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Receita de bolo é tão fácil quanto dizem? X-Men '97 (2024)

 

Resenha SEM SPOILERS! 

Vou te falar, quando vi o trailer desse negócio fiquei até um pouco triste dos meus queridos mutantes serem mais uma vítima da cultura da lacração (piada) revival dos anos 90, ou seja, refazer obras muitos populares naquela época só pra arrancar dinheiro dos hoje quarentões. Saiu uma penca de filme HORRÍVEL nessa pegada, Indiana Jones, Pequena Sereia, Rei Leão (e os outros milhões de "live actions" da Disney) e The Flash que trouxe o Keaton como Batman de novo, totalmente não solicitado. 

Vendo esse histórico e o debate de "crise criativa" em hollywood, quando sai uma produção dessas você fica com o pé atrás, mas... Não é que começou a ser bem falado? Me Convenci a ver e não me arrependo. 

Já digo: X-Men '97 VALE A PENA DE SER VISTO, não é só uma obra boba que se apega a nostalgia como único recurso. Vamos investigar como isso é feito...

 Ele tem o mesmo trato com as obras originais que Pabllo Vittar teve em Batidão Tropical 2 (Confira a resenha) que é trabalhar dando um passo pra frente e não olhar pra trás. Isso fica muito claro quando não recorre a um período em genérico, esse é o erro de muitas produções que tentam apelar para nostalgia, não definem um modelo para se inspirar e ficam supracitando coisas aleatórias. Ou só pega as coisas mais famosas.

Vou dar um exemplo. Se fosse uma obra que só apegasse na nostalgia sem fundamento, iria ter um monte de música de rap aleatória, isso é bem anos 90, mas não tem nada a ver com os X-Men (sem um encaixo pra isso ser feito, deixando claro). O trabalho não é feito para você lembrar como era bons os tempos de criança, pelo contrário, ele tem a mesma estética e estrutura narrativa das histórias daquele período, gasta suas energias em sintetizar o movimento estético da época, do que meramente reproduzir coisas já prontas. 

Exatamente como Pabllo Vittar faz em Batidão Tropical (tanto 1 quanto o 2), não é tratar o antigo como antigo, mas tratar o passado como uma memória viva, que ainda pode ser plenamente reproduzida e dar bons frutos, basta ENTENDER o objeto que se tem nas mãos. Um exemplo contrário do que estou explicitando é a porra do Batman do Keaton reaparecendo quase QUARENTA ANOS DEPOIS e aquele bem fraquinho do Spielberg, Jogador Nº1 (2018):

tudo isso pros nerdola ficar apontando pra tela "olha ali olha ali caraca velhooo"

Assim como outras obras, apesar de jogar na tela ostentando compra de direitos de imagem não conseguem replicar a sensação/estética dos filmes do período, ficando em um tipo de vale da estranheza narrativo onde o personagem ou objeto da história é antigo, mas todo polido para os padrões atuais, não tendo competência de reproduzir a estética anterior e nem coragem de romper para fazer algo totalmente diferente. 

 X-Men '97 é dotado de PERSONALIDADE que é advinda da competência em entender o que é X-Men e o que foi X-Men dos anos 90. e dir mais, consegue SUPERAR o desenho original (X-Men de 1992), quando dá justamente mais PERSONALIDADE as personagens femininas, só olhar o próprio visual delas, deu uma ajeitada na anatomia e agora não se parecem mais com figuras de filmes eróticos:

Vampira no desenho original.
É justamente a necessidade de dar o passo para frente, chegar onde a obra original não conseguiu por questões de limitações técnicas (o visual do desenho de 1992 é bem esquisito) ou limitações ideológicas. Atualizando, encaixando para o mais razoável nos tempos atuais, incluindo o traço, que tá bem mais limpo.

Reproduzir a estética e elementos não significa repetir os erros, ao mesmo tempo não é sobre fazer diferente, mas revitalizar, por isso, tem algumas mudanças estéticas. Diria que são mais correções que casam melhor com a proposta do desenho, o seu objetivo final é bem delimitado, adaptar as histórias do Chris Claremont (tão falado aqui) junto com os personagens do desenho Original (que foram baseados nas histórias do Chris), só que tem um porém! Não é qualquer história do Chris, é especificamente do período Uncanny X-Men #200 pra frente. Isso fica bem evidente no visual da Tempestade, que tá com aquele moicano maravilhoso. 

Dois fatores que são bem Claremont é o ritmo frenético que é quase de HQ mesmo, o que gera uma enorme exaustão mental nos personagens, marca registrada do período e um protagonismo melhor elaborado de personagens femininas. Coisa que é bem rara nas produções de herói, esse é o diferencial muita das vezes.

Há também a velha história de genocídio e debates raciais. Mesmo que as abordagens mais modernas falem de questões de gênero de sexualidade (como o filme de 2000 e Grant Morisson) pelo menos em minha percepção não está presente aqui de forma tão clarevidente. 

Diria inclusive que a obra é bem discreta no quesito inovação, se arrisca muito pouco, não ousa mexer em muita coisa. É uma receita de bolo, que por muito tempo o meio nerd usou quase como uma forma pejorativa pra dizer que é fácil de fazer, apenas te desafio a fazer aquele bolo de fubá que tua vó fazia todo domingo, cê num ia conseguir... Porque em um bolo até se você errar a porra da temperatura do leite já foi, estraga completamente, além das texturas, sabor e outros fatores. Ou seja, pra fazer algo na base da receita de bolo, precisa saber cozinhar. X-Men '97 consegue aplicar a receitinha do vovô Claremont na medida certa.

É mais uma inteligência em saber dosar os ingredientes já estabelecidos, do trazer algo novo. O confortável ainda é capaz de levar a bons caminhos, quem precisa inovar quando se tem X-Men?

Por isso serve bastante para quem já conhece as histórias dos mutantes e vai saber se situar em qual período estamos e também vai servir, pelo seu modelo narrativo, pra quem nunca viu nada dos X-Men. Porque se parece muito com os desenhos que eram mostrados na TV Globinho e Bom Dia e Cia, porradaria comendo solta, arcos bem curtos de história. A dublagem tá maestral. Não consigo elogiar mais do que isso.

Apesar de tratar de assuntos como genocídio, o desenho é leve, colorido e até brega (no bom sentido) em alguns pontos, me trouxe a infância quando eu via X-Men Evolution na SBT, mas sem necessariamente precisar copiar nada ou esfregar na sua cara dizendo "SINTA SAUDADES SINTA SAUDADES".
"Sinta nostalgia Sinta Nostalgia... Compre remake pro seu millennial" 

É mais efetivo em alguns casos entregar algo no sobretexto do que expor para o mundo o que você está pensando. É claro que eles estão se apoiando na nostalgia também? Sim, mas esse não é a força motriz do desenho. Parece só mais um remaster/remake/reboot, entretanto X-Men '97 pode te pegar desprevenido, apesar de prometer muito pouco e jogar em um terreno certo, acerta na mosca em sua proposta e entrega um trabalho muito sólido.

Solidez, personalidade e frescor ao invés de cheiro de morfo... Não é sr. Keaton? 


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Pabllo Vittar - Batidão Tropical Vol. 2 (2024)

 


Informações quentes: 
9 de Abril de 2024
14 músicas, 34 minutos
Forró, Brega, Tecnobrega, Melody, Piseiro a peste e o caraio tudo 
Sony Brasil

Se recuperando de uma tal Noitada que virou flop busca inspiração na sua raízes (de certa forma uma zona de conforto) Pabllo Vittar continua o projeto Batidão Tropical três anos depois do primeiro título e na boa, estamos em abril e já é o melhor álbum do ano. 

Pouco antes de falar do álbum eu preciso dizer que sou fã, muita fã, da Pabllo por um valor que prezo muito nos artistas que escuto: conseguir trabalhar em qualquer ritmo/gênero. Assim como o Prince, que é bastante próximo ao funk no começo da carreira e depois consegue cantar qualquer coisa, Pabllo Vittar tem essa qualidade parecida, ela se sai muito bem em qualquer coisa que se proponha a fazer, não é um indicativo de ser "melhor ou pior" (vamos parar de pensar tudo em ranking) apenas uma característica que me agrada bastante, então tenho mais facilidade em digerir tal projeto. Mesmo em zona 'habitual' entrega e ousa a apresentar determinada coisas, mas vamos com calma. 

Antes de mais nada, em nossa ritualística padrão, havemos de falar da capa primeiro. Com menos cores do que o primeiro título, mas mantendo o mesmo calor tropical presente, tonalidades quentes, uma paleta de cores bem discreta comparada a discografia da drag fontes bem blocadas e tímidas em vermelho com um "tropical" cursivo com um degradê entre o amarelo e o vermelho, bem ""anos 80"" o que nos indica um apelo a nostalgia, fato que pode ser observado com o "selo" de volume 2 no finalzinho do nome do álbum. 
Essa fonte cursiva misturada com texto blocado bem centralizado em cima do CD é um clássico das bandas de forró do período, isso denuncia a intenção de nossa querida Pabllo ao apresentar essa capa. A inspiração é mais "forrólesca" do que brega nesse caso.

Como em algumas que mostrarei embaixo: 

Clássico.

Pabllo bebe bastante dessa banda, falo depois

A capa da Magníficos também tá presente o degradêzinho, existe outros milhares de discos com mistura de fontes e cara, peak of design, termos que admitir. 

Resumidamente, a capa apresenta o mesmo calor do primeiro batidão tropical, mas dá alguns indicativos bem claros e consegue "atualizar" a estética do forró do finalzinho dos anos 90 comecinho dos anos 2000 sem parodiar nenhuma banda e ao mesmo tempo sem fazer algo genérico e sem personalidade, tem personalidade e tem apelo a saudade ao mesmo tempo.

Saindo inclusive em uma espécime de "revival" de algumas músicas consideradas retrô, fenômeno conhecido como báu pelas bandas antigas e contando com regravações ou até ressucitação de estilos praticamente mortos, como as músicas de vaquejadas (tipo Kara Véia) que voltaram a ganhar popularidade com Tarcísio do Acordeon, João Gomes e outros cantores que bebem dessa fonte. 

Esse último parágrafo resume tudo que eu tinha pra falar desse álbum, então é uma bela de uma capa que transfere precisamente o que o album precisa. Então assim que arrochamos o dedo no play vem...

Uma bela guitarrada de Pra Te Esquecer uma música do Calypso Algumas coisas presentes nessa música vão se estender ao resto do projeto, termos a clássica batida desse brega-pop (tipo Calypso**) com uma bateria bastante presentes, instrumentos de sopro, aquele guitarra mastigadinha com harmonias curtas e estrofes pequenas, o riff dos instrumentos de sopro são bem chicletinhos e precisamente todos os elementos da música da época.
** Eu NÃO SABIA que essa música era da Banda Calypso, descobri revisando o texto, então mesmo sem saber que era uma música regravada, ela me passou a impressão da música do período. Puxa vida... 

Não entendo NADA de brega paraense, mas aos meus ouvidos seria algo entre o "pico" do gênero, que é no período metade dos anos 2000 até o estourar dos anos 2010 (ou seja uns 2005-2012), só que com um porém, um polimento melhor na sonoridade até porque Pabllo tem muito mais recursos de produção hoje em 2024 do que essas bandas da época. Também um elemento bastante interessante na forma de cantar, não tenho outras palavras a não ser mencionar que ela "canta gemendo" (por mais hilário que pareça, não tem termo técnico para isso) o que também é beeeeem comum para as bandas do período, ao que me parece, um pouco abaixo do seu tom habitual que se aproxima melhor da voz da Joelma. 

Depois vem Idiota (música inédita talvez?) um tipo de forró atual (estilo Mari Fernandez, Fabinho Testado), um piseirinho bem básico sobre sentar em ex, nada diferente do gênero. Te falar, não que o arranjo do Mataderos tenha ficado ruim, mas se fosse uma seresta ou na pegada mais arrocha mesmo, acredito que ia dar um caldo muito mais palatável (pra mim) do que essa pegada de piseiro. Vou esperar sair a versão do Unha Pintada (cantor de arrocha daqui de Sergipe) para dar uma opinião melhor. 

Agora, Pede Pra Eu Ficar que é uma versão "traduzida"(na verdade brasileira mesmo) de uma música da Roxette (essa aqui) a senhora Pabllo Vittar entregou TUDO, foi o primeiro single lançado lá pra dois meses atrás e eu fiquei sem acreditar. A primeira coisa que veio a minha mente foi "caralho ela imitou aquela bandas de forró antigo" daí ela lança um álbum com estética de forró(e brega) antigo, isso é tudo que preciso dizer.

Ao traduzir uma música de tiozinho dos anos 80 Pabllo desmontra suas credenciais e entende perfeitamente o tipo de público que quer antigir com o projeto, é uma demonstração perfeita da estética que está visando sem precisar parodiar ou fazer uma caricatura de uma banda determinada, com o aportuguesamento fica evidente que é uma pessoa que ENTENDE claramente do assunto e tem propriedade para brincar com o gênero. 

Essa música poderia ter sido lançada, sem mudar uma vírgula da letra, pela banda Noda de Caju, Baby Som, Forrozão Tropykalia ou até Calcinha Preta ou seja, é a perfeita continuação do trabalho artístico feito no perído, uma continuação, um prosseguimento do legado de um gênero tão popular em nosso nordeste, é um passo a frente, sem pretensão alguma. 

Esse é erro muito comum de representação da cultura nordestina mídias a fora, inclusive em algumas feitos por alguns nordestinos (não vou querer mencionar aquele álbum tosco da Juliette). Na verdade uma série de erros, o primeiro é a caricatura, puxar só cacto, sertão, seca e chapéu de couro, não que esses elementos não façam parte da cultura nordestina, mas eles são mais efetivos para compor um personagem do Zorra Total do que um reconhecimento do nordestino nessas figuras. O outro elemento que se peca bastante é a paródia, a quase imitação de algo que já fez sucesso por aqui e daí fica algo meio tosco, forçado e pouco convincente, que na minha opinião entra o filme Bacurau (2019) um tipo de paródia de cidade pequena, que não me pegou legal. Continua sendo um filme decente. Alias tem bilhões de cidades fictícias na mídia tipo Bacurau. 

Longe de mim julgar produções que tentem reproduzir determinado período histórico (nesse caso o forró dos anos 2000) ou culturas como um todo, aliás uma tão complexa e rica como a nordestina até porque são NOVE estados, é um trabalho díficil, onde muitos se trupicam, mas quem consegue exercer com precisão sempre se destaca e ganha reconhecimento, do mesmo vale para a série Cangaço Novo, que tem uma resenha aqui nesse blog. 

Já que mencionei a obra, ela tem as mesmas valorações que Pede Pra Eu Ficar, faz o simples que dá certo, e as vezes a simplificidade consegue abarcar todo contexto cultural necessário e toda carga precisa para entender alguns temas, é o caso da música aqui, uma simples versão brasileira que só quem nasceu no nordeste ou viveu aqui no período sabe reconhecer a beleza e os objetivos da música. Acerta em cheio e puta que pariu QUE SAUDADES de músicas gringas traduzidas, melhores do que as originais, diga-se de passagem. 

Todo o exposto sobre o nordeste que apresentei aqui, se faz presente no brega que a Pabllo Vittar trouxe no álbum, mas estes tenho pouquíssimo repertório para falar, pois não entendo nada da cena mesmo assim a apresentação é agradável e conssoante com o resto do álbum não havendo uma divisão clara entre "momento brega" e "momento forró", ambos sempre se relacionaram bastante, havendo pontos de intercessão entre eles, esse álbum é um deles. 

Rubi que é originalmente da Banda Djavú. E cara, alguém desavisado pode achar que a música é original tá? Muito bem encaixada e muito bem regravada em comparação a original, não deve em nada o arranjo tecnobrega feito. Aliás só pesquisando hoje eu descobri que a Djavú é uma banda baiana, fica a informação.

Também na sequência termos São Amores que é originalmente do Forró Miúdo e que arranjo gostinho, a voz da Pabllo em seu belo tom habitual se encaixa muito bem no tema, uma boa escolha pro repertório. 

Achando pouco, a bonita decide regravar uns dos MAIORES HINOS da nossa música nacional, Me Usa, apenas. Cara, essa música me extraiu emoções que... Nossa, é algo inesperado; fantástico, pra não falar dizer magnífico e fazer trocadilho com a música. Bem, a versão da Pabllo não deve em nada em relação com a música original e é tão boa quanto, dá pra notar naturalidade de quem cresceu ouvindo esse tipo de música e hoje tem oportunidade de regravar. 

Vem uma regravação de uma música da Gaby Amarantos (uma música do Roxette de novo) junto com a própria Gaby, ok.

Só tenho a dizer que Pabllo Vittar gravou junto com Taty Girl, pra quem não conhece é uma verdadeira lenda viva do Forró eletronico/romantico chame como quiser, uns dos maiores nomes e cantou inúmeros sucessos, seja em carreira solo seja no Solteirões do Forró ou Forró Real, sou fã pra caralho, não esperava ouvir as duas juntas. Sem palavras totalmente me pegou com as calças arriadas. 

Nos finalmentes termos, nas Ondas do Rádio da Banda Companhia do Calypso que é a única música com o ritmo levemente diferente da original, mais 'piseirada'. Depois com Ai Ai Ai Mega Princípe da Banda Batidão que tem uma pegada muito diferente, se destoa bastante do resto da estilística do álbum.  Realmente é uma pegada muito diferente e pra fechar o caixão, Não Desligue o Telefone da Banda Djavu que tem uma pegada um pouco mais techno do que brega, mas é um mero detalhe, não me agradou bastante. 

Caixão e vela preta, está acabado Batidão Tropical Volume 2 

Resumidamente o álbum é uma coletânia de raízes da maranhense Pabllo Vittar com uma excelente música original no meio, ou mais de uma, não se Idiota é original ou não. Arranjos bastantes respeitosos sem um clima de homenagem que o EP recente pro Luiz Melodia tem. Estando mais na real regravação do que uma efeitiva homenagem. 

Tem um clima de na real apreciação, de celebração da cultura popular, que geralmente é escanteiada por ser "música meme" e tem pouca valoração artística no público geral. Eu digo com isso porque bandas como a Banda Djavu viralizam por serem 'engraçadas' ou enfadonhas, mas não no sentido leve da coisa e sim como algo que fosse de baixa qualidade, entendem? As vezes destacam só o amadorismo os poucos recursos e com isso acabam, mesmo viralizando a obra, a diminuindo de sua importancia na cultura brasileira.  
Ou seja, o povo acaba tendo uma vergonha de si mesmo ou vezes nem leva a sério, ainda assim há muitos que sentem saudades desse tempo e nessa saudades, não uma nostalgia barata, que se apoia todo o projeto. 
A nostalgia pode levar a um sentimento reacionário bastante comum de achar que tudo antigamente era melhor, mas na verdade você não sente falta da Banda Djavú, você sente falta das condições econômicas da época, idade mais jovens, das festas e uma vida com menos responsabilidades.

Saudoso, respeitoso e música popular levado a sério, é um belo extrato da marginal mercadológica brasileira, comendo igual a mingau quente, pelas beiradas. É um passo da frente ao invés de um olhar pra trás, um sopro de alívio e certeza que a nossa cultura continua viva. A cultura do forró é um gigante gesto de indepência cultural dos grandes artista e mídia do "eixo" (RJ/SP) que PRECISA ser tão levada a sério quanto. 

Mesmo com uma carga cultura fortíssima, o álbum funciona até para quem não entende de cara as referencias, por exemplo eu não conhecia nenhuma das músicas bregas regravadas, mas ainda sim ele funciona por completo, por casar muito bem os elementos de (tecno)brega e forró, é um ode a cultura e um ode ao amor. 

Por mais que pareça estar mais próxima e uma aparente zona de conforto, ousa na escolha de algumas músicas, percorrendo caminhos menos óbvios, o que garante PERSONALIDADE ao projeto ao invés de recorrer a escolhas preguiçosas. 

Esse álbum é um belíssimo convite ao norte do país para quem desconhece e um excelente passo adiante da nossa riquíssima cultura. Uma veradeira maniçoba, com gosto forte, convicta em si mesma e sem a menor preocupação de desagradar quem ache a aparência feia.  
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Pérolas Negras - Um Tributo Á Luiz Melodia (2024)


Informações legais:
2024
Universal MUSIC
MPB
Pouco mais de 10 minutos. 

Essa vai pra quem fala que esse blog só trata de velharia. No dia 6 de fevereiro a Universal de 2024 lança esse sinlge em homenagem aos 50 anos do álbum Pérola Negra, de 1973, sem palavras para tal, é o cartão de visitas do Luiz Melodia, um compositor responsável por inúmeros e inúmeros marcos da nossa música. O album conta com Sandra de Sá, Liniker, Zezé Mota, Analis Assumpção, Mahmundi e Mart'nália.

São cinco músicas selecionadas, será que ficou bão?

Pérola Negra - Criolo, 
Bastante fiel a versão original (a versão original é da Gal Costa (71) na verdade, original quis dizer do Melodia de 73), tem um ar de amadorismo no bom sentido, de parecer aqueles covers relaxante do youtube, uma sensação bastante confortável, música que o violonista (Webster Santos) e o Criolo gravaram em uma sentada, na paz e é um clima agradável para um álbum de tributo. Realmente é uma forma de "atualização" a versão de 1973 para 2024, porque mesmo em época e sonoridade diferentes, tem a exatamente mesma sensação. O que ajuda é o Criolo ter um timbre bastante parecido com o Luiz Melodia. Ainda assim, pessoalmente prefiro a versão da Gal Costa com a boca maior que a Bahia gritando "PEROLA NEGRA NEEEEEEEEEEEEEEEM SEI SE TE AMOOOOOOOO". De qualquer forma, uma excelente interpretação do Criolo, Webster e o clarinete tocado pelo Ivan Sacerdote. 


É uma música que eu sei tocar no violão, falo com propriedade que o Webster Santos detonou aqui. 
Fica de fun fact que essa música foi escrita para uma travesti, explico melhor numa resenha do Fa-Tal ou do próprio Pérola Negra algum dia. 

Estácio, eu e você - Mart'nália,
É uma das minhas músicas favoritas do Luiz Melodia, joguei grandes expectativa nessa. Ninguém melhor do que a Mart'nália para cantar, a versão soa muito mais limpa, mais 'bossa novística', com mais uma vez o Webster Santos roubando a cena, arriscaria dizer que o violonista desse álbum é a melhor coisa dele vou até parar de mencionar do coitado. No lugar da famosa flauta de Estácio, Eu e Você tem um sintentizador que de dá um ar da graça. Mais uma vez aquele elemento de 'atualizar' a música.

Estácio Holly Estácio - Mahmundi,
Arriscaria dizer, que na voz do Melodia, é a sua canção mais conhecida, ninguém menos capacitada para assumir essa bronca do que Mahmundi, que também é produtora do single. Entrega tudo, está a caratér. Cumpre bem a função, o violão é mais forte aqui, a percusão só da ritmo mesmo. Dá pra dizer que é a principal música do single porque é a música mais Melodia possível, da forma mais melodiosa possível. Mas nada de extraórdinário.
Não conhecia a Mahmundi, me interessou, vou ouvir mais dela daqui pra frente. 

Pra Aquietar - Sandra de Sá,
A música começa com uma cuíca gostosa, quebrando esse tom de música de barzinho que o álbum estava tendo, Sandra de Sá se divertiu cantando essa e até puxou Juventude Transviada no final, é uma música mais distoante das demais e ninguém melhor do que Sandra de Sá para fazer isso. A versão original é um suíngue fervoroso, devidamente equiparado com a do single analisado agora. Achei inteligente puxar para samba, ao invés de mais rock, como a de 73, iria quebrar muito a pegada do álbum, então mesmo sem respeitar o disco original, o single sabe como trazer seus elementos. 

Magrelinha - Zezé Motta, Anelis Assumpção,
Eu estava sentido falta do piano, que não tinha sido exatamente um problema nas outras músicas, ele chega em Magrelinha, mas meh. Achei paia, as interpretações entregam algo muito menos dramático que a música demanda, não que seja ruim, mas não curti. E NÃO TEM A FAMOSA GUITARRINHA NO COMEÇO, só pontuando isso.

Vale Quanto Pesa - Liniker, 
Eu não tenho palavras para descrever a Liniker, ver ela cantando Melodia é algo fodástico, disparado com um pé nas costas a melhor canção do álbum, ponto, ESCUTEM, sério. Vale Quanto Pesa também é uma das minhas favoritas do Melodia, e do álbum Perola Negra logicamente, como fã pessoal da música em específico, a interpretação está superando até as minhas próprias expectativas. Liniker + Luiz Melodia não tinha como dar errado, tudo isso que tenho a dizer.

Num geral:
 é um single muito respeitoso com a obra original, decisões conservadoras de produção (por exemplo o Lulu Santos lançou uma música com o Papatinho e João Gomes ano passado, sim o Lulu Santos tem oficialmente um piseiro) o que garante o seu relativo sucesso em "tributar" o Luiz Melodia, apostando pouco, se acerta mais. Uma das grandes surpresas que você pode tomar é ouvir Liniker, que é a minha favorita nesse single. Outro ponto magistral é Webster Santos colocando todas as músicas embaixo do braço, se fosse só instrumental de violão, valeria muito a pena. O single é conciente de suas próprias qualidades, sabendo explorar muito bem o de melhor que pode oferecer. 
Vale a ouvida, recomendo para os apaixonados MPB

Informações chatíssimas:

Vocalistas: Anelis Assumpção, Zezé Motta, Sandrá de Sá, Mahmundi, Mart'nália, Criolo e Liniker

Violão: Webster Santos

Clarinete: Ivan Sacerdote.

Produtor, Co-produtor e Synth  Pads: Josefe,  Mahmundi

Arranjo: Josefe

Piano: Samuel Silva (Sam Jazzy)

Compositor: Luiz Melodia

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Reinventando a roda: Cangaço Novo (2023)


Ubaldo, O homem que vai salvar o cinema nacional?

Informações legais:
Ação/Faroeste/Drama
Ano: 2023
Direção: Fábio Mendonça e Aly Muritiba 
Roteiro: Eduardo Melo e Mariana Bardan 
Produzida pelo O2 filmes
Série original da Amazon Prime Vídeo Brasil

NÃO CONTÉM SPOILERS 
(nenhum grave pelo menos)

Acabei de terminar a primeira temporada, Cangaço Novo não tem nada de especial, não tem nada de inovador, não tem nada que o faça um grande marco na história do audiovisual brasileiro, mas possui grande qualidade, e está nas graças do público, com muito méritos, muito méritos mesmo. 

Infelizmente de algum tempo pra cá se ganhou uma cultura muito tóxica que toda obra tem que ser densa, que ter conteúdo, tudo é conteúdo, tudo tem que ser motivo de debate. O sarrafo de produção mainstream não é mais aquela bobajada dos anos 90/00 o público hoje quer pensar, nessa pegada sai filmes como Bacurau (2019) ou O Poço (2019). Isso prejudica a vontade de consumir obras mais ""simples"", como filmes de ação, que é o caso de Cangaço Novo, por ser cliché, por ser batido e coisa e tals. Seria isso um elitismo cultural? 

Vamos com calma, vamos devagar.

Nós, nordestinos, vivemos um imenso traumas de atores paulistas/cariocas, atuando de forma jocosa, representarem o nordeste, isso é culpa da globo (leia-se mídia mainstream no geral). a Globo inventou que o baiano fala meu rei, a globo inventou que todo nordestino no sul é a porra de um zelador ou empregada doméstica, a Globo que inventou a Juliette ou que tudo que é relacionado ao nordeste tem que ser comédia, as produções atuais do nordeste são comédias em 90% dos casos, cheio de caricaturas e esteriotipos que enchem o saco. E não estou desvalorizando a comédia, também são de qualidade.
 Por isso que quando brota uma produção que diz ser "do nordeste" os próprios nordestinos ficam bastante receosos, não cria um interesse nato, foi o meu caso quando vi Cangaço Novo em anúncios, o primeiro pensamento foi "ah, isso deve ser só uma produção no meio do sertão com um jegue, um cabaré e um barzinho, ninguém aguenta mais" mas muito pelo contrário, Cangaço Novo investe num segmento pouco utilização no Brasil: a ação.

Não tem nada pra abrir os dentes nessa série, é uma produção de ação, um drama de fato, em pleno nordeste. Coisa rara levar nossa terra a sério.

Cangaço Novo não é feito "pro nordestino" ela é feita DO nordestino, da gente pra gente.

E do que a série se trata? De Ubaldo Vaqueiro (Allan Souza Lima), um ex-cearense que vive na zona sul de São Paulo, começamos o episódio piloto com ele sendo demitido do banco, enquanto seu Ernesto (Rodrigo Blat), seu pai está internado em condições graves de saúde. Ubaldo descobre mexendo nos documentos de seu pai que ele possui uma herança em seu nome, lá no interior do Ceará, sua terra natal - que mais tarde descobrimos que é Cratará - onde a população vive a eterna lembrança do pai biológico de Ubaldo, Amaro Vaqueiro, uma figura quase beatificada, que deixou alguns bens. Ao chegar em Cratará, conheça suas irmãs, Dinorá (Alice Carvalho) que tá em uns corres de assalto a banco com sua quadrilha, justamente na modalidade do novo cangaço - daí que vem o nome da série - esses assaltos rápidos e bastantes violentos. Também Edilvânia (Thainá Duarte). Ubaldo é capturado pela quadrilha do novo cangaço durante um assalto a banco e para poupar a própria vida, faz a promessa que irá garantir assaltos melhores. E assim termos o enredo, num roteiro bem fechadinho inicialmente e bem conectado.

Vou começar pelo mocotó de aquiles que são as atuações que deixam a desejar nas cenas de drama, uma história audiovisual é sustentada pela direção, roteiro e atuações, se pelo menos dois elementos da obra foram bons, a obra será boa, é o caso de Cangaço Novo, atua bem quem precisa atuar bem, os periféricos deixam um pouco a desejar, mas nada que irá atrapalhar a sua experiência. O roteiro é conectado de uma forma excelente, porém ele não é fechado, já que acaba com tudo aberta, prontinho pra engatar a segunda temporada.
Outro "defeito" que posso pensar é que ela não é maratonável, explico, cada episódio tem 50 minutos, ao todo são mais de 8 horas de série, os episódios inciais são arrastados, meio sem lenço e sem documento, não está estabelecido ainda onde a série passa, porque só descobrimos o nome da cidade lá pra quase na metade. Então eu recomendo tu ver metade da série em um dia, e a outra metade em outro. Porque a partir de um ponto a série joga fora a premissa estabelecida no seu episódio piloto, vira uma série sobre outra coisa. Mas ainda é um western, e continua sendo de ação. A passagem de bastão é feita de forma suave, com a apresentação de novos personagens, como Zeza (Marcelia Cartaxo), Leinneane (Hermila Guedes). Dividir e consquistar assista desse jeito

Mas entendam, as atuações são boas, Alice Carvalho que faz Dinorá tá no papel da vida. Será lembrada por quem viu a série, o principal, Ubaldo anda sempre com aquela cara de azia, Allan Souza Lima entrega muita bem uma pessoa não tão agradável de olhar, sempre incomodado com algo. Bichinho, deve ser genética mesmo.

"aquele Yakisoba desceu mal pra caramba"


Falando do roteiro, ele se apoia um pouco na jornada do herói, mas as decisões narrativas tomadas não levam a esse caminho, se fosse uma obra genérica, Sabiá (Adélio Lima*), por exemplo, seria esse mestre que guiaria Ubaldo do mundo sem graça de São Paulo, para o fantasioso mundo do sertão Cearense. Mas a introdução é 1/4 da jornada do herói, vem o chamado, negação do chamado, depois toma seus próprios rumos. O desenvolvimento de personagem de Ubaldo é surreal, muito bem feito, pense em um caba bem lapidado durante a série.
*Ele mesmo, que fez o Gonzagão no filme Gonzaga de Pai pra Filho (2012)

A rima narrativa dele conhecendo o seu passado e o passado de seu falecido pai é sublime, porque a cada começo de episódio  termos o passado, que parece ser uns 30 anos atrás... ANOS 90, sim o passado é nos anos 90, se for vinte anos, é anos 2000, que nós vamos descobrindo o passado de Amaro, ao mesmo tempo que Ubaldo vai descobrindo seu presente, e olha só, ele repete a história do pai. Essa rima é incrível, uma série muito bem escrita e planejada. 
Interesante também observar como Ubaldo sai de alguém invisível (bancário e militar), entocado no meio dum apê bem merda em São Paulo, para uma figura esperada, aclamada, um salvador, o filho de Amaro Vaqueiro.
Ao mesmo tempo que vai de alguém que é cerne do sistema, banco e forças armadas, para um completo marginal.

E a pomba do roteiro ainda termina sem fechar o arco, Amazon Prime lance a segunda temporada logo! 

Nisso comparo com a queridinha fase Joss Wheldon do X-Men, algo "simples" porém excelente pelas escolhadas tomadas, não por sua premissa.

A ambientação é perfeita, foi o que me fez apaixonar pelo seriado, porque eu moro numa cidade como Cratará e Cratará não tem nenhum tipo de fantasia, é só a população vivendo sua vida, a série se passa ficcionalmente no Ceará, foi grava na Paraíba e tem atores pernambucanos (quase a maioria), não tinha como dar errado.
Eu diria que tem mais clima de roça do que sertão.

A perfeição não mora na excelência exacerbada, mas na dosagem dos elementos na medida certa. Algo perfeito é algo equilibrado.

"Perfeitament balanceado, como todos as coisas devem ser."


 É uma retração meio seca (sem piadas em relação a isso), mais figurativa ("realista"), não está preocupada em ser "nordestina" o suficiente, todo esse estigma é plano de fundo, eu não vi presente nenhum daqueles esteriotipos preguiçosos que existem nas outras séries, é como disse um nordeste levado a sério. Não é assim:

Veja SP jumpscare

Uma coisa que um amigo meu relatou como atrapalhar a imersão foi a formalidade do texto, realmente não tá lotado daqueles bons palavrões nordestinos, como "raio da silibrina", faz bem roteiro em não optar por eles, porque é sempre engraçado pra caralho, até quando a gente mesmo fala entre a gente. Isso se dá porque a série não está preocupada em ser nordestina o suficiente. Ela é nordestina, e pronto.

A bandidagem não é algo nem banditismo social como algumas pessoas interpretam o cangaço original, nem uma marginalidade danosa e parasita como Tropa de Elite (2007) mostra, ou seja, não rola nem uma romantização boa nem ruim, é uma apresentação da bandidagem de uma forma parecida a qual o rap mostra, essa série combina com Artigo 157 do Racionais MC's, algo que combina muito com filmes de faroeste não é? 
É  uma representação interessante para esse segmento de assalto a banco, não tem nenhum superplano mirabolante, é um bando desorganizado, que não tem um líder, não tem um objetivo fora ganhar dinheiro. 

Apesar da representação seca, é óbvio que o fenônemo de assalto a banco em cidades pequenas não funciona desse jeito, nisso há uma romantização, no sentido de ficção da palavra.

Também perpassa por uma espécie de fantasia vivida pelos assaltantes, essa sensação boa de estar no poder, não atoa eles humilham a população, mandam tirar as camisas, roubam os celulares, estão rindo o tempo inteiro, atiram para o alto comemorando e vivendo a adrenalina. Ninguém ali rouba porque precisa. É isso, ninguém vive um estado e penúria, é só o corre, o corre pelo corre, porque o sistema é ruim, mas nóis é pior. 

A pior coisa que você pode fazer para uma minoria é infantilizar ela, como se fosse inocente, nunca tivesse errada, então essa representação de dúbia, é muito bem representada.

De antemão digo que rótulos irão atrapalhar a sua experiência em Cangaço Novo, não pense nos vilões e nos mocinhos ainda, é um típico western, porque veja, um protagonista que não conhece seu passado, entrando como forasteiro numa cidade pequena, dentro de um clima de alta bandidagem e tiros, muitos tiros. A ação em Cangaço Novo é o ponto mais fortes, excelentes sequências de ação.

Dirigir cenas de ação não é fácil, muitos diretores optam por cortes infinitos, montagens confusas e explosões, o senhor Michael Bay que o diga. A direção opta por um ritmo mais acelerados nas cenas de ação e demonstrar claramente o espaço o qual a ação acontece, durante os assaltos a banco todos os participes são mostrados, até aqueles que estão esperando do lado de fora, o que cria essa tensão. As cenas de luta física, sim, tem várias, é luta de cachorro, closes de corpo inteiro, coreografia brutais, não tem nada de bonito, nem plástico, é briga pra matar mesmo. A trocação de tiro é padrão hollywoodiano mesmo.
Poucos closes, e bastante planos abertos valorizando o cenário.
A fotografia abusa da bela iluminação natural que nosso senhor joga na paraíba, planos abertos, planos de contraste com o sol, as cenas noturnas são lindas e o mais importante dá pra enxergar alguma coisa. Não existe a desgraça daquela película amarela de Breaking Bad, é a luz do lugar mesmo.

gravaram isso no terreno de vovó, não é possível


A direção opta por utilizar bastante sangue, mas nenhum gore, sem tripas voando ou decaptações exceto pelos animais, veganos não esquentem o juízo nessa série por favor.

(Apesar de eu citar Breaking Bad de novo, aquele filme do Luiz Gonzaga tem uma fotografia horrorosa, é um laranjão terrível, de doer das vistas)

Tá amarrado, que coisa feia.


Todo personagem nessa série é reconhecível, por isso o roteiro não demora tanto apresentando eles. Quem mora no nordeste conhece um Jeremias (Enio Calvacante), conhece um Sabiá, conhece uma Dinorá da vida, cada personagem é bastante crível com a nossa realidade, isso faz com muito méritos, a série foi escrita por quem sabe e vive a realidade a qual está escrevendo, Isso fica muito claro inclusive pelas roupas, e cada um se veste de uma forma própria, as personas tem BASTANTE personalidade e carisma, como você se veste diz muito sobre. 

Pra mim o melhor personagem representado é o Ameaço (Rodrigo Garcia), ele é branco, gazo mesmo, e é aquele branco nordestino que eu sei apontar claramente quem é e você sabe quem são se já viu um. 

Rapaz eu estudei com esse bicho no nono ano...
Outro ponto que garante personalidade a quadrilha são seus nomes, na verdade apelidos: Facão, Moeda, Tirolesa, Duzentos, Sivirino (que deve ser nome), Delegado Pixinga (Junior Black) etc etc

Eu compararia a quadrilha com os nórdicos de Vinland Saga (leia minha resenha sobre Vinland Saga aqui), já que falei de Vinland Saga, vamos para máxima, onde tem guerra tem política e Cangaço Novo, assim como Vinland Saga, não se furta de representar a política. 

Parte política de Cangaço Novo:

O debate mais aparente aqui é o de gênero, Dinorá é também filha de Amaro Vaqueiro, inclusive anda com o revólver do pai, mas nunca teve o prestígio de Ubaldo, que acabou de chegar de São Paulo. Esse debate não é feito de forma gritante, mas está sempre presente. Se comparei a série com Vinland Saga, Dinorá é a Askeladd, a série não é bem sobre ela, mas poderia ser...
Se estamos lidando com um grupo de criminosos, tem violência sexual, mas graças a Deus acontece apenas duas vezes na série, sem nada explícito, nem uma banalização da violência de gênero, como obras que são focadas em figuras propositalmente odiosas (geralmente homens) tem. Aliás não se tem também cenas em puteiros, ou as famosas primas, vocês sabem do que falo. Essa questão de gênero é muito bem tratada, bem abordada. 

Sério, eu fiquei tão feliz que não tem um puteiro em Cratará, só por merece um 10 de 10.

Dinorá é a famosa mulher durona, pero no mucho, ao decorrer da série vermos que é alguém só muito traumatizada, e não tem opção a não ser tão bicha bruta, famoso ou dá ou desce.

Além de questões de gênero, o ponto principal de Cangaço Novo, aquele momento de passagem de bastão que disse, é a luta pela terra, latifúndios drenando a água da população, o dono? Simplesmente a mesma família que está no poder a mais de 40 anos, tanto na prefeitura com o Gastão Maleiro (Bruno Berllamino) tanto no senado. Ora ora, uma família "tradicional" da região que mantém seu poder através da política, eu nunca vi isso antes em terras nordestinas. É a realidade apresentada, o jogo sujo da política de interior, paráfraseando a própria série:
"Até quando é guerra, é política"

A seca aqui não é uma condenação de Deus, é problema político! Pois os Maleiros estão drenando a água de terrenos locais, comprando açudes que eram público também. A população não é "resistência pura" porque no povo reside o impéto da mundança, mas sim porque é ou lutar pelo o que é seu ou morre de uma vez. Isso entra aquela velha máxima que se escuta bastante nas ruas, o Brasil não é um país pobre, só mal administrado, na verdade, sua riqueza tem servido para interesses errados.

Olha um ponto bacana, o problema em si não é o político corrupto, mas como os políticos servem aos interesses dos poderosos, isso quando não são eles a própria elite, ou seja, podem destruir determinado lugar de forma completamente legal. E isso é o mais perigoso, quando as coisas funcionam como deveriam, apesar de claro, é política de cidade pequena então tem corrupção a rodo.

Acho que vale uma comparação com Bacurau (2019), é bom entender que as duas produções tem plataformas e propostas diferentes, Bacurau se propõe a ser uma fantasia, uma fábula onde a lição de moral é a mensagem polítca, é mais pretensiosa, carregada, mais cabeça. Não atoa foi queridinho do campo político da esquerda, tem toda essa pulsão, porém, pra mim, Cangaço Novo tem mais personalidade que Bacurau... Acredito também que toca em debates que Bacurau não alcança por escolhas. O certo é, as duas obras são excelentes, compartilham de alguns atores como Junior Black (rip) e talvez seja um demonstrativo de uma nova leva de obras nordestinas por aí. 

Precisamos desfazer o impacto cultural do nordeste global.

Apesar de ser uma produção de ação nos modelos blockbuster, dá pra extrair bastante coisa, mas ainda é uma produção de ação...

Por útlimo, sua soundtrack, recheada de música dos anos 70, achei um MILAGRE não ter tocado Belchior, que é cearense inclusive, tinha o que encaixar aqui. Durante os episódios você vai ouvir Fagner, Erasmo Carlos, Quinteto Violado, obviamente AVE SANGRIA e Jards Macalé. A trilha sonora original reproduz aquelas típicas notas de filmes de faroeste, mas com instrumentos daqui mesmo.

(lengo lengo tengo lengo tengo lengo tengo)

Em um apanhado geral,
Cangaço Novo não tem nada de extraórdinário, a sua qualidade está mais na execução do que na ideia. Conta com boas escolhas narrativas, um ritmo que se arrastar no começo, mas depois engata bem o resto da série, uma representação honesta do nordeste e da pilantragem, personagens dúbios e cheio de carisma.

É mais ou menos Breaking Bad se tivesse mulheres bem escritas.
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