os seus pais sequer são mencionados. A história é direta: vampiros estão atacando Gotham City e há todo um arco, que envolve alguns delírios do Bruce (nada novo) sobre a investigação do que porra está acontecendo, um procesos ceticismo inicial e uma completa desilusão sobre o futuro de Gotham, essa parte é mais comum ao Batman. 

Todo o resto da premissa é totalmente corrompida do arquétipo que se é atribuído ao Batman, algo que ajuda o Monch a criar e elaborar o que bem entender, mas ainda assim, apresenta umas das mais autênticas histórias para se entender o morcegão, mas chegamos lá depois... 

O Batman não parece muito motivado em descobrir que porra está acontecendo, o sentimento é desespero, até porque abrange coisas até sobrenaturais que não é da compreensão humana, então se vê obrigado a precisar da ajuda de uma terceira pessoa que passa informações sobre a mitologia dos vampiros, Ariane:

Nessa parte, é tudo do normal convencionado sobre Vampiros dos anos 90, termos vampiros e caçadores de vampiros (que são vampiros), além de um debate se os vampiros são naturalmente ruins ou não. Sol, estaca no coração, visual de rave. Nada a acrescentar em relação a isso.

Eu arriscaria dizer, que essa é uma das versões menos inteligentes do Batman, não que ele seja burro, mas a história em momento algum retira dele alguma sacada genial ou solução de um grande mistério, até porque como mencionei, o mistério aqui é impossível do homem compreender, são questões quase mágicas... VAMPIROS!

O Batman desmonstra fraqueza por lidar com algo totalmente sobrenatural, afinal estamos falando do Drácula, que está "colonizando" Gotham City, no primeiro quebra pau entre os dois Batman sai de uma situação quase morte, assim como inúmeras histórias pós-Frank Miller, ele toma um coro e sai todo quebrado... Precisando de uma transfusão de sangue para continuar a viver... Justamente de uma caçadora, e aí que a história da trilogia começa de fato! Dá pra falar em termos filosóficos que a transfusão de sangue de um vampiro para o Bruce Wayne é a decretação da morte do Bruce, que inclusive tem uma das melhores representações visuais dele que já vi:


O término de Chuva Rubra decreta a morte do Bruce Wayne para a transformação completa dele no Batman, nesse caso em sentido literal. Olha o significado tá fácil, o "man" de Batman se foi, ao passo que ele vira uma criatura de fato. Isso fica muito claro quando ele decide detonar a batcaverna que estava virando um antro de vampiros, a Mansão Wayne tradicional casa de uma família e certa forma única coisa símbolica que seus pais deixaram de herança (além dos bilhões* de dólares).

*Só por curiosidade, Bruce Wayne não é mencionado como bilionários, mas "apenas" multimilionário nessa HQ

Como havia dito, a motivação inicial do Batman não era a clássica vingança, era mais um senso de urgência batendo na bunda pelo alto números de vítimas do que parecia um serial killer, lidar com bestas de outro mundo e ainda um sentimento de impotência, porque dessa vez seus inimigos não eram apenas alguém com doutorado que tinha ficado maluco, mas VAMPIROS serem imortais, dificultando a vida do (de ofício) morcegão. O tema Batman broxa, quer dizer, impotente dá pra decretar que é a marca registrada de suas histórias mais sombrias, em algumas ele é só mais um expectador do que sujeito ativo do processo (exemplo: Batman O Messias) mais ou menos igual ao cliché do superman fia da puta.

Essa quebra de paradigma estabelecido é sutil, Batman passa a se mover por vingança contra o Drácula quando Tanya (só uma gostosa vampira-caçadora que aparece exclusivamente para MORRER) morre nas mão do vilão, e agora o Batman (também quase-vampiro) precisa enfrentar o líder do covil.

As apostas feitas são conservadoras, estabelecendo e retirando seus próprios "conceitos novos" da história, seu trunfo principal é a condunção e construção do ambiente gótico que é muito bem feito, apesar de totalmente diferente daquela Gotham de prédios comerciais enormes, aqui termos ruas estreitas e casas menores. Inclusive depois da explosão passam a morar em um tipo de apartamento. 

Ou seja, mesmo com o Monch corrompendo a premissa do personagem, o seu movimento não é tão disruptivo assim, porque acerta na personalidade do Batman mesmo em contextos diferentes voltando a aquele velho Batman que todos nós conhecemos (mais ou menos). Pense em um movimento de pesca, por mais longe que a isca vá, ela sempre retorna ao pescador.

Sem nenhuma grande surpresa, Batman consegue matar o Drácula num sangrento duelo fechando em três capítulos a primeira parte da trilogia.

Só que a paz está longe de pairar sobre Gotham, porque os problemas só estavam por começar...

Batman bestializado, mas ainda Batman!

Ninguém sentiu a estranheza de nenhum dos personagens clássicos do Batman não terem sido mencionados aqui? Porque nenhum de seus vilões está presente em Chuva Rubra, os escritores do Batman sempre acham um jeito de encaixar o enorme leque de vilões nas histórias não é? O começo da segunda parte não é diferente, na verdade aparece todos o que gera aquele panteão desnecessário que nem vale a pena mencionar.

Para gozo de todos os nerdolas que adoram o Snyder, esse Batman mata! Em Tempestade de Sangue Batman, que se declarou como morto, no maior modo animal possível, decide sair matando vampiros a rodo, seguindo o legado de Tanya.

Pokas ideias mermo

Ué? Onde vai parar aquele dilema moral do Batman não matar para não se equiparar aos seus inimigos? Na cabeça dele, ele ainda está presente da seguinte forma: apesar de ele matar, ele não é um vampiro convencional porque não se alimenta de sangue, sendo um vampiro puro santo anjo do senhor.

Isso sintetiza muito a ideia de Batman na minha opinião, porque aquele clássico meme "Batman não mata, mas manda pra UTI" é a mais pura verdade. Se for colocar numa pespectiva que está presente em inúmeras histórias, Bruce Wayne é mais um problema para Gotham do que uma solução, mas as vezes é encarado como um mal necessário por estar colaborando do lado certo da história, nesse caso o HONESTÍSSIMO Comissário Gordon, ou seja... Batman é mais ou menos um PM ou um esquadrão da morte grupo tático operacional como o BOPE, que apesar de exagerar algumas vezes, continuam certos independente de qualquer coisa. Até porque é o vigilante cruel ou um palhaço colocando veneno no reservatório da cidade, mas até que ponto o Coringa é realmente pior do que o Batman?

Vamos racionar, mesmo o Batman não ""matando""* ele não ajuda em nada na diminuição da violência da cidade, já que seu serviço de vigilância truculenta só instaura o caos e medo nas ruas, sentimentos que não são nem um pouco almejados. Exceto pelos governantes, que tem muito a ganhar com o medo geral instaurado na cidade. Onde quero chegar com esse pensamento é: matando ou não, as meras razões morais do Batman não justificam seus atos tenebrosos e o Monch consegue deixar esse fator presente até de uma forma irônica, quando em determinado momento o Batman diz que "Não toma sangue" e um personagem que me esqueci o nome diz "mas derrama bastante".

*Minha gente, estamos em 2024, dizer que o Batman não mata é uma piada né? Até nas histórias infantis ele dá uns porradão que ia derrubar qualquer cristão mais firme na fé, além de outras que o batmóvel atira de metralhadora, joga bomba, taca bazookada ou ele anda de TANQUE. Eu diria melhor que o Batman não executa a sangue frio suas vítimas, isso é verdade, mas matar... Tem uma rapaziada que foi conhecer o Maradona mais cedo... 

E esse do Doug Monch não é motivado por trauma, vingança nem nada (seria uma pretensa moralidade mais comum que nem vale o debate), em Tempestade de Sangue é uma pura força maligna que voa pela cidade com sede de sangue, por mais que negue isso. 
A sede de sangue não tem sentido apenas figurado, o Batman passou toda história apenas se alimentando por um plasma que é um simulacro de sangue, aos poucos vai ficando cada demais mais fraco ao ponto dele não se sastifazer mais.



 Isso serve como alegoria para o Batman convencional, ele tem pulsão por violência, ele tem o genuíno desejo de matar, mas não o faz por amarras morais baratas, que passam longe de justificar sair de vigilante pela madrugada (OBVIAMENTE isso vai depender do autor que estar escrevendo o herói) e ainda, toda narrativa as vezes apresentada justifica sua própria existência, como apresentar poderes corruptos que não conseguem controlar Gotham. Basicamente, as histórias do Batman giram ao seu redor, não só o roteiro, mas como todo universo conspira ao seu favor (ou contra ele). Podemos falar de um Batcentrismo?

'Defeito' que não está presente nessa segunda parte, Batman é um MANÍACO que precisa ser controlado, ele só não tomou o lugar do Drácula como se tornou alguém PIOR do que o outro vampirão.

Resumindo a ópera, matando ou não matando, o Batman continua o mesmo, Doug Monch consegue sintentizar muito bem os debates presentes no personagem mesmo o corrompendo por completo,

Bem, por falar em moralidade, só existe um personagem capaz de tirar o Morcegão com Daddy Issues dos eixos, o Príncipe do Crime! O Coringa!

Cortando caminho, o Coringa tá sensacional aqui. É o único personagem comum do Batman bem introduzindo na história. Seu plano é assumir a legião de vampiros desamparados pelo Drácula, que estão sendo vítima do HOLOCAUSTO feito pelo Batman para tomar a cidade. Tomar na verdade o submundo do crime, porque ele transforma todos os maiores chefões da máfia em vampiros também, fazendo uma isca pro Batman. 

Enquanto o morcego aluncionado mata a rodo, Coringa ia tomando conta de tudo. Ou o plano do Coringa era matar o Batman mesmo, nunca se sabem as intenções peversas dele...

Nesse meio termo Selina Kyle é atacada numa cena rídicula por um tipo de lobisomem, virando um tipo meio lobo-meio gato, mas a história é tão foda-se para essa parte mitológica que eu faço questão de pular. A função da mulher-gato-lobisomem é fornecer closes de bunda e morrer lá perto do final.

Também vão aparecendo para ser mortos outros vilões do Batman, como o Espantalho, Pinguim, Crocodilo e o Charada? É o velho problema de colocar os vilões só como um adesivo na página sem profundidade nenhuma. 

De qualquer forma, a sede do Batman vai aumentando a cada página, seu desespero vai ficando mais evidente, ele está doidinho por uma mordida no cangote de alguém. Com isso aos poucos vai se apegando a mulher-gato em um verdadeiro affair (fica tão gritante que ela vai morrer também). Todo esse arco, apesar de alguns tropeços é muito bom de acompanhar e a história continua sendo, apesar de contextos diferentes, bastante fiel a personalidade e a ideia de Batman e universo Batman. 

Porque o Coringa é a única pessoa a tirar o Batman do sério, a ele quebrar seus próprios dilemas morais baratos que acredita tanto. Aqui não é diferente, pra variar, perde seu segundo par romântico e chegar a chorar! Coisa que poucas vezes vi nos quadrinhos... (não leio tanto Batman pra ratificar essa informação). 

Fazendo que o Batman chegue ao seu limite psicológico, igual ao fim de Piada Mortal, mas como essa HQ é melhor escrita do aquela-lá, não tem um final ruim. Finalmente consegue pegar o Coringa e o final apesar de previsível, surpreende por sua construção. Morde o pescoço do Coringa e toma seu sangue...
ISSO é uma verdadeira cena clássica

PECADO é a palavra, Batman não consegue conviver com o sentimento de culpa, da mesma forma que não lidou bem com seu desejo reprimido (falando assim até parece que comeu a bunda do Coringa).Percebendo que toda sua luta foi em vão, vampiros ainda existem, o crime ainda está a solta e pior, talvez ele mesmo fosse o responsável direto por toda bárbarie.

Ao final de tudo, pede que Alfred enfie uma estaca no seu peito, terminando trágicamente o segundo arco da história.

E aí na terceira parte (Bruma Escarlate), que é dividida em dois volumes começa tão mal, mas tão mal que nem vale a pena terminar de ler, sinceramente. Em termos: Alfred se vê desesperado com o aumento da malandragem em Gotham e decide reviver o Batman, caindo no problema do Batcentrismo que defini mais cedo. Sinceramente? Monch e Jones parecem jogarem tudo de diferente construíram nas outras duas partes. Um pouco dessa decadência já começa em Tempestade de Sangue e se perde totalmente depois. Então vou sumariamente ignorar a terceira parte.


Resumo da ópera:
Como comecei o texto, o Batman tem um pesado histórico de histórias mal escritas. Nem a Triloga de Sangue conseguiu escapar.

De qualquer maneira, vamos falar de seus valores: Retirar o personagem principal do seu próprio passado e localidade não é fácil, aliás deslocar o mesmo personagem de todo o contexto que justifica a sua existência, Doug Monch consegue trazer um imenso desconforto para o Batman, ao ponto dele está totalmente deslocado em sua própria HQ que leva seu nome. AINDA ASSIM consegue extrair a nata de sua personalidade e uns dos debates presente se ele deveria ser mais carinhoso ou não com os capangas do Pinguim.
Não carece essa HQ, em seu pontos altos, de personalidade. A estética gótica é muito bem acertada na medida, mesmo que o Kelley Jones não seja uns dos melhores, entrega um projeto nos limites de sua técnicas, sólido.
O projeto se perde, tanto na estética, tanto no enredo quando abandona a si mesmo em suas pretensões inicias. No final de tudo, Batman deixa o Doug Monch deslocado.

Vale a pena ler? Acredito que sim.
E passem bem longe de Bruma Escarlate. 







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Pabllo Vittar - Batidão Tropical Vol. 2 (2024)

 


Informações quentes: 
9 de Abril de 2024
14 músicas, 34 minutos
Forró, Brega, Tecnobrega, Melody, Piseiro a peste e o caraio tudo 
Sony Brasil

Se recuperando de uma tal Noitada que virou flop busca inspiração na sua raízes (de certa forma uma zona de conforto) Pabllo Vittar continua o projeto Batidão Tropical três anos depois do primeiro título e na boa, estamos em abril e já é o melhor álbum do ano. 

Pouco antes de falar do álbum eu preciso dizer que sou fã, muita fã, da Pabllo por um valor que prezo muito nos artistas que escuto: conseguir trabalhar em qualquer ritmo/gênero. Assim como o Prince, que é bastante próximo ao funk no começo da carreira e depois consegue cantar qualquer coisa, Pabllo Vittar tem essa qualidade parecida, ela se sai muito bem em qualquer coisa que se proponha a fazer, não é um indicativo de ser "melhor ou pior" (vamos parar de pensar tudo em ranking) apenas uma característica que me agrada bastante, então tenho mais facilidade em digerir tal projeto. Mesmo em zona 'habitual' entrega e ousa a apresentar determinada coisas, mas vamos com calma. 

Antes de mais nada, em nossa ritualística padrão, havemos de falar da capa primeiro. Com menos cores do que o primeiro título, mas mantendo o mesmo calor tropical presente, tonalidades quentes, uma paleta de cores bem discreta comparada a discografia da drag fontes bem blocadas e tímidas em vermelho com um "tropical" cursivo com um degradê entre o amarelo e o vermelho, bem ""anos 80"" o que nos indica um apelo a nostalgia, fato que pode ser observado com o "selo" de volume 2 no finalzinho do nome do álbum. 
Essa fonte cursiva misturada com texto blocado bem centralizado em cima do CD é um clássico das bandas de forró do período, isso denuncia a intenção de nossa querida Pabllo ao apresentar essa capa. A inspiração é mais "forrólesca" do que brega nesse caso.

Como em algumas que mostrarei embaixo: 

Clássico.

Pabllo bebe bastante dessa banda, falo depois

A capa da Magníficos também tá presente o degradêzinho, existe outros milhares de discos com mistura de fontes e cara, peak of design, termos que admitir. 

Resumidamente, a capa apresenta o mesmo calor do primeiro batidão tropical, mas dá alguns indicativos bem claros e consegue "atualizar" a estética do forró do finalzinho dos anos 90 comecinho dos anos 2000 sem parodiar nenhuma banda e ao mesmo tempo sem fazer algo genérico e sem personalidade, tem personalidade e tem apelo a saudade ao mesmo tempo.

Saindo inclusive em uma espécime de "revival" de algumas músicas consideradas retrô, fenômeno conhecido como báu pelas bandas antigas e contando com regravações ou até ressucitação de estilos praticamente mortos, como as músicas de vaquejadas (tipo Kara Véia) que voltaram a ganhar popularidade com Tarcísio do Acordeon, João Gomes e outros cantores que bebem dessa fonte. 

Esse último parágrafo resume tudo que eu tinha pra falar desse álbum, então é uma bela de uma capa que transfere precisamente o que o album precisa. Então assim que arrochamos o dedo no play vem...

Uma bela guitarrada de Pra Te Esquecer uma música do Calypso Algumas coisas presentes nessa música vão se estender ao resto do projeto, termos a clássica batida desse brega-pop (tipo Calypso**) com uma bateria bastante presentes, instrumentos de sopro, aquele guitarra mastigadinha com harmonias curtas e estrofes pequenas, o riff dos instrumentos de sopro são bem chicletinhos e precisamente todos os elementos da música da época.
** Eu NÃO SABIA que essa música era da Banda Calypso, descobri revisando o texto, então mesmo sem saber que era uma música regravada, ela me passou a impressão da música do período. Puxa vida... 

Não entendo NADA de brega paraense, mas aos meus ouvidos seria algo entre o "pico" do gênero, que é no período metade dos anos 2000 até o estourar dos anos 2010 (ou seja uns 2005-2012), só que com um porém, um polimento melhor na sonoridade até porque Pabllo tem muito mais recursos de produção hoje em 2024 do que essas bandas da época. Também um elemento bastante interessante na forma de cantar, não tenho outras palavras a não ser mencionar que ela "canta gemendo" (por mais hilário que pareça, não tem termo técnico para isso) o que também é beeeeem comum para as bandas do período, ao que me parece, um pouco abaixo do seu tom habitual que se aproxima melhor da voz da Joelma. 

Depois vem Idiota (música inédita talvez?) um tipo de forró atual (estilo Mari Fernandez, Fabinho Testado), um piseirinho bem básico sobre sentar em ex, nada diferente do gênero. Te falar, não que o arranjo do Mataderos tenha ficado ruim, mas se fosse uma seresta ou na pegada mais arrocha mesmo, acredito que ia dar um caldo muito mais palatável (pra mim) do que essa pegada de piseiro. Vou esperar sair a versão do Unha Pintada (cantor de arrocha daqui de Sergipe) para dar uma opinião melhor. 

Agora, Pede Pra Eu Ficar que é uma versão "traduzida"(na verdade brasileira mesmo) de uma música da Roxette (essa aqui) a senhora Pabllo Vittar entregou TUDO, foi o primeiro single lançado lá pra dois meses atrás e eu fiquei sem acreditar. A primeira coisa que veio a minha mente foi "caralho ela imitou aquela bandas de forró antigo" daí ela lança um álbum com estética de forró(e brega) antigo, isso é tudo que preciso dizer.

Ao traduzir uma música de tiozinho dos anos 80 Pabllo desmontra suas credenciais e entende perfeitamente o tipo de público que quer antigir com o projeto, é uma demonstração perfeita da estética que está visando sem precisar parodiar ou fazer uma caricatura de uma banda determinada, com o aportuguesamento fica evidente que é uma pessoa que ENTENDE claramente do assunto e tem propriedade para brincar com o gênero. 

Essa música poderia ter sido lançada, sem mudar uma vírgula da letra, pela banda Noda de Caju, Baby Som, Forrozão Tropykalia ou até Calcinha Preta ou seja, é a perfeita continuação do trabalho artístico feito no perído, uma continuação, um prosseguimento do legado de um gênero tão popular em nosso nordeste, é um passo a frente, sem pretensão alguma. 

Esse é erro muito comum de representação da cultura nordestina mídias a fora, inclusive em algumas feitos por alguns nordestinos (não vou querer mencionar aquele álbum tosco da Juliette). Na verdade uma série de erros, o primeiro é a caricatura, puxar só cacto, sertão, seca e chapéu de couro, não que esses elementos não façam parte da cultura nordestina, mas eles são mais efetivos para compor um personagem do Zorra Total do que um reconhecimento do nordestino nessas figuras. O outro elemento que se peca bastante é a paródia, a quase imitação de algo que já fez sucesso por aqui e daí fica algo meio tosco, forçado e pouco convincente, que na minha opinião entra o filme Bacurau (2019) um tipo de paródia de cidade pequena, que não me pegou legal. Continua sendo um filme decente. Alias tem bilhões de cidades fictícias na mídia tipo Bacurau. 

Longe de mim julgar produções que tentem reproduzir determinado período histórico (nesse caso o forró dos anos 2000) ou culturas como um todo, aliás uma tão complexa e rica como a nordestina até porque são NOVE estados, é um trabalho díficil, onde muitos se trupicam, mas quem consegue exercer com precisão sempre se destaca e ganha reconhecimento, do mesmo vale para a série Cangaço Novo, que tem uma resenha aqui nesse blog. 

Já que mencionei a obra, ela tem as mesmas valorações que Pede Pra Eu Ficar, faz o simples que dá certo, e as vezes a simplificidade consegue abarcar todo contexto cultural necessário e toda carga precisa para entender alguns temas, é o caso da música aqui, uma simples versão brasileira que só quem nasceu no nordeste ou viveu aqui no período sabe reconhecer a beleza e os objetivos da música. Acerta em cheio e puta que pariu QUE SAUDADES de músicas gringas traduzidas, melhores do que as originais, diga-se de passagem. 

Todo o exposto sobre o nordeste que apresentei aqui, se faz presente no brega que a Pabllo Vittar trouxe no álbum, mas estes tenho pouquíssimo repertório para falar, pois não entendo nada da cena mesmo assim a apresentação é agradável e conssoante com o resto do álbum não havendo uma divisão clara entre "momento brega" e "momento forró", ambos sempre se relacionaram bastante, havendo pontos de intercessão entre eles, esse álbum é um deles. 

Rubi que é originalmente da Banda Djavú. E cara, alguém desavisado pode achar que a música é original tá? Muito bem encaixada e muito bem regravada em comparação a original, não deve em nada o arranjo tecnobrega feito. Aliás só pesquisando hoje eu descobri que a Djavú é uma banda baiana, fica a informação.

Também na sequência termos São Amores que é originalmente do Forró Miúdo e que arranjo gostinho, a voz da Pabllo em seu belo tom habitual se encaixa muito bem no tema, uma boa escolha pro repertório. 

Achando pouco, a bonita decide regravar uns dos MAIORES HINOS da nossa música nacional, Me Usa, apenas. Cara, essa música me extraiu emoções que... Nossa, é algo inesperado; fantástico, pra não falar dizer magnífico e fazer trocadilho com a música. Bem, a versão da Pabllo não deve em nada em relação com a música original e é tão boa quanto, dá pra notar naturalidade de quem cresceu ouvindo esse tipo de música e hoje tem oportunidade de regravar. 

Vem uma regravação de uma música da Gaby Amarantos (uma música do Roxette de novo) junto com a própria Gaby, ok.

Só tenho a dizer que Pabllo Vittar gravou junto com Taty Girl, pra quem não conhece é uma verdadeira lenda viva do Forró eletronico/romantico chame como quiser, uns dos maiores nomes e cantou inúmeros sucessos, seja em carreira solo seja no Solteirões do Forró ou Forró Real, sou fã pra caralho, não esperava ouvir as duas juntas. Sem palavras totalmente me pegou com as calças arriadas. 

Nos finalmentes termos, nas Ondas do Rádio da Banda Companhia do Calypso que é a única música com o ritmo levemente diferente da original, mais 'piseirada'. Depois com Ai Ai Ai Mega Princípe da Banda Batidão que tem uma pegada muito diferente, se destoa bastante do resto da estilística do álbum.  Realmente é uma pegada muito diferente e pra fechar o caixão, Não Desligue o Telefone da Banda Djavu que tem uma pegada um pouco mais techno do que brega, mas é um mero detalhe, não me agradou bastante. 

Caixão e vela preta, está acabado Batidão Tropical Volume 2 

Resumidamente o álbum é uma coletânia de raízes da maranhense Pabllo Vittar com uma excelente música original no meio, ou mais de uma, não se Idiota é original ou não. Arranjos bastantes respeitosos sem um clima de homenagem que o EP recente pro Luiz Melodia tem. Estando mais na real regravação do que uma efeitiva homenagem. 

Tem um clima de na real apreciação, de celebração da cultura popular, que geralmente é escanteiada por ser "música meme" e tem pouca valoração artística no público geral. Eu digo com isso porque bandas como a Banda Djavu viralizam por serem 'engraçadas' ou enfadonhas, mas não no sentido leve da coisa e sim como algo que fosse de baixa qualidade, entendem? As vezes destacam só o amadorismo os poucos recursos e com isso acabam, mesmo viralizando a obra, a diminuindo de sua importancia na cultura brasileira.  
Ou seja, o povo acaba tendo uma vergonha de si mesmo ou vezes nem leva a sério, ainda assim há muitos que sentem saudades desse tempo e nessa saudades, não uma nostalgia barata, que se apoia todo o projeto. 
A nostalgia pode levar a um sentimento reacionário bastante comum de achar que tudo antigamente era melhor, mas na verdade você não sente falta da Banda Djavú, você sente falta das condições econômicas da época, idade mais jovens, das festas e uma vida com menos responsabilidades.

Saudoso, respeitoso e música popular levado a sério, é um belo extrato da marginal mercadológica brasileira, comendo igual a mingau quente, pelas beiradas. É um passo da frente ao invés de um olhar pra trás, um sopro de alívio e certeza que a nossa cultura continua viva. A cultura do forró é um gigante gesto de indepência cultural dos grandes artista e mídia do "eixo" (RJ/SP) que PRECISA ser tão levada a sério quanto. 

Mesmo com uma carga cultura fortíssima, o álbum funciona até para quem não entende de cara as referencias, por exemplo eu não conhecia nenhuma das músicas bregas regravadas, mas ainda sim ele funciona por completo, por casar muito bem os elementos de (tecno)brega e forró, é um ode a cultura e um ode ao amor. 

Por mais que pareça estar mais próxima e uma aparente zona de conforto, ousa na escolha de algumas músicas, percorrendo caminhos menos óbvios, o que garante PERSONALIDADE ao projeto ao invés de recorrer a escolhas preguiçosas. 

Esse álbum é um belíssimo convite ao norte do país para quem desconhece e um excelente passo adiante da nossa riquíssima cultura. Uma veradeira maniçoba, com gosto forte, convicta em si mesma e sem a menor preocupação de desagradar quem ache a aparência feia.  
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Pérolas Negras - Um Tributo Á Luiz Melodia (2024)


Informações legais:
2024
Universal MUSIC
MPB
Pouco mais de 10 minutos. 

Essa vai pra quem fala que esse blog só trata de velharia. No dia 6 de fevereiro a Universal de 2024 lança esse sinlge em homenagem aos 50 anos do álbum Pérola Negra, de 1973, sem palavras para tal, é o cartão de visitas do Luiz Melodia, um compositor responsável por inúmeros e inúmeros marcos da nossa música. O album conta com Sandra de Sá, Liniker, Zezé Mota, Analis Assumpção, Mahmundi e Mart'nália.

São cinco músicas selecionadas, será que ficou bão?

Pérola Negra - Criolo, 
Bastante fiel a versão original (a versão original é da Gal Costa (71) na verdade, original quis dizer do Melodia de 73), tem um ar de amadorismo no bom sentido, de parecer aqueles covers relaxante do youtube, uma sensação bastante confortável, música que o violonista (Webster Santos) e o Criolo gravaram em uma sentada, na paz e é um clima agradável para um álbum de tributo. Realmente é uma forma de "atualização" a versão de 1973 para 2024, porque mesmo em época e sonoridade diferentes, tem a exatamente mesma sensação. O que ajuda é o Criolo ter um timbre bastante parecido com o Luiz Melodia. Ainda assim, pessoalmente prefiro a versão da Gal Costa com a boca maior que a Bahia gritando "PEROLA NEGRA NEEEEEEEEEEEEEEEM SEI SE TE AMOOOOOOOO". De qualquer forma, uma excelente interpretação do Criolo, Webster e o clarinete tocado pelo Ivan Sacerdote. 


É uma música que eu sei tocar no violão, falo com propriedade que o Webster Santos detonou aqui. 
Fica de fun fact que essa música foi escrita para uma travesti, explico melhor numa resenha do Fa-Tal ou do próprio Pérola Negra algum dia. 

Estácio, eu e você - Mart'nália,
É uma das minhas músicas favoritas do Luiz Melodia, joguei grandes expectativa nessa. Ninguém melhor do que a Mart'nália para cantar, a versão soa muito mais limpa, mais 'bossa novística', com mais uma vez o Webster Santos roubando a cena, arriscaria dizer que o violonista desse álbum é a melhor coisa dele vou até parar de mencionar do coitado. No lugar da famosa flauta de Estácio, Eu e Você tem um sintentizador que de dá um ar da graça. Mais uma vez aquele elemento de 'atualizar' a música.

Estácio Holly Estácio - Mahmundi,
Arriscaria dizer, que na voz do Melodia, é a sua canção mais conhecida, ninguém menos capacitada para assumir essa bronca do que Mahmundi, que também é produtora do single. Entrega tudo, está a caratér. Cumpre bem a função, o violão é mais forte aqui, a percusão só da ritmo mesmo. Dá pra dizer que é a principal música do single porque é a música mais Melodia possível, da forma mais melodiosa possível. Mas nada de extraórdinário.
Não conhecia a Mahmundi, me interessou, vou ouvir mais dela daqui pra frente. 

Pra Aquietar - Sandra de Sá,
A música começa com uma cuíca gostosa, quebrando esse tom de música de barzinho que o álbum estava tendo, Sandra de Sá se divertiu cantando essa e até puxou Juventude Transviada no final, é uma música mais distoante das demais e ninguém melhor do que Sandra de Sá para fazer isso. A versão original é um suíngue fervoroso, devidamente equiparado com a do single analisado agora. Achei inteligente puxar para samba, ao invés de mais rock, como a de 73, iria quebrar muito a pegada do álbum, então mesmo sem respeitar o disco original, o single sabe como trazer seus elementos. 

Magrelinha - Zezé Motta, Anelis Assumpção,
Eu estava sentido falta do piano, que não tinha sido exatamente um problema nas outras músicas, ele chega em Magrelinha, mas meh. Achei paia, as interpretações entregam algo muito menos dramático que a música demanda, não que seja ruim, mas não curti. E NÃO TEM A FAMOSA GUITARRINHA NO COMEÇO, só pontuando isso.

Vale Quanto Pesa - Liniker, 
Eu não tenho palavras para descrever a Liniker, ver ela cantando Melodia é algo fodástico, disparado com um pé nas costas a melhor canção do álbum, ponto, ESCUTEM, sério. Vale Quanto Pesa também é uma das minhas favoritas do Melodia, e do álbum Perola Negra logicamente, como fã pessoal da música em específico, a interpretação está superando até as minhas próprias expectativas. Liniker + Luiz Melodia não tinha como dar errado, tudo isso que tenho a dizer.

Num geral:
 é um single muito respeitoso com a obra original, decisões conservadoras de produção (por exemplo o Lulu Santos lançou uma música com o Papatinho e João Gomes ano passado, sim o Lulu Santos tem oficialmente um piseiro) o que garante o seu relativo sucesso em "tributar" o Luiz Melodia, apostando pouco, se acerta mais. Uma das grandes surpresas que você pode tomar é ouvir Liniker, que é a minha favorita nesse single. Outro ponto magistral é Webster Santos colocando todas as músicas embaixo do braço, se fosse só instrumental de violão, valeria muito a pena. O single é conciente de suas próprias qualidades, sabendo explorar muito bem o de melhor que pode oferecer. 
Vale a ouvida, recomendo para os apaixonados MPB

Informações chatíssimas:

Vocalistas: Anelis Assumpção, Zezé Motta, Sandrá de Sá, Mahmundi, Mart'nália, Criolo e Liniker

Violão: Webster Santos

Clarinete: Ivan Sacerdote.

Produtor, Co-produtor e Synth  Pads: Josefe,  Mahmundi

Arranjo: Josefe

Piano: Samuel Silva (Sam Jazzy)

Compositor: Luiz Melodia

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O dia que uma simples voz abalou a ditadura brasileira.

Maria Alcina, 1972

O ano era 1972, o Maracanazinho sediava o sexto Festival Internacional da Canção, também conhecido pela Sigla FIC, as coisas já não começaram bem no festival, a Nara Leão foi proibida de ser júri da competição (pra quem não sabe da relação odiosa entre Nara e os militares), rapidamente todo júri foi trocado para jurados gringos. 

O ano era 1972, o Maracanazinho sediava o sexto Festival Internacional da Canção, tudo seguia mais ou menos em plena normalidade até uma mineira franzina de Cataguases, operária e ainda semianalfebta com um sonho de ser cantora sobe ao palco, estremece o Maracanãzinho com "Fio Maravilha" do Jorge Ben Jor e é campeã do festival! Só tinha um problema, a cantora tinha "voz de homem"! Uma moça tão magrinha, com um vozeirão grave o suficiente para estremecer não só o ginásio, o governo também. Os militares ficaram em cima, foi processada por "ato subversivo", sim, apenas por cantar, sua subversão era ter uma voz grossa, foi o suficiente para que ficasse banida dos rádios, televisões e shows por quase um mês! Apesar dos esforços do seu empresário. Por pouco não foi presa. 

Em um comentário técnico, acho injusto considerar a sua voz como de homem, são poucos homens que tem uma voz dessas, se eu tivesse um vozeirão desses, não estaria escrevendo um blog kk 

Seu nome é Maria Alcina, uma tímida mineira que foi tentar a sorte no rio, começou se apresentando na boate Number One e chamou a atenção de uns dos organizadores do FIC de 72. Debutou como artista naquela perfomance esotérica, soltou seus demônios para o público que adorou a perfomance, quem não gostou... vocês-sabem-quem, sua voz é única, seu timbre é belíssimo, o auge de sua carreira aconteceu um anos depois, em 1973 lança seu primeiro álbum, um homônimo de 73:

Lançado pela continental

Apesar do sucesso imediato, sua carreira nunca contou com assinatura de grandes gravadoras e nem outros hits arrasadores, é de esperar, uma cantora negra e com 'voz de homem', isso incomodava bastante. Apesar disso conseguiu se manter viva no imaginário brasileiro quando participou como jurada em programas de calouros (como o do Silvio Santos). 

Passeando pela borda do mercado fonográfico, Maria Alcina segue alegrando o povo com sua magia e sua raça!

Confira sua histórica apresentação no FIC:


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Blacksad: Cigarros, fumaça e sobretudos. Mais um noir? Díaz Canales e Juanjo Guarnido

O título não mentiu, esse black está muito sad. 

Blacksad é uma famosa bande dessniée/BD, ou em português de portugual uma banda desenhada, que é como os quadrinhos francos-belgas são chamados, tipo Tintin, Asterix, Lucky Luck e Smurfs (sim, caso você não saiba Os Smurfs são quadrinhos e belgas, sendo chamados de Les Schtroumpfs no original).



 Nunca li muitas BD, é um mercado meio desconhecido no meio de quadrinhos brasileiros, mas batendo o olho você consegue reconhecer uma, elas sempre são muito bonitas, Blacksad não é diferente. Voltando ao quadrinho do texto, foi lançado pela Dargaud inicialmente lá nos anos 2000 e no Brasil tem versões da SESI-SP, Panini e até Dark Horse.

Resenha do primeiro volume de Blacksad, Blacksad vol 1: Em Algum Lugar Entre as Sombras 
** SEM SPOILERS **


Do que se trata esse lindo gatinho? A história é ambientada nos Estados Unidos na metade do século vinte, o nosso protagonista, Jon Blacksad, é um detetive particular, conecte A + B e voilà, termos uma bela história "noir" em nossa frente

Interessante mencionar noir, que também é um termo em francês, preciso te atualizar o que é isso primeiro.

Filmes noir não são bem um gênero, mas digamos um estilo dentro dos filmes policiais, uma quase filosofia da forma de fazer cinema. E aí cabe determinar uma coisa previamente, filmes noir só existiram na década de quareta e cinquenta, esses são os ditos noir, que foram nomeados assim pela crítica especializada francesa. Noir significa negro, os filmes dessa época contava com jogos de sombra inovadores, iluminações diferente. O que contribuia na época é o fato deles serem em preto e branco, então o jogo de cena ficava muito mais harmonioso. Eis o exemplo do considerado primeiro filme noir já feito:

Stranger on the Third Floor (1940)

Por ser um movimento cinematográfico completo, os elementos noir vão além do jogo de cameras, também são elementos: histórias policiais (geralmente um crime muito obscuro e sem solução aparente), corrupção das elites, uma visão suja da elite, detetives particulares, climas urbanos, cenas noturnas, as famosas female fatales que são mulheres perigosas e pouco confiáveis, não sendo só uma princesinha inocente para ser salva pelo herói, que aliás não existem no cinema noir, o personagem principal (um detetive particular em 99% dos casos) é alguém de moral cinza, as vezes até imoral, de caratér duvidoso, mas sempre espertinho, de tiradas rápidas e fugindo de situações complicadas. As vezes se movem por vingança (como em Blacksad e Sin City) ou por uma pulsão de curiosidade mesmo. Esses detetives não são bons moços, e geralmente é o Humphrey Bogart que está interpretando ele, além de um chapéu, sobretudo, cigarro e uma .38 ou 32 acompanhando eles. 

Maltese Falcon (1941)

Os filmes participantes dessa coisa toda são como os que já citei. Tem um filme de boxing que é muito bom, The Set Up (1949), e lá vai outros tipo Out of the past (1947), Repeat Perfomance (1947), Undercurrent (1948), The Big Sleep (1946) e um francês lá na década de 60 que é um filmaço também, Le Samourai de 67
Citando Le Samourai, os filmes lançados fora da época noir e com elementos mais diferentes são chamados de neonoir, sendo os mais famosos dele Chinatown (1974) do Polanski e Blade Runner (1982) do Ridley Scott. 

Pessoalmente, eu adoro filmes dessa época. Falcão Maltes é uns dos filmes favoritos! Por sinal, eu também adoro Sin City, mas falar bem do Frank Miller é meio complicado... Mas Sin City é muito bom, não tem jeito negadinha. Mais noir que isso, impossível.
calma moreno, você não é assim

Então tá, fazendo uma grosseria, Blacksad é Sin City francês. Pronto, eram isso que queriam ouvir? Pois está estabelecido.

A arte.

Belíssimo, o estilo do Guarnido é de animais antropomorfizados, sem parecer fantasias furries como em Zootopia, ou qualquer produção disney-pixar na real, se bem que o Blacksad é muito gostoso, digo, ele é gatinho, se me perdoarem o trocadilho.


Diferente das obras noir, o quadrinhos é bastante claro, sem sombras marcantes e colorido (como a maioria das BD), optando por uma coloração mais "pastel", mas sem ficar com cor de cadavér, é menos saturada do que Asterix por exemplo, mas ainda continua num jogo de cores muito forte. Com carinha de outono e um bom chocolate quente nas mãos (pode ser nescau).
Ou seja, apesar de retratar a desgraça e miséria humana, não precisa ser tudo escuro, dá pra trabalhar isso muito bem com cores.

Apesar da pegada mais 'realista'* (é uma HQ 'adulta') ela não foge da natural cara de desenho animado que animais antropomorfizados tem, balanceando entre algo sério e algo mais leve, contando com poucas cenas cômicas bem inseridas. A cena desse leão marinho incorporando o John J Jameson, bastante Looney Tunes das ideia.

A riqueza dos detalhes no cenário pode deixar a sua experiência de leitura (caso seja por scan no digital) um pouco pesada, a primeiro momento, mas a suavidade dos traços e de certa forma o abraço a cartoonização que o Guarnido faz dá uma leveza que garante a boa experiência do leitor. A versão físcia deve ser um tesão. Isso é tudo que tenho a dizer. 
Apesar da opção de cores mais viva, as cenas noturnas não deixam a desejar em nenhum aspecto, há pouco da história que se passe de noite também.

Os filmes do Batman sonham em fazer isso aqui

A história é relativamente corrida, são quase 60 páginas que você lê parecendo 6. O enredo é simples, uma ex ficante/amante/peguete de Blacksad (relacionamentos estão variados hoje em dia) leva uma carimbada na cabeça, incube a ele descobrir com foi o assassino, ponto final. Um crime simples, que é conduzido com tranquilidade, não havendo nenhum grande plot twist ou revelação esotérica das coisas. Mas sinceramente, o que importa em Blacksad é o durante, a história em si não tem nada de mais, a experiência de ler e acompanhar os pensamentos do nosso detetive bem como a ambientação que é o barato, aliás, isso vale para inúmeras obras noir.
É só mais um crime entre tantos outros, não tem nada de interessante aqui, ou será que não? 

Os personagens são dotados de carisma, Blacksad representa alguém cansado de toda situação, bastante emotivo para uma personagem masculino que está mais preocupado em ser fodão e melhor que todo mundo, sensível em alguns momentos. Assim como outras histórias que envolvem animais quadrúpedes com polegar opositor, cada "grupo racial" pertence a determinada profissão, ao pouco que aparece, os caníedos são policiais, tem um bar só de réptis e demais pequenos detalhes que ainda irão aparecer durante os outros volumes.

Complicado 'desqualificar' uma história por não ser uma epópeia, na minha honesta expectativa contava com um alguma pegadinha, alguma coisinha que quebre a cabeça do leitor (algo muito comum nesses contos policiais), porém a história não é tão focada na investigação em si (por incrível que pareça), o Díaz Canales aposta em uma enredo que se arrisca pouco, optando pela boa condução ao invés de inventar demais. É bem conduzida e faz chegue até a última página, bastante competente. Funciona, por ser simples.

A obra vale a pedida para conhecer os quadrinhos franco belgas bem como a estilística noir como um todo. Espero pode comprar a versão físcia qualquer dia desses. 
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