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Quadrinhos são uma péssima fonte pra adaptação: O Superman da era de prata.

Superman #163

No último sábado eu paguei uma dívida histórica que tinha com o mundo nerd: assistir Superman do Donner (1978) pela primeira vez. Cara, que filmaço. Assim como Superman lá no comecinho dos quadrinhos foi o título mais importante (mesmo não sendo o primeiro), o filme do Superman também é o mais importante dessa linhagem cinematográfica de filmes de herói. Basicamente é o primeiro filme de herói com um grande investimento, com grandes atores (Marlon Brando de Jor-El), grande nomes na produção (Mario Puzo, roteirista do Poderoso Chefão) e nos moldes que nós conhecemos, ou pelo menos conhecíamos porque a qualidade caiu bastante nos últimos títulos...

Não acho que o filme merece uma postagem própria, todo mundo já conhece. Só adiciono que eu acho o Superman do Reeve, fofo demais, ele dá tchauzinho antes de sair voando, salva gatinho preso em árvore, pede licença pra passar na calçada. Mesmo assim acredito que o Clark é mais perfeito ainda, eu gostei mais do Clark Kent do Reeve do que o Superman.

fofo

Só que no meio do filme me veio uma dúvida na cabeça, será que o Superman (1978) é fiel aos quadrinhos? Já adianto que a resposta é não.

O mundo nerd criou alguns conceitos que são falsos, quando o filme é ruim buscam as respostas mais fáceis, que já viraram bordões. Se o filme não presta, já falam "não foi fiel aos quadrinhos", ou "mudou demais o personagem", sendo que na verdade tudo que um filme precisa é uma coerência interna que seja funcional, se vai ser parecido ou não com os quadrinhos deve ser o segundo plano. Até porque toda mídia independente entre si, uma autonomia é fundamental. 

Não tem receita, ou o filme é bem feito ou é mal feito. Tem projeto, é uma coisa diferente.

Superman de 78 não é fiel aos quadrinhos, ele é fiel ao personagem, são coisas diferentes. Mais do que isso, é responsável por amarrar vários conceitos do Superman em uma história só. Como o S ser símbolo da casa de El, que é família do Superman em Krypton (antes era só um S mesmo), e o Lex Luthor ser um empresário filho da puta, que na altura dos quadrinhos era só um cientista maluco filho da puta. Além de ter firmado essa imagem do Super de bom escoteiro, e uma roupagem mais coesa do universo Superman. Até porque o nosso queridão tava em águas turbulentas na era de prata-bronze, falarei mais pra frente.

Utilizarei como fonte uma postagem que vi no r/Superman (reddit) que explica as diferenças mais gritantes.

  • Lex Luthor não lidava com o mercado imobiliário (especificamente nesse período, ele ainda estava na fase cientista maluco. A descrição como homem de negócios só viria aparecer poucos anos na frente);
  • A primeira "entrevista" do Superman foi com o Clark, não Lois;
  • Não existia Ms. Teschmacher ou Otis;
  • O S não era um símbolo da Casa de El, mas apenas um S (O S sendo o um símbolo é uma influência desse filme, Porque o Marlon Brando só aceitou fazer o Jor-El se ele usasse o S no peito)*;
  • Krypton não era completamente branca ou cristalizada. Na verdade, era um paraíso, mas a maioria das pessoas eram cuzonas; 
  • Seguindo as histórias da era de ouro, os Kents (pai do  Clark) morreram antes do Clark is para metropolis, como é descrito nos gibis do Superboy. O filme foi o primeiro onde Martha ainda estava viva quando o Clark vira o Superman.

Também essa parada do Jor-El enviar o Superman com uma missão na terra, não existia em lugar nenhum, além de ter DESCONSIDERADO a fase do Superboy INTEIRA, ao invés do Clark ir amadurecendo, ele passa uns 12 anos estudando na fortaleza da solidão e aparece do nada com 30 anos já trampando em Metropolis. Essa fase pós-morte do Jonathan Kent é o pezinho mais fraco do filme, mas tá ok, a gente perdoa o Mario Puzo. Perdoamos?

*o asterisco é que o filme do Donner ele não é baseado no Superman dos quadrinhos no geral, fidelidade quase zero. Na verdade é meio que uma mistura da era de ouro com a era de prata, mas não se parece com nenhuma das duas, porém é idêntico (até visualmente) com uma série de TV do Superman que foi a o ar em 1952. A SEGUNDA adaptação audiovisual em carne e ossos, a essa altura já tinha aquele desenho maravilhoso do Fleischer em 1941 e um Superman live-action de 1948 que foi uma seriezinha de 15 episódios.

 As aventuras do Superman, o famoso Superman do George Reeves, que faz parte da infância de muita gente. E tem o mesmo S no meio que o filme de 1978, é idêntico mesmo. 


A destacar que a série ainda era em preto e branco, sejemos inteligentes. 

O filme dá um passo atrás na representação mais popular do personagem, indo para a era ouro mais ou menos. O Superman mais popular na época mesmo tinha sido o Superman da era de prata (metade dos anos 50 até 1968 mais ou menos) e porra, AINDA BEM que não foi fiel aos quadrinhos.

Nessa postagem iremos investigar as maluquices do Superman dos anos 60 e provar que nem sempre os quadrinhos são uma boa fonte para adaptação. 


✧ ERA DE PRATA CONTEXTO HISTÓRICO


Se você odeia, ou pelo menos embarca nessa moda de odiar multiverso, ou universos paralelos condene a DC Comics que inventou essa gracinha, lá em no Flash #123 (1961) onde dividiu formalmente duas eras dos quadrinhos. A era de Ouro representada pelo flash do Jay Garrick, aquele com uma cumbuca na cabeça, e o flash mais clássico do Barry Allen, representando a era de prata. 


Aliás é com a criação do Barry Allen em Flash #4 (1956) que é iniciada a era de prata dos quadrinhos. Que em poucas palavras pode ser resumida como era de domínio dos quadrinhos de super-herói, uma vez que as outras publicações de não-herói ficaram para trás depois da criação do Comic Code Authority, um conchavo para derrubar a gráfica mais popular, a EC Comics. 

Antes do heróis, os quadrinhos mais populares eram o de terror, histórias policiais, histórias infantis como Luluzinha e também aquelas de animais falantes. Na virada dos anos 50 para os 60, essas ficaram no passado, e as histórias de herói tomaram conta, meio que na marra. 

Qual é a principal característica da era de prata? 

Histórias de ficção científicas e um olhar menos mítico, ou místico dos super-heróis, como era os heróis da DC na Era de Ouro. Também tem o surgindo da Marvel, só ver como muitos heróis da Marvel tem uma origem relacionada á ciência, Demolidor levando CHORUME nos olhos, Bruce Banner ou a picada (la ele) do Peter Parker. Só que a Marvel vai se popularizar na metade dos anos 60, e tinha outro público alvo, um público mais universitário, suas histórias tinham camadas sociais mais densas.

Já a DC, durante a era de prata era totalmente focada no público infantil, suprindo a carência que as crianças tiveram com o fim de outros quadrinhos. É nisso que Superman dos anos 60 está encaixado, era focado para um público infantil, sendo a revista mais vendida na época, basicamente a Turma da Mônica deles.

Sabe esse climão de Turma Mônica? Essas revistas episódicas sem relação entre si? Era como Superman se encontrava, o Batman tinha um caminho bem parecido, a série clássica do Adam West dá o  tom dos quadrinhos. 

!!A era de prata se aplica mais a história da DC dos quadrinhos, e ainda assim é só uma divisão para compreender, mas não deve ser levada TÃO sério assim, porque a história não é tão mecânica, tanto que vai ter heróis dos anos 60 que se encaixam naqueles dos anos 40, nada impedia na época. Até porque os artistas da era de ouro ainda estavam em atividade!!


✧ SUPERPODERES ESTRANHOS, SUPERGIRL, SUPERBOY, WONDER MAN, SUPERLEÃO, SUPER FOMRIGA... MORT WEISIGNER e JERRY SIEGEL.

O Superman tinha uma certa vantagem de outros personagem de herói a sua época, mesmo que de forma totalmente bagunçada, Clark Kent já possuía uma certa mitologia própria, vários personagens secundários bastante firmados no imaginário coletivo. Lois Lane, Jimmy Olsen, Lex Luthor, além de lugares comuns. Meio que a altura de 1960, TODO MUNDO já sabia o que era o Superman, seja pela série de TV, os desenhos do Fleischer ou os próprios quadrinhos. Ele era algo facilmente reconhecível, um homem de capa com cueca vermelha em cima do uniforme.

Em palavras mais simples, existia um Superman no imaginário popular, brincar com isso é mais fácil do que construir um universo de um novo personagem, como a Marvel foi fazendo com Quarteto Fantástico por exemplo. 

Havia outra vantagem no Superman da era de prata, um de seus criadores lá em 1938, voltou a fazer o personagem Jerry Siegel, que junto com Mort Weisigner comandaram essa nova leva do herói, produzindo histórias bastaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaante criativas, e férteis também. O Weisigner é basicamente a cabeça responsável por amarrar o Superman e toda sua mitologia, racionalizando o personagem, ou transformando o sonho do Siegel e Shuster em realidade. 

 O Super foi tão popular nesse período que rendeu revista própria da Lois Lane, Superfamily e do Jimmy Olsen, além do que já existam a revista própria do Superman e do Superboy, que são as aventuras do Clark quando jovem.

Pra não citar a criação do Krypto, o supercão. O panorama tinha mudado, o Kal-El não era o único sobrevivente do planeta Krypton, tinha a Supergirl (que também tinha revista própria) e o General Zod, que também são dessa época.  A maior diferença entre o Superman da Terra 1 e da Terra 2, é que o da terra 1 tem MUITO MAIS poderes, tom mais leve e as aventuras especiais, além de mais vilões.


Também a DC fez aquelas brincadeiras que vieram a ser mais comuns no "Marvel What If..." onde contam histórias alternativas. Aliás, tem MUITA, mas MUITA história alternativa nessa época do Superman, VÁRIAS versões de cópias do Superman, uma delas está presente na revista Superman #125 (1958), que tem uma capa muito famosa*.


O resultado disso é um absoluto sucesso de vendas, e popularidade com o público infantil, isso de 1959 até 1966~ se tinha praticamente um monopólio do Super, só que essa paz acaba quando o Batman estoura de vez com a série do Adam West, e os títulos da Marvel começam a ficar populares no geral, especialmente o quarteto fantástico, que rendeu até adaptação da Hanna Barbera já nos anos 60.

A concorrência era forte, não tinha como superar Batman '66, o que tornou toda DC mais Batman-cêntrica, como é até hoje né. A série de TV do Batman o tornou o principal personagem da DC nos quadrinhos. Eu ACREDITO também (isso é uma suposição) que a popularidade da televisão no geral tirou as crianças dos quadrinhos, a altura de 66 já se tinha vários seriados e desenhos voltados para o público infantil, ou tratando dos mesmos termos de ficção cientifica dos quadrinhos. O que forçaram finalmente a DC a tirar o tom mais bobo de suas histórias, já que seu público não eram mais crianças de 11 anos. 

Cabe pontuar algumas séries do período, Star Trek, Mission Impossible, The Monkees, Time Tunnel, Space Ghost e além de Twilight Zone que é do finalzinho dos anos 50;

Cabe pontuar que o Jerry Siegel sai da DC novamente mais ou menos nesse período. Precisamente em 1965; 

A mudança de tom nos quadrinhos do Batman é automática, e ele se encerra logo após com o fim da série em 1968, em um movimento editorial sagaz, criando assim o Batman no tom mais próximo que conhecemos o personagem em Batman #217 (1969), quando o Robin vai pra faculdade e desaparece das histórias do morcegão por um bom tempo, focando as histórias mais em investigações (que sempre foi mais ou menos o personagem). O Superman não continua a galhofa por muito tempo também, acabando gracinha até antes,  na Action Comics #348 (1967).

A "última" maluquice da era de prata é justamente a 347, que tem essa capa:


80 páginas de pura diversao

*MUITAS CAPAS DO SUPERMAN NESSA ÉPOCA SÃO PURO CLICK DA DC. Existem algumas pessoas que levam essas capas a sério como fossem poder, mas na verdade elas serviam para chocar o público, mostrando Superman fazendo coisas bastante cuzonas, tipo deixar as pessoas morreram de fome, ou fazendo algo totalmente aleatório. Não se deixem levar por elas. 


Olha a diferença da edição 348:



Claramente uma mudança de tom. Mas eu nem mostrei as histórias mais bizarras do Superman, vamos com elas. Para fechar irei "ler" algumas histórias mais bizarras durante a era de prata. 

✧ SUPERMAN FUMANDO??


Isso acontece na história secundária da edição #163. O Superman, que tem supervelocidade, superforça e bem... Ainda mais na era de prata que ele tinha mais poderes ainda, ele utiliza charutos (precisamente uma dúzia) que ele ganhou para criar uma cortina de fumaça e simular a explosão de uma bomba com as próprias mãos, fugindo do lugar que estava preso. Não me pergunte por que ele estava preso, mas faz parte do roteiro. 

A bomba foi jogada por um bombeador maluco, que só produzia bombas meia-bombas, fazendo sua centésima explosão.  Não vou explicar além disso. É isso mesmo.


✧ LASER ARCO-ÍRIS??

Superman, #125

Alguns sites nerd colocam que esse é um poder real do Super, mas NÃO. É APENAS A CAPA. A história é sobre a Lois sonhando enquanto espera o Superman voltar com uma bolsa de sangue de Chicago, já que seu sangue é raro. Mesmo que Metropolis é uma cidade gigante, deveria ter um doador por lá. Em seu sonho, Lois imagina como seria se ela e o Clark tivessem super poderes, é algo muito bobo do Clark Kent sendo um completo imbecil atrapalhado, e não salvando ninguém.

Tipo, o Clark vê um barco afundando e a ideia dele é extrair borracha da arvore e fazer uma boia gigante. Imagina isso adaptado em um filme:



Ou quando ele destrói a casa de alguém sem querer e vai trabalhar para conseguir dinheiro e compensar os danos, eu ri dessa parte, não vou mentir que é uma excelente gag. 


Depois tem outras histórias menos interessantes.

✧ SUPER-FORMIGA??

Action Comics, #296

Essa história é começa com o Lois e Clark indo a um zoológico para observar uma nova colônia de formigas, e daí tem uma parte bem educacional sobre o funcionamento das formigas e do formigueiro, de quão fortes elas são. O Clark até diz "se elas tivessem o tamanho de uma pessoa, conseguiriam levantar o Empire State Building", e Lois responde com "haha, ainda bem que elas não são desse tamanho", só que existiam formigas gigantes lá pra pasta da égua, numa região remota. 

Eventualmente elas chegam a Metropolis e começam a causar uma bagucinha. Superman é chamado para resolver a situação, e quando ele chega nas formigonas percebe que elas tem kryptonita verde, daí o exército dá a ele um TANQUE DE GUERRA de chumbo para se proteger de uma eventual radiação da kryptonita verde. É isso o que rende uma das cenas mais hilárias que já vi: ele precisar de um tanque de guerra.


Pra quem não sabe, o Raio X do Superman não funciona contra o chumbo, então também o protegeria de uma eventual radiação de kryptonita.

Acontece que o tanque mesmo sendo de chumbo não dá conta, uma única formiga o levanta e arremessa contra a parede.

Eu não faço ideia se um tanque de chumbo seria mais resistente ou menos.

Por mais um velho clichê, as formigas capturam Lois Lane, e o Superman tem a brilhante ideia de ir até o espaço e se auto envenenar com Kryptonita Vermelha, que nunca tem um efeito específico, é mais uma carta coringa pros roteiristas e só deixam as coisas MALUCAS, no caso dessa revista, ele se transforma numa formiga, para utilizar das antenas e se comunicar com as outras formigas. O que proporciona uma das histórias mais grotescas do Superman, então dessa vez a capa não tem click-bait, existe o Super-formiga.

BIZARRO CARA

Apesar do absurdo, as formigas são pacíficas, elas são sobreviventes de um apocalipse nuclear em outro planeta, e devido a radiação cresceram de tamanho. Como a guerra atômica destruiu o planeta natal delas, as formigas-gigantes-alienígenas dedicam a vidar em viajar por outros planetas e avisar sobre os perigos da guerra nuclear, por vias das antenas, avisam isso ao Superman, que por sua vez faz um discurso anti-guerra na ONU. É ISSO A HISTÓRIA.   



✧ RINHA DE PET??

Action Comics #277

A história de briga do Rajado com o Krypto é a secundário, então a capa faz sentido. Só que a história é uma trilha tão estranha que eu não consegui resumi o que acontece. É uma treta do Lex Luthor e o Superman, o Lex vai tentar roubar o Fort Knox, o Superman aparece e é recebido com várias boladas de kryptonita... Cara, eu desisto de entender.


Mas aí tem um plot twist que na verdade era um robô do Super... E aí o Lex Luthor DEVOLVE o que roubou porque não derrotou o superman de verdade... Que...



Já a história da Supergirl na mesma revista é uma clássica cão x gato, o Rajado fica com ciúmes do Krypto que está recebendo toda a atenção da Supergirl, então a história dele é contada, de como ele ganha seus superpoderes e resolve atacar o cão, o Superman aparece pra separar.

gato fodido carente triste

A ideia então do Superman é fazer o "cabo de guerra mais fantástico da história", com uma corrente enorme com cada um puxando de cada lado. O cara é cabeça demais, senhor. 




A corrente quebra no meio, e eles competir em outro lugar, em um planeta muito distante, que beira o surrealismo. Eu não vou explicar mais nada, isso é Superman dos anos 60 purinho.



E O SUPER MACAQUINHO. 

que fofo cara



✧ A VEZ QUE ELE VIROU UM LEÃO

Action Comics #243

O Superman foi amaldiçoado com um soro que transformava ele em um leão, e a história é sobre isso mesmo. A história um fator engraçado que a primeira reação da Lois foi "ah foda-se, eu ainda gosto de você, vamos pro teatro assim mesmo" e o Superleão tá tentando levar a vida normalmente. Bom demais.



✧ SUPERCORNA?? 

Lois Lane #31

Essa é uma história da Lois Lane, são duas na verdade. A primeira é ela explorando Metropolis com um tipo de óculos especial que mostra a "essência animal" das pessoas, cada pessoinha é um animal diferente, inclusive o Superman é mostrado como uma águia e depois como um leão, DE NOVO. É pelo menos a TERCEIRA história que conheço onde o Superman é associado com um leão.


fursona foda

Aí é só fazer o link né papai, ela vai olhar o Clark e o Clark vai se esquivar para não aparecer com a mesma essência animal do Superman. Bem bobão mesmo.

Na segunda história, também envolve uma geringonça de mochila que apita a emoção que você está sentido no momento. Daí eles testam o ódio com o patrão, o medo com o Jimmy Olsen e entregam á Lois Lane para testar o ciúme... No caso do Superman, Lois dá uma gastada falando que "aí, eu nem ligo pra ele, por mim pode casar com a Lana Lang", pra quem não sabe Lana Lang é uma talarica safada, digo interesse romântico do Superman, ou mais ou menos a arquivilã-não-declarada da Lois Lane. A deliciosa rivalidade feminina que o mundo misógino proporciona.



Acontece que ela tem ciúmes de todas as mulheres que o Superman chega perto, é isso mesmo.

Betty Drew.

A sereia Lori, que o Superman tava só de passagem pra dar um salve.


Aí quando a Lana Lang aparece, ela taca logo um beijão no Superman, rapaz a luz gerou tanta energia que começou a gerar atração magnética com uma máquina que tinha perto. Essa é a piada da tirinha. 

adcione risadas do Big Bang Theory aqui


As histórias da Lois Lane eram muito coisas da época, era só uma mulher que vivia em função do seu super-homem, mesmo quando eles nem estavam em um relacionamento ainda. Imagina só o quanto de chorume que tinha nessas paradas. Isso já estaria muito datado a altura de 1978, a Lois do filme é mais "independente", apesar de ainda fazer o papel da mocinha indefesa. Ela está mais para uma mulher forte de cai nos encantos do galã, se desmontando toda. Não a culpo, o Christopher Reeve era muito gostoso. 


✧ CONCLUSÃO, E MENÇÕES HONROSAS.

Tem um personagem que surgiu nessa época que foi o Bizarro, que é um personagem que gosto. E o vilão mais chato do Superman, o Mxyzptlk, aquele que só PERTUBA o Super e pode ser derrotado se falarem o nome dele ao contrário, salve engano ele surge na era de ouro ainda, mas é melhor aproveitado nessa maluquice da era de prata. 

Eu também adoro aquela chave gigante da fortaleza da solidão, que o Superman fez para a fechadura. Ele fez uma chave que somente alguém com a força dele consegue abrir. 
 
Action Comics #310


Maluquice pode soar pejorativo, eu diria mais uma certa ludicidade, ou um pensar o personagem além de uma lógica formal que a vida adulta tem. É uma ludicidade que só os quadrinhos conseguem expressar. 

Saindo até do Superman, os quadrinhos é uma mídia marginal que passa pela mão de dezenas de autores, ou até centenas, que cada um deles dá suas próprias ideias e invenções, é difícil fazer qualquer tipo de adaptação de seja "próxima" com os quadrinhos. Os quadrinhos são mais maleáveis, enquanto os filmes precisam de mais personalidade e conceitos que funcionem. Não atoa, filmes são mais fáceis de consolidar conceitos. Por serem mais fáceis de serem distribuídos e conversarem melhor com o público geral.

Uma revista de quadrinho são apenas vinte páginas que você lê sozinho, um filme tem mais de 90 minutos (normalmente) onde todo um movimento debate e pensa naquele filme, ou até todos movimentos culturais que consolidam na cultura pop, como foi com Star Wars.

Então ao invés de comprar fidelidade aos quadrinhos, acredito que o mais importante é gerar mídias autônomas que tenham êxito em contar mais uma vez a história de um personagem tão conhecido, ou até agregar novos conceitos, mesmo achando que nos dias atuais seja algo difícil.

O trailer do novo Superman já agradou muita gente pela fidelidade, mas ainda é cedo para cravar alguma coisa, uma obra pode ser fiel e ruins, basta estar na mão de pessoas que não tem a menor ideia do que estão fazendo (Zack Snyder). 

Mais uma vez, não existe receita de bolo, existe filmes bem feito e mal feitos, e até alguns filmes mal feitos podem agradar. Tem gente que gosta do Watchmen de 2009, dá pra acreditar?

Mas em linhas gerais, é isso mesmo. Até a próxima superaventura desse blog.

TCHAU!



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Quando o verde encontrou a verdinha. O Incrível Hulk #231 (Roger Stern, Sal Buscema e Mike Esposito)


É OFICIAL: Apertaram a braba.

Como já trouxe aqui para nosso querido blogzinho, essa era do Hulk do final dos 70 foram uma verdadeira maluquice, o personagem deixou de ter aquela dinâmica do médico e o monstro pra virar só um monstro verde gigante que representa uma AMEAÇA REAL para os Estados Unidos, onde tipo uns 80% é o Hulk vageando por aí, batendo em polícia, batendo no exército e eventualmente lutando contra um vingador. Essa não é diferente.

Hulk não é um herói mais, Hulk não tem evolução pessoal, sua vida virou um grande ciclo vicioso de raiva descontrolada e medo, em uma frase: A vida de Hulk não tem um rumo mais. Esse caráter melancólico dá uma liberdade de roteiro de colocar o verdão em qualquer situação que se possa imaginar, ele nem precisa salvar o dia, o roteiro é bem mais livre e por isso termos tantas histórias diferentes aqui.

Eu vi essa história em um reels do instagram, eu tive que checar do que se tratava, aqui é material investigativo também!

Qualé a da vez? Tudo começa de madrugada quando um hiponga é expulso de um bar de caipiras no interior da California.

beber fiado é foda mesmo


Para sua enorme sorte, simplesmente o Hulk, que é um exímio vagabundo nato, estava andando pela região e confundiu o tiozão caipira que estava com uma jaqueta preta com um soldado, fato que o deixou puto de raiva e desceu a mão nele. Assim os outros rapazes do bar saíram correndo.

o hiponga, Fred Sloan, de cara fez amizade com o Hulk e teve a brilhante ideia de levar ele pra casa, só que esqueceu de avisar pra sua esposa/namorada, de manhã o susto não foi pouco. Essa cena é incrivelmente cômica da mulher desesperada enquanto o Hulk estava na paz dele comendo um feijaozinho.




Pra variar, a paz do nosso herói em decadencia dura pouco, já que a dona resolve chamar a polícia, mas quem entra em desespero é o hiponga do Fred Sloan, porque ele sai mó desesperado, mesmo tendo A PORRA DO HULK com ele, será que alguns polícia seriam capaz de parar o Hulk? Quem já leu os quadrinhos sabe que jamais, aí que tá.

Fica de subtexto que esse hiponga já tá fichado ou tem culpa no cartório, se baseando na máxima da vida que quem não deve, não teme ou não treme. Assim ele mete o pé em sua van velha em caminho a Beverly Hills.


"já estive em blitz piores, eu consigo passar nessa" Existe cenário pior?

Vale registar que o nosso amigão do verde teve a ideia genial de só colocar um chápeu panamá e um poncho para esconder uma criatura do TAMANHO do Hulk, OBVIAMENTE NÃO DÁ CERTO, o Hulk se estressa assim que vê os homens e porra, destrói a porra toda, viatura, os mike, as armas, não sobra nada. Esse ponto do Hulk ter uma raiva irracional de homens de farda é um aspecto interessante.

ACAB. 
A história acaba com a fuga dos dois e continua no issue #230 do Capitão América (ou no caso tipo #231-B do Hulk...), que tem todo uma história paralela do Steve Rodgers em Alcatraz procurando por seu companheiro, o Falcão.

Depois da apresentação desse prólogo, os recém amigos estão correndo em alta velocidade nas estradas da California enquanto o nosso amigo Fred parece ser muito nervoso.... Por algum motivo... Para relaxar e espairecer das ideia, ele decide acender um cigarrinho de artista, e a lombra foi tão pesada que só a fumaça foi suficiente para o Hulk relaxar e voltar a ser o Bruce Banner!

Na moralzinha? O Hulk se relaxar por ficar chapado é o melhor plot dos quadrinhos que já vi, como que ninguém nunca pensou nisso antes?

Curioso como o Hulk é tratado nos quadrinhos como a maior ameaça a segurança nacional, um caso sem solução que envolve até os vingadores em muitas histórias (ele até luta contra o Capitão América nessa), mas tudo poderia ser resolvido com... Uma erva natural. Como o Bruce Banner é pouca coisa mais fraco do que o Hulk, são parados novamente, o Bruce foi reconhecido pelos policiais que não hesitou em atirar nos dois, dando cabo na vida do nosso querido maconheiro.

O maconheiro não ficou para ver o natal.
Essa história em específico do Hulk me fez pensar no quanto as forças de segurança (polícia e exército) são ineficazes ou até que ponto estão em busca de realmente resolver o problema, porque veja como em inúmeras histórias o Hulk é colocado contra o exército, mas nada irrita mais o monstrengo verde do que armas de fogo e homens de farda, por que a estratégia não muda? Até que ponto o Hulk, quando calmo e só andarilho, é uma verdadeira ameaça para o bem estar das coisas? Isso pode valer para a ideia genérica de criminalidade ou a questão específica de drogas, só que a resposta para o conflito da guerra as drogas é um pouco mais evidente a questão racial envolvida e as ferramentas de controle de populações racializadas.
Políticas conservadoras sempre aumentam o orçamento e promessas de mais repressão sobre o pretexto de evitar o mal maior, mas parecem não consegui dimensionar o quanto o remédio está agravando a doença, é exatamente o caso do Hulk, quanto mais ele enfrenta homens armados mais ele se enfurece, mais se isola e fica cada vez mais díficil, o que resulta no envio de mais homens armados e o ciclo vai se alimentando (pensando essa fase Sal Buscema do Hulk em específico).
Ninguém quer acabar como o Hulk porque sem ele não haveria uma razão de tanto investimento em bases militares ou em armas de guerra, mais polícia nas ruas e outros meios de "combate" do Estado.
Não que o Hulk não seja um problema, mas será que a estratégia adotada para lidar com ele é eficaz até que ponto? Ainda bem que tudo se trata de uma história em quadrinhos, imagina viver em um mundo desses, ai ai...
Tentando fazer uma associação forçada que eu não consegui desenvolver, as vezes parece que o Bruce Banner parece ser um viciado crônico, em um estado de descontrole que o tempo todo está tentando ser ajudado por amigos, no caso os vingadores. Mas aí é filosofia de boteco demais.

Viajei? Não sei

Voltando para história, fica óbvio que o Bruce Banner vai pra Alcatraz por algum motivo e lá se encontra com o Capitão América, sai a maior porradaria dele com o primeiro vingador e o resto... Ah o resto você tem que ler o capítulo #232 pra saber né amigão, sabe como é as histórias em quadrinhos.

Só digo que o issue #231b acaba assim:


Assim, no fringir dos ovos verdes e irritados:

Fried Egg GIFs | Tenor


Todos os problemas do nosso grande amigo Hulk poderia ser resolvido se ele bolasse um para esquecer dos problema. Como dizia Planet Hemp, uma erva natural não pode te prejudicar.



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ATÉ O GOVERNO DE WAKANDA NÃO PRESTA, FAZ O T - A Fúria do Pantera (Jungle Action, #6 à #18, Don McGregor, 1973)

Até nos quadrinhos o T'Challa é meio cuzão vai, muito difícil gostar do personagem. Mais difícil ainda é defender Wakanda, mas aí estaria eu me adiantando no assunto dessa resenha. 

Do que A Fúria do Pantera se trata? É mais ou menos a primeira história do Pantera Negra fora do Vingadores, não sendo uma história de criação, mas meio que definiu em todas as outras mídias quem seria o Rei T'Challa e o que seria o Pantera Negra. Dizer que é A MELHOR HISTÓRIA do Pantera Negra é um rótulo pesado, todavia, com toda certeza é o melhor tratamento que a Marvel já deu ao personagem, que sempre foi um herói da linha B da editora, apesar de Vingador. 

Antes de falar da resenha em si, vale uma contextualização, senta que lá vem a história. Em dois pontos:

- o PANTERA NEGRA foi criado ANTES do Partido dos Panteras Negras lá na Califórnia.

Como vocês devem saber, o Pantera Negra foi criado para uma história Quarteto Fantástico (#52 Julho de 66), na era Stan Lee e Jack Kirby, o Stan Lee e o Jack Kirby  falaram que pensou no personagem por sentir falta de heróis negros nos quadrinhos, que o mesmo seria amigos de pessoas negras, percebeu a existência de um público negro e conhecia excelentes artistas negros. Então criou o Pantera Negra sem qualquer pretensão política ou aceno aos "direitos civis", isso faz bem mais sentido se olharmos para a primeira história dele, tá mais pra um Doutor Destino negro do que outra coisa... Ele surge como um desconfiado líder e depois se alia ao quarteto para executar sua vingança contra o Garra.


T'Challa me lembra também o Mansa Musa, que talvez tenha sido o homem mais rico de todos os tempos. 

Depois de seu debut, T'Challa se muda para Nova York, fazendo umas aparições breves em histórias do Capitão América e depois sendo membro dos Vingadores. 

Fica só de trivia: a HQ do Pantera Negra foi lançada em julho de 66, o partido dos Panteras Negras  foi fundado em Oakland foi fundado em outubro de 66. Assim podemos deduzir que a Marvel não tinha pretensões políticas de lutar a favor dos direitos civis das pessoas negras, nem uma homenagem ao partido como já vi vinculado em alguns sites. APESAR QUE: Ter um herói negro no meio da tensão racial dos Estados Unidos é muito significativo e por que não considerar um movimento arriscado?

Está mais para uma oportuna coincidência. A pretensão não política da Marvel ficou escrachada quando o Pantera Negra apareceu no Quarteto Fantástico #119 e disse que deveria ser chamado de Black Leopard pelo nome pantera ter conotação política nos EUA (está no texto abaixo), graças aos deuses essa palhaçada não vingou e o personagem "voltou" a ser Pantera na HQ seguinte dos Vingadores.

que migué!
- Jungle Action e a era de prata.

Jungle Action é uma revistinha lá da Atlas Comics, selo da Marvel que publicava essas histórias bizarras a lá Tarzan de pessoas brancas, quer dizer, colonizadores enfrentando os desafios do continente africano*, foi numa dessas lá nos anos 50 que a Marvel teve seu primeiro herói negro, Waku o Princípe Bantu, saindo pela revista Jungle Tales. Nem preciso me alongar muito de quanto quase racistas essas histórias soam, além de serem estupidamente datadas.
*Isso realmente tem o nome, é justamente Tarzanesque, tem INÚMERAS histórias sobre pessoas brancas sendo grandes líderes em África. Eram mais comum nos anos 30. 


A revista Jungle Action passou muito longe do sucesso de venda ou de público, apesar de continuarem a ser republicadas. Revisando as publicações da empresa, Don McGregor apontou como essas histórias da Jungle Action eram cringe, de pessoas brancas como protagonistas em histórias sobre a África, assim a Marvel deu a ele a revista em suas mãos, unindo a vontade de dar uma história solo para o Pantera Negra (lembrando que ele é dos Vingadores) com uma certa renovação de um título tão datado. Assim o Don McGregor assumiu a Jungle Action escrevendo do #6 até o #24, em dois arcos. 

Pontuando que o McGregor não vinha de uma tradição de história de heróis, apesar de trabalhar com quadrinhos a bastante tempo, só que escrevendo histórias de terror (alias, leiam a última postagem!) essa informação é crucial para a análise lá na frente. Pantera Negra foi mais ou menos eu primeiro grande trabalho nos heróis. 

O primeiro arco é A Fúria do Pantera, que vou resenhar aqui e outro é o T'Challa lascando o pau em cima da Ku Klu Klan, nem preciso falar como isso é POLÊMICO PRA CARALHO, que já com o baixíssimo números de vendas, decidiu cancelar o título. Mesmo vendendo pouco, as histórias do McGregor eram populares entre o círculo universitário e bem recebido pela crítica.

Acredite se quiser, isso é uma HQ oficial da Marvel

O arco do Pantera Negra contra a KKK ficou em aberto e o Pantera Negra só voltou a ser publicado no solo lá pra 77, quando a editora excluiu tudo que o McGregor tinha escrito e começou do zero com a revista Black Panther feita pelo Jack Kirby, nela que sim termos a história de criação do T'Challa e blablabla.

Mesmo com um relativo "fracasso" nas vendas e consequente cancelamento da revista, A Fúria do Pantera Negra, Don McGregor ajudou a consolidar um tipo de publicação que viria a ser moda nos tempos atuais, as famosas Graphic Novels, que a altura de 1973 eram bastante incomum, são por volta de 250 páginas de uma história continua, enquanto as sagas mais populares dos anos na época mal passavam de 4 edições, a título de exemplo: A chegada de Galactus é bem curtinha, ja A Fúria do Pantera Negra tem 13!

Não atoa, é de Don McGregor uma das 'pioneiras' graphic novel conteporaneas, Sabre de 1978, também nessa pegada de blaxploitation.

Sabre by Don McGregor | Goodreads

(Ah porra, vai que alguém não conhece o tal do blaxploitation. Uma definição rápida: filmes baratos com temáticas do cinema-B, muitos focados mais em cenas de ação, dos anos 70 onde toda a produção era quase totalmente negra, com bastante funk e soul music nas trilhas sonoras. Filmes notavéis: Shaft, Sweet Sweetback's Baadasssss Song, Black Ceasar, um pouco de Super Sly pela trilha sonora e os filmes de terror como Blacula, Abby que é uma paródia de Exorcista e entre outros). 

Apresentado esse caldeirão cultural que pariu o quadrinho, vamos a sua resenha, aprecie sem moderação alguma.

****Resenha com eventuais spoilers!****

A Fúria da Pantera tem um roteiro frenético, diferencial e bem alternativo para os padrões de sua época, a tão famosa 'Era de Bronze'. E era de bronze de uma forma resumida foi um repensar heróis na década de 70, suas implicações políticas ou éticas no mundo real, mesmo sendo retratados como personagens ficticios/fantasiosos, mas agora suas ações/omissões refletiam no mundo real e nem sempre os mocinhos saiam vencedores. NÃO É SOBRE HERÓIS REALISTAS, é mais sobre uma certa noção de alienação que muitos heróis vivem. 
O melhor ou no caso pior exemplo seria quando o Homem Aranha matou Gwen Stacy por pura molecagem.

Junho de 1973, isso botou alguns pra chorar.


Vale lembrar daquela famosa história do Denis O'Neal que é o Laterna Verde e Arqueiro Verde rodando pelos Estados Unidos e vendo os problemas daquela nação, tendo até um arco do parceiro do Arqueiro Verde ser usuário de heroína, que é usualmente definida como "criadora" da era de bronze. 

 O maior E MELHOR exemplo da Era de Bronze: Os X-Men do Chris Claremont, lá de 1975 até para toda eternidade. 

Foi um momento de distanciamento do público infantil (que já estava presente desde da década passada) para uma conversação para um público mais universitário, ainda é bonequinho colorido e fantasias, mas tem umas paradas sérias de subtexto por ali, ou quando não está explicito na tela. Porra a Kitty Pryde já meteu um N-word ao vivo em Deus Ama e o Homem Mata. 

bem hard R como dizem os gringos

Quais seriam as implicações políticas do Pantera Negra? Ele é um rei, e o pior: um rei que abandonou seu reino pra ficar brincando de Vingador em Nova Iorque, é justamente disso que o quadrinho se trata, na ausência de T'Challa, Wakanda vira um caos político que teve início com um princípio de revolta iniciado por Erik Killmonger o grande vilão da saga.

Por falar nele, antes de mais nada precisamos falar do belo visual que essa HQ tem.


Killmonger está com Mullet, sem camisa, botas brancas de paquita e cinto com espinhos que ele usa para atacar seus adversários, meio glam-rock, já o T'Challa está com um visual bem clean, todo negro e sem nenhum adorno relevante.

Os traços dessa HQ ficaram por Rich Buckler e Gil Kane inicialmente e da edição #10 até o final está com o Billy Graham, o creme de la creme desses quadrinhos é o Billy Graham, seus ângulos diferentes e enquadramentos belíssimos.

A HQ é bastante colorida, fazendo jus ao clima tropical, mesmo nas cenas internas ou noturnas há bastantes cores, bem marvel-way me lembrando as melhores do Jack Kirby, cores saturadas e marcantes. Mesmo sendo uma HQ dos anos 70, pelo menos pra mim ela tem uma vibe forte 60tista, com momentos que beiram a pura nóia psicodélica, sou suspeito para falar porque gosto muito dessa estética.

chapou o coco

Por mencionar cores, a pele negra nesse quadrinho está no tom PERFEITO. Um erro muito comum em quadrinhos é fazer pessoas negras todas pretas ou um tom meio cinza, as cores ficam bastante ruins ou até quando o traço destaca demais os lábios, pintando lábios vermelhos com a pele escura, o que infelizmente remete as caricaturas blackfaces. Mesmo com os lábios carnudos e proeminentes que nós pessoas negras termos, dá pra representar isso sem parecer racista.


Podem comparar com a própria versão do Kirby que desenhou o T'Challa completamente CINZA. Esse sucesso representativo pode se dar graças ao Billy Graham, que é negro, e também foi o responsável por desenhar o Luke Cage, outro personagem negro bastante importante para a Marvel a história dos quadrinhos. 

Billy Graham. LENDA.

Mesmo com a criação do visual da HQ e do Pantera ter sido feita por outros quadrinistas, é o Billy Graham que faz dela uma obra prima, seus visuais são incríveis. Uma coisa marcante em seu estilo são os ângulos utilizados. Quase sempre desenha o Pantera quase sempre de costas para a "tela" dando esse tom sempre de predador ou pronto para o bote, é um ângulo peculiar.


Vira e mexe acontece alguns erros de proporção dos membros, mas dá espaço para uma licença poética de atribuir uma forma mais expressionista ao seu traço, que sempre é muito bem vindo nas sequências de ação, por correr o risco de parecerem bonecos do Max Steel de tão duros ficam em página quando são desenhados tão perfeitinhos anatomicamente, algumas HQs do Batman são assim. 

A importância dada a cor do céu é outro ponto interessante, ele fica rosa, vermelho, laranja, amarelo. Além da utilização de contrastes e sombras. Quadros pequenos com closes de rostos e outros fatores bem melodramáticos.

 Um defeito desse quadrinho é a composição em alguns momentos. Não me agradou.

Primeiro que tem texto escrito demais, talvez foi um ímpeto do Don McGregor de fazer algo literário demais, então tem toneladas de texto em tela, se aproveitando de casa espaço da página, talvez ler na mídia física não fique tão cansativo, mas na mídia digital é complicado. Conta com pouquíssima splash pages ou sequencias sem texto nenhum, apesar que aquelas sequências sem blocos de texto ou onomatopeias são as mais marcantes.

Está mais para um manerismo consciente do que um erro conceitual. Não advogo para o dizer que não deveria ser assim, porém, a escolha adotada não me agrada muito. 

Pelo excesso de texto escrito, o texto desenhado as vezes fica espremido ou desprezado, fazendo parecer que o mais importante é que tem escrito, tudo é excessivamente descritivo, como as inúmeras vezes que está escrito qual é a lesão do T'Challa, feridas com pus, braço em carne viva e essas coisas. Tudo isso tem uma explicação, tanto o McGregor tanto o Graham são quadrinistas que passaram toda a carreira trabalhando com contos de terror, e aí mora o diferencial da HQ, é uma produção de herói feita por artistas de terror (daquelas revistas que menciono no meu último post, leia aqui), o que causa um certo estranhamento bom e um baita adicional para a estilística do herói.

Apesar de conter elementos narrativos de estéticos das histórias de terror, está mais para algo de aventura de fato. Mas com aquela narração detalhada que mencionei, em certos pontos A Fúria da Pantera vira um livro com ilustrações. O que o torna cansativo de ler em uma única sentada, apesar do ritmo frenético, suas 200 páginas são equivalente de ler um livro de 200 páginas de uma vez só, impossível.

Em duas ou três boas sentadas você consegue terminar o quadrinho, vai de seu ritmo de leitura.

Mas dois poréns, a época onde saia uma revistinha a cada 2 meses, o pace de leitura deveria ser muito melhor, o fator de ter a disposição da mídia é um fator relevante também, óbvio que um quadrinho de 1973 não foi pensado para ler no computador.

Dito isso sobre a composição, fecho o tópico com a página mais linda de todas.




E a história? 

A coesão textual e a capacidade de amarrar umas 12 histórias é algo impressionante, a ideia do McGregor foi de passar o tempo da história ao mesmo tempo da publicação, ou seja, o gap da primeira edição para a última é de 1 ano, exatamente o tempo levado para conclusão da publicação, com o passar do tempo, as coisas se resolvem na história. Como personagens mudarem de ideia, fazerem as pazes entre si e o tédio de prisioneiros por exemplo.

É uma sacada inteligente que deve ter dinamizado para a meia dúzia de pessoas que comparam os quadrinhos originais, é algo semelhante que acontece com Watchmen (essa ideia de passagem de tempo) é curioso porque Watchmen tem aquele reloginho e "watch" também é uma possível tradução pra relógio de pulso.

Bem, a história começa quando T'Challa chega de volta para Wakanda devido cruel ataque em uma pequena vila de suas terras, esse ataque foi realizado pelo conhecido "Terror Negro" ou Erik Killmonger que parece ter articulado um levante/revolta/pura maldade no tempo que o T'Challa passou ausente. Se bem que inteções do Erik nunca são reveladas até o final do quadrinho, me parece que a história se preocupa mais em desmontrar o lado do Pantera Negra.

Aqui o Pantera Negra está vivendo o clássico arco de herói da Marvel, um fodido. Que apesar de rei, é uma figura muito impopular no próprio país ou na cúpula do seu governo, ouvindo severas críticas de seu subordinados diretos, no caso Taku e principalmente o W'Kabi que é chefe das "forças armadas". Em português claro, T'Challa é um rei que abandonou seu próprio país pra lutar junto aos Vingadores, não teria fácil em sua volta, ainda mais na condição de um princípio de guerra acontecendo.

Ele é um rei, mas não goza de nada, só vive embaixo de muita pressão e sombra do seu pai, o T'Chaka, que foi o grande responsável por transformar Wakanda no que ela é hoje.

Outro agravante interessante é a "rainha" (que não é tratada assim em nenhum momento no quadrinho) de Wakanda, a Monica Lynne, cantora de Jazz Nova Iorquina e parceira romântica de T'Challa que está muito incomodada em morar em Wakanda, porque a todo momento era é tratada como inferior por ser estrangeira, por mais que seja negra como todo mundo ali.

T'Challa no começo da história só apanha pra caralho, é um herói muito físico e conta com bastante cenas de ação, além de parecer alguém inseguro, descontente e frustado com a situação que se encontra. Vive um dilema entre ser o rei de Wakanda ou ficar brincando de heróizinho por aí, não conseguindo equilibrar sua vida pessoal com os deveres de um líder. Isso fica muito evidente quando ele nem consegue dar a devida atenção para Monica e nem consegue governar direito, muito indeciso e sem pouca confiança nas suas ações. Em outras palavras, é um grande homem imaturo.




Wakanda é um país muito tradicionalista e até reacionário em alguns pontos, marcados por uma profunda desiguldade, onde Wakanda Central, que é o palácio real e seus arredores são marcados por tecnologia de ponta, enquanto o resto do país é ainda formado por pequenas vilas desprovida de qualquer "avançado" trazido pela exploração do vibrananium, que é um metal fíticio do qual a região é rica. Esses contrastes de um corte real mega tecnológica com o resto do país vivendo em casinhas de taipa é explorada desde de sua primeira aparição. Aqui é mais sutil, mesmo gerando comentários sociais interessantes. Como a passagem de uma nativa de Wakanda quando é espetada com seringa de vitaminas.

Aí vai uma coisa curiosa demonstrada nesse quadrinhos e outros supervenientes, a Pantera Negra é mais do que um cargo real, é um cargo religioso também, as vestes da pantera tem toda uma simbologia religiosa e Wakanda é um país que cultura aquele animal, tendo o seu rei, no caso o T'Challa a maior figura política e espiritual. Porém, não sabemos até que ponto esse culto é algo natural, porque tem uma sacada genial que o Don McGregor trouxe foi que nem todos os habitantes de Wakanda cultuam a Pantera Negra, porque existem uma parcela (talvez a maioria) que seja devota do Grande Macaco Branco, que até chega a lutar com T'Challa, o que dá a entender que talvez Wakanda seja um império expansionista dentro de África, se prevalecendo da sua tecnologia. Uma evidente força muito maior do que pequenos outros povos da região.

Aliás esses Macacos Gigantes são uns dos vilões da história, tem essa simbologia de luta espiritual ou seja lá o que o Don McGregor estava pensando.
ALERTA DE MACACO

Assim se desenrola a história, cada capítulo tem um inimigo diferente ou os inimigos são juntados em dois issues, dos mais variados a grande maioria são bem genérico pra falar a verdade, contam com Venneno (ou Venomm do inglês) que foi um garoto que teve o rosto derretido no ensino médio e por algum motivo virou imune a cobras, Malícia uma mulher capanga do Erik Killmonger e algumas valências macabras, como o Pantera Negra enfrentando o Barão Cadaver com seu exército de zumbis. De novo, o tanto o Don McGregor tanto o Billy Graham utilizando de sua expertise de histórias de terror utilizando dos mesmos personagens, mas não tem nenhum elemento de terror, exceto a estética do personagem, que é um mero vilão físico que vai sair na mão com o Pantera Negra.


Ainda passa por rinocentores, jacarés, macacos gigantes e até dinosauros onde eu achei uma viajada do caralho, mas rola essa certa jornada fantástica de heróis. É uma certa sacanagem atribuir as cenas de lutinha como ponto fraco, considerando o background do autor, até porque o puro suco do quadrinho são os momentos de política ou as subtramas presentes.

Uma coisa rara aqui presente é que cada morte em tela conta alguma coisa, tem consequências reais como abalo emocional dos personagens, entraves políticos, conspirações e etc. Não me lembro de uma mídia de herói dar tanta atenção para morte de personagens secundários, nenhum personagem principal morre, pórem, a morte personagens secundários da história afetam diretamente os personagens principais. Como a prisão de Monica Lynne, sim, a mulher do T'Challa é PRESA pela aristocracia de Wakanda, isso é o nível de não poder que ele se encontra. Além de evidentes traumas que acompanham até a história final, como a viúva que viu seu marido morrer nas mãos do Barão Macabro.

Todo capítulo conta com pelo menos duas histórias paralelas que não se cruzam necesariamente, isso significa que personagens secundários tem um nível de desenvolvimento muito incomum para histórias em quadrinhos, algo que geralmente é mais presente em... Novelas! Olha só. Além da cadeia de personagens focada em relacionamento interpessoais, como é comum em novelas, todo o nível de dramaticidade e cenas exageradas fazem jus ao gênero.

Um ponto que me chocou bastante foi uma cena de violência doméstica na frente dos filhos do casal, é o tempero diferencial de A Furia da Pantera. 
pesado

Como pico dá pra mencionar a saga de lutas épicas no meio da neve lá pro finalzinho e uma melancólica cena de guerra entre a guarda de Wakanda e os capangas do Killmonger. As três últimas são bem fraquinhas.

Já que mencionei os pontos positivos, acho muito bom ter uma obra de personagem negro que não seja sobre racismo ou temas paralelos como violência policial, é algo de herói como qualquer outro, a diferença é que se passa em África tropical e TODOS os personagens são negros, com a exceção do Venneno. Óbvio que abordar questões raciais é muito importante, mas pessoas negras também precisam se divertir de vez em quando. Só consumir conteúdo sobre violência pode afetar a saúde mental.

Outro ponto que acho interessante de abordar em Pantera Negra é o quanto ele pertence a uma aristocracia africana, T'Challa DEVE ser o tipo de pessoa que geralmente torcemos contra, é um monarca aristocrata (e BASTANTE reacionário no filme), é um toque precisamos de personagens negros que não sejam meros avatares de identidade, que não representem sempre o jovem da periferia e etc etc, garantir uma personalidade própria a pessoas que também são negras é passo da verdadeira representativdade. Tratar uma pessoa negra como pessoa, antes de enfiar o rótulo de "negra" no personagem.

Os heróis brancos tem espaço para debater seus dramas pessoais, por que os heróis negros só tem espaço para falar sobre racismo? 

Menciono isso porque produções negras geralmente focam em histórias de superação de pessoas vindo da pobreza, ou lidando com o preconceito por estar em um lugar estranho, mas cara, o T'Challa tem tudo que quer na vida, ele é um dos homens mais ricos do mundo e é um REI. Ou seja, tem bastante personalidade, tensões políticas e conflitos internos, ao invés de ser um mero representante vazio de um grupo que é marginalizado.

Não que obras declaradamente políticas são ruins, mas quando tem grandes empresas por trás e os autores estão de rabo preso para evitar maiores polêmicas, nem sempre dá muito certo, é o caso do filme. Só ver como eles tentam criar um Killmonger como vilão cinza, mas não tem muito sucesso. 

Precisamos primeiramente de mais pessoas negras por trás das produções. Do relativo ao personagem sempre serão bem vindas pessoas negras ruins, vilões, heróis, secundários, trapaceiros, honestos, sofridos, alegres e todo tipo de emoção humana possível, até as não ainda descritas. Toda representação com personalidade que inclua pessoas negras é sempre muito bem vindo.

E o Killmonger em si? Ele mal aparece, suas motivações não são reveladas fazendo dele um perfeito vilão diabólico, o mal pelo mal. Não fica muito claro se o objetivo dele é tomar o poder ou só derrubar o Pantera Negra, mas talvez ele sirva apenas de espalho maligno do T'Challa, que morre de medo de agir como o Killmonger sem perceber, alguém que coloca os próprios interesses acima de qualquer coisa.

Mas na boa, com o tanto de material bom apresentado, o Killmonger é o de menos. De certa forma, até quando o Killmonger se difencia do T'Challa? Suas motivações?

Toda a HQ é focada no amdurecimento do personagem principal, que o faz sozinho. Há informações que o editorial da Marvel teria colocado pressão no Don McGregor para ele incluir algum vingador na história, mas o mesmo recusou e fez questão que ele resolvesse todos os problemas sozinho. Apanha, assim como todo herói da Marvel, tem o universo destroçado, sangra, passa por tragédias pessoais, chora e grita, assim como todo herói da Marvel. Ao final, vê Wakanda destruída por Killmonger, mas em um golpe de sorte derrota o vilão no final.

Tendo a chance de construir seu próprio legado, dessa vez com seus próprios méritos ao invés de ser mero herdeiro de alguém fodástico no passado. 

Novelesco, inovador, sentimental, diferente. A Fúria da Pantera é um clássico dos quadrinhos que não pode ficar fora de nenhuma lista. Ao menos que você tenha a infelicidade de ser DCzete.

Fica muito evidente o quanto esse quadrinho foi influenciador do filme de 2018, mas olha aí, tem tanta coisa ruim nesse filme que só conseguiria falar por vídeo, quem sabe. Quando tiver tempo eu gravo alguma coisa.


Até a próxima empreitada! Fui!


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