Bem-vindes a Marginália 3

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Xote dos cabeludos não foi uma "disstrack" para o Roberto Carlos

Roberto Carlos: a canção do Rei contra a ditadura - Vermelho
"Cabeludo" isso aí?

 Se tem uma figura na história da música brasileira que foi do céu ao inferno no quesito imagem pública essa é o destituído 'rei' Roberto Carlos, que para as gerações anteriores (como sua mãe/vó) é um ídolo! Pra nossa... É um coroa insuportável que só aparece no fim de ano. Ou alguém totalmente ODIADO, apático pra dizer o mínimo.

 E quando uma figura é odiada pelo público geral, fica mais suscetíveis a lendas, mitos ou fake news sobre sua carreira. Assim como tem gente que acredita que o Tim Maia foi humilhado pelo Roberto Carlos - deixar muito claro que isso NUNCA ACONTECEU - algumas pessoas também acreditam que o Luiz Gonzaga lançou uma indireta, uma diss como falam no mundo do rap para o Roberto Carlos, que no caso seria "Xote dos Cabeludos" (1967).

Essa história tá muito embaraçada, vamos pentear e esclarecer tudo agora mesmo.

O que é falado?

Vou parafrasear algumas postagens da internet, muitas dizem que o Roberto Carlos teria dito algo contra o Luiz Gonzaga lá em 64 e então o rei do Baião lançou Xote dos Cabeludos em resposta, já outras versões só atribuem que essa música teria sido endereçada ao Roberto, pois bem. 

 Primeiro, a música é de 1967! Do álbum Óia Eu Aqui De Novo. Segundo, a música NÃO FOI COMPOSTA pelo Luiz Gonzaga, o seu compositor é o José Clementino. Não há evidências de treta do Roberto Carlos contra o José Clementino. Assim só podemos concluir que essa conversa é uma lorota das grandes. Ou declarações do então Rei sobre nordestinos, ou termos degradantes contra o forró.

 Atribuir Xote dos Cabeludos ao Roberto Carlos é um anacronismo.

 A altura do lançamento do LP (meio de 67) o Roberto Carlos era conhecido, mas talvez não tão famoso assim, pelo menos não ao ponto de incomodar um compositor nordestino. O programa Jovem Guarda foi lançado em 66, no mesmo ano o Roberto tem uma faísquinha de sucesso com sexto álbum (Roberto Carlos 1966), mas ele vem mesmo a ESTOURAR e ser essa imagem rarefeitamente parecida com o personagem de xote dos cabeludos no FINAL de 67, depois que a música foi lançada, com o lançamento do álbum Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967), onde tem por exemplo alguns hits como Eu Sou Terrível e Como É Grande O Meu Amor Por Você.

 Muitas pessoas consideram uma diss pela música começar com "desabafo de um quadradão", mas aí é tipo inventar história e tentar encaixar os fatos nela

 Outros pontos que acho importante destacar, a música na minha interpretação, nem parece ser referenciar a jovem guarda especificamente, me parece mais aquela coisa de cabra macho e cabra frouxo, e o cabra frouxo ser meio viadinho, ou afeminado. Por que eu trago essa coisa do afeminado? Só ver as características, cabelo grande, cintura fina (de pilão), salto alto, calça apertada e PULSEIRAS. E aí tem a contra posição que é o cabra de verdade, que trabalha o dia todo e de noite vai a missa. 

My Homophobic dog masterpost
momento cachorro homofóbico

 Sacou? Se fosse uma referência DIRETA Iê Iê Iê/Jovem Guarda teriam outras conotações. Algo mais associado a rebeldia, fervor e pra mim o mais importante: o CONTATO entre as culturas do matuto e a cultura do rock. É só comparar a música com outros forrós da mesma época, ou mais antigo que referenciar rock'n'roll ou Iê Iê Iê, antes de fechar a postagem vou mostrar elas.

 Assim, é impossível cravar como uma pessoa dos anos 60 pensaria em relação a jovem guarda, mas dá pra comparar com outras músicas que saíram do mesmo lugar comum onde Xote dos Cabeludos foi composta e com isso, extrair uma tentativa de "pensamento médio" dessa figura de observador de dois fenômenos culturais diferentes. Ou seja, os compositores dessas músicas utilizaram suas vivências (a mesma que o José Clementino) para descrever como o rock é.

Baiano Burro Nasce Morto | Álbum de Luiz Wanderley - LETRAS.MUS.BR
baiano burro nasce morto (1960)


MATUTO TRANSVIADO, do João do Vale interpretado Luiz Wanderley de 1960.
Foi regravada pelo Tim Maia em 1970, mas saiu como Coroné Antonio Bento

O mais impressionante de tudo é que essa música é de 1960, a turma dos Beatles ainda deveriam estar na Escola, o Elvis voltava de seu alistamento e no Brasil não se havia ainda o breve cheiro de rock no ar, exceto pela Nora Ney, que já tinha gravado A Ronda das Horas, interpretação brasileira de Rock Around The Clock em 55, clássico do rock americano. 

A música não possui essa postura de "no sertão não tem espaço não", mas sobre um casamento matuto onde o Bené Nunes, pianista de samba que existe, resolve desembestar e meter uns rock, com isso o povo fica maluco com aquele som. Que é uma percepção muito certeira do que o rock causava nas pessoas, esse ritmo frenético. Uma coisa interessante foi que o rock caiu nas graças das pessoas presentes no casamento, como pode ser visto nessa parte:

Mеia-noite o Bené se еnfezou
E tocou um tal de rock'n'roll
Os matutos caíram no salão
Não quiseram mais xote, nem baião
Era briga se falasse no xaxado

Foi aí que eu vi que no sertão
Também tem os matuto transviado

TRANSVIADO é uma referência a essa juventude rebelde dos anos 50, o nome é oriundo do filme do James Dean Rebel Without A Cause (1955) que saiu no Brasil como Juventude Transviada. Coisas da língua portuguesa. 

Jackson do Pandeiro - É Sucesso (1967)
Jackson do Pandeiro - É Suceso (1967)

Lançado no mesmo ano de Xote dos Cabeludos, esse álbum tem um descrição bem diferente de uma suposta percepção sobre o Roberto Carlos (por exemplo) em duas músicas. A primeira é parecida, Iê Iê Iê o Cariri com Matuto Transviado, o eu lírico vai ao Cariri para ver caipiras dançar o tal do rock, a descrição não tem nada de conotativo ou essas coisa de "ahhh isso não é música de macho não", vejam a letra, escutem a música.

Eu chegar francamente até gostei
E aqui vou contar o que eu vi
Vi um velho com mais de oitenta anos
De calcinha apertada na gandaia

Dançando com uma velha de setenta
A coroa tava de mini saia

Vi muita caipira bonitinha
Mastigando chiclete no embalo
E matuto com pinta de playboy
Falando na giria como eu falo
Sanfoneiro tocando Iê Iê Iê
Pois se o cabra no fole era raçudo
Até o Coronel dono da festa
Esse era um tremendo cabeludo

Tem até uma referência a cabeludo, mas é diferente. Tem como ponto em comum a presença dos instrumentos, em Matuto Transviado é um piano tocando rock e aqui é uma sanfona. O instrumento também é determinante em Mãe Maria, uma música onde conta a subida de vida de um matuto que estava morando em Copacabana, eventualmente entra na da Jovem Guarda. 

Comprei uma viola americana
E deixei o meu cabelo crescer
No embalo eu entrei na juventude
Misturando baião com iê iê iê

A música trata sobre uma mudança de vida pra melhorar, dentre elas crescer o cabelo, veja como não há referencia a cabelo grande, o que é diferente de ser cabeludo. Enfim, o ponto está feito.

Assim, para concluir, três fatores importantes:
1) Xote dos Cabeludos não foi composta contra o Roberto Carlos 2) Na minha OPINIÃO a música nem se referencia diferentemente a jovem Guarda no geral, 3) A percepção do forró sobre o rock não era necessariamente conservadora, o forró é um ritmo que sempre viveu da mistura de uma caralhada de coisa, então não faz sentido escrotizar um gênero.

até porque historicamente o único setor que se opôs ao rock e as guitarras elétrica foi a turma da MPB, que era uma elite artística com seus interesses econômicos, talvez os quadradões do sertão gostavam bastante.

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UM GOLPE DE "SORTE": Como que Nirvana ficou tão famosa?


Nos últimos dias um gigantesco questionamento me veio a cabeça. Como uma banda de esquisitos igual ao Nirvana virou a maior marca mainstream dos anos 90? 

A resposta mais curta que você vai ouvir é "porque eles eram bons" ou "eles eram revolucionário" acontece que essa não me convenceu, pelo motivo de eu não gostar do som da banda, o que deixa a questão mais apimentada. 

Pessoalmente o Nirvana não me apetece tanto, acredito que seja porque não consigo ter uma relação de conexão com o Kurt Cobain, que é o grande motivo da maioria dos fãs do Nirvana. Não é incomum em outras bandas de rock alternativo, muita das vezes você não escuta exclusivamente pelo som, mas por todo um afeto que possui com aquele grupo, ou simbolizam resistências em fases ruins de sua vida.  

Faz parte da cena indie/alternativo tratar o artista como ser humano, ao ponto de conhecer facetas mais intimistas daquele personagem público. O mercado é 100% ciente disso, é quase uma experiência gourmetizada, mas não vou ser tão ácido a esse nível. 

Enfim, 


Nesse tópico eu irei mostrar o contexto fonográfico (olha que palavrão bonito) que deu margem para o mainstream em cima de meia dúzia de bandas indies de Seattle, gênero musical conhecido como GRUNGE. Também irei provar a queda do mercado antigo do rock e metal. 

Pega uma pipoquinha na manteiga e vem lendo no Marginália 3

1 - ROQUEIRO VIROU CAFONA. A PORCARIA QUE A MÚSICA POPULAR ESTAVA NO COMECINHO DOS ANOS 90.

Mötley Crüe, quanta breguice. 

O cenário musical dos anos 80 no rock era o famoso "hair metal", ou metaleiros cabeludos (em portugues), que englobavam os metaleiros, digo os HEADBANGERS, a galera mais do Glam (tipo Twisted Sister) e uma linha muito brega de músicos de hard rock. Isso falando em questão de música popular do Estados Unidos, outros países já tinham largado o rock de vez, caindo de cabeça em new wave, que pode ser assunto de outro tópico.

O rock e o metal não tiveram sempre uma caterogização exata, até porque esses termos não surgem numa convenção internacionais de roqueiros. O Hair metal na verdade são bandas de hard rock ou de glam, e as bandas de "heavy metal" são na verdade trash metal. Sempre será confuso essas categorias, não se apeguem aos nomes, mas sim ao som.

Show do Metallica, 1985

O Trash Metal surgiu no auge do Satan Panic nos Estados Unidos, as bandas propositalmente faziam referência a atos de violência, rituais ou simbologias ocultistas, no caso do Slayer que tinha um pentagrama como símbolo, isso foi melhor explicado em outra postagem que recomendo a leitura. 

A ojeriza de um grupo, as vezes desperta a curiosidade/interesse de outro, isso fica muito evidente quando os pais conservadores diziam que aquela música era satânica, enquanto seus filhos adolescentes batiam cabelo ouvindo metal, foi nessa também que a Mia Khalifa (atriz pornô libanesa) ficou tão famosa durante o auge da campanha anti-islã. Não é só coincidência.

Putarias a parte, existem outros elementos que garantiram o sucesso do trash.

Carregava consigo essa vibe de 'amadorismo', bandas de garagem, muito parecido com os filmes do Sexta-Feira 13, muito famosos nos anos 80. Todo mundo sabe que é mal feito, mas é bom por causa disso, é trasheira, é pra ser algo divertido de ser consumido, ao invés de contemplado, analisado e afins. Ou seja, o público geral já estava acostumado com produções de "baixo orçamento" (muitas aspas porque tinham grandes gravadoras por trás) no cinema, isso só não tinha chegado na música ainda. 

                               

Trash Metal se tratava de um metal muito mais rápido, que contrariava o elegante metal de inglês do Judas Priest, Iron Maiden e algumas do Black Sabbath. Com riffs simples de guitarras e a considerar a versão mais comercial do gênero: Solos de guitarra alucinantes, especialmente quando falamos do Megadeath. Por falar no Megadeath, a banda forma um quarteto famoso do trash, que na verdade é mais Metallica (que sempre foi mais famosa) e mais outras três, Slayer, Anthrax e a já mecionada Megadeath, com o bandleader ex-metallica, Dave Mustaine.


"A amizade é tudooo"

O gênero foi um sucesso meteórico (MUITO SUCESSO MESMO) e mais ou menos surgiu "ao mesmo tempo" em outras partes do mundo, o sucesso comercial do Metallica especificamente jogou luz em outras bandas que já realizavam um som parecido em outros países, além de ter influenciado a criação de novas bandas. Falando do Brasil termos Sepultura, Sarcófago, Korzus, Ratos de Porão (ratos tem disco trash sim, e pegando os riff do Slayer), Executer, Dorsal Atlântica, Mutilator, Holocausto e Claustrofobia. 

Gagrena Gasosa não é trash metal, mas não sei se terei outra oportunidade de mencionar a banda nesse blog, então fica o registro dos macumbeiros mais queridos da cena. 

Também tem as bandas alemãs de Trash que são muito melhores, vale destacar que teem seu próprio big four, Sodom (a melhor de todas), Kreator, Destruction e Tankard. Outra banda bastante famosa e influente foi a canadense Voivod. 

Mas nem tudo são trevas, junto com o trash metal, o outro gênero popular foi o hair metal ou hard rock

O hard rock é aquelas famosas músicas de tiozão que beiram as baladas românticas, e algumas são mesmo. O maior exemplo é a melosa LOVE HURTS (1975) da banda escocesa Nazareth. O gênero é um 'tipo' de continuidade do Glam Rock que foi mais comum nos anos 70, só que com menos roupas extravagantes e sem glitter também. Os principais expoentes do gênero são Van Halen, Guns 'n' Roses, Scorpions, Bon Jovi, Europe, Def Leopard e outros rock pauleras que o seu tio bolsonarista adora ouvir. 

a famosa guitarra do Eddie Van Halen

Especialmente Van Halen e Guns fizeram muito sucesso na década de 80. Por ser apoiado em vertentes do Glam, que já estava ultrapassado para a época, tendo sido extraído até as últimas gotinhas possíveis. Tanto que não era exatamente pensado para o público mais adolescente/jovem, que estavam curtindo o metal. 

Não atoa o hard rock não sobreviveu ao final dos anos 80, o último suspiro foi o Guns'N'Roses tendo participado da soundtrack do blockbuster máximo de ação Exterminador do Futuro 2, lá em 1991, mesmo ano que saiu Nevermind do Nirvana e o estouro da cultura grunge, ambos chegaram a disputar entre os charts, só que os rockeiros perderam essa disputa.

A mudança de mercado do rock "tradicional" pro grunge fica muito evidente quando analisamos a discografia das bandas. O metal ainda teve uma sobrevida com alguns bons discos do Sepultura Arise (1991) e Chaos AD (1993) e depois no surgimento do Nu Metal (em 1993 com o debut da banda Korn ou KoЯn, para os intímos), que é uma coisa totalmente diferente, porém ainda metal.


Jonathan Davis do Korn fazendo a famosa pose do nu metal

Só que as bandinhas malucas de NuMetal desbancaram o trash, fazendo que também as bandas não lançassem nada de inovativo nos anos 90. Vamos para a análise das bandas mencionadas:

1.1 - ANÁLISE DA DISCOGRAFIA DAS BANDAS DE HARD ROCK E TRASH METAL NOS ANOS 90. 

Primeiro é bom destacar que rock e metal não eram as únicas musicas do mundo, nem do mercado, existem outros mercados que podem ter influenciado nas vendas ou na continuidade de projetos com as gravadores, tipo o Rap, ícones pop como Madonna e Michael Jackson, o próprio New Wave inglês que já citei e entre outros. Então o objetivo não é ser tão direto ao ponto de falar "o Grunge acabou com o rock", mas sim mostrar que essas bandas dos anos 80 ficaram no passado.

Aquela velha máxima, correlação não implica casualidade. 

Hard Rock
Guns'N'Roses: a banda de rock meloso surgiu ao mundo aos 42 do 2º Tempo, lá pra 1987 com o grande aclamado Appetite For Destruction (1987), álbum que farmou 5 singles e os maiores sucessos da banda, como Welcome To The Jungle, Sweet Child of Mine, Paradise City, muítissimo bem recebido pelo público e respeitado pela crítica. Mesmo já sendo famosa, eles estouraram mesmo em 1991, quando fizeram parte da soundtrack de Exterminador do Futuro 2 e lançou o álbum de dois volumes Use Your Ilusion.

Use Your Ilusion já dava aparências que aquele visual rockstar já não dava mais caldo, pois o álbum tem uma pegada mais lenta de blues, com músicas longas. É desse dois álbuns que sai a famosa November Rain, aquele icônico clipe do Slash tocando na frente da igreja. Não que o Hard Rock tivesse sido abandonado, só tem mais elementos ali. O álbum foi um sucesso de vendas e figurou no topo das paradas de sucesso.


Axl Rosas e sua tropa voltou ao mercado com o flopado The Spaghetti Incident? (1993) que foi um fracasso de vendas*.´É o album inteiro de cover, tem cover de canções PUNK, até do Misfits (versão horrível inclusive),outros proto-punk/glam e também os groupies, uma mistureba que conta com Iggy Pop, New York Dolls e Johnny Thunder as inglesas Sex Pistols e The Damned, um estranho cover de uma música do Charles Manson, dizem que ele pensava que tinha sido escrita pelo Beach Boys, mas eu tenho uma série de indícios que talvez provem ao contrário...



Esse ponto gente deixa baixo.

Acredite se quiser
, eles regravaram uma música do Soundgarden, banda grunge liderada pelo Chris Cornell, regravando Big Dumb Sex. É um album esquisito, as músicas originais formam uma bela playlist, porém as regravações não colam. E em toda lista de albuns do Guns os seus fãs o colocam na última posição. 

Não é uma mera coincidência, o grunge impactou a carreira do Guns'n'roses, eles até tentaram se enturmar com a galera, regravou até banda grunge, mas não rendeu o sucesso esperado. O álbum chegou até aos top 5 (máximo) da Billboard 200, mas sequer durou 25 semanas no chart, sendo expulso assim que possível. (22 semanas apenas)



*o "fracasso" de vendas foi tipo 1 milhão de cópias, que para um banda do tamanho do Guns é uma vergonha, Use Your Ilusion 1 e 2 vendeu 18 milhões CADA. 

Guns'n'Roses gravando Soundgarden, 1993:

Depois do incidente do macarrão, a banda teve um hiato de 94 até 99, quando se desfez completamente. Só vindo lançar outro álbum que ninguém lembra em 2008.

- METALLICA
Pioneiros, na verdade é mais ou menos a banda que furou a bolha do Trash Metal, possui uma importância do gênero similar com a do Nirvana para o grunge, é uma banda de grande sucesso comercial até os dias de hoje. 

Desde de Kill 'Em All (1983), seu debut, tinha uma certa consistência em trabalhos bem aclamados, exceto por um tropeço terrível em ...And Justice For All por uma produção terrível, reza a lenda que o seu baterista tocador de latão de ninho Lars Urlich meteu a mão nos controles e mandou baixar o som do contrabaixo do Jason Newsted, então é um álbum muito díficil de ouvir, já que não tem o som do contrabaixo. Mas aí são questões técnicas, em música mesmo, a banda nunca tinha decepcionado.

Mesmo assim, também em 1991, Metallica trabalha com Bob Rock, lendário produtor de bandas de Hard Rock como Aerosmith e Motley Crue, o resultado foi o álbum mais vendido da banda, e na verdade o seu último trabalho decente (pra quem gosta). O auto intitulado conhecido como Black Album tem os maiores hits, Enter Sandman, Nothing Else Matters, The Unforgiven, Sad But True e entre outras, só existe um porém...

Não é um álbum de trash metal. A banda teve que perder toda a identidade para chegar ao topo da indústria da música.

Só comparar músicas tipo Trap Under Ice e The God That Failed. 

Banda mudou completamente sua sonoridade para algo mais pesado e lento, traíndo completamente os príncipios da trasheira, a decisão do Metallica em 91 foi clara, é melhor fazer dinheiro do que trash metal. Seus fãs não colocam, em sua maioria, o Black Album como o favorito/melhor, mesmo não sendo um álbum de trash, ou sequer de metal em algumas faixas, a produção é tão boa que dá pra apreciar alguma coisa ali.

É um bom álbum.

Pra falar a verdade o Metallica (1991) é o único álbum bem produzido dessa banda. Mas depois daí foi ladeira abaixo. A banda era grande demais para sair mídia, porém evidentemente a qualidade musical, ou a "alma trash" já tinha indo embora, os próximos trabalhos do Metallica foram uma verdadeira porcaria... Fechando uma trinca maldita de Load, ReLoad e St Anger. Se você é da bolha do metal já deve conhecer a fama. 
   
Só o Metallica consegue produzir algo tão ruim. 
                             
Load é quase uma evidência de uma vez como o grunge afetou a indústria musical. Lançado em 1996, o álbum é considerado pelo fãs do metallica como uns dos piores, tem gente que coloca abaixo de St. Anger por exemplo. Para poupar texto, é basicamente o James imitando o Alice In Chains ou o Pearl Jam, duas bandas de grunge por 14 músicas, de uma maneira bastante cara de pau.  Além de outros elementos vão executados de rock sulista ou meio blues, não, apenas não. 

Load e ReLoad foram bem nas vendas, chegaram ao top 1 da Billboard 200, mas não duraram no chart por muito tempo, é flagrante a queda vertiginosa da banda dentro do mercado se utilizar como parâmetro o numero de semanas que figurou durante o Top 200 da Billboard. Olha só:

A fins comparativo, é tipo os filmes ruins da Marvel, vai vender bastante na estreia porque é Marvel, uma empresa muito consolidada que tem uma marca enorme, porém não-dar-prejuízo não é suficiente para uma marca do tamanho da Marvel, pode até dar lucro, mas ao longo prazo aquela marca vai se enfraquecendo. Foi exatamente o que aconteceu com o Metallica, que nunca mais teve o mesmo prestígio depois desses dois álbuns. Pior ainda depois de St. Anger. 


OUTRAS BANDAS

Já outras bandas menos conhecidas menores em comparação à Guns e Metallica. 
-Megadeath lança o seu melhor álbum*, Rust In Peace (1990), e honestamente uns dos melhores álbuns de trash metal da história da civilização ocidental, por exemplo o álbum vendeu 1 milhão de cópias, o que seria pro Metallica e Guns um fracasso, porém para o Megadeath são excelentes números. Depois disso não tem nenhum trabalho tão relevante, talvez Countdown to Extinction (1993). A banda por não ser o centro da indústria não muda o seu estilo, abraçado no trash metal completamente.



Esse álbum parece que foi mixado em uma lua de saturno

*Há quem diga que Peace Sells (1986) é melhor, mas não vou entrar nessa briga.

-Slayer assim como Megadeath não mudou de estilo, que sempre foi muito característico. Mesmo com o lendário produtor Rick Rubin por trás de seus projetos, o último álbum grande/relevante mesmo também foi em 1990, o Season In The Abyss.

O Rick Rubin é uma das mãos responsáveis por consolidar o rap no mercado, produzindo pro DMC, Slick Rick e Beastie Boys, ainda é o nome responsável por System Of a Down, Danzig e alguns álbums do Red Hot Chili Peppers.

Rick Rubin, Tom Araya (Slayer) e o Rapper Ice-T

-Anthrax. Anthrax nunca foi uma banda tão MEGA FAMOSA como as outras mencionadas, mas citei no tópico porque é um caso interessante porque eles se "apoiaram" no crescimento do rap, fazendo uma música conjuta com o Public Enemy e colocando elementos do hip hop em outras, como sampling e chopping.  Que saiu lá em um álbum de compilação em 1991.

Será que é coincidência todas as bandas de hard rock e metal sumiram do dia pra noite em 1991? Claro que não, surgiu algo mais, maior efetivo e avassalador. o grunge. 

2 - BLACK FLAG - MY WAR (1984) É PLANTADA A SEMENTINHA DO MAL 


O punk também foi um ritmo que afloreceu nos anos 80, especialmente a cena undeground de punk califórniana, os principais nomes do gênero estão lá Circle Jerks, Black Flag, the Adolescents, Minutemen, F.E.A.R, X, Descendents, T.S.O.L., China White, Agent Orange, the Vandals, Love Canal, Wasted Youth, Social Distortion, D.I., White Mice, Channel 3, Dr. Know, the Mentors e a gigantesca do mercado indie NOFX que foi uma banda que vendeu bastante, mesmo se recusando a assinar com grandes gravadoras. 

Quase que esqueço Dead Kennedys, Flipper, MDC e Verbal Abuse.

Washigton DC foi outro grande polo do punk, tem a espectacular Minor Threat, Bad Brains e Fugazi.

Guy Piccioto do Fugazi
 
O punk hardcore nunca "furou a bolha" do mercado fonográfico, mesmo assim foi muito influente na música dos próximos anos, exclusivamente pelo grande apoio popular que essas bandas tinham. Afinal gerenciar uma banda punk era quase impossível, eles eram expulsos dos clubes por incitar a violência, nunca iriam conseguir grandes contratos pelas mensagens de cunho político e acintoso, eram mensagens contra o governos, fascistas (o governo basicamente) e até questões mais densas como a desgraça que é morar em um grande centro urbano.

O som era agressivo, com músicas acima de 200 bpm, a comunidade punk se renunia para descer porrada entre si nas rodinhas punk (mosh pits), as bandas sobreviviam de clubes punks, revistas e gravadoras independetes. As gravações eram sujas, um som pesado e distorcido em algumas ocasições, a preocupação era exclusivamente gritar até a ultima goela em um movimento de cartase. 

O hardcore punk era um anti-mercado da música, enquanto os metaleiros passavam horas compondo os solos de guitarras mais extravagantes, os músicos punks sequer gastavam mais de 2 minutos nas gravações. Não vou me alongar nos elementos do punk porque existe um documentário excelente sobre isso. Apesar de serem um cuspe na cara (as vezes não intencional) das grandes bandas, elas mesmo se influenciaram em alguns aspectos.

Dentro da cena hardcore, uma das mais influentes para outros artistas foi a Black Flag, e da Black Flag se propagou algo que hoje em dia pode ser considerado um "proto-grunge" ou "proto-sludge metal", se trata o lado B do disco My War que possui músicas mais lentas e um som mais encorpado. O melhor exemplo é Scream, que não possui grito nenhum. 

Possuindo mais ênfase no baixo e esse tom atmosférico, essa mundança de estilo dividiu os fãs da banda, alguns queriam que o som mais agressivo continuasse, enquanto outros fãs se apaixonaram completamente. Também atraiu novos ouvintes. 

Mais uma vez, essas microclassificações são muito genérica e díficil de cravar alguma coisa. Mas é importante ter algo em mente, houve uma um movimento disruptivo entre uma música mega agressiva e rápida, para algo mais lento e pesado, esse movimento disruptivo é o lado B de My War, que se espalhou em várias bandas indies. Incluindo algumas de Seattle, berço do grunge. 

3 - CENA INDIE DE SEATTLE, SURGIMENTO DO GRUNGE

Só para situar geográficamente, Seattle é a cidade mais populosa do estado de Washington nos EUA (não é Washington DC), é fica lá na puta que pariu bem longe dos maiores polos ecônomicos (LA, NY e Texas por exemplo), apesar de ser uma cidade grande, atualmente conta com mais de 700k de habitantes.


Seattle concentra TODAS as bandas grunge do movimento, lá cohabitava uma cena indie tocava um estilo interminado de música que se misturava com hardcore punk, noise rock, e alguns elementos do metal, todas as bandas gravadas pela SUB POP, gravadora independente de Seattle que recepcionou aqueles artistas e formou essa cena comunidade de grunges. 

Uma das pioneiras delas delas é Green River que possuia integrantes que posteriormente formariam Mudhoney, Mother Love Bone/Pearl Jam (o mesmo sujeito). Só pra destacar ter gente que formariam outras bandas depois é bem comum na cena indie. 

Green River, 1985 

É da sub pop que vem inclusive o termo grunge para se referir a essas bandas, especificamente o Bruce Pavitt do fundador da Sub Pop sobre o EP Dry as Bone (1987), do Green River: "gritty vocals, roaring Marshall amps, ultra-loose GRUNGE that destroyed the morals of a generation". 
Tradução livre: vocais ásperos, rugidos amplificadores Marshall, uma sujeira* ultra-folgada que destruiu a moral de uma geração.



*Grunge é sinônimo de sujeira, é como fosse algo muito sujo, uma camada grossa de sujeira, algo nojento. Acredito no Brasil isso seria chamado de lodo. 

Só pra ser muito chato, o termo grunge era usado nos anos 50 para descrever o rockabilly do Johnny Burnette lá pra 1957. Mas ok. Foda-se o Johnny Burnette

Rockabillices a parte, a história do grunge se confunde com a do produtor Jack Endino, que também tinha sua própria banda a Skin Yard. Na boa, escutem Skin Yard, pra mim é a banda mais grunge de todas, é o grunge puro.

Jack Endino foi a parteira de todo um movimento, produzido os principais álbuns do grunge antes do mainstream, alguns como: 

Auto intitulado do Skin Yard (sua banda, 1986); 
Green River - Dry as a Bone  (1986);
Soundgarden - Screaming Life (1987);
O mega clássico proto-grunge Superfuzz Bigmuff EP do Mudhoney (1988);
Tad - God's Balls (1989);

E por último, o álbum de debut do Nirvana, Bleach (1989) que foi gravado por 30 horas e custou apenas 600 dólares para ser produzido. 


Bleach não tinha a formação clássica do Nirvana, a banda ainda não tinha um baterista, então o baterista do estúdio tocou na maioria das faixas e o Dale Crover do Melvins em uma ou outra, além do Kurt Cobain, já contava com o Krist Novoselic (baxista), algumas fontes dizem que o próprio Jack Endino tocou em algumas músicas, mas outros afirmam que não. Fica a critério do que você prefere acreditar.

Em vendas flopou horrores, apesar que foi até que bem recebido no meio grunge. Mas não motivou o Kurt a continuar na sub pop, porque... 


Calma aí! Tava me esquecendo de um contexto. As bandas "indies" assinaram com grandes gravadoras. 

4 - INDIE COMO UM RÓTULO: BANDAS "PEQUENAS" DE ESTÚDIOS GRANDES.


No finalzinho dos anos 80 algumas bandas indies/alternativas chegaram as grandes produtoras, as mesmas que produziam, Metallica, Aerosmith e Guns'N'Roses, ou seja a nata do mercado. É o caso da banda Pixies, que produziu Doolittle (1989), seu maior sucesso comercial talvez pela Elektra Records (grupo Warner). Mesmo que seu maior hit seja Where Is My Mind? Que tá lá no Surfer Rosa (1988), que é gravada pela 4AD Records, uma naninca. 

Pixies fez um bom sucesso, mesmo sendo uma banda que veio "do nada", foi uma furadora de bolha no mercado indie, tem uma fala elogiosa do Bowie que resume bastante o estilo da banda. 

"A primeira vez que eu ouvi Pixies deve ter sido em 1988, e eu achei a música mais atraente (fora o Sonic Youth) de todo os anos 80. Os Estados Unidos não promovem as pessoas como na Europa, havia tanta porcaria por lá na época que o Pixies teve que ralar muito para conseguir chegar à superfície. (...) Há três elementos que eu considero importantes para a sonoridade da banda. O primeiro foi a dinâmica, bem óbvia agora, mas não na época, de manter o verso bem calmo e então explodir em barulho no refrão. 
 
O segundo foi as interessantes colocações de Charles [Thompson] (o vocalista Black Francis ou Francis Black), coisas às vezes bem mórbidas. As letras dele abordam o mundano, o banal, mas a forma como ele subvertia os mais diferentes temas era tão incomum que chamou minha atenção na hora.

Havia um senso de imaginação… — e eu não digo imaginação como fantasia, como a maioria das pessoas define, e sim como capacidade de compreender as relações entre as coisas. E aquelas relações que iluminavam os temas eram feitas com tanta naturalidade, com tanto entusiasmo. Há um grande senso de humor que permeia tudo que Charles faz."

O terceiro são as cores que [Joey] Santiago fornece como guitarrista — ele é terrivelmente subestimado. É mais questão de textura, ele supre [a banda] com texturas extraordinárias." Leia mais em: https://whiplash.net/materias/news_719/341539-davidbowie.html

Outras "gigantes" entre os pequenos são a Dinosaur Jr que passa a lançar com a Sire (também grupo warner) de 91 pra frente e a tal da juventude sônica, Sonic Youth, grupo de rock alternativo/indie que fez bastante sucesso com o disco Goo (1990), o sexto disco do grupo, que foi lançado pela DCG records (Geffen). 

Goo foi muito bem nas vendas, não no nível de milhões de cópias, para o contexto de uma banda alternativa/indie que era uma completa desconhecida do público foram números bastante positivos, mais de 200 mil cópias até o final de 1990. Há quem considere Goo um clássico da música no geral, a sua capa é uma das artes mais icônicas que o universo fonográfico já produziu, você já viu essa imagem ou cópia em algum lugar: 
Escutem Goo, por favor.

Mesmo assinando com um grande estúdio, os músicos tinham a liberdade de fazer qualquer coisa, era um grande momento de aposta que deu muitos resultados, falaremos deles. QUE repetiu a história das bandas de trash metal dos anos 80, a própria Metallica por exemplo gravava pela Megaforce, uma gravadora pequena e independente, depois migraram para a Elektra. 

E aí que a história começa a ficar redondinha. 

Kurt Cobain e Kim Gordon

Nirvana foi apresentado à Kim Gordon (baxista e vocalista do Sonic Youth) pelo Pavitt, aquele fundador da gravadora sub pop, se tornam próximos e eram fãs mutualmente. Ao ponto de fazer uma turnê europeia juntos no verão de 91 (antes do lançamento de Nevermind) para a divulgação do álbum Goo.  

Kim Gordon e Thurton Moore (guitarrista e vocalista do Sonic Youth) apresentaram o Nirvana para a DCG Records, Kurt Cobain e sua tropa assinou com a gravadora para a gravação do álbum Nevermind, a DCG viu potencial no material e esperava um número de vendas na base dos 400 mil, se tivesse o mesmo sucesso de Goo.

Só que o álbum foi um sucesso imediato, chegando a vender 400 mil cópias POR SEMANA em 1991. Mas aí eu estaria pulando etapas, vamos devagar. 

5 - A FOME ENCONTROU A VONTADE DE COMER, NEVERMIND (1991).


Nevermind foi lançado em setembro de 1991, precisamente no dia 24 de setembro de 1991, antes de falar do sucesso que teve, preciso fazer algumas notas breves sobre o som: Nirvana é uma banda grunge organizada, bem mixada e apresentável para o grande público. É quase um album alternativo perfeito para furar a bolha da música alternativa. 

Não tem som de microfonia, não soa "sujo" como tivesse sido gravado em uma lata de atum, e se comparado com o primeiro projeto do Nirvana, há ali algo mais sólido e bem definido, é o tal do grunge que estava por vir. Inclusive por ter muitas partes de violão acoustico

Só compara In Bloom com Negative Creep. 

Se comparar com Goo por exemplo, Goo tem gritos, partes faladas sem melodia, é algo mais "caótico" para alguém que quer só ouvir um som mais pesado e emotivo casualmente. Pode afastar ouvidos que não estejam acostumados com música alternativa. Não é algo tão apresentável, não pra quem só ouvia Bon Jovi dois meses atrás. 

É bom salientar que existem vários tipos de públicos que escutam a mesma música, existe o ouvinte casual que vai ouvir aquilo no rádio do carro e tem pessoas que passam o dia inteiro ouvindo música, caçando artistas, pessoas como eu, que tem um blog dedicado a música.

Para uma pessoa já calejada em música, um álbum como Goo não tem nada de "diferentão", mas para um ouvinte casual? Um jovem de 1991?

E aí que tá, Nevermind consegue emanar uma jovialidade que quem ouvia Bon Jovi à dois meses atrás queria, era algo inovador sem conseguir assustar. É só olhar para o pessoal do Nirvana em 1991 e os cantores de hard rock/metal, quem tinha mais a cara do jovem geração X? 

Cantores do hard rock que já estavam na casa dos 30 anos*, cheio com mansões e carros caros, enquanto se tinha um rapaz meio depressivo de 24 anos, que se vestia de forma bastante comum?

O Dave só o chassi de grilo

*O Steven Tyler (Aerosmith)  já tinha mais de 40 anos a altura de 1991, não é uma questão exclusivamente de idade, mas a perca de identificação e carisma com o público geral, além de ser um gênero musical já datado pra caramba. 

NÃO QUERO ARGUMENTAR QUE "AI O NIRVANA SE VENDEU PARA FAZER SUCESSO", pode ter sido amadurecimento da banda como um todo. Acredito que seja mais um caso de polimento de ideias do Nirvana, tudo que está em Nevermind foi idealizado em Bleach, só que em Bleach não havia um polimento necessário para transmitir suas ideias. 

É um som mais bem projetado no geral, a banda queria soar de uma maneira específica. E entrega magistralmente, Nevermind é um bom álbum. 

Dito isso, o sucesso:
Nirvana era uma banda desconhecida pelo público geral, mesmo após ter saído em turnês europeias com o Sonic Youth, esse fator de mistério e desconhecimento talvez tenha ajudado em seu sucesso. A mudança de patamar das vendas e popularidade foi com o lançamento do vídeo clipe na MTV, nem preciso mencionar o nome, aquela lá mesmo, "Smells Like Teen Spirit" no dia 29 de Setembro, durante o programa 120 Minutos.

Smells Like Teen Spirit foi pensado para ser um hit, foi o primeiro single lançado do álbum lá em agosto, só que a música sozinha não vendeu quase nada. Também é a primeira música, tem um vídeo clipe e foi escrita pelo Kurt Cobain com uma grande inspiração de uma banda famosa à época, Pixies, banda que sempre foi muito fã. 

Foi a tentativa do Nirvana de fazer um hit, que deu muito certo.

"Eu me identifiquei tanto com aquela banda… Nós usamos o senso de dinâmica deles: [primeiro] ser calmo e leve e depois barulhento e pesado." Dizendo que "Smells Like Teen Spirit" foi sua tentativa de fazer "o hit pop definitivo", ele confessou: "Eu estava basicamente tentando imitar o Pixies". (Far Out Magazine)

E se for analisar a música, tem bastante o estilo do Pixies, um refrão mais calminho, um som mais lento mas ainda pesado, carregado, esse riff mais curto e chicletinho no começo (que também é característica do Nirvana) e aquele refrão explosivo papocando a mente dos jovens, quer dizer... essa colocação não ficou aqueada para o contexto da postagem...

Afinal, é um cenário diferente de seu primeiro álbum, em 1991 Nirvana não era mais uma banda independente buscando sobreviver da música, era uma banda-aposta de uma grande gravadora, e as gravadoras querem vender, logo precisam de um produto mais atrativo. O processo criativo de estar dentro do mercado é bem diferente. Você está rodeado de pessoas que entendem da fabrição de hits e tendências do mercado, é melhor aconselhado e dirigido. 

É por isso que eu não compro muito a ideia do "Ah o Kurt não queria ser famoso, ele só queria fazer música", é romantizar demais o artista 'indie', se o Kurt Cobain não estivesse pensado em hits, não teria nem gravado o clipe e escrito uma música baseada em outra banda que era MUITO FAMOSA, o Nirvana queria fama sim. Talvez não no nível de proporção que as coisas tomaram, mas em algum grau tinha o interesse de vender ali, o que é perfeitamente normal e compreensivo, qual músico não quer o cenário que o Nirvana estava?

(Existe um sim, NOFX, Rancid, Avail e outras bandas punks tiveram ofertas bem gordas e recusaram, mas aí é papo para outra postagem! Outras nunca tiveram pretensões comerciais, como Fugazi)

Smells Like Teen Spirit é o mais perto que civilização ocidental experimentou de VIDEO VIRAL antes da internet, o clipe era muito mágico de alguma forma carregava consigo um tom de mistério de quem é aquele loirão gritando, um estilo de voz um pouco claro (eu DUVIDO que voce saiba a letra de cabeça), aquelas roupas bem comuns, se gravado no meio da escola e aquela paleta de cor amarelada muito única. Eu diria que a cor daquele clipe é um tempo especial muito forte, é como o vídeo fosse sujo, grunge.

Existe algo de mítico que rodeia esse videoclipe, é como ele fosse o espírito do seu próprio tempo, ou o cheiro...


O clipe de Smells Like Teen Spirit é sinônimo de MTV, foi repassado a exaustão no canal e também tocou nas rádios de todo o mundo, de novo volto naquele ponto que Nirvana é mais adaptável as rádios do que outras bandas alternativas na época. Se tornando um dos singles mais vendidos de todos os tempos, mais de 13 milhões de cópias.

O sucesso do seu single é claro que impulsionou as vendas do álbum, que se tornou o principal álbum da billboard 200 ao começo de 92, chegando a vender entre 300 e 400 mil cópias POR SEMANA. Nirvana com Nevermind conseguiu ultrapassar ninguém menos que o rei do pop, superando as vendas de Dangerous (1991) que saiu no mesmo ano. O fato histórico aconteceu no dia 11 de Janeiro de 1992.



O sucesso de Nevermind foi tão grande que lançou olhares para outros artistas de Seattle, solificando em termos comerciais o movimento grunge. Ao ponto de colocar nas paradas de sucesso álbuns que tinham sido lançados antes. É o caso de Ten (1991) do Pearl Jam, que chegou no número 2 da Billboard 200 e em 92, Ten foi lançado em agosto de 91, um mês antes de Nevermind. Pearl Jam foi construindo o seu sucesos durante o ano de 1992.


No mesmo ano de 1992, no mês de setembro, portanto um ano depois do fenômeno Nevermind,  Alice In Chains lança Dirt, um de seus álbums mais aclamados que disparou para um sexto lugar na Billboard 200, que permaneceu no chart por mais de 100 semanas, bem mais do seu "auge" que foi lá pra 94-95, quando chegaram no top por duas oportunidades.

A única banda que não estourou de cara foi Soundgarden, que lança Badmotorfinger (1991), porém também chega ao topo da Billboard em 94, quando o grunge ainda estava em alta, com Superunkwon (1994). 

Soundgarden em 199 e sei lá quantos

Na opinião do próprio Chris Cornell, ele considerava Soundgarden mais diferente das outras bandas grunges, e de fato tem uma pegada diferente, na opinião do próprio: 

“Dá pra dizer que essas outras bandas venderam mais que a gente porque 'não somos tão bons quanto elas'. Ou falar que 'é porque somos melhores, que somos artistas de verdade, e não dá pra vender um monte de discos e ser artista de verdade'. Ambos são extremos e eu não acredito em nenhum dos dois. Eu colocaria a gente no meio desse espectro. Não fazemos discos fáceis de vender, que você sabe o que está comprando e com o que está se conectando. Isso é uma coisa que tenho orgulho quando penso no Soundgarden. Que alguém de 15 ou 16, ou até 19 ou 20 anos comprando a nossa música está investindo em algo honesto. Que veio do coração dessa banda e se tornou parte deles e foi honesto.” (Igormiranda.com)

Só para efeitos comparativos, a banda Pixies, mesmo com uma gravadora grande e já com um reconhecimento dentro do cenário músical, só chegou ao máximo na posição 98 na billboard 200, na semana que Pixies chegou à 98, o álbum de rock melhor posicionado G N' R Lies (1989) dos Guns N Roses. Trouxe esse comparativo para desmonstrar o feito das bandas grunge é algo praticamente impossível no cenário do rock alternativo, mesmo com gravadoras grandes. 

CONCLUSÃO: UMA TEMPESTADE PERFEITA



Ardilosamente a indústria da música (do rock na real) foi notando que o seu principal produto estava ficando defasado, o hard rock já tinha passado da validade, o Metal foi se separando igual a igreja evangélica em microdenominações, se tornando uma música de nincho, que não vendem tão bem para o público geral quanto astros do rock/metal. O próprio Metallica precisou abandonar o trash para vender pra caralho. 

Nirvana era uma excelente aposta por possuir um estilo alternativo, porém mais agradável para pessoas que não conheciam esse tipo de som mais pesado, o estúdio foi até ao Nirvana, e o Nirvana foi até o público com uma música inspirada numa banda indie que já fazia sucesso, aliado ao um vídeoclipe que viralizou em plenos anos 90, saciando os anseios do público que estava carente de boas novidades. 

Numa frase? Nirvana era tudo que precisavam. 

O grunge virou todo um mercado, afetando até a moda com as calças jeans e camisas flaneladas, mas aí é papo de moda, o nosso blog toca a música apenas. 

Sassy Magazine dezembro de 91, revista feminina dos anos 90

Esse furor infelizmente não durou muito, com o autochurrascamento do Kurt Cobain em 94, tudo deu uma esfriada, as bandas pararam de lançar projetos novos ou migraram para outros estilos, como o próprio Dave Grohl que fundou o Foo Fighters.

A moda do grunge ainda foi tentada ser revivida com algumas bandas de "post-grunge", só que o resultado foram verdadeiras bombas, como a banda hino dos pais divorciados, Creed, a própria Foo Figthers e a melhor das piores: Nickelback!

"LOOK AT THIS PHOTOGRAPH"

Um dia talvez eu traga as bandas mais odiadas (com razão) da história da música e a vergonha que o post-grunge tentou emplacar, um beijão na boca de vocês e até a próxima desventura. 

Leia mais...

Pantera Negra do MCU é uma fraude: Os efeitos do Oscar de 2016 na indústria.

Esse tópico VAI ALÉM de falar do Killmonger.

Pantera Negra (2018) é talvez o filme de herói, de boneco, mais aclamado da história da indústria do cinema, a sua recepção foi algo anormal, e de fato, só teve a recepção que teve pelas condições anormais da indústria do cinema. A crise de imagem que o Oscar de 2016 gerou para Hollywood, com isso a premiação e a indústria como um todo decidiu por dar mais espaços a obras "menos brancas". Aliás não é o único filme que tem prestígio por esses motivos. Segura o ponto aí. 

Outra condição anormal é toda a recepção positiva do MCU com o público geral e até parte da crítica especializada. Só ver como a percepção agora é de que a Marvel lança filmes horríveis, mas na verdade, talvez a qualidade sempre foi essa. Em outras palavras, Pantera Negra é um filme tão ruim quanto Doutor Estranho 2, inclusive pela qualidade do CGI que é sofrida. só que a condições para seu lançamento são diferentes: Um filme é lançado durante o auge do MCU e o outro é durante a crise.

Quer dizer que a crítica está mais ancorada no momento histórico do que os elementos do filme propriamente dito? É claro que sim! Seja para avaliar o filme positivamente ou negativamente. Além do que filmes considerados horríveis na época de seu lançamento, hoje em dia são clássico inquestionáveis. Blade Runner é o melhor exemplo, quando saiu nos cinemas quase deu prejuízo ao estúdio e hoje em dia está no top 5 de muita gente.

Além desses pontos, que é necessário analisar desse filme, eu acabei de rever-lo para confirmar ou refutar algumas teorias, como que gostaram disso à época?

Genuina reação

Eu entendo a boa recepção que teve na comunidade negra, porém ele foi recebido de forma acrítica, pois curiosamente um filme de "representatividade negra" vilaniza ativistas de movimentos negros, como assim? É esse filme que mostra a cultura negra nos cinemas?

Existem várias problemáticas presentes em Pantera Negra, é um filme covarde, é um filme que não explica sua história porque iria cair em RACISMO, e não uma crítica ao racismo, mas sim uma conivência, possívelmente a discriminação seria uma das força motriz do roteiro, mas calma lá, vou explicar tudinho.  A sua representatividade é apenas estética, porque a mensagem do filme é um ataque a lideranças negras. Só podendo chegar na seguinte conclusão: O FILME NÃO É ANTI-RACISTA, muito pelo contrário. 

Nessa postagem, que vai ser vídeo também, irei analisar as condições anormais de seu lançamento, sua importância artificial, o filme e comparação com os quadrinhos. 

Uma excelente leitura e Wakanda Forever é o meu ovo. 

✮Nota rápida: "Ai é só um filme heroizinho, não é tese de TCC"

De fato, existem filmes só com uma camada de interpretação, que é a do consumo. Alguns filmes se propõem apenas a te divertir no cinema ou na sala de casa e serem esquecidos a partir do momento que a tela fica preta novamente, já outros filmes se tentam parecer mega complicados e ser alvo de debates com a sua rodinha cinéfila por horas.  Pantera Negra e boa parte dos filmes da Marvel são do primeiro tipo, pórem... Isso não retira qualquer analise ou discussão a cerca do filme, especialmente por se emaranhar com questões sociais que são difíceis de esquivar. Além do mais que nenhuma obra merece ser menosprezada exclusivamente pelo seu gênero.

Toda mídia passa uma mensagem política ou agenda, um filme de herói pode ser uma propanga fodida para o exército do Estados Unidos da América, evidenciar isso não é querer exigir que o filme fosse "mais complexo", o cinema é alvo de disputa política, assim como os quadrinhos já foram também. Filmes comunicam pelo o que falam e pelo o que omitem, é sobre tratar como um objeto de análise e seus efeitos de reverberação. Independente das camadas de interpretações intencionais oferecidas. 

Não é sobre levar um filme de herói a sério, mas sobre entender a geringonça social que ele está embutido durante sua época de lançamento, além de produzir um olhar crítico sobre uma coisa que passou batido para a maioria das pessoas. Todo debate, análise, resenha desde que honesto é válido.

Assim o papo de "ai é só pra se divertir" não cola.

✮#OscarsSoWhite, a infâmia cerimônia de 2016.

Todos os indicados para o prêmio de melhor ator

No ano de 2016 foi a gota d'água da relação da comunidade não-branca, especialmente a negra e o Oscar, nessa edição do prêmio todos os indicados ao prêmio de melhor ator e atriz eram brancos, TODOS, religiosamente todos os indicados, aliás foi nesse ano que o DiCaprio ganhou depois de ser macetado gostoso por um urso em O Regresso (2015) e Brie Larson, ela mesmo que viveu a Capitão Marvel, ganhou por o Quarto de Jack (2015).

Filmes que tem a carinha de Oscar sequer foram indicados, que é o caso de Creed (apenas uma indicação AO STALLONE como melhor ator coadjuvante) e Straight Outta Compton (apenas uma indicação de melhor roteiro original), que conta a história do icônico grupo de rap N.W.A. Devido a isso, houve boicote de figuras negras queridinhas de Hollywood, que levantaram a hastag #OscarsSoWhite e trouxe o debate a tona. 

Muito em função da pressão exercida por figuras como Spike Lee e Jada Pinkett Smith, que conduziram a campanha #OscarsSoWhite a outro patamar, mudanças com o intuito de promover uma renovação no quadro de membros da Academia foram anunciadas nas últimas semanas, mas os gritos por boicote ainda ecoam, com promessas de marchas em diversas cidades americanas, incluindo Los Angeles, sede da festa, e enorme expectativa pela atuação de Chris Rock, apresentador desta edição. Fonte: https://www.b9.com.br/63406/oscar-2016-entre-o-retrocesso-e-o-regresso/

A treta é anterior, na premiação do ano anterior (2015), filmes como Selma (2014) que narra um embate do Martin Luther King Jr pelo direito ao voto no Alabama ficou de xereca ao sair do Oscar de 2015 de mãos limpas e miseras duas indicações. O filme é dirigido por uma ativista que também interpreta uma das protagonistas do filme, a Ava DuVernay sequer recebeu indicação de melhor diretor. O que gerou pressão de grupos e artistas negros sobre a premiação. Acrescido ao fato de pouquíssimos atores negros já terem sido premiados ou poucos indicados. Fazendo o recorte das mulheres, as ganhadoras possuem algo questionável em comum, todas de melhor atriz coadjuvante, as mais recentes.

A raiz do problema, no entanto, segue carente de solução. Faltam, na indústria, papéis e oportunidades que correspondam à variedade de posições ocupadas por não-brancos em todos os segmentos da sociedade. É alarmante notar, por exemplo, que as três últimas atrizes negras premiadas (Lupita Nyong’o, Octavia Spencer e Mo’Nique) venceram por papéis que podem ser resumidos, nesta ordem, como escrava (“12 Anos de Escravidão”), empregada doméstica (“Histórias Cruzadas”) e mãe abusiva (“Preciosa”). Fonte: https://www.b9.com.br/63406/oscar-2016-entre-o-retrocesso-e-o-regresso/

A categoria de melhor ator/atriz coadjuvante é a que conta mais ganhadores negros do Oscar, aliás é dessa categoria que ganha a primeira pessoa negra, Hattie McDaniel que faz a empregada de E o Vento Levou... lá de 1940, um papel questionavelmente racista. Junto a ela, até 2016 haviam ganhado mais cinco outras mulheres negras. De 2016 pra cá tivermos mais quatro ganhadoras. 

Do lado dos homens quatro atores negros já haviam ganhado na categoria de melhor ator coadjuvante e de lá pra cá tiveram mais três vencedores. Um diretor negro, até o dia de hoje, nunca ganhou o prêmio*.

Na categoria de melhor filme, o único produto produzido por um diretor negro que foi ganhador do Oscar é justamente... 12 Anos de Escravidão, que talvez tenha sido, até 2016, o filme negro-orientado mais reconhecido pela academia. Seja com indicações (9) seja com prêmios (2). Para além da escassez de prêmios, a escassez de indicações também é algo que atingiu seu limite em 2016. 

*Cabe fazer uma side note sobre o prêmio de melhor diretor, é uma premiação que sempre seguiu na contra-mão de tudo que venho apontando, desde que uma mulher ganhou pela primeira vez em 2009,  Kathryn Bigelow por Guerra ao Terror, o prêmio saiu completamente da mão de homens brancos, especialmente americanos. É verdade que é comum diretores "estrangeiros" ganharem o prêmio, mas de 2009 até 2020 foi bem diferente: Veja os ganhadores
(ano do filme, não da cerimonia) 2010 - Tom Hooper (homem branco britânico);
2011 Michel Hazanavicius (homem branco francês);
2012 - Ang Lee (chinês);
2013 e 2018 - Alfonso Cuaron (mexicano);
O Ajelandro Inarritu também mexicano ganhou por dois anos seguidos, 2014 e 2015;
Damien Chazelle é americano, na verdade franco-americano ganhou por La La Land em 2016
2017 Guillermo Del Toro
E o queridinho de todos, Bong Joon Ho em 2019, porra... Que sequencia. 
Vale mencionar que duas mulheres ganharam seguidas e o Nolan ganhou esse ano, por Oppenheimer.

Exposto isso, é claro que a polêmica da premiação específica de 2016 gerou grande repercussão midíatica, o efeito mais imediato foi a popularização do termo Whitewashing (limpeza branca em uma tradução livre), que questionou o funcionamento de hollywood, pela ausência de figuras negras, latinas e asiáticas nas grandes produções, e aquelas produções que possuiam essas características carentes da indústria, não recebiam o devido reconhecimento. 

Em números a cobertura da Hastag #OscarsSoWhite pelos principais meios de mídia do EUA:

Esse artigo completo fala sob o viés de análise midiática dos efeitos do movimento contra o whitewashing do Oscar. A pressão feita nas redes sociais e os boicotes presenciais a cerimônia refletiu na academia, que prometeu mais inclusão nas indicações e prêmios. Em comunicado oficial disse o presidente da Academia organizadora do Oscar, que é uma mulher negra, a Cheryl Boone (tradução feita por mim):

Eu gostaria de reconher o trabalho maravilhoso dos indicados este ano. Nos celebramos conquistas extraordinárias, eu estou ao mesmo tempo de coração partido e frustada com a falta de inclusão. Essa é uma conversa díficil, mas importante, e é tempo para grandes mudanças. A Academia está tomando passos drásticos para alterar a formação do nossos membros (votantes para os ganhadores nota do tradutor, eu). Nos próximos dias e semanas nós iremos conduzir uma revisão do nosso recrutamento de membros, no sentido de trazer a diversidade necessária em nossa turma de 2016 e além.

Como muito de vocês sabem, nos implementamos mudanças para a diversidade de nossos membros nos últimos quatro anos (NÃO PARECE, nota minha), mas as mudanças não vem rápido como gostaríamos. Precisamos fazer mais, e melhor e mais rápido. - Presidente Cheryl Boone. Fonte: https://www.oscars.org/news/statement-academy-president-cheryl-boone-isaacs

Pois bem, a mudança veio. Já na próxima premiação...

✮La La Land... Ops, Moonlight! Oscar de 2017



O ponto que vou falar é sensível e pode dá a entender um discurso reacionário de "ah só ganhou por causa da lacração", o que não é verdade, o Oscar nunca foi sobre mérito e nunca decidiu o que é bom ou ruim na história do cinema.

Porra, o Ang Lee tem dois Oscar de melhor diretor, o Scorsese só tem um, existe alguém que prefira o Ang Lee do que o Scorsese? Tipo ninguém, isso nem é um ponto polêmico. Agora por causa disso o Ang Lee não mereceu os dois prêmios? Claro que não. 

A questão é que para ser ganhador do Oscar, existem muitas variavéis externas que influenciam a premiação, assim como o bom momento do estúdio ou do diretor vai influenciar a crítica sobre um filme, é justamente o caso de Pantera Negra ser considerado um filme bom, a Marvel que estava em um momento bom.

Então apresentar um panorama histórico que levou Moonlight (e não só ele) ser campeão de melhor filme não reduz a sua qualidade e nem o menospreza, mas é necessário entender o que se passava na indústria. Esses panoramas asterísticos valem literalmente pra TODOS os vencedores do prêmio de melhor filme, cada um comunica uma coisa diferente, ou se estabelece em seu próprio espaço tempo, aqui eu estou analisando Moonlight e os dois oscars seguintes pelo recorte que fiz de 2016 pra cá. O momento histórico da indústria do cinema de 2016 pra cá, apenas isso.

Pois bem, depois de todo o apresentado e até admitido pela Presidente, o Oscar precisava limpar sua imagem pública de uma academia "SoWhite", primeiro efeito imediatado? Moonlight ganha o prêmio de melhor filme e mais, consegue OITO indicações, um número impossível em condições anteriores, ainda levou pra casa mais dois Oscars, melhor ator Coadjuvante e melhor roteiro adaptado. 

O filme também foi bem recebido pela crítica especializada, garantindo incríveis 98% No Rotten Tomatos e 99 no Metacritic, foi o filme que catapultou a A24 (ESSA PRAGA) no meio da indústria. Mais do que um bom filme, é uma tentativa clara de limpeza de reputação do whitewashing que o Oscar sofria, em condições pré-2016 com toda certeza Moonlight passaria desapercebido pelas grandes premiações ou sequer ganharia indicações. É o caso de Selma, Creed, e Straight Outta Compton.

Nunca assisti Moonlight, mas a recepção desse filme com outros também dirigido e atuado por pessoas negras é gritante, que só pode ser sacramentado devido a clara tentativa de limpeza de reputação da Academia do Oscar. Fato. É mais uma junção da fome com a vontade de comer, obras protagonizadas por pessoas negras passaram a finalmente ser reconhecida, aliada ao fato que o Oscar continua se mantendo relevante e apagando sua história de racismo.

Moonlight também abriu para que outras produções negras surgissem, há um aumento consideravél de protagonistas negros, filmes sobre negritude ou diretores negros desde do Oscar de 2017. Ou melhor, há uma BOA VONTADE maior com essas produções.

O embalo de pessoas negras vencedoras e indicadas ao Oscar foi gigante, veja os anos seguintes: 

✮Oscar de 2018. Jordan Peele vencedor de melhor roteiro original.

Corra! é talvez, pelo menos da história recente, o filme premiado que mais enfia o dedo na ferida do racismo, recebeu quatro indicações, inclusive de melhor filme naquele ano e foi vencedor com melhor roteiro original.  O filme foi muito bem aclamado pela crítica e pelo público, já sendo considerado um classico instantaneo do terror. 
Incríveis 98% no Rotten Tomatos e 85 no Metacritic, lembrando que o ganhador de melhor filme é aquele filmaço do Del Toro (ganhador de melhor diretor) A forma da Água, e também vinha forte Três Anúncios Para um Crime que ficou só com melhor atriz, no terceiro Oscar da Frances McDormand, realmente díficil pro Jordan Peele ganhar melhor filme esse ano, especialmente por ser um filme de terror, que nunca é bem premiado pela academia.

Aliás um filme de terror ter tantas indicações é uma condição anormal. 

✮Oscar de 2019. Marvel decide participar da brincadeira e o polêmico vencedor, Green Book...

Por fim chegamos no ano do Pantera Negra, a Marvel também decide entrar nesse jogo de filmes negros com Pantera Negra, aliás tiveram muitos filmes de pessoas negras concorrendo esse ano, concorriam de melhor filme Pantera Negra, Infiltrados na Klan e Green Book, ai o Green Book.  além de Roma do Alfonso Cuaron (QUE DEVERIA TER GANHADO DE MELHOR FILME), que narra a história de uma doméstica mexicana, uña baita pelicula, como dizem os falantes de portunhol.

Que anos pro cinema foi 2018, pra Greenbook ganhar, sinceramente.


Dessa vez a opinião pública sobre um filme não acompanhou o entendimento da maioria, ainda bem porque pelo hype corria o risco de Pantera Negra ser vencedor de melhor filme. Green Book em comparação com os outros dois filmes que usei de exemplo aqui, é o pior recebido pela crítica, 77% pelo Rotten Tomatos e míseros 69 pontos no Metacritic. Eu acompanhei todo o Oscar de 2019, ninguém esperava que esse filme fosse campeão, corria por for e tava longe de ser o favorito. O filme teve cinco indicações e levou três estatuetas pra casa, além de melhor filme, ganhou melhor ator Coadjuvante e melhor Roteiro Original. 

A premiação de Green Book de melhor filme pra mim é a maior evidência desse movimento que não foi percebido na época, premiar obras que falassem sobre racismo, negritude e entre outros, apesar de ter outro dois filmes na mesma pegada, Infiltrado da Klan não faz muito o tipo de Hollywood (que tem um TESÃO em Cinebiografias, Green Book é cinebiografia) e Pantera Negra é filme de herói, nunca ganhar vai oscar de melhor filme na vida.  A vontade do Oscar acabou por premiar uns dos filmes menos falados ou conhecido no ano, o que gerou cara feia em muitas pessoas, inclusive eu, que estava crente que Roma ganharia, ou pelo menos A Favorita, que é outro filmão.

Por outro lado, só de Bohemian Rhapsody ter perdido, fez minha madrugada. Estava torcendo contra eles.

Infiltrados na Klan (96% no RottenTomatos e 83 no Metacritic) foi um filme muito bem recepido e falado, mas acabou entregando menos do que projetavam, não é atoa, 2018 teve muito filme bom e fortes ao Oscar. Sua única estatueta foi o de melhor roteiro adaptado para o Spike Lee (seu único Oscar) e outras quatro indicações que não dava pra ganhar mesmo. Um filme tão ácido politicamente chegou até longe demais, outro que em condições normais, não receberia tantas indicações.

E daí vem Pantera Negra, na mesma pegada dos outros filmes, havia uma boa vontade absurda e uma sede com produções negras. De todos, é que tem o elenco mais preto (quase 100%) e tenta passar algo mais africanista, e afins. Sua recepção foi meteórica, incríveis 96% no Rotten Tomatos, é o filme de herói com maior avaliação na plataforma e 88 pontos no Metacritic, todo o marketing também foi bem sucedido, com o icônico clipe de rap King Dead que virou hit assim que saiu. Se aproveitando do ápice da indústria do hip-hop, que foi justamente em 2017/2018.

Tem o meme também da parte do future do " La Di Da Di Da slob my knob" cantado de forma um tanto quanto diferente, que para muitos estragou a música. Memes também contam histórias.


Pantera Negra fez história ao ser o primeiro filme de herói a ser indicado a melhor filme e mais 6 outras indicações, além de sair vitorioso em três categorias técnicas, Maquiagem, direção de arte e essas coisas. 
Só que esse bonde da boa vontade acabou passando um filme extramente problemático, com representatividade vazia e apenas algo bonito para vende boneco do T'Challa, o Kevin Fegie o chefão da Marvel conseguiu emplacar um filmezinho de heroi no meio de tantas outras boas produções. E foi algo inquestionável. É puro oportunismo da Marvel.

O oportunismo é tamanho, que eles charama para fazer o filme o diretor e roterista de Creed, justamente um dos filmes alvo da polêmica do Oscar de 2016, não é coincidência tentar emplacar alguém que foi central nos debates do Oscar de 2016. 

E a Marvel tava muito na vontade de fazer algo de negão, todo o marketing do filme foi sobre isso, como sendo algo inovador, jamais nunca visto, diverso e outras qualidades positivas impostas pela mídia. Até com ensaios fotográficos do Michael B Jordan se vestindo do Pantera Negra, o partido político e também sendo capa da revista britânica. Durante o lançamento do filme. E com entrevistas saudando o partido.


O primeiro poster oficial do filme fazia referência a uma clássica foto do Huey Newton. A intenção da Marvel é EVIDENTE.


Em outros termos, Pantera Negra só foi 1º Produzido e 2º Bem recebido por causa de todo o contexto da necessidade de produções mais negras, porém em nada tem a acrescentar e o pior, passa uma mensagem contrária das outras produções. Pantera Negra teve uma recepção acrítica, da qual passo a fazer agora. 

✮Um filme de qualidades vazias. 
Antes que eu seja acusado de hater, o filme tem algumas valências, mas o suas qualidades são justamente seus defeitos, pois claramente houve ali um trabalho de pesquisa das culturas centro-africanas, é um dos poucos filmes que, apesar de se passar em um país fictício, tem uma África mais próxima, sabe de qual África está retrando, o centro da África por ali, que tem algumas culturas e costumes específicos e esses costumes estão bem representados, pelo menos visualmente. 

Por essas valências que inquestionavelmente foi ganhador do Oscar nessas categorias técnicas, de verdade é muito gostoso ver algo africano sem ser estampa de oncinha. Visualmente, é quase vislumbrante e até animador ver algo que não se recorra a esteriotipos. 

O casting tá perfeito, o filme só tem dois atores brancos, o Klaw (Garra Sônica em portugues), que é um dos piores papéis do Andy Serkis, graça a deus morre com meia hora do longa. Também tem o agente da CIA que tá meio perdido, propositalmente. Os atores negros são a elite dos atores negros da nova geração, Michael B Jordan, Chadwick Boseman, Lupita Nyong'o que não poderia faltar, Letita Wright, Daniel Kaluuya que são figurinhas carimbadas nessa leva de "filmes negros", alguns inclusive aparecem nos outros filmes citados. O elenco conta até com o experiente Forest Whitaker, que tá fazendo o básico ali.

Mas aí que pega, um cast riquíssimo, roterista de renome que já tinha sido bem sucedido com Creed, um trabalho de pesquisa das culturas africanas, mas aí bem o pontinho fraco e o mais grave de todos. O roteiro é uma porcaria, e me parece que a produção (Kevin Feige e afins) entrou em rota de colisão com a ideia original do diretor (Ryan Coolger) e passa uma ideia toda contrária. A representatividade passa a ser uma mera representação, há uma imagem, mas a imagem não comunica, exceto por suas omissões.

✮Killmonger não é um vilão cinza, ele é preto.  
Vilão cinza, ou moralidade cinza é um conceito atribuído a vilões que, apesarem de estarem errados possuem uma motivação nobre, ou estão naquela situação de vida devido a "escolhas ruins do passado". É o famoso passado do vilão que muitas pessoas passaram a julgar com menos rigor aquela pessoa, também tentativas de humanização do vilão.

O vilão cinza também joga essa luz cinzenta para a moralidade do herói em alguns casos, o melhor exemplo que me vem a mente é a Fera B'Wana nas primeiras edições do Homem Animal do Grant Morrison, que é um maníaco, cruel, violento, que porém só ataca instituições que fazem crueldade animal, então apesar de exagerado, ele tem um pouquinho de razão. E que valores o Homem Animal teria em lutar contra uma 'ativista' desses? Debati isso numa das primeiras postagens do blog, conheçam a história aqui.

Então além de necessário desmonstrar (ou não) porque o vilão não tem razão, é mais necessário ainda mostrar os valores do qual o expectador irá torcer pelo herói ganhar, do contrário o sentimento é de injustiça, ou que o verdadeiro vilão é o personagem principal atribuído como herói. Que pode ser sim uma alternativa/jeito diferente de contar história, mas vira um certo probleminha quando não é intencional.

Esse é o maior problema de Pantera Negra, o Killmonger não é um vilão cinza, ele é um vilão preto, com ideias comuns a ativistas do movimento negro.

Em outras palavras, a representação do Killmonger é de um ativista do movimento negro que acredita nos ideais de dispora africana, ou movimentos de volta a África e cooperação mútua entre seus irmãos da raça. A Marvel não conseguiu acinzentar o Killmonger, muito pelo contrário, o filme mostra ser REACIONÁRIO ao vilanizar um ativista do movimento negro, em um filme SUPOSTAMENTE focado em representar pessoas negras de forma positiva. 

E o pior, o herói, Pantera Negra, é o sujeito que mata esse ativista, e segue sem discordar de uma única vírgula as ideias conservadoras de seu reinado. Pra piorar, voltou ao poder através de um regicídio. 

Veja como é a história sem falar quem é herói e quem é vilão.

De um lado termos N'Jadaka ou Erik Killmonger, filho de um imigrante Africano que era da família real do seu país com uma americana, um país muito e desenvolvido no centro da África, porém escondido. Seu pai abandonou a família ao conhecer as injustiças praticadas no EUA  contra pessoas negras, se tornando um militante, de militância armada mesmo, como é mostrada no começo do filme. Seu tio, rei desse país, considera o ato praticado por seu pai uma traição, mas traição de que? Dos valores, VALORES de não-interferência externa, assim coloca um espião na sua cola e em um fatídico dia de 1992, assassina o próprio irmão e deixa seu sobrinho de SANGUE, alguém da FAMÍLIA REAL, em Oakland, a mercê da própria sorte.

Ou seja, Wakanda abandona um wakadiano por discordâncias políticas e traição de valores conservadores daquele país, cujo a pena foi de morte. 

Erik então vira um mercenário com o objetivo de vida de conhecer sua terra natal, que sequer o considerava mais como parte da família, apagando sua memória. Ao voltar para Wakanda, e por ser primo do rei, o desafia numa luta justa que desafia a coroa de Wakanda. Na luta, as condições para decidir o novo rei é a morte do atual ou rendenção. 

Sem qualquer tipo de trapaça ou golpe baixo, vence o atual rei, que só não o mata (como era previsto no desafio) por interferência externa, derrotado, seu primo rei é jogado da cachoeira, sem chances alguma de reverter o resultado. Assim de forma LEGÍTIMA vira rei de Wakanda e tem a ideia, também justa de legítima de apenas enviar recursos para países vizinhos e grandes países colonizadores, com o objetivo apenas de oferecer resistencia a movimentos de libertação nacionais.

Antes de eu mencionar a trajetória do T'Challa, onde que oferecer armas e suprimentos representa uma ameaça a Wakanda? Ou fazer guerras? O filme é um tanto confuso ao mencionar se o Killmonger quer ou não invadir esses países, porém a julgar as aeronaves que ele lança em direção aos países, tem apenas suprimentos, que poderiam ser remédios, armas ou qualquer coisa que ajudasse na luta.

O filme não mostra nenhum PERIGO CONCRETO das ações ou ideais do Killmonger, eu não consigo visualizar o que de tão errado ele fez para ser considerado vilão. As únicas pessoas que ele mata durante o filme é um nazista (O Garra Sônica, Klaw, que realmente é nazista) e uma pessoa que INTERFERIU em um duelo HONESTO, além de ser o espião responsável (confesso) da morte do seu pai. A única "crueldade" é decidir queimar todas as plantas que dão força ao Pantera Negra, que não está exatamente encaixada na história. Fazem sentido também porque foi um Pantera Negra que assassinou seu pai, uma pessoa inocente que nunca atacou Wakanda ou colocou o reino em perigo, assim o ato de iconoclastia é até que bem vindo, apesar de não fazer muito sentido. 

Mas esse cara, que apenas quer apoiar lutas negras mundo a fora, é vilanizado pelo o tempo inteiro. No sentido que "não agimos assim", "você vai destruir Wakanda" e frases similares. 
Que tipo de mensagem Pantera Negra quer passar ao vilanizar militantes do movimento negro? E eu nem estou falando necessariamente linhas de esquerdas, já que o Killmonger possui certa similariedade também (em menor grau) com um certo nacionalismo negro, que é uma bem distante das linhas socialistas negras. 

Ideologicamente, pode-se dizer que é um revolucionário genérico, e quem é o inimigo do revolucionário? O reacionário... QUEM FAZ O PAPEL DO REACIONÁRIO? O PROTAGONISTA DO FILME.

✮T'Challa é reacionário ou manipulado. 

Acredito que mais do que alguém politcamente questionável, que é a ideia central do texto, é importante destacar que a família real de Wakanda possui uma moralidade no mínimo duvidosa, o que não é necessariamente um problema, porque o filme poderia ser o T'Challa lutando contra a própria família para se estabelecer e amadurecer de fato, o que teria bastante sentido por o filme ser sobre um príncipe que acaba de se tornar rei.

Fazendo justiça com o T'Challa, ele questiona o próprio pai em uma sessão espiritual, o T'Chaka dá um migué dizendo que não é perfeito e precisou tomar algumas decisões, famoso "as vezes acontece né".

O sujeito mata o irmão, abandona o sobrinho e só diz que ninguém é perfeito mesmo. 

O roteiro evita avançar nessas questões, é uma falta tão grande de nuances que não fica muito claro porque aquilo que o nosso herói está fazendo é o certo, ou sequer o que ele estava fazendo. Uma grande amiga minha, que é fã de Game Of Thrones que se Pantera Negra fosse uma fantasia medieval, com toda certeza a família do trono seria uma família vilã, que está montando uma cama-de-gato para derrubar o Rei legítimo, que conta até com roubo de uma das plantinhas que dão força ao T'Challa, em um ataque equivalente a uma guerra civil.

Só que os suprimentos que estavam saindo de Wakanda eram uma ou duas aeronaves que um ÚNICO piloto conseguiu derrubar, será que o perigo era tão grande assim? Pra puxar aquela bagaceira toda? Talvez não.

O meu ponto nem é "duhh dava pra fazer diferente", mas o que tinha de tão grave que Wakanda ia ser destruída com isso?

Também não é uma tentativa de racionalizar o filme, mas há tão poucos elementos de convencimento de quem-é-quem, há uma remota possibilidade de ter sido uma jogada proposital dos criadores, mas a contra-gosto da produção. É um completo desarranjo.

Um filme receita de bolo de herói geralmente o "mocinho" age por impulso, por causa de um perigo que tá pra acontecer rapidamente, quando o Lex Luthor tá fazendo alguma maldade bilionário e o Superman tá ligado nos 220 para impedir de qualquer jeito, mas quando não há um perigo tão claro e iminente, algumas ações ficam despropositadas. 

Nem apresenta algo clichê, nem apresenta algo necessariamente novo. O filme não resolve suas próprias problemáticas.

Não que um filme preciso necessariamente de heróis e vilões, grande parte das animações da pixar, especialmente as recentes, trabalham nessa linha mais cinza das coisas. Mas uma vez que existe estes dois elementos, é necessário um cuidado na história, porque uma vez que se vilaniza um grupo, a mensagem do filme pode ser problemática.

E tem um subtexto ainda pior. E essa parte é pelo não dito. Existe algo que só faz sentido para quem nunca leu os quadrinhos, os Wakadianos odeiam qualquer cultura externa a eles, o Killmonger é meio-americano e foi criado lá fora, então talvez o Killmonger não possa ser rei por ser mestiço, não é um Wakadiano legítimo.

Isso não é dito no filme, mas casa muito bem com o contexto da existência de Wakanda que existe nos quadrinhos, a grande lacuna para a rejeição mediata do Erik Killmonger abre espaço para esse tipo de interpretação.

Porque a porra do roteiro não é fechado, e ele não se fecha por não trabalhar nenhuma nuance ou contradição que possa acontecer durante o filme, produzindo uma história excessivamente linear.

✮Wakanda é um país europeu.
"Dica número um: É um país da europa" - Tão, Faus
A formação e política de Wakanda sempre me incomodaram bastante no filme, revendo depois de começar a pesquisa ficou mais evidente. O mito de origem de Wakanda é de que cinco tribos (povos na real né, mas o filme usa tribos) vivem em pé de guerra entre si, o tempo inteiro não conseguiam fazer as pazes. Daí um nobre guerreiro recebeu a benção da Deusa-Pantera Bast, que se declarou como rei e unificou os povos, acabando com a guerra, exceto pelo povo Jabari, que foi viver nas montanhas.
Não só essa historinha de mito de criação, como a ideologia por trás do governo (será o próximo tópico) são excessivamente eurocentristas, os moldes de reinado de Wakanda são mais próximos de uma aristocracia europeia do que os modelos de governo de impérios antigos em África. O processo de unificação é idêntica de alguns países europeus, especialmente todo o processo de unificação da Itália com o Rei Vitor Emmanuel II e da Alemanha, com o Otto Von Bismack. 

Wakanda é um país escondido no centro da África, com o medo de ser invadido (coisa que nunca aconteceu) e ter ser recursos roubados, só que não, pois o filme mostra aquela nação como a mais rica e mais tecnológica do planeta! Então obviamente eles teriam meios de soberania suficientes para não serem pertubados e nem ter sua maior riqueza roubada, o Vibranium, que é o metal mais foda do planeta terra.

Sim. Wakanda é rica do MATERIAL MAIS RESISTENTE DO PLANETA TERRA e ainda assim possuem medo de invasão. Não faz sentido né? 

Não mesmo, porque o filme se oculta em explicar um elemento fundamental de Wakanda nos quadrinhos, o sentimento de superioridade de Wakadianos perante o resto da população, inclusive dos povos que constituem Wakanda, no caso os outros quatro. 

(COMO ASSIM?! Os motivos para isso são evidentes, que serão melhor explorado no próximo tópico)

Eu diria que existe um ode a tecnologia que beira o positivismo, o que seria talvez viajar demais, mas o importante é estabelecer o seguinte: O modelo de governo de Wakanda e o seu mito de fundação são oriundos de ideologias europeias do século 19, e outras aristocráticas mais anteriores. Nem burgueses-liberais são.

O que contradiz a mensagem de "representatividade" que o filme tenta passar. 

Me incomoda muito o T'Challa do filme ser um rei mais próximo do Luís XVI do que o Mansa Musa.

O continente africano é um espaço com mais de 1,5 mil civilizações vivas, é um continente gigante, mais de 50 países, várias línguas e povos. Uma composição cultural bastante diferente dos micropaíses europeus. A África possui diferenças muito mais do que visuais, há filosofias/ideologias/concepções também próprias do continente, que seriam um prato cheio para incorporação do filme, mas não aparecem em nenhum momento. Porra, até Rei Leão usa uma pitadinha de filosofia africana (Ubuntu tá muito utilizado hoje, é verdade), Pantera Negra é zero. 

"Isso é viveeeeer, é aprendeeer" - Nelson Mandela 
              
Especialmente naqueles países mais brutalmente afetados pela colonização (Republica Democrática Congo, Angola, Camarões, Costa do Marfim, Ghana, Ruanda e dentre outros) há uma concepção da famosa 'mãe África', algo que caminhe para um panafricanismo (movimento real da segunda metade do século 20) e uma ideia mais cosmopolita entre os povos, ou seja, menos chauvinista ou patriótica. 

Não atoa as lutas de libertação em África foram mútuas. A independência do Egito desencandeou a do Marrocos e Tunísia. Existia uma luta além da pátria, e sim um enfrentamento pelo mal comum que assolava o continente, a colonização.

Já dizia Tim Maia:
Em Guiné-Bissau
Não está legal
Muito menos na Rodésia
África do Sul
Pegue o sangue azul
Mande para as cucuias (Rodésia, Tim Maia 1976)

Os ideais Wakadianos não são coerente nem com civilizações históricas da África antes da colonização, por exemplo seria maravilhoso representar mesmo de subtexto um Império de Gana, Mouro, o Reino da Núbia ou Mali, nem com os movimentos pós libertação, especialmente o Socialismo Africano emergente e principal corrente pós independencia. Não há nem o menor fragmento de figuras importantes como Kwame Nkrumah, os angolanos Agostinho Neto, Antônio Jacinto e Viriato da Cruz, Amílcar Cabral, e óbvio que não estariam presentes figuras bem mais radicias como Frantz Fanon e Aimé Césaire, que eram caribenhos, mas foram fundamentais nos processo de luta pela independencia da África. Pra mim, os principais nomes em leituras quando falamos de colonialismo.

LEIAM FANON PELO AMOR DE DEEEEEEEUS

Mesmo que o Socialismo africano não seja única corrente pós independencia, é bom salientar que o pensamento cosmopolita é parte fundamental do pensamento filosófico africano, especialmente dos países que serviram de inspiração a Wakanda e também são os países-mãe de boa parte dos ancestrais dos negros-americanos.
 Só que essa inspiração, ao que parece, é meramente visual. Wakanda tem imagens africanas, mas não representam em nada o continente.

 Definição do filosófo ganês Kwame Antonhy Appiah sobre cosmopolitismo:
Appiah aponta três noções a respeito do conceito de cidadania global importantes nessa filosofia: não pressupõe a existência de um governo mundial único, mas entende que todos somos parte de uma comunidade global, independente da comunidade política – um governo único acabaria com as diferenças entre os povos – sendo isso o que enriquece a vida humana; devemos nos importar com todas as comunidades e não somente com a nossa própria, pois o bem estar dos seres humanos é um problema de todos, por isso devemos aprender com outras comunidades distintas da nossa, ou seja, podemos utilizar o conhecimento de outras sociedades, não precisamos seguir somente as ideias da nossa própria comunidade; o valor do diálogo: com ele, o aprendizado se torna mais dinâmico, a troca se constitui mais intensa quando há o diálogo (a conversa), pois a escrita limita a resposta, a interação. Fonte: PENSATEMPOS, COSMOPOLITISMO E AFROPOLITANISMO: perspectivas híbridas do pensamento africano da Liana Dieperi Amorim

Pelas definições apresentadas em artigo, Wakanda é um inimigo do pensamento cosmopolita, por negar a universalidade entre os povos ou sequer se reconhecerem como africanos ou negros. Isso é dito expressamente no filme, só que quem fala isso é algum vilão? Não, é um dos líderes de Wakanda, que fazem parte da família real, o lado "bonzinho da história",  como diz o artigo: 

Os cosmopolitas possuem inimigos: os que negam a universalidade, que usam o argumento nacionalista para recusar o direito à universalidade a outras nações e culturas, como os direitos humanos, por exemplo; e os que negam a diferença, como os fundamentalistas, que desejam converter todo o mundo a sua fé, uma vez que o universalismo, para eles, significa uniformidade. (idem)

Essa tese da Liana Dieperi ainda trás a visão do Afropolitanismo do Achille Mbembe e o "Pensatempo" da Mia Couto, é um excelente artigo que não irei me discorrer mais por questões de economia do texto.
 
Daí pode surgir um questionamento válido de "Ah mas Wakanda nunca passou pelo colonialismo" o que reforça justamente o ponto de visão superior perante os outros países, Wakanda não tem "nada a ganhar" em termos de melhorar a nação ajudando seus países vizinhos, que são pobres e "atrasados", também não parece querer se misturar com outras culturas em geral, Wakanda Forever ganha contornos muito mais bizarros a partir desse entendimento do que um efeito símbolo de resistência.

A grande contradição de Pantera Negra é que ele não é símbolo de luta, muito pelo contrário...

Ainda sobre o "nacionalismo(s)" africano(s) recomendo leituras sobre: 
MOVIMENTOS NACIONALISTAS EDE INDEPENDÊNCIA DOS PAÍSESAFRICANOS da UFS. Texto mais resumido sobre os movimentos de libertação, só 15 páginas;
O ensaio OS LAÇOS QUE NOS UNEM: UMA HISTÓRIA ARQUEOLÓGICA DO COSMOPOLITISMO AFRICANO/IORUBÁ E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A COLABORAÇÃO NO ATLÂNTICO SUL do Akinwumi Ogundiran (Tradução de Marcos Leitão de Almeidae Natalia Cordoniz Klussmann);
a já mencionada dissertação de mestrado PENSATEMPOS, COSMOPOLITISMO E AFROPOLITANISMO: perspectivas híbridas do pensamento africano da Liana Dieperi Amorim
E uma dissertação que fala específicamente de Gana e Tazânia, NACIONALISMO E PAN-AFRICANISMO NA ÁFRICA PÓS-INDEPENDÊNCIA: OSCASOS DE GANA E TANZÂNIA do Eduardo Marquezini Faustini.

✮A raíz de todo mal, fidelidade aos quadrinhos.


Pessoalmente, não faço tanta questão se o filme de herói em si possui similaridades ou não com os quadrinhos, adaptar é muito díficil, e até algumas obras criam personagens totalmente diferentes, mas atribuem um nome que já existe para evitar criar um personagem novo e dar mais dinheiro pra Marvel, ou a DC.

Também não acredito em erro artístico, não existe uma forma ERRADA de adaptar um personagem para qualquer mídia, seja quadrinhos, filmes, musical ou peça de teatro, existindo um projeto sólido, boa direção e os fatores que compõem um bom filme, o personagem pode ser diferente quanto for, se BEM feito, está valendo bastante. Adaptações podem ser distantes e ruins, fiéis e boas. Vice e versa e também do contrário.

Puxando da fidelidade, a série The Last Of Us (inclusive são dos mesmos criadores), que apresenta algumas diferenças pontuais em relação ao jogo, coisas que estão mais como uma melhoria, sem se afastar da obra original, a Ellie tá bem melhor na série, especialmente pela baita atuação que a Bella Ramsey tá entregando. Vocês lembram da bolha nerdola chorando horrores quando saiu o nome dela pro papel? Já era sinal que iria dar muito certo! Também dá pra citar um trabalho infinitamente melhor do Bill e Frank, que eram mais uma piadinha rápida no game. Que também foi alvo de um chororô histórico por parte da bolha mais fofa da internet. Entre outros fatores necessários para se colocar o conteúdo do jogo em formato de série.

Falando de heróis, O mal exemplo de adaptações que são fieis, mas ruins são qualquer coisa que o Zack Snyder meta a mão, muito fã service, muita cena identica aos quadrinhos, e quando vai se analisar os filmes... Meeeh pra ruuuim. Fora que aquilo que é inventado (o tom dark) envelheceu muito mal, como um copo de leite.

Existem casos que a produtora prefere propositalmente afastar a imagem dos quadrinhos com a do filme, para que se crie outra identidade ou outro público, o melhor caso é do Batman. Só ver quantos Batmans diferentes existem para as telonas, alguns filmes são bem aclamados já outros nem tanto.

BAT-TETAAAS
O Batman do cinema é estupidamente diferente do Batman dos quadrinhos, essa diferença das mídias é bem antiga. A galhofa do Batman do Adam West fez que o personagem dos quadrinhos dos anos 60 ficasse mais sério, ou mais detetive e menos homem vestido de morcego surfando com um palhaço, foi bem na fase do comecinho com o Denis O'Neal nas publicações do Bravo e o Audaz.

típico Batman dos quadrinhos

A relembrar que os quadrinhos dos anos 60 já não tinham o público infantil como foco mais, enquanto a televisão ainda tinha uma audiência infantil grande, era o tiktok daquela galera.

Tem também aqueles casos que inventam demais e não dá pra reconhecer o personagem, se tiver em um filme ruim então, Jared Leto que o diga. Aquele Coringa... De novo, não foi um erro artístico (de Design talvez), mas sim de execução. (O nome do erro se chama Zeca Snyder)

"quem gozou isso?" x2
No que se encaixa o filme? Ele está muito próximo dos quadrinhos clássicos do Pantera Negra, e aí que mora o problema. Porque eram necessário ajustes pontuais. 

O Pantera Negra original é uma ideia completamente datada, e trazer isso para 2018, vai acarretar os problemas que apontei no texto. Relembrando a história de criação do personagem:

Pantera Negra foi um personagem secundário criado pela famosa dupla Lee e Kirby para a issue 52 do Quarteto Fantástico lá em 1966, mesmo ano de fundação do Partido dos Panteras Negras lá em Oakland, California, destacando que o quadrinho sai em abril de 66, e o partido é pra novembro, bem depois. Ambos NÃO POSSUEM CORRELAÇÃO ENTRE SI. Até porque, o nome original do personagem possui uma conotação duvidosa, para não dizer racista de COAL TIGER, e esse era o primeiro design do personagem criado pela dupla.


Honestamente, Coal Tiger soa racista.

Destacando que ele está longe de ser o primeiro personagem negro dos quadrinhos, lá nos primórdios das tiras de jornal, o mágico Mandrake (1934) tinha como fiel escudeiro o Lothar, um africano. Porém é sim um dos primeiros, senão o primeiro a receber um destaque bacana e ser mais presente nos títulos principais, outro renomado herói negro da Marvel, Samuel Wilson o Falcão foi surgir lá pra 1969, três anos depois.

Principe Lothar e o Mágico Mandrake

Sua primeira apariação T'Challa aparece apenas como um barão/rei jovem exêntrico de um rico reino africano misterioso, que convida Reeds e sua tropa para vistar o país (Wakanda não é uma nação escondida), chegando naquelas bandas, o quarteto é atacado pelo Pantera Negra, que não tinha intenções acintosas, estava mais para uma espécie de teste para dar a eles uma missão, derrotar o Garra Sônica, o assassino de seu pai, T'Chaka.

Lembrando que o quadrinho, o que não é de se assustar, possui uma visão beeeeeeeem eurocentrica sobre a África, com um visual todo "tribal". Uma mistura de lanças com armas


Na edição seguinte, é contada a história de morte do T'Chaka e suas motivações, Wakanda é rico do metal fictício vibranium, e o Klaw (Garra Sônica) é um tipo de microcolonização que está tentando invadir e sequear as riquezas daquela terra.

Nessa há uma clara inspiração ao Mansa Musa, que foi o homem mais rico da história, a edição 53 é menos pior do que a primeira.

apertar um que ninguém é de ferro

Apesar dos apesares, o T'Challa não é ruim como personagem, só é muito alguém de seu tempo. 

Os esteriotípos racistas não intencionais (acredito), pois estamos falando de 1966, não se tinha todo o debate racial ou possibilidade de conhecimento das filosofias africanas, boa parte dos países africanos que citei no texto ainda sequer tinham começado seus processos de independência, ou estavam no começo. Além da intencionalidade zero de trazer um personagem "representativo", Pantera Negra da forma que foi criado, pensando e incluído no universo Marvel não possuía esse papel de "representar" as pessoas negras nos quadrinhos. Até porque seu criadores eram dois homens de famílias judaícas ensocados no meio de Nova York.

Esse quadrinho do quarteto é até de certa forma ultrapassado, na primeira menção ao Pantera Negra o Coisa menciona dele ser um refugiado do filme do Tarzan em tom de piadinha. Os debates raciais e a filosofia africana pós movimentos de libertação já avançaram para além disso.

A Marvel até evitou politizar o personagem depois da fama que Os Panteras Negras ganharam EUA a fora, trocando provisoriamente o nome do personagem para "Leopardo Negro", não colou muito.
Os rumos mudaram quando o Pantera passou a sair em publicação individual pelo roteiro do Don McGregor, que foi uns dos pioneiros do conceito de graphic novel, uma das pioneiras é justamenta A Fúria da Pantera que já tem resenha no blog.

Não vou refazer uma análise de como é o Pantera Negra nessa saga, basta ler a postagem. Resumo dizendo que o T'Challa do McGregor é um personagem mais denso, que questiona a si mesmo o tempo inteiro e vive a sombra do pai, que foi um grande líder de Wakanda, sendo um rei ainda impopular e inseguro. Por outro lado termos o reflexo que um governo monarquico tem na idade moderna, a monarquia de Wakanda é algo altamente questionável, assim como o isolacionismo do país Africano, que beira a verdadeira xenofobia com qualquer pensamento ou pessoa que vem de fora.

T'Challa apesar de superherói é meio broxa, seu maior dilema é lidar com a confiança, e síndrome de impostor é muito comum a pessoas negras tá? Nesse ponto o McGregor acerta em cheio, por outro lado também Wakanda tá longe de ser um paraíso negro. 

Sim! Wakanda não é um lugar de santinhos, só ver como a esposa americana de T'Challa é muito mal tratada por todo mundo, inclusive pessoas de dentro do reino! Como o filme foi baseado em todo esse cenário, dentro da hipótese apresentadas nos quadrinhos, pelo mesmo motivo o Killmonger seria odiado. Bingo, eis o problema do filme

O poder não é sequer mencionado, raça e poder são dois tópicos intimamente ligados, o debate vai além sobre preconceito de fato. O que não é necessariamente um problema, porém, quando você se apresenta como uma obra "necessária" por abordar questões políticas, seria bom pelo menos abordar elas.
 
O filme é baseado em um personagem de quadrinhos que precisam de nuances que não foram exploradas. Além de repetir mecanicamente coisas tanto quanto antiquadas, que não seriam alvos de crítica a época dos quadrinhos. Até haviam caminhos simples que pudessem resolver esse problema, mas a Marvel optou pelo o mais simplista possível.

Entregando um produto que se vende como uma coisa, mas na prática não entrega nada. É o puro oportunismo de surfar na onda de produções de empoderamento negro na época.

Cabe ressaltar que os quadrinhos possuem uma fase bem mais ousada politicamente, que é suas melhores histórias com o Christopher Priest, sobre isso declarou Ta-Nehisi Coates:

O autor best-seller do New York Times, Ta-Nehisi Coates, de quem você deve ter ouvido falar que agora tem sua própria série Pantera Negra, considera Priest como tendo “a clássica série de Pantera Negra, ponto final, e isso será verdade por muito tempo”.

Embora ele seja talvez o principal pensador da América sobre raça, ou o escritor que muitos americanos procuram para ter pensamentos aguçados sobre raça, Coates não gasta muito tempo com raça em sua própria saga. No início de janeiro, ele disse ao Deadspin:

“A questão sobre raça é, em última análise, apenas uma questão sobre poder, realmente é. É como os seres humanos se organizam em torno do poder, como o exploram, como o utilizam. Esse é o cerne da história em quadrinhos. … O cara está neste país mítico de Wakanda, onde todo mundo é negro. Então, obviamente, você não tem o mesmo contexto de raça. Mas certamente as questões de poder, de organização do poder, ainda estão lá.” Fonte

Para fechar o ponto, como adaptação, as inovações em trazer uma Wakanda afrofuturista foi um acerto, mas o personagem não foi devidamente atualizado, continuando sendo o mesmo T'Challa ora escrito pela visão branca. Especialmente quando o filme evita de abordar seus temas centrais.

Imagina se o Homem-Aranha é rico em um filme né, não tem sentido. Não é MCU...?

✮Conclusão.
Joao Guimarães on X: "Tinha que ser o chaves... https://t.co/ZfHOb09LCe" / X

Existiu na época de seu lançamento um famoso Pantera Negra hipotético, onde ele era representativo, inovador, quase revolucionário, tudo aquilo que a indústria precisava. O hype para sua chegada foi tão grande, que literalmente qualquer produto entregue seria recebido e muito bem recebido como foi. A Marvel prometeu tudo e entregou qualquer coisa, essa qualquer coisa acabou servindo para aquilo que foi prometido. 

Quase um efeito placebo coletivo. 

Até porque não importa se o filme tem uma mensagem ruim né? O importante é ter atores negros, a todo custo.

Acabei que nem comentei o CGI PÉSSIMO que esse filme tem, o que indica um sinal vermelho que houve dedo do estúdio para apressar o lançamento, ou mudanças de roteiro, nunca saberemos. 

Fecho o tópico de um filme que não gostei, com sua pior cena.



Até a próxima parede de texto, fui!


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