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Quadrinhos, música brasileira e outras coisas a mais. É somente requentar e usar! Made in Brasil
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O Passo do Lui (1984)


Informações legais:
21 de setembro de 1984
10 músicas, 34 minutos
Odeon;
Rock Nacional, Ska, Pop Rock, New Wave.

Aqui vai uma curiosidade: Nenhuma das bandas consideradas do "rock nacional" realmente são de rock, talvez vai, o chatíssimo do Lobão, mas demais artistas tipo Lulu Santos, Kid Abelha, Blitz oy Legião Urbana na verdade são bandas de subgêneros que não possuíam capilaridade no Brasil para serem chamados pelo nome, chegando aqui como rock, quando são um pouco mais. A exemplo de New Wave (todo rock nacional dos anos 80 é só new wave) e post-punk purinho no caso do Legião Urbana. Era o que imperava no mercado fonográfico dos anos 80. É tipo o primeiro album do Capital Inicial, se fosse lançado na Inglaterra seria um álbum gótico, mas no Brasil se chama genericamente de rock. 


É o caso de Os Paralamas do Sucesso, que nesse álbum traz o puro suco do ska inglês, mas... squem?!

Ska é um ritmo música jamaicano que surgiu naquele caldeirão de ritmos na primeira metade dos anos 60 e a difusão de álbuns estrangeiros na Jamaica, nessa toada que surgiu o rocksteady e o ska, com a imigração de jamaicanos para a Inglaterra e a integração desses atores na classe trabalhadora, sua cultura se difundiu pelos setores mais populares da terra da extinta rainha. Os dois principais nomes do ska jamaicano são o Desmond Dekker e o Laurel Aitken. 

A primeira fase se deu com a fundação da Trojan Records (1968) por lá criou-se toda uma cultura de ska e rocksteady no Reino Unido, não demorando muito para formar seu primeiro público alvo, derivado da cultura mod, os hard mods, ou mobs que viriam a ser os skinheads com suas calças jeans baratas, coturnos, suspensórios, mal encarados e cabeças raspadas. Em atenção ao álbum de ska de 1970 do Symarip Skinhead Moonstomp, onde músicos negros estavam fazendo som para pessoas brancas (em sua maioria).


A características mais identificáveis do ska é uma guitarra batendo no contra tempo, metais (trompetes e trombones), muito parecido com o reggae, mas com um ritmo bem mais rápido e uma abordagem mais "alegre" assim por dizer, sem ligações religiosas* e menções ao rastafari. Regado claro com muita cerveja e mosh pit a vontade. 

*Rastafari não é bem uma religião, foi para fins explicativos. 

Já a segunda fase do ska, essa que influenciou em muito a música brasileira e furou a bolha underground, é conhecida como ska 2-tone, devido a gravadora 2-tone que mantém muito das características do ska, mas com toda uma estética nova, como ternos na estética rudeboy (estética jamaicana que imitava mafiosos hollywoodianosdos anos 40), quadriculados pretos e brancos e dois vocalistas. Existem 4 álbuns mega influentes e essenciais para entender o gênero, lançados entre 1979-1980.


- The Specials (1979)
- Too Much Pressure do The Selecter (1979) que é genuinamente uns dos melhores álbuns de todos os tempos. 
- Ska'n'b do Bad Manners (1980) 
- One Step and Beyond do Madness (1980) 

Bandas como Madness já faziam um som bem diferente do ska 2tone do The Specials e Selecter, trazendo aquilo que ficaria conhecido na indústria como New Wave, que é praticamente todo rock nacional dos anos 80, bandas como The Police e Fine Young Cannibals solidificam o new wave e muito influenciam em nossas terrinhas. Esse intermédio entre ska e new wave fica mais evidente em The Beat. e MUITO em Our House do Madness. 

Mas bem, a segunda onda do ska não durou muito comercialmente, morrendo junto com o punk inglês (punk clássico, o hardcore e Oi! existem até hoje). Meio que quando ele chegou aos discos, foi seu momento fim. The Specials mesmo nunca mais gravou outro álbum além do debut. 

O movimento foi estragado pela aura podre da Margaret Thatcher, que satanás tenha bem guardada, tinha acabado de ser eleita em decorrência de uma tensão política insana que vigorou por todos anos 70, ou a perda de espaço mesmo para novos generos musicais que estavam pipocando (como o próprio new wave e a onda post-punk e as bandas góticas tipo The Cure). 3 fundadores do The Specials fundaram uma banda de new wave chamada Fun Boy Three, abandonando o ska. 

No finalzinho dos anos 70 houve um movimento deliberado do National Front para invadir grupos de skinheads e punk, por isso hoje termos skinheads nazistas e a péssima fama que os carecas mais gente boas da europa ganharam. A cena virou palco de sobrevivência da classe contra ideários nazistas. Mas isso é papo para outra postagem.

Resumindo o que importa: #1 a segunda geração de ska (2-tone) foi muito influente na música brasileira e compõe o rol de influencia de músicos dos anos 80. #2 Skinhead não fecha com fascistas, só tem uns cuzão que estão desavisados. 

Que volta para falar de Os Paralamas do Sucesso, que eu vou chamar de Paralamas ao decorrer do texto para economizar teclado. 

A influência do Paralamas é evidente: A música britânica, especialmente o power trio (banda com três pessoas apenas, igual ao Paralamas) The Police, em seu álbum de estreia, Cinema Mudo apresenta uma sonoridade identica a banda britanica, isso fica muito claro em faixa título que é bastante similar com músicas tipo Do Do Do Da Da Da e assim como The Police, já no primeiro já aparecia uma coisinha ou outra com influencia jamaicana. The Police é tão próximo da música brasileira que parece uma banda de rock nacional.

Muita gente pode pensar que comparar com outra banda ou outro cantor é uma forma de diminuir o artista, mas muito pelo contrário, todo mundo bebe de alguma fonte e tem suas inspirações, linkar esse tipo de coisa é para fins explicativo e para situar o leitor do tipo de som que estamos falando. 

Se bem que a altura do Cinema Mudo, eles nem eram tão bons assim. O primeiro álbum é meio verde ainda, vendeu quase nada.

Assim, Herbet Vianna e uma turma decide dar repensar e abraçar a sonoridade do ska de uma vez por toda, O Passo do Lui não é só um álbum de ska, como uns dos melhores exemplares que termos a disposição. Chegaremos lá.

E o que O Passo do Lui tem a nos oferecer?
Foto preto e branca, passinho conhecido como skank, que retrata o mencionado amigo brasiliense Lui, que era muito fã de ska, ou ainda é se não morreu. Uma colagem simples, com a foto em transversal, uma fonte blocada e o nome do álbum vazado ao fundo. É muito díficil achar essa imagem em alta qualidade na internet, mas meio que combina com a estética dela, é tipo ver aqueles jogos de futebol dos anos 90 com a imagem toda esticada e saturada em VHS. Faz parte.

Além da imagem de centro com preto e branco se tem um branco ao fundo bem presente, o que deve deixar a capa do vinil bem bonita. No canto superior a direita tem a banda, bem discreta e do outro lado tem outra imagem do Lui. Não acho tão bonita, mas comunica algo bem formal e divertido ao mesmo tempo, pelas cores do roxo e azul e essa fonte sem serifa bem blocada e compacta.

Fontes sem serifa e grossas geralmente tem uma conotação empresarial, algo formal, bem business. Mas também remetem a tipografia de revistas, algo de anúncio, algumas bandas usam desse tipo de fonte como sua logo. Ou em albuns específicos.
 
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/2/2e/PiLFirstIssue.jpg
Public Image - First Issue (1978)

Não é a escolha de design que mais salta aos olhos, mas é um contraste interessante. Me agradou a tipografia utilizada. 

Funciona melhor no vinil do que nas mídias digitais. Lembrando que o álbum é pensado pro vinil. 

bonito hein
Bonito e raro, porque a maioria dos vinils não saíram com esse encarte do meio devido a um erro de impressão. 
Fica de informação que essa capa foi projetada pelo cartunista Ricardo Leite, que também trabalhou como designer.

Talvez alguém que não fosse familiar com o ska, estaria pensando que o Lui do álbum estava imitando o Chaves. 

https://blog.kellychristi.com.br/wp-content/uploads/2023/11/Zas-Zas-Chaves.gif
Parece demais.
 
Agora chegamos na parte que importa, vamos falar da música? Como esse álbum é curtinho e eu gostei de todas as músicas, vou falar uma por uma

Assim que você aperta o play é surpreendido por uma enlouquecedora de bateria no começo de Óculos que é seguido por um instrumento bastante tropical, algo que seria mais ou menos um xilofone ou um tambor de aço, bem utilizado em países como Trindad e Tobago, a bateria do João Barone aqui tá uma delícia, bem seca, dando seguimento a música e sem viradas desnecessárias, eu gosto bastante do snare (ou CAIXA em português) aqui.O baixo do Bi Ribeiro aparecendo menos, seguindo só de acompanhamento e a característica guitarra nesse efeito meio vago que é a marca registrada do Paralamas (também do Police, mas é outra história), Herbet Vianna também na voz e composição, formando o power trio mais conhecido do Brasil.

A música em si varia entre um pop rock nos refrões e um quase ska no versos, cantando sobre um menino que não tem tanta segurança com seu aparencia quando usa óculos. É um bom tema de abertura.

Meu Erro
- dispensa comentários falar como Meu Erro é um musicão da porra. Eu sei cantar essa música de cor e salteado. É em Meu Erro que Paralamas faz o seu nome a apresenta suas credenciais no mundo da música. Pelo o baixo estralando, bem mais presentes, excelentes condução da bateria e o vocal meloso e apaixonado do Hebert Vianna, que não tem um vozeirão de te pular da cadeira, mas aquela voz que toca no fundo do coração, até quando a voz dele "falha" no refrão reforça mais sua interpretação do que algo negativo. Pense numa música sofrida... Essa guitarra de Wah-wah e um sintetizador que dá o tempero final.

Tirem essa ideia da cabeça de vocês que só uma voz potente e tecnicamente impressionante que é capaz de emocionar, quem nunca sentiu nada ouvindo Meu Erro tá ouvindo bem errado.

Meu erro trata de um relacionamento que não deu muito certo numa maneira bem jovial, que parece ser um casal no primeiro amor, ao mesmo tempo que é inexperiente, é bem maduro que acompanha uma real evolução do Hebert enquanto compositor, lembrando que Os Paralamas do Sucesso começou como uma banda satírica e tentou tocar sério por ver potencial em seu trabalho.

Uma música de temática um pouco triste, porém alto astral, bem chiclete de ficar na sua mente a semana toda, um verdadeiro hit/clássico que não pode faltar em qualquer lista decente sobre música nacional. 

Fui Eu - todas as músicas do Passo do Lui tem um climão de praia, cerveja barata, areia nos pés e aquele calorzão do Rio de Janeiro. Fui Eu essa é a que tem mais. Tem bastante groove e dá vontade de dar mandando o passinho do chaves (skank), bastante animada e o refrão me lembra as músicas do Lulu Santos, tanto pelo arpejo tanto pela letra que diz "Vai ver que a confusão fui eu que fiz". Um lick bem interessante de baixo na ponte, bastante notas fantasmas de acompanhamento que dá a característica batida pecurssiva. uma JÓIA ESCONDIDA no meio do álbum

Romance Ideal - baladinha romântica mega 80tentista, abandonando por hora o clima de festa do ska, mas ainda bem alto astral. Belíssima aplicação dos efeitos de guitarra do Vianna e o trabalho pornográfico de bateria do Barone que porra, vou parar de mencionar para evitar a repitação.

Aqui fica mais evidente quanto o Hebert Vianna dá uma falhada na voz as notas mais agudas, porém disfarça isso deixando uma raspadinha que fica muito estilo. Na partes de "Se eu queria enlouquecer esse é o romance ideal" dá uma tremidinha que agrega, agrega bastante. A letra fala mais uma vez sobre culpa ou gaslight, o caratér dúbio de interpretação que algumas músicas de romance trazem é uma valoração enorme para os complicados tipos de relacionamento que termos por aí.

Falando de erro de novo, eu acho que o Hebert aprontou alguma coisa e se insipirou pra fazer música.

Ska - na moral, se o Madness tivesse colocado essa música em One Step and Beyond ninguém iria perceber, musicão da porra que começa com metais (me pareceu um sax ou trompete), ritmo frenético que é puro suco do ska 2tone inglês, uma pedrada sem tamanho. Talvez a minha favorita. A Globo estragou um pouco porque é tema da novela Cara e Coragem então tocava muito na TV recentemente.

Mensagem de Amor
- outro new wave muito qualquer coisa sobre qualquer amor na vida. Sabe quando o horoscopo acerta direitinho como vai ser seu dia? Talvez seja porque ele não especificou que você vai dar uma topada no cantinho da cama com o pé. Apesar da letra ser bem pouca coisa, a melodia é bem interessante e o som tá decente. Bem mais puxada para o rock algo mais tristonho que desacelera o álbum depois da faixa ska.

Me Liga - Essa é aquela música que o Lobão jura que o Hebert plagiou dele? HAHAHAHHA ele sempre foi muito mala, tenha fé. Vamos lá explicar a treta. Lobão e Paralamas tem uma certa rivalidade comercial, que é bastante comum no mundo da música, mas o Lobão tem uma treta unilateral que ele jura de pé junto que o Hebert Vianna está roubando as ideias dele, entre as conspirações malucas é de Me Chama que também de 84 com essa faixa, Me Chama foi lançada alguns meses antes (único sucesso da carreira do Lobão). Lobão também já admitiu mudar o jeito de cantar para se distanciar do Hebert Vianna e entre outras acusações daquele cabeça de vento cabeludo.

Bem, assim como Me Chama, Me Liga é uma balada romântica e só. Um ponto de composição do Hebert é o uso o tempo inteiro de contratações/justaposição que fica mais evidentes aqui, como em:
"O nosso jogo não tem regras nem juiz/Você não sabe quantos planos eu já fiz/Tudo que eu tinha pra perder eu já perdi/O seu exército invadindo o meu país" que me parece mais uma paixão avassaladora e coisas do tipo. Essas montagem de cenários contraditórios é comum em demais letras, mas aqui bem mais bonito e funciona melhor.

Assaltaram a Gramática
- única música não composta pelo Hebert Vianna, de composição do Wally Salomão e com participação de Lulu Santos, sou muito fã do Lulu, mas essa música parece coisa que professor de português passa na sala do sexto ano e ninguém entende nada, não só pela letra com menção metalinguistica a língua portuguesa, mas o som. Ficou meio executiva. Eh. Excelente participação do Lulu Santos que acerta tudo que faz nessa vida, lindo maravilhoso.

Não que seja uma música ruim, é mais anti-climax. 

Menino e Menina - não é uma música da Damares, apenas uma versão reduzida de Eduardo e Mônica de um casal que não tem nada a ver. Tirando que os mesmos estão na faixa de idade parecida. Do som, elementos caribenhos delicosos aqui, de novo aquele instrumento misterioso de Óculos, uma guitarra bem mascadinha e umas viradas de bateria que me lembram o Axé baiano, bandas tipo Chiclete com Banana (que estavam no início da carreira).

O Passo do Lui - Na última música do álbum mais uma de ska puro. Puro quanto aquela cerveja preta da Guiness e pub ingleses. É uma música instrumental para fechar o álbum que te deixa com gostinho de quero mais. De novos metais aparecendo, gritos no meio do estudio e demais coisas bem características.

No fringir do passinho...


Um álbum de 10 músicas que gerou 7 singles e 250 mil cópias não tem outro nome a não ser clássico geracional, um álbum que deve ter apresentado o ska para muita gente. Canções cativantes, energia jovial e um bom senso de maturidade para tratar de relacionamentos espinhosos. Será que o Hebert Vianna errou? Em fazer o Passo do Lui com Bi Ribeiro e o João Barone com certeza que não errou, e seja lá que você tenha feito, eu te perdoo. 

Álbum marcante por seu alto astral, energia, músicas de letras simples e curtinhas, ritmos caribenhos, uma bateria espectacular e uma guitarra que muito marcou a geração do rock racional dos anos 80. 

Informações chatas:
Composição, Guitarra e voz - Hebert Vianna
Baixo - Bi Ribeiro
Bateria - João Barone
Saxophone – Leo Gandelman

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Ave Sangria (1974)


Informações legais:
1 de maio de 1974
12 músicas, 39 minutos
Gravações elétricas S/A
Rock psicodélico, MPB, prog rock que não é sonífero (talvez);

Ave Sangria é o álbum queridinho entre os usuários de last-fm no Brasil, um verdadeiro clássico cult no meio mais cabeça da música, será que sua fama vale o que tem no álbum? Conferimos.

O grupo pernambucano surge naquele período "entre-safra" (1969-1973) que a música brasileira passou depois que a dita mostrou suas unhas e a dura começou a bater no lombo com a repressão mais covarde, muitos artistas da recém formada MPB foram obrigados a se exilar, dos conhecidos talvez só a Elis Regina a Rita Lee que ficaram por aqui. Também com o fim dos festivais de Música Popular Brasileira, deu uma brecada naquela sensação de euforia de outros tempos. Mas pelo menos houve espaço para abertura dos olhos para campos menos conhecidos da indústria fonográfica, expandindo para além do eixo rio-são paulo. 

É nessa época que surge o Clube da Esquina e Rock Rural em Minas Gerais, os Novos Baianos e todo um breve movimento de psicodelia nordestina, Alceu Valença, Lula Cortes, Zé Ramalho, Lailson, Marconi Notaro e entre outros aí, do tempo que todos eram jovens, cabeludos e esquisitos. Como todo jovem deve ser.

por incrível que pareça, essa foto não é de uma universidade federal


Nem todos dessa época foram absorvidos pela indústria, outros caíram no esquecimento e também teve aqueles que foram sacaneados pelos militares, é o caso de Ave Sangria, que pouco menos de 2 meses do lançamento, teve o disco retirado das lojas e a censura caiu matando. A banda até que tinha potencial, voltaram a atividade em 2019, mais de 40 anos depois. 


O que tinha de tão bom nesse álbum para os militares pegarem para eles? A começa pela capa, acredito que tenha uma estética parecida com pinturas muito comuns em comércios locais. Esses frigorífico que tem um galo desenhado na parede, botecos, salões e lava jatos.

Falo isso pelas cores, pelo "fumacê", essas sombras mal posicionadas e a viagem de uma figura humana com asas. Essas pinturas fazem parte do nosso dia-a-dia, não foram feitas para serem apreciadas, é até funcional que só servem para anunciar o serviço daquele local. Curioso ser a estética de um álbum, onde tem títulos chamativos ou aquelas capas psicodélicas.


fonte: handpaintedbrazil

Não tem muito o que interpretar, nas palavras de seu próprio criador: "Desenhei uma mulher-ave bem gostosa, tipo a mulher do Príncipe Valente, com uma roupa vermelha longa, tipo medieval, mas com cabeça de uma águia feroz." (Fonte)

A capa chama atenção por sua futilidade, um amadorismo não no sentindo de mal feito, mas numa ideia de arte acessível. Que combina bastante com o som apresentado...

Porque assim que você aperta o play, sem maiores cerimônias, começa um zumbido agudo de um instrumento que não consigo identificar, dando corpo aos poucos a uma bela melodia acompanhada por violas e uma guitarra bem padrão de músicas psicodélicas, mas nada que seja exatamente rock ou coisa parecida. Aqui uma coisa sobre o disco Ave Sangria, como Moares Moreira disse quando estava descrevendo sobre Mistério do Planeta "Que ritmo é essa música? Nenhum" (parafraseando porque perdi essa entrevista), algo muito próprio que tem inspirações no próprio novos baianos, é sui generis em sua essência. 

Dois Navegantes conta com alguns "sopros" no meio da música, sendo uma misteriosa chegada, em um clima mais litoraneo, num balancê de uma jangada. Mesmo assim, a primeira metade do álbum não empolga tanto, segue um clima de cantorias, um pouco mais lento, mais abstrato e etéreo.

Com exceção de Três Margaridas que tem uma melodia belíssima e um bom jogo de instrumento de corda.

Com pelo menos três cordofones diferentes, as violas, guitarras ou violões são o ponto alto desse álbum, por entregar camadas de som e algo aconchegante mesmo com melodias simples e harmonias de fácil entendimento. Porque uma boa música não precisa ser necessariamente díficil de tocar, do mesmo jeito que a capa tem um visual de pintura artesanal, essa primeira metade do álbum me dá a sensação de músicos de rua, algo passional, algo relaxante e leve. Preciso pontuar sobre Três Margaridas que o Marco Polo não tem voz para subir pro agudo, mas parabéns pela tentativa. 

Mesmo assim o começo quanto devagar a virada de chave acontece com Cidade Grande, e daí saquei o storytelling da obra, o começo mais litoraneo mais lento é uma referência ao mar, algo mais lento, incompreensível (como as poesias de Momento na Praça e Lá Fora) chegando até mencionar os piratas, que deve ser a música mais conhecida, apesar de não ter me agradado tanto assim, deve ser a música mais diferente do resto do projeto. 

O album vai aumentando de ritmo paulatinamente até chegar de fato na Cidade Grande (sexta música do álbum) que evidencia a influência do Som Imaginário, contando inclusive com uma discreta participação de Zé Rodrix. Se me permitem o trocadilho, a partir da metade o som fica mais concreto, chegando de cara com badaladas e um som mais evidente da percussão/bateria inclusa. Cidade Grande versa sobre expansão territorial dessa máquina de moer gentes que chamamos de grandes centros urbanos. 

"Oi, mamãe, aqui estou eu
O seu filho ainda não morreu
Dizem até que ele nasceu outra vez"

Minha opinião pode ser enviesada, mas e aí... Chega Seu Waldir, a música que colaborou para a censura do álbum, porque Seu Waldir é uma canção ácida sobre um tipo de "declaração de amor" a um tal de Seu Waldir (alguém com nome de coroa), o governo deve ter entendido como uma apologia a homossexualidade, mas pode ser só uma grande ironia, uma música para um patrão filho da puta ou até alguém abertamente preconceituoso. Tem sua comicidade, tem sua crítica velada e um belo ritmo rasgado com esse instrumento ríspido arranhando o disco, boas batidas de tamborim também.

Outro musicão em sequência de xote com aquela mescla de música psicodélica, Hei Man é uma música que somatiza tudo que tivemos de bom no começo dos anos 70 e aqueles movimentos musicais que descrevi no começo do texto, poderia estar em Acabou Chorare, Clube da Esquina ou Passado, Presente & Futuro, mas Ave Sangria foi agraciada com esse som de guitarras (de qualquer tipo) embrasando, um batuque decente em tom de conselhos do eu lírico para esse outro "man". 

Por Que? Mantém a mesma pegada 'xoteada', depois um tema mais pesado com bastante barulho sobre tocar fogo na própria roupa, Corpo Em Chamas apesar de descrever um processo doloroso é uma música alegre, cheia de alegria, com bastantes Ie ie ie ie no refrão, é um constraste interessante mostrando o lado Rock'n'roll que Ave Sangria também pode apresentar. Com algumas modificações no som, mas mantendo a mesma letra poderia ser uma música punk, caso fosse lançado em língua inglesa. 

Citando a música inglesa, o álbum termina um prog sonífero embrasado à lá Emerson, Lake e Palmer, Sob o Sol de Satã guarda pra si toda a energia contida e feverscente no álbumque segue uma trilha incomum, ao começar devagar e terminar em seu ápice, sem letras ou poesias, apenas as pura música ecoando em nossos ouvidos. A guitarras ou as guitarras do Paulo Rafael e Ivson Wanderley são o de melhor possível, fazendo que Ave Sangria se consolide como clássico da música brasileira, especialmente nessa faixa aqui, logo a última. 

É um álbum que funciona de trás pra frente, começando de Sob o Sol de Satã também terá um storytelling diferente, uma pespectiva interessante. 

Em linhas gerais Ave Sangria brilha por sua simplicidade e leveza, trazendo um sol quente, mas com a brisa refrescante, carregando consigo a energia do sol de Recife, mas sem o cheiro de mijo que o centro daquele lugar tem. Apesar de suas manias setentistas, é um álbum que envelhece bem para as novas gerações, não atoa, mesmo depois da censura continua sendo um álbum bastante popular. 
Não ter um estilo definido ajuda a flutuar pelas gerações. 

O seu começo lento pode enganar quem não tiver paciência, mas ao seguir de suas canções te levam a uma bela viagem de quarenta minutos, muito bem gastos. 

Destaques: Três Margaridas, Corpo em Chamas, Seu Waldir e Cidade Grande. 

Informações chatas:
Baixo – Almir
Bateria – Israel Semente Proibida
Guitarra, Acoustic Guitar – Ivson Wanderley
Guitarra, Viola, Sintetizadores, Vocal – Paulo Raphael
Percussão – Juliano
Piano – Marcio Vip Augusto (tracks: A1, A5, B3)
Sintetizadores – Zé Rodrix (tracks: A6)
Vocais – Marco Polo
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Zito Righi e seu conjunto - Alucinolândia (1969)



Informações alucinadas 

1969
12 músicas, 30 minutos
Samba rock, Jazz, MPB wannabe, tem seu valor psicodelico 
Hot


Porra lá vem esse blog com disco de hiponga, sim, vamos lá:

Me escutem dessa vez, samba-rock psicodélico, vale a pena escutar. É um saladão de samba-rock com jazz, além de, claro, ter muito tempero de psicodelia e ser uma éspice de rito de passagem entre a música dos anos 60 e dos anos 70. Nesse álbum termos muitos elementos identificáveis de várias épocas, vamos nessa resenha decantar uma a uma.
Antes de mais nada, quem é Zito Righi? Não faço a menor ideia, toda biografia que achei não passava de um paragráfo, mas é um saxfonista tenor, líder de orquestra (dá as rédeas nesse disco), e tem nome de batimo Isidorio Righi, segundo seu próprio filho:

Achei essa informação comentada no blog "Esses Incríveis Músicos e Seus Maravilhosos Instrumentos" que Deus ou algo maior abençõe todos esses blogs obscuros de música, incluindo este que vós fala. 
Álbuns psicodélicos eram moda na segunda metade dos anos 60, até o Ronnie Von tem um (ainda vou fazer resenha), a estética do movimento hippie foi rápidamente, por ironia do destino, absorvida pela cultura, então meio que a contra cultura virou cultura de fato, isso aconteceu tanto em aspectos gráficos (como as fontes) e estilísticos, como a utilização de órgão agudo nas músicas e as guitarras elétricas que tanto pelejaram de entrar em nosso país. No Brasil, termos todo o tropicalismo que também impactou, a julgar a estética desse blog. 
Sobre o samba-rock é díficil dar uma definição precisa, mas eu gosto de definir como o "ritmo brasileiro que foi enxotado do mercado pela galera do disco" basicamente é a turma do suíngue, da batida, do boogie woogie antes dos ritmos estadunidenses se popularizar no Brasil, como a música de discoteca, funk e soul, tem como principal preominente o Trio Mocotó, algumas pessoas colocam o Jorge Ben Jor no balalaio, mas eu particulamente discordo. No mas, esse álbum é um ótimo exemplar para enteder o fenômeno do samba-rock, e vamos começar por sua capa.

A capa é terrível, eu diria até sem utilizar de palavras duras que é um pouco feia, tenta representar uma alucinação, mas tem cara de "badtrip" como a galera da droga fala, os olhos esbugalhados, gentilmente segurado por mãos queimadas, ou com aparência de cremação mesmo em um esquema de cores bem harmônico pra ser considerado psicodélico, como se conceita, acho que "arco iríco"? Tem as cores do arco íris, a capa me trasmite uma tensão, duvido que tenha sido a intenção dos artistas... Apesar de considerar ela feia, coitada, foi que me chamou atenção assim que a vi, foi amor a primeira vista, tem carinha de psicodélico eu fico daquele jeito, amor a primeira vista.

Assim que você desce o play tem uma introdução bastante cordial dizendo "a vida não vai tão mal, agora vejam que legal. Zito Righi e sua banda vindo de Alucionlânia para nos levarmos em um voo 'alucionológibom' nas delícias do seu som" e aí começa bem em um samba rock, pela presença do piano, uma matraca, apitos e a formação rítimica das palavras, a divisão dos versos, o pegada mastigadinha que o samba rock como característica, uma coisa interessante que rodeia toda obra é a voz da vocalista do conjunto, aquele vozeirão dos cantoras de rádio que foram extintas nos anos 60, um álbum "contra cultural" é interesse a combinação, a forma de cantar meio declamatória me lembra Gilberto Gil em Parque Industrial no famossíssimo álbum lá de 68, cansativamente mencionado nesse blog, também o mesmo em Marginália II no Frevo Rasgado.

A música seguinte é uma de protesto, meio pacifista das ideias não tanto apelativa politicamente, não tem um clima "governo filho da puta" (o que era plenamente razoável)  e mais "parem de brigar por favor, somos todos irmãos em cristo", o que não faz dela uma música de protesto, na verdade, mas uma de desabafo? A música de protesto só tem esse nome na época específica que foi produzida, então formalmente, é uma música de protesto, por mais que seu contéudo não seja revoltoso. Ela representa já a tensão que foram os anos de chumbo, tem algo ali no meio, mas não dá pra falar o que é direito, é o famoso "O que será que me dá, que me bole por dentro, será me dá" que o Chico Buarque escreve, engraçado essas músicas não mais de protesto como era no comecinho da MPB, mas a sensação de cansaço que já aparece aqui, em 69.

As músicas em inglês são jazzes, um tenor belíssimo, um hard bop clássico que não deixa fica muito pra trás dos clássicos saxofonistas tenores, com o Coltrane, Cannoball Adderley, Albert Ayler e essa turma boa do hard bop foi uma continuação do bebop lá pro finalzinho dos anos 50, especificamente em 1959, quando saíram 4 grandes álbuns de jazz que mudariam a histórica música, assim como a Bossa Nova surgiu nesse período o estilo é uma resposta a música antiga de jazz, trazendo essa carinha mais conhecida que termos hoje do gênero. Sabe esse jazz "sujo", noturno, pegada Taxi Driver do Scorsese? Hard bop. E sinceramente, se Once in a While tivesse no meio de um álbum do Miles Davis com essa execução do Righi, ninguém sequer notaria a diferença, um ótimo exemplar de jazz aqui.

Logo após, em Birimbau, a pegada vai um pouco mais pra MPB em geral, como era costumeiro a época, com o pézinho no tropicalismo, mas nada de tropicalista, afinal, a altura desse campeonato, o tropicalismo já tinha morrido, expliquei melhor aqui.

Também tem algumas faixas que são na pegada mais "Jovem Guarda" aqui, isso se dá pelo dedo do Roberval que era do show business dessa galera do iê-iê-iê, como Bye Bye, Adeus Amor e Sou Feliz Aqui, que tá entre a jovem guarda e o samba rock, mas nada que seja calça boca de sino demais.

Outro ponto de se ressaltar é de quão bom são as músicas de jazz aqui, onde há jazz há os irmãos Gershwin, nesse álbum é Love is Here to Stay, porém num ritmo desjazzustado, com a carinha mais brasileira, combinação polêmica, eu prefiro a versão da Ella Fitzgerald, porém comparar com ela é uma tremenda sacanagem, não é mesmo?
Por mim, o álbum acaba rápido com Hert, outra música gringa, e saí com aquela sensação de "mas já??", pois é tem um cumprimento ideal de um álbum, 12 músicas em 30 minutos, sucinto, sóbrio, bem apresentado. Me parece mais uma escolha editorial do que escolha própria dos artistas, todavia entrega muito bem um elemento da música psicodélica, a mistura, tem vários elementos aqui e todos estão bem coesos, uma verdadeira salada. Eu colocaria um pouco mais de jazz

Recomendo, principalmente as músicas de jazz e samba rock (metade do trabalho) 

Quebrou totalmente minhas expectativas, não esperava ouvir samba rock em um álbum com essa capa,
parece música psicodélica feita por gente que nunca usou psicotrópicos ou é bissexual. 

Informações chatas:
01.  Poema Rítmico do Malandro (Sônia Santos)
02. Somos Todos Irmãos (Roberval)
03. Once in a While (Green, Edwuares)
04.  Birimbau (Roberval)
05.  Primeira Conjugação (Wagner Santos)
06.  Bye Bye (Carlos Imperial)
07.  Love is here to Stay (George Gershwin & Ira Gershwin)
08.  Isn't a Dream (Zito Righi & Sônia Santos)
09.  Sou Feliz Aqui (Ruy P. Pereira)
10. 1 Adeus Amor (Roberval)
11.  Alvorada (Luís Freire & Maurício Einhorn)
12.  Hert (Richard Adler & Jerry Ross)
Pistons: Ubiratan e Barcelos, 
Trombone: Othon, 
Sax-Barítono: Renato, 
Órgão: Alberto, 
Contrabaixo: Paulinho, 
Bateria: Fernando, 
Ritmista: Nilo, 
Guitarra: Jorginho, 
Crooners: Verinha, Sônia Santos e Carlinhos, 
Saxofone: Zito Righi.

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Edy Star - Sweet Edy (1974)

Informações legais:

31 de agosto de 1974
12 músicas, 33 minutos
Rock, MPB, Glam Rock, música guei (piada)
℗ 1974 Som Livre

Nossa, quanto tempo que não trago um álbum pra vocês.

Eu recomendo fortemente a leitura prévia da história do Edy Star, o primeiro artista a se declarar assumidamente homossexual nesse país, terra adorada, lá conhecemos o artista, agora teremos acesso a obra. Leia a postagem aqui.

Nos início dos anos 70 a sensação era que a MPB tinha "morrido", ditadura militar, grande parte dos artistas responsáveis pelo frenesi dos anos 60 estavam em exílio, ou só trocaram de país (como a turma da Bossa Nova), tirando aqueles que estavam sendo continuamente presos, censura correndo solta e ainda o fim abrupto dos festivais de música popular brasileira, que revelou grandes, mas enormes artista para o Brasil. Uma injustiça das grandes com os novos compositores/artista que ainda estavam por vir, essa sensação de "estagnação" da música Brasileira acabou dificuldando o início de carreira de novos artistas, nesse "limbo" da indústria fonográfica fez que alguns ficassem esquecidos no tempo, todavia, teve o saldo positivo de testarem mais gente, oferecer mais oportunidades, numa dessas que Elis Regina fez carreira do Tim Maia (cantando junto a ela These Are The Songs), Ivan Lins (Madalena) e o Belchior, o que falar o quão importante Elis foi importante para o Belchior. Tomando só a Elis Regina de exemplo, assim aconteceu com outras gravadoras.

Esse disco foi um convite da Som Livre para o Edy Star, que tinha acabado de sair da CBS depois de gravar Sessão das 10, o álbum foi totalmente entregue nas mãos dele, a parte criativa e artística, incluindo a foto da capa. Nas palavras do mesmo: "Acho um disco muito simpático. É a minha cara. Transgressor, debochado, escroto… Sou eu. Eu continuo sendo Sweet. Continuo sendo terrível (risos)." (entrevista cedida ao site disconversa). 

A capa nos entrega ele mesmo, em uma cadeira antiga, meio relaxado de olhar misterioso, estola de plumas em volta ao pescoço, body rendado, salto alto (a lá Frank N Furter), também exprime uma certa androginia, não se "vestindo como mulher" mas claramente fora dos padrões masculinos da época (infelizmente os homens não se vestiam assim) muito glitter e letras enormes e setentistas, entregando a estética de cabarés*, local onde firmou sua fama.

*eu sei que no nordeste cabaré tem sentido de puteiro, mas não é só isso, são os cabarets uma espécie de balada, casa de festa, as vezes ligado a prostituição, as vezes não. Tem toda aquela estética noturna, boêmia, muito própria da cultura QUEER também, já que é comum (ou era não sei se existe ainda) a apresentação de drag queens nesses locais. Aliás toda estética clássica das drags, estão ligadas ao cabaré

Só que vem uma coisa interessante, o uso do preto e cores escuras no geral, o juazerense opta por esse tom mais dark, o que confere a pegada rock do disco. Ou seja, esse álbum é puro Edy Star, cabaré e rock'n'roll, é o que a capa nos entrega. E quando apertamos o play?

Chegamos com a boa voz do Edy Star, tem um timbre muito bonito, com uma baianidade no sotaque, a música é Claustrofobia da dupla Erasmo e Roberto Carlos, numa pegadinha bem rock, naquela guitarrinha mascadinha que a tropicália trouxe, um baixo estalando, e assim segue nesse estilo na maioria das músicas. Apesar de ser gravado em estúdio, tem um cheirinho de gravação ao vivo, como por exemplo gritos meio avulsos, improvisações e a qualidade do som, a voz é o instrumento principal, nenhum instrumento se sobressai, a performance mora na voz, que não é um puta vozeirão, mas se ganha e conquista pela movimento, boa utilização e amplitude, movimento. 

Todos os elementos que citei ficam mais claros na próxima música, Edith Cooper, composição de Gil feita exclusivamente para esse álbum, dedicado ao próprio Edy, amigos de juventude. Partindo de um doce bárbaro para outro, Caetano Veloso saudando alguns nomes da MPB, Novos Baianos, Jorge Ben e Jorge Mautner, uma música que eu consigo escutar o Caetano Cantando, é o meu tipo de composição dele favorita, que não tem tanto sentido figurativo, partindo para abstrações (ex: Eu Sou Neguinha e Dar Maior Importância).

Partimos para o rock pesado, em uma batida mais forte contando os sonhos de uma jovem estrela que sonha em ser artista, em voz mais rasgada, mais livre, narra em refrão "superestrela eu vou ser!" (muito cara de música de novela da Globo), que toma tons meio tristes, já que a carreira do Edy, infelizmente, não decolou. Os sonhos também conta com as noções de sucesso capitalismo, tal qual aquele episódio de Pica Pau:


Exceto pela parte das mulheres, claro

Num rol de grandes compositores, não poderiam faltar Lupenicío Rodrigues, com Esses Moços, Edy Star mostra sua versatilidade e apresenta uma música típica de cabaré, samba-canção, essa melancolia, conselhos de um velho detonado por uma decepção amorosa muito forte, que não acredita mais no amor. Essa música também contribui para a mistura de gêneros (ficou boa essa frase não é?), Glam Rock, com samba-canção e o mambo de Olhos de Raposa que opta por uma pegada de mambo cubano, apesar de falar "ARRIBA!!" no meio do som, apesar que, o que raposas tem a ver com cuba? Assim como Lupenicio Rodrigues não tem nada a ver com Jorge Mautner, enfim, viva a bagunça do brasileiro.

Por falar em bagunça, nada melhor do que mencionar os Novos Baianos, Edy Star respeita bastante os compositores em suas interpretações, no sentido de não desconfigurar o estilo de cada um deles, e ainda conseguindo impor seu próprio estilo, e que estilo, todo cabareístico. A maioria das músicas são gravações originais, porém, assim como na canção do Caetano, é perceptível o estilo do Morais Moreira aqui, mais uma vez, o sotaque baiano deve ajudar nessa impressão minha. Essa música ferve os novos baianos, pelo refrão repetitivo "Se meu sangue é A se meu sangue é O", a letra divertida. Emanence a essência de cada um dos compositores, até em Lupenício Rodrigues, mesmo sendo uma música gravada inúmeras vezes.

Para fechar com chave de ouro, a parte provocadora, Bem Entendido começa com um blues fortíssimo, um cantar debochado, uma música que não faço ideia como passou pela ditadura militar, mas palavras do mesmo "Mas no meu ambiente, por baixo, na “segunda categoria”, éramos mais quietinhos. Estávamos mais a fim de transar do que de mandar mensagem." por estar na segunda prateleira da MPB, passou por baixo dos olhos do regime, que na verdade nunca foi reconhecido pela excelência. A música é uma evidente refêrencia a homossexualidade, mas não uma homossexualidade evidente 

"Para um bom entendido meia cantada basta" e continua com "De só andar encalhado, encolhido, encubado, escondido, enrolado", citando um quase relacionamento talvez, talvez um amor que não se concretizou, em um grande tom de deboche, pra mim, a melhor música de todo álbum.

Em um apanho geral, é um álbum que tenta de tudo e um pouco, excelente peça para entender a figura do Edy Star em sua pura essência, apesar de estar presente aqui como um monolito (o álbum não possui feats, comum em cantores menos conhecidos) ainda consegue expremer a essência de seus respectivos compositores, o álbum é de estúdio, mas possui uma experiência de um ao vivo, pela presença, alma e vontade com a qual o juazerense Edy Star tem a nos oferecer, é uma excelente obra, que infelizmente foi esquecida pelo tempo.

Antes do David Bowie comprar seu primeiro kit da Avon, antes do Glam rock se consolidar como um todo, Edy estava lá primeiro! Nesse álbum que vale mais do que a pena.

Informações chatas:
A1 Claustrofobia 2:50
Composição – Erasmo Carlos e Roberto Carlos

A2 Edith Cooper 3:17
Composição  – Gilberto Gil

A3 Conteúdo 4:32
Composição – Caetano Veloso

A4 Superestrela 2:20
Composição – Leno
Composição [sem créditos] – Raul Seixas

A5 Esses Moços 3:25
Composição – Lupicínio Rodrigues

A6 Boogie-Woogie Do Rato 1:20
Composição – Augusto Duarte Ribeiro

B1 Sweet Edy 2:47
Composição – Piau, Sergio Natureza

B2 Briguei Com Ela 2:43
Composição – Edy Star

B3 Olhos de Raposa 2:42
Composição – Jorge Mautner

B4 Coração Embalsamado 2:37
Composição – Getúlio Côrtes

B5 Pro Que Der Na Telha 3:23
Composição – Luis Galvão e Moraes Moreira

B6 Bem Entendido 2:46
Composição – Piau, Sergio Natureza

B7 Eu Sou Edy Star 0:38
Composição – Edy Star

Capa – Edy Star

Engenheiro de mixagem – Orlando Costa

Engenheiro de gravação – Deraldo, Emiliano, Luis Carlos, Norival

Produtor executivo – João Araujo

Fotografia da capa – Antonio Guerreiro

Produtor, arranjos – Guto Graça Mello



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50 anos atrás surgia o primeiro artista gay do Brasil: Edy Star, o astro esquecido

esta bicha é tão velha que a palavra gay nem existia ainda

Sim, é óbvio que existiam artistas gays antes do Edy Star, porém, Edy foi o primeiro a se declarar gay assumidamente! Em 1973, em plena ditadura militar e seus pânicos morais a solta. Vamos com calma, vem conhecer a história dessa estrela.

Antes de adentrar no tema, precisando do ponto principal:

Quem é Edy Star?

É exatamente aquele tipo de pessoa pública que não é reconhecida quando pega um ônibus, e olha só, ele deve pegar ônibus, pois nunca conseguiu ser milionário com a música, mas admite ter dinheiro suficiente para viajar e viver bem, em suas próprias palavras: 
"Mas quem ganha dinheiro são autores de músicas. Artistas ganham pelo show. Faço uma média de um ou dois show por mês. Tem meses que eu faço sete shows e em outros nenhum. Tem vezes que me pagar a passagem, hospedagem e ajuda de custo e também vou fazer o show. Gosto de viajar" (Entrevista para a revista Quem. Junho/2020)

A sua discografia é menor que sua importância na música

Isso se dá por ser um músico satélite, ou de segunda prateleira, ou seja, não é pequeno o suficiente ao ponto de ser independente ou regionalizado, ao mesmo tempo que nunca recebeu holofortes o suficiente da mídia, apesar de ter gravado em gravadoras grandes, e ser próximo de artistas famosos, como Caetano e Gilberto Gil, amigos da juventude e Raul Seixas, amigo de infância com quem gravou Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, junto ao Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. Além de Sweet Edy que já ouvi e vai sair resenha essa semana ainda! E um disco de 2017 idealizado por Zeca Baleiro cunhado de Cabaré Star. 

Edy Star não é de uma família de artistas, muito pelo contrário, quando decidiu largar seu emprego para ir embora de sua cidade com o circo da cidade causou o maior bafafá, o pai revoltado disse "minha família nunca teve artista!" e o jovem Edy respondeu "estava na hora de ter um então", vamos admitir que a largada era compreensível, ele trabalhava em plena petrobrás, apesar de estar ganhando bem, decidiu largar tudo, aos 20 anos para virar artista. Edy Star nunca gostou de trabalhar na petrobrás, pela homofobia do local de trabalho, tanto que nunca teve vocação nenhuma:
“Odiava aquilo tudo. Eram 1.500 homens no campo e uns quatro ou cinco gays, todos enrustidos. A gente soltava a franga, mas chegava alguém e a gente tinha que mudar a voz, falar de mulher. Sempre escutava umas piadinhas e, ainda por cima, ficava todo sujo de petróleo. Um horror.” (Entrevista a Revista Trip maio/2010)

Depois de seguir a vida se apresentando em circos, trabalhou em algumas emissoras de rádio, mas o episódio mais marcante foi na TV Itapoan, quando cobrou os 3 meses de salário atrasados ao vivo! E foi expulso da emissora em seguida, sendo jogado no estacionamento pelo próprio dono da emissora.

"E ele nunca vinha pra televisão. Sabe, nesse dia o filho da puta estava na televisão, aí eu estou no palco e "Alô seu Paulo! Eu tenho um problema chamado estômago!". Quem gosta desse caso é Jerônimo, Jerônimo adora. "Olha eu tenho um problema chamado estômago, o supermercado não quer aceitar aplausos, só quer aceitar dinheiro, como é que é? Vai me pagar quando?"."(Entreivsta ao programa Espelho com Lazáro Ramos agosto/2019)

Logo após ser demitido, encontra Raulzito (Raul Seixas) em um bar, tomando um choppe, por acaso do destino Raul Seixas estava procurando justamente Edy, para gravar o disco sessão das 10 pela CBS, qual Raul era produtor. Tem uma história sensancional sobre esse disco, mas irei comentar quando fazer uma resenha pro blog.

Raul Seixas, Miriam Batucada, Sergio Sampaio e Edy (que não era star ainda)

4 quatro anos depois dos eventos da CBS (que culminharam na saída), grava a convite da som livre o clássico Sweet Edy, que terá resenha nesse blog ainda nessa semana, não percam.

Seguiu se apresentando em cabarés do Rio e de São Paulo, até o modelo de boates assim irem se esgotando aos poucos, Edy Star não se adaptou bem a nova modalidade de apresentação noturnas, o playback, ao invés das bandinhas da noite que estava acostumado, o que acarretou em sua saída do Brasil, na verdade um exílio para a Espanha, após ter sido ameaçado pelo regime militar

"Porque não tinha mais como trabalhar, as boates não tinham mais conjuntos acabaram com os conjuntos na boate, toda boate tinha um conjunto: piano, baixo, bateria, um trompete ali. Então a gente cantava, tinham os cantores da noite, né? Emílio (Santiago) era cantor da noite, Everardo, tinham vários cantores... A Auréa Martins, Djavan, (Maria) Alcina todos eram cantores da noite, acabaram com isso.
Eu só sabia cantar, e fazer meus numerozinhos de publicidade e não tinha mais onde trabalhar. Daí eu tive que viver cantando com playbacks, as pessoas me davam Alcione me dava, Emílio Santiago me dava, a Beth Carvalho, as gravações, o fundo musical, das gravações deles, só que isso você tem que se adaptar a respiração, as paradas, os timmings dessas pessoas que não é o seu timming, muita das vezes você quer inventar e não pode. Aí, eu fiquei muito chateado com isso, não dá mais" (Entrevista ao programa Espelho com Lazáro Ramos agosto/2019) 
 
A gota d'água foi uma censura que sofreu somado a ameaça de que "vão sumir comigo" como o próprio Edy diz. Pelos anos seguintes se aventurou pelas artes plásticas, e só voltou aos estúdios praticamente 40 anos depois, com uma idealização do Zeca Baleiro para gravar seu segundo disco, Cabaré Star, que conta com vários artistas convidados.

Além da música, Edy Star também trabalhou em algumas peças, dirigiu alguns puteiros em Madrid, e até se aventurou nas artes plásticas, muito além de cantor, era um artista completo. Inclusive, participou da primeira versão nacional do musical Rock Horror Picture Show  em 1974/75, substituindo o Eduardo Conde, sinceramente, Edy é o Frank N Furter em pessoa! A peça também contava com Zé Rodrix, que já tem resenha de álbum aqui.

uma pena da peça ter sido picotada pela censura
Se era quem eu precisava apresentar, está entregue, Edy Star por ele mesmo.

Conheça mais sobre ele em, fontes que utilizei:
https://lucassville.blogspot.com/2011/04/rocky-horror-show-montagem-nacional-de.html
https://www.youtube.com/watch?v=ndHFItxJ4ss
https://www.youtube.com/watch?v=9QbYSLkyuLQ
https://revistatrip.uol.com.br/trip/o-primeiro-gay-a-gente-nunca-esquece
https://revistaquem.globo.com/Entrevista/noticia/2020/07/edy-star-sobre-ser-o-primeiro-artista-se-assumir-gay-no-brasil-sai-quem-pode-e-quem-quer.html
https://disconversa.com/disco-da-semana/disco-da-semana-edy-star-e-sua-naturalidade-transgressora/

• A saída do armário, quer dizer, no armário nunca esteve.

O fato aconteceu em 1973 para a revista Fatos & Fotos, eu não achei a porra da fonte original, mas o fato é conhecido consolidado e público. Foi nessa mesma época que começou a adotar o sobrenome artístico de Star, quando foi "adotado" pela mídia como o Pasquim, que ditava a opinão pública da época.
Apesar da declaração pública, duvido bastante que alguém ainda estivesse dúvidas, pois Edy sempre foi do vale, desde de sua adolescência, de quando andava com gilete embaixo da língua e descia a porrada naqueles que o chamava de "viado", teu apelido de praça era Bofélia, assim como todas as outras tinham seus nomes, isso em pleno anos 50. Deve ter causado bastante confusões. 

Qual a importância de termos artistas gays e outras letrinhas do meio LGBTQIA+?

De duas figuras públicas gays antigas que me veem na mente penso em dois, João do Rio, o criador (praticamente) do modelo de "crônica carioca", inovador lá pros anos 20, porém a sua homossexualidade nunca fui assumida de fato, também me vem a mente Johnny Alf, que nos anos 50 foi o primeiro músico a se pensar bossa nova, ou modelo que viria a ser bossa nova, já que tocava em salões algo que viria a ser inovador, pórem a história do Johnny Alf* é tão triste, tão vazia de informações, que enfim. Nem vou falar de tristeza que não combina com a simpatia do Edy Star, curiosamente, todos os citados além de gays, são negros.
*Posso falar de Alf em outro momento.

O próprio Edy conta que até conhecer a turma gay/travesti lá da Bahia se sentia "a única bicha do mundo", sofrendo com a "maldição" (muita homofobia interna), após o conhecido de uma comunidade reconheceu a si mesmo se enxergando nos pares, porque a normativa da sociedade reprime qualquer comportamento minimante fora da linha, como homens chorarem! SIM, chorar (uma emoção humana) é proibida aos homens, por demonstrar fraqueza, como os homens mais emotivos podem se reconhecer como homens emotivos se a norma manda ele parar de ser daquele jeito? É praticamente impossível ter uma autoaceitação.

Mais importante pelo direito de escolher (no sentido de escolher viver) a sua sexualidade e viver em paz, é importante a peversão daquilo que reprime, da subversão da norma que foi imposta de forma violenta em nossa sociedade, assim como aconteceu nos anos 70, com o próprio Edy Star, o grupo Dzi Croquettes, Ney Matogrosso,  Maria Alcina, Rogéria em menor medida Gilberto Gil e Caetano Veloso, e mundo a fora com o surgimento do Glam Rock. 

Por falar em Gil e Caetano, sabemos que não tem um fodido hétero nesse meio da MPB, porém nem todos quebravam a cisheteronormatividade de forma tão escancarada, porém, isso não é de forma nenhuma demérito desses artistas, a luta deve ser tanto para quem quebra com tudo, tanto para quem não se expressa de forma tão 'colorida', digamos. Dialectamente a isso, a possibilidade não-pressão em figuras públicas que não falam tão abertamente sobre sua sexualidade só é possível porque termos aqueles que afrouxam a corda de nossos pescoços com a provocação e subversão.

A ideologia dominante prevalece, por isso que todo processo de aceitação levam uma vida inteira.
 O próprio Edy fala sobre:
“Antes de mim, durante e até hoje tem muito artista que ainda está no armário. Muitos artistas que nós sabemos que são bichíssimas, mas que estão no armário, casadas, que são pais… Assim como lésbicas também. Todos sabem, mas isso é uma coisa de cada um. Alguns anos atrás, existia uma militância para fazer os artistas saírem do armário. Não concordo com isso. Ninguém é obrigado a nada! Sai quem pode e quem quer. Tem gente que tem receio e eu entendo. Porque o mundo não é gay! Ele é feito de uma convivência de homossexuais com heterossexuais. O mundo nunca foi gay.”  (Edy Star para a revista Quem. Junho/2020)

O mundo nunca foi gay, também, nunca foi hetero, essa dominação nada mais passa de uma ideologia, assim como todas as outras, imposta de forma violenta, ela deve ser combatida, para inclusive até aqueles que não aptidão ao combate, possam conviver bem, então se queremos um cenário onde a sua sexualidade não seja motivo de debate, precisamos de mais debate sobre sexualidade e comportamento humano, parece contraditório, mas assim que é bom.

Aliado a outras grandes figuras da música, e a arte um geral, Edy Star faz parte, sendo pioneiro, na subversão, no combate e embate nessa ideologia caquéctica, que irá de perecer, junto com a velha ordem.

Por mais que ele seja modesto em relação a isso, a sua memória deve ser preservada e viva, segue vivão e simpático como sempre, vida longa a Edy Star! 


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O que é tropicalismo/tropicália?

 


Resumidamente: Tropicalismo é um movimento artístico, portanto também cultural e político. Abrange das artes plásticas até a música, tem um quê de psicodelia dos anos 60, mas a principal característica é um apelo a brasilidade, ou como gosto de definir, um ode a confusão/bagunça. Vamos chegaremos lá. 

Caso-você-não-tenha-reparado esse blog é tropicalista, o autor (yo) se amarra numa MPB e psicodelia, principalmente nos tropicalistas mesmo, Gal, Gil, Caetano... Aliás o nome deste blog é uma referência a música Marginalia II  portanto, pelo menos de ouvido, eu posso explicar que raios é isso pra você.


Primeiro, contexto musical dos anos 60.

Anos 60 foi o ano de fundação da música brasileira, mas calma, é claro que existiam artistas brasileiros de enorme sucesso antes dessa data, mas a questão é: O que conhecemos como música nacional se fundou/consolidou nos anos 60, ponto final, sem dúvidas em relação a isso. Óbvio que houveram outros movimentos mais importantes antes e depois, mas eu preciso puxar sardinha pro meu lado.

Essa fundação, se deu a ferro e fogo, num caldeirão caótico (principalmente político, golpes e pá) e como todo caos, foi-se criando coisas. Basicamente a música nacional passou a década dos hippies completamente faccionada, entre dois grandes grupos que disputavam o público, MPB contra a Jovem Guarda e outros movimentos comendo de beirada, como a bossa nova, o forró (que não tem nada a ver com isso), o Soul Brasileiro nascendo no finalzinho da década e a tropicália, enquanto música, pois enquanto movimento gráfico já existia. Embolou? Vamos devagar: 

Jovem Guarda

Respectivamente: Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos

 Sei quase nada sobre Jovem Guarda, mas vamos lá:
A Jovem Guarda é uma mistura do rockabilly (sim, tipo Elvis ele mesmo) dos Estados Unidos com o fenômeno das bandas mobs britânicas (tipo o Beatles, dá pra notar pelo corte horrroso), umas pitadas de rock surfista e algumas músicas italianas aleatórias, o ritmo foi bastante popular entre a juventude e era sinônimo de rebeldia, transgressão e mini saias, a famosa juventude transviada que o Luiz Melodia fala também leva o nome de Iê Iê Iê (yeah-yeah-yeah). Falando em nome, o movimento ganhou esse nome devido ao programa de televisão do mesmo nome apresentado pela TV Record nas tardes de domingo. Apesar do Roberto e Erasmo Carlos serem os mais famosos e com suas composições o substrato central mesmo da Jovem Guarda era abrasileirar (ou apenas traduzir literalmente) músicas gringas, haviam bastantes bandas focadas especificamente nisto, traduzir os sucessos de discos estrangeiros ou até achados que ninguém tinha ouvido antes.
Por serem muito americaninhos(até as bandas serem em inglês) sempre fora muito esnobada pela crítica e pelo setor "mais cultural", por se tratar de "música de alienado" ou esse tipo de visão que ser feliz é crime inafiançável ou fazer música simples é sinônimo de música inferior, em comparação a MPB, que entrou em declínio pós jovem guarda, das músicas de protestos e toda carga política, a Jovem Guarda só estava preocupada em manter seus cortes ridículos, levar a gata pro cinema e manter a sua fama de mal. Realmente não dá pra esperar muita carga política de bandas que só estão tocando sucessos gringos, talvez essa omissão política tenha beneficiado alguns, Roberto que o diga. Mas ser bobo não tem nada de errado também. 

Vale ressaltar que também surgiu um rápido efeito na moda também, popularizando as camisas Agostinho Carrara, calças boca-de-sino e minis saias no Brasil. Mais sobre o efeito da Jovem Guarda eu recomendo duas músicas do Jackson do Pandeiro, Iê Iê Iê no Cariri e Mãe Maria e Coroné Antônio Bento, que tem outro nome inicialmente, confiram na minha postagem do Tim Maia!

Apesar de nunca ter sido muito valorizada em quesitos artísticos (comercial é outra história) o setor produziu diversos clássicos, como Banho de Lua, Celly Campello, que é uma música italiana, A Praça, SIM a música da Praça é Nossa é do Ronnie Von, o banger Foi Assim da Wanderléa e os bazilhões de sucessos do Roberto e Erasmo Carlos, pergunta pra sua mãe/vó que elas vão te fazer a lista.

Ainda vale citar outros artistas, The Silver Jets (BANDA DO REGINALDO ROSSI), Os Cincos Jotas, Os Incríveis que tem a versão original daquela única música dos Engenheiros do Havaí (piada tá), Renato e Seus Blues Caps,  Leno e Lilian que tem a versão original de Devolva-Me, Vanusa e etc.

Em um aspecto geral, a Jovem Guarda não sobreviveu ao tempo foi completamente gentrificado, diria até que o gênero de brega é o filho não assumido desses tempos, até pelas vestimentas, pelo ritmo, e pela mania de traduzir músicas gringas, só uma suposição, o Reginaldo Rossi. Realmente foi um mero sonho de verão. 

Nota do editor: Não tem nada mais hipster atualmente do que ouvir jovem guarda, apesar disso tem uns álbuns interessantes que eu vou trazer pro blog ainda, incluindo o álbum psicodélico do RONNIE VON, eu preciso ouvir isso completo. 

A Jovem Guarda trouxe a guitarra elétrica pro Brasil, e isso tem tudo a ver com o próximo seguinte

A MPB

Marcha Brasileira Contra as Guitarras Elétricas, 1967

Sim, os músicos Brasileiros em 1967 organizou uma marcha contra as guitarras elétricas, que de certa forma refletia um ode contra a influência dos Estados Unidos no nosso país, mas de uma forma totalmente tortuosa. Lembra que eu falei que a música brasileira foi forjada a ferro e fogo? Pois bem, não foi mera força de expressão, os músicos da MPB travavam embates comerciais e de audiência contra a turma do IêIêIê. Quer se sentir como um jovem dentro da Marcha? Escuta minha playlist pô!
Sobre a marcha contra as guitarras elétricas, eu deixo essa entrevista do Caetano que se negou a participar, e ficou no hotel junto a Nara Leão observando de cima. Gil aceitou participar porque gostava da Elis na época. (é sério)

A Música Popular Brasileira foi um movimento dos anos 60, que tem esse nome justamente pelos festivais televisionados, os grandes festivais de Música Popular Brasileira, que começou em 1965 e não perdurou muito depois do AI-5, com a censura fica difícil de fazer música, ainda mais com as famosas músicas protesto.
Bastante ligado a esquerda, o setor artístico da MPB tinham diversas músicas que denunciavam/escancaravam a situação de tensão política por golpe de 64, tal como Roda a Vida (que ao contrário é Viva a Dor) do Chico Buarque, o famoso show Opinão da Nara Leão que você pode conferir melhor no meu post sobre ela e Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, Geraldo Vandré. Nesses tempos também houve uma valoração de elementos brasileiros.
A Elis Regina e Jair Rodrigues também tinham seu programa de TV, O Fino da Bossa, que competia de audiência com a Jovem Guarda, pode ser melhor visto aqui. Aliás quando o programa Jovem Guarda surgiu a MPB entrou em completo declínio, o que justifica de alguma maneira A Marcha contra as guitarras. 
A rivalidade era tipo West Coast vs East Coast (2pac vs Biggie), só que não teve nenhuma diss (exceto pelo Luiz Gonzaga) ou alguns dos dois lados levou bala. 
Nota editorial: Tupac passou vergonha em Hit 'Em Up, que muitos consideram a melhor diss da história, mas muito pelo contrário, a própria resposta do Mobb Deep é melhor que Hit 'Em Up, afinal eles foram citados de graça e acabaram respondendo a altura, mas isso é papo pra outra postagem.Hit 'Em Up é cringe, como dizem os jovens (transviados talvez).

É difícil delimitar um padrão rítmico na MPB, já que compreende vários artistas, que vai do samba de morro até um baião maranhense (João do Vale), então para fins de delimitação dá pra colocar como esses ritmos "tipicamente brasileiros", músicas autorais e uma forte presença do violão. Guitarra é coisa de alienado. 
Os cantores da MPB vocês conhecem bem, Chico Buarque, Elis Regina, Nara Leão Geraldo Vandré, Edu Lobo, Simonal de certa forma e o demais, que estão na playlist que indiquei.

Fora isso, vale citar apenas para fins de nota. Os artistas do norte, o forró também estava em alta na Guanabara, mas o forró não tem nada a ver com isso. E a Bossa Nova, a essa época, estava fazendo sucesso em Nova Iorque, lugar a qual ela pertence de fato. Fora os músicos remanescentes dos tempos das serestas, boleros e samba-canção, famosos cantores de rádio que não tinham evaporados, apenas não eram mais os queridinhes da indústria fonográfica.

Agora sim, Tropicália 
Começou em 1967 e terminou pouco tempo depois, em 68, pois os artistas foram exilados, a trupe se dispersou e o regime num modo geral ficou mais violento, com a promulgação do AI-5. Óbvio que alguns elementos existiram depois disso, mas estou delimitando a tropicália, enquanto música, os seguintes artistas: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e o maestro Rogério Duprat. Incluindo algumas composições dos Poetas José Carlos Capinam, Torquato Neto e Rogério Duarte. Não vou querer bater carteira musical, mas não existe tropicália fora desse quadrado que delimitei.
Os músicos tropicalistas adaptaram peças de teatro, poemas, cordéis, populares e até arte gráfica, com a adaptação do quadro Lindonéia do Rubens Gerchmann em música, que é justamente a discreta participação no tão famoso álbum, já chegaremos nele.


Não posso me alongar muito sobre a parte gráfica por falta de perícia, mas termos Hélio Otitica que batizou o movimento como um todo e Cláudio Tozzi, que também está próximo de uma pop art. A arte do Hélio está na barra a esquerda do meu blog, "Seja Marginal, Seja Herói" e Cláudio Tozzi é o fundo do meu blog, com "Che Guevara, vivo ou morto". É período bastante interessante de conhecer... 

Voltando pra músicas, como podemos observar, a tropicália é uma bagunça, mas tudo faz sentido. Pense em um circo, termos diversas atrações, lançamento de espada, palhaços, globo da morte, acrobacias e tudo isso faz sentido quando juntos, Tropicália é a parte circense da música brasileira, tanto pela estética colorida, tanto pela "bagunça". Não atoa, Tropicália ou Panis Et Circensis.


Esse é simplesmente o melhor álbum nacional de todos os tempos.
Eu sou apaixonado nesse disco, vou tentar ser técnico. 
Desse álbum termos um trabalho colaborativo de todas as pessoas que mencionei, afinal, aí estão todes na capa. Então vamos destrinchar alguns elementos (ISSO NÃO É UMA RESENHA, QUE AINDA VOU FAZER)
Primeiro uma clara referência a Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, Gil nunca negou a influência que tinha do Beatles, aliás Gil e Caetano são os "cabeças" do movimento em termos musicais. São dois cantores que cresceram no ninho da MPB e música de protesto, porra Podres Poderes do Caetano, mó musicão de protesto meeeeeermo. Aliás foram ambos que deram entrada oficialmente na Tropicália com a apresentações em pleno Festival de Música Brasileira de Domingo no Parque (Gil) e Alegria, Alegria (Caetano e Os Mutantes) Se termos Gil e Caetano como cabeças, termos uma banda de rock como "braços", os Mutantes, que realmente utilizavam guitarra elétrica e tudo, em teoria seria uma banda de jovem guarda (apesar que essa afirmação não tem muito sentido).

Então podemos dizer que: A tropicália não uniu a grande rivalidade da música brasileira, mas sim BAGUNÇOU os conceitos e os pensamento quadradinho que se tinha sobre a música, rompendo até comercialmente também, já que fizeram bastante sucesso, chegando até a ter também o seu programa de TV, O Divino Maravilhoso. Isso somado aos jogos de palavras do Tom Zé, e a divina, maravilhosa, dona do meu coração voz da Gal Costa, não tenho mais linhas nesse blog pra falar da Gal.

Portanto, o famosíssimo álbum de 68 sintetiza todos os participantes num projeto só, PORÉM, todes tiveram respectivos álbum individuais, Sendo em ordem Cronológica, todos homônimos, e de estreia:  

Caetano Veloso janeiro 1968 (gravado em 67)

Gilberto Gil Maio 1968, também conhecido como Frevo Rasgado

Os Mutantes junho 1968
esse álbum é MUITO bom, muito mesmo

Rogério Duprat e Os Mutantes - A banda Tropicalista do Duprat (não sei o mês, 1968)

Tom Zé 1968, as vezes chamado de Grande Liquidão, porque realmente parece o nome do álbum
a capa mais linda, dos citados

e fechando a tropicália, Gal Costa maio 1969 (foi gravado em 68)


Também tem um álbum psicodélico/experimental da Gal e Duprat justamente com esse nome, de 69, mas essa é uma peça rara da nossa música, que precisamos ouvir com carinho em outro momento. Honestamente tenho MEDO desse álbum, parece muito maluco. As vezes também é chamado de Cinema olímpia. 

Em termos artísticos, mesmo cada ume tendo a sua própria identidade, é marcante uma música orquestral, mas uma orquestra hippie, e sim, hippies podem ser um equivalente comparativo para entender um pouco do movimento. O caso você não goste desse tom mais épico, o álbum com mais cara de banda de garagem é o do Tom Zé os demais trabalham muito com o que é apresentado no Tropicalia ou Panis Et Circensis. Se quiser poupar tempo, escute só o principal, aliás é o mais importante. 

Pelo anteposto, podemos colocar que Tropicália (em termos musicais) foi um movimento que rompeu com as barreiras comerciais entre os gêneros rivalizados da época, existindo de 67 até 68.

Eu prometo ainda fazer resenha de cada um dos álbuns citados, mas isso vai sendo aos poucos. Viva a marginália! Viva a pilantragem! Viva a música nacional!

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Zé Rodrix E A Agência De Mágicos - Quem Sabe Sabe Quem Não Sabe Não Precisa Saber (1974)


capa do álbum

Informações rápidas 3 de março de 1974
MBP, "Rock rural",notas psicodélicas (a capa que o diga) 12 músicas, 38 minutos
℗ 1974 EMI Records Brasil Ltda Tem nos (na maioria) serviços de streamings: sim!

"É uma orquestra de metais com eletricidade/E é uma banda de rock com facilidade"

Com um azulzinho claro e um amarelo definitivamente foi uma capa pintada a mão, e esse ar de "artesanal" que ela trás é bastante chamativa, na linha do "tom amador" um desenho do Zé parecendo uma divindade hindu, eu apostaria no Ganesha, mas acredito que não há divindade hindu especifica para música, ou melhor, o rock rural, apresentando seis braços tocando diversos instrumentos, ostentando um belo black com uma áurea laranja em volta, uma sunguinha e uma cara, mas uma cara de chapado a capa não é presunçosa, não é a capa mais bela da música nacional, mas com toda certeza está longe de ser esquecível, memorável sem ser clássica nas artes gráficas. 

Ganhesa, divindade de alguma coisa no Hindu 

Vamos combinar, a mitologia hindu, pelo menos em sua parte gráfica é psicodelia pura, amontoado de cores, braços e figuras coloridas deve ter deixado os hipongas da época fascinados, por isso não surpreende a escolha dessa estética para a capa e é bastante harmoniosa com a proposta do álbum.
Fato que me lembra as citações do Grant Morrison em Os Invisíveis (HQ de 1994) da banda Kula Shaker, banda de britpop que tem várias referências a esses misticismos hindu.


Mais o que é um rock rural ora bolas? - disse o leitor
Assim como tudo nessa vida, tudo fora do eixo Rio-São Paulo é regional, com o rock não é diferente, o rock rural pode ser definido como bandas de rock mineiras dos anos 70, a alcunha ficou de fato depois da música Casa no Campo (Eu quero uma casa no campo/Onde eu possa compor muitos rocks rurais/E tenha somente a certeza/Dos amigos do peito e nada mais) de Tavito com o próprio Zé Rodrix.
Em termos musicais, a distribuição dos elementos utilizados é diferente dos demais, não é nem a bagunça proposital tropicalista, nem um rock americanizado da turma do iê iê iê, um ritmo único, mas não com propensão de brasileiro, é apenas um mero rock rural, e nada mais do que isso. São basicamente as músicas de Tavito, Zé Rodrix e Sá & Guarabyra a santíssima trindade (com quatro pessoas) do Rock Rural.
E esse álbum é essencial para entender o gênero.
yep, as palavras chaves como vocês podem ver é psicodelia, rock, mas não é um rock gringo hiponga (nada contra, eu curto algumas bandas) é um rock rural.

Falando do álbum finalmente:

A obra começa com um delicioso riff de guitarra da primeira música que dá nome ao álbum, junto a uma bela mistura de instrumentos, elemento que nos fora dada pela tropicália, a 'orquestração' na música popular foi uns dos maiores presentes que o tropicalismo nos deu, nesse álbum não é diferente, junto ao riffzinho já chegam os metais e bem assim segue a tônica até a última música. Em um álbum, a coisa mais importante é o feeling, neste caso o feeling é daquilo que o rock rural nos trás, algo sutilmente provocativo, jovial e a valorização de alguns elementos do campo, um rompimento com a vida corporativa e cinza que as grandes metrópoles tem daí vem a fonte da psicodelia, essa provocação, essa instigação de "por que você é tão cinza?"  

Talvez por falta de conhecimento meu, mas em relação as músicas variam entre rocks "clássicos" com sutis notas de psicodélico (tipo um órgão e piano) ou baladas (músicas de ritmo indefinido), algumas possuem um belo storytelling que se fosse na gringa, seria chamado de música folk, como a título de exemplo "A Volta do Filho Pródigo"; "Roupa Prateada", "a Roupa Nova do Rei", "Muro da Vergonha".

Em relação a provocação é bem nos limites do que a MBP podia fazer na época, toda tensão política causada pela Ditadura Militar, que caramba, não deveria ser um país muito agradável. Muitas músicas tem um tom profético de "vocês vão ver", "vai acontecer", "algo mais mudar" ou transcrevendo Muro da Vergonha Só vai ter mais um planeta girando envolta do Sol/E a gente dentro dele, isso claro em suingue que só a música brasileira pode produzir.

Zé Rodrix abusa do recurso do refrão repetindo no final da música, algo que implica uma mensagem talvez. As músicas falam de sujeitos não nominados, tipo "você"; "todo mundo";"a gente vai"; "nós" é algo interessante porque é algo perfeito contrário daquelas obras intimistas onde conhecemos os sentimentos melhores escondidos do artista, ou pelo menos, a fabricação desses sentimentos. Esse álbum fala para a geral, expressa sentimento gerais, é um coração aberto e compartilhado que todes estavam sentindo na época, seja de fato a população geral ou esse extrato jovem específico do rock rural, aqui Zé Rodrix consegue fazer a identificação do indivíduo a partir do todo, e não do todo a partir do indivíduo como é o álbum Alucinação (1976) de vocês-sabem-quem, aquele rapaz latino americano sem dinheiro no banco e com uma canção do rádio onde um compositor baiano lhe dizia vocês-sabem-o-que. 

Esse senso de coletividade que gera identificação (ou deve ter gerado) fica bem explícito em "Noite de Sábado"; "Rock Para Futuras Gerações" E que se a guerra tá batendo lá fora/E a velha bomba vai pintar qualquer hora/A gente ainda tem um refúgio seguro no rock and roll.

O Rock and Roll, não só nesse álbum, mas muito presente na música brasileira dos anos 70 é realmente mostrado como esse lugar de refúgio, esse tal de roque enrow como diz a saudosa Rita Lee já foi um campo melhor utilizado, um lugar de refúgio não pelo seu conforto, mas pela capacidade de provocar, de causar e de chacoalhar os ossos e a mente. Por um rock mais corruptivo e menos confortável. 

Pequena nota de rodapé, mais um artista que possivelmente batendo na bossa nova E é nessas horas que eu canto/Um velho samba-canção/Estragado por pessoas que o ouviram da maneira errada o nome da música é Cadeira Vazia nº2, sendo Cadeira Vazia uma música do Lupicínio Rodrigues, uns dos maiores nomes do samba canção, se não, o maior! A bossa nova também tinha essa mania de readaptar os sambas canções (especificamente o João Gilberto que ficava ressuscitando música dos anos 40).


Outra nota de rodapé é que a penúltima música se chama "Não Perca o Final", e, de fato a última música é a melhor do álbum, mas aí eu não vou comentar ela porque quero que você escute

Para terminar, em questões instrumentais não há nenhuma performance individual que saia dessa levada do álbum, nenhum grande solo ou algum instrumento que se destaquem, a banda faz o seu papel e o faz muito bem, tudo bem encaixadinho e orquestrado com maestria (literalmente), padrão de qualidade dos anos 70, os metais me soam muito parecido com os do Gerson King Combo em seu autointitulado de 1977.

Em aspectos gerais, o álbum é divertido, provocativo, agitado mas sem aquela rebeldia-irritação punk que quer destruir 'as coisa', soa muito bem em um final de semana, uma música leve, pra se ouvir em caixa de som ou fones de ouvidos (eu o ouvi duas vezes, preferi na caixinha mesmo)

E talvez aí more o maior ponto alto dessa obra, a sua última música, tal qual um grande música, seu final é epopeico, sintetizando muitíssimo bem o feeling geral, A Roupa Nova do Rei é algo que para a alegria e leveza do álbum para te fazer pensar um pouco. Um álbum alegre, porém tenso, jovial, porém maduro ao tratar de temas políticos, no limiar do que poderia ser passado pelos censores.  
Promete pouco, entrega mais do que parecia dar, clássico do ROCK RURAL, álbum essencial para entender esse rock mineiro e o rock nacional dos anos 70 como um todo.
Músicas puláveis: Muito Triste, Circuito Universitário.

Melhores músicas: A Roupa Nova do Rei, Muro da Vergonha, A volta Do Filho Pródigo, Quem Sabe Sabe Quem Não Sabe Não Precisa Saber, Roupa Prateada 

Recomendo para quem gosta de: MPB, Rock psicodélico, Rock dos anos 70, Clube da Esquina.

  • Informações Chatas:
    Lista de faixas

  • Quem Sabe Sabe Quem Não Sabe Não Precisa Saber 2:43
  • Muito Triste 3:44
  • Compota De Cereja 1:55
  • Roupa Prateada 3:24
  • A Volta Do Filho Pródigo 3:07
  • Muro Da Vergonha 3:10
  • Circuito Universitário 3:59
  • Noite De Sábado 3:07
  • Um Rock P'ras Futuras Gerações 2:12
  • Cadeira Vazia Nº2 3:21
  • Os Bons Velhos Tempos (Estão De Volta Outra Vez) 3:33
  • Não Perca O Final 2:45
  • A Roupa Nova Do Rei 0:48

  • Ficha técnica
    Arranjo por
     – Zé Rodrix (faixas: A, B1 to B5, B6b)
  • Arranjo – Waldyr Arouca De Barros (faixas: B6a)
  • Backing Vocals – Francinette, Lizzie Bravo, Malu Balona, Márcio Lott, Roberto Corrêa (2), Ronaldo Corrêa*
  • Baixo – José Rosallis
  • Maestro – Waldyr Arouca De Barros
  • Dirigido por (Musical) – Maestro Gaya
  • Bateria – Gustavo Schroeter
  • Flauta, Sax Tenor – Aurélio Marcos
  • Guitarra – Paulinho De Castro
  • Orgão, Mandolin – Elias Mizrahi
  • Diretor De Produção – Milton Miranda
  • Remix – Nivaldo Duarte
  • Sax Tenor, Sax Baritone – José Albino Pestana
  • Sax Tenor , Flauta – Nivaldo Ornellas, Uratha
  • Trompete – Nilton R. Da Silva, Waldyr Arouca De Barros
  • Compositores – Maxine (11) (faixas: B1), Sá & Guarabyra (faixas: B4), Tavito (faixas: A5, B2), Zé Rodrix.
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