Bem-vindes a Marginália 3

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⛧SATANISMO, ENTRE PÂNICO E REALIDADE⛧

Jinx Dawnson, vocalista da banda Coven

Epa epa epa, calma aí! Essa postagem é uma continuação da postagem anterior, então vai uma conferida!

Prefácio: Essa postagem se propõe a ser uma investigação da ligação do rock'n'roll com o satanismo/satã/simbologias satânicas, o pânico moral em cima do rock, um breve resumo do verdadeiro satanismo e uma explicação mais densa do que "FOI O BLACK SABBATH!!!" apesar da banda inglesa ter contribuido muito para o universo da música, e de antemão já falo: eles estão longes de serem os pioneiros. Chegamos na parte 2, onde vou desenvolver sobre a criação do imagético diabólico e a recriação do imaginário de satã.

PERGUNTA VÁLIDA: Se o rock não tem uma associação natural com o satanismo, porque roqueiros popularizaram a famosa "mão de chifrinho"? E todas aquelas músicas sobre o diabo? Descobriremos hoje, aqui e agora.

Ronnie James Dio que também popularizou o gesto

⛧Criação de um imaginário macabro na cultura
#1 Os populares quadrinhos de terror


MA-CA-BRO, essa é a palavra central para entender a associação de satã com o rock, partindo para o dicionário de Oxford, aquele que fornece aparece no google se define de uma maneira:

macabro
adjetivo
1.
relativo à morte ou aos mortos.
que tem a morte como tema; que versa sobre a morte e assuntos afins.
"uma comédia m."
que anuncia ou evoca a ideia de morte ou de mortos; fúnebre, tétrico.
"a decoração m. das capelas de ossos"
que inclui a representação da Morte.
"as danças m. dos claustros medievais"
2.
que desperta o horror; hediondo, horrendo.
"as fotos m. das valas comuns nos campos de concentração nazistas"
3.
ligado a sentimentos relacionados com a morte, a dor; sinistro.
"ter uma personalidade algo m."
4.
substantivo masculino
qualidade ou caráter do que é macabro; macabrismo.
"o m. nas artes"


E havia uma produção de arte macabra nos países que foram principais na popularização do rock, no caso EUA e Reino Unido por via quadrinhos, no caso dos Estragos Unidos da América termos o famoso gibi de terror Tales from the Crypt, ou em bom portugues: Contos da Cripta que virou adaptação pra TV lá nos anos 90 e sensação no Brasil, galera dos 30-40 anos vai se lembrar dessa.

Falando dos quadrinhos, HQs policiais e de terror eram as mais populares entre os leitores, incluindo crianças, esse pagode de fazer bichinho assustador teve início com a primeira edição da Eerie Comics em 1947, onde tinhamos uma moça gostosa com um belo par de coxas amarrada com um tipo de Ghoul(carniçal) indo em sua direção.¹
Apesar que uma das primeiras histórias, naquela loucura de heróis da selva foi a Fantomah, uma mulher com rosto de caveira, mas outro contexto. Eerie Comics que foi a primeira mesmo.


Mas a que teve sucesso mesmo foi a revista Contos da Cripta, uma revista bi-mensal publicado pela EC comics, entre 1950 até 1954², quando rolou a autocensura dos quadrinhos, muito em causa do sucesso da editora (e macarthismo). A censura de fato aconteceu na Austrália e foi debatida em vários países.

Por exemplo na Escócia, no lá pro mês de setembro de 1954³, centenas de crianças armadas com ripas de madeira invadiram o cemitério de Glasglow na procura de um vampiro gigante com dentes de ferro. O quadrinho Conto das Cripta foi apontada por ser responsável dessa barbaridade. 

E bem que essa era a vibe dos quadrinhos, zumbis, vampiros, monstros gigantes, insetos, cenas sugestivas e gráficas de assassinato, mansões assombradas e outras coisas fofas presentes. Perdurou por 27 edições até ser derrubada pela autocensura. Foi um movimento deliberado das editoras de heróis para derrubar a grande e popular EC Comics.⁴

Também vale mencionar as publicações britânicas que surgem nos anos 60 que foram publicados pela Marvel que continha elementos de terror, porém mais focados em ficção cientifica, como: Sinister Tales (alias dela que surgiu o homem de ferro), Suspense. Outra que vale mencionar é Out Of This World desenhada também pelo Steve Ditko e publicado pela Charlton Comics Group.

#2 A queda da era de ouro de hollywood e criação do cinema-B

Hoje em dia tem uma categoria de filmes chamado de trash que são filmes de baixo orçamento superapelativos que geralmente contam alguma coisa relacionada ao terror, essa prática cultural de filmes baratos/filmes de terror baratos era comum na cultura cinéfila mundial até o comecinho dos anos 30, porém o complô das cinco maiores produtoras de cinema dos EUA deu uma freiada brusca nesses filmes mais violentos e politizados com a aprovação do Código Hayes que proibiam qualquer mensagem de cunho mais sexual ou violento. Esses filmes lançados entre 1928-1932 (ano de criação do Código Hayes) são conhecidos como cinema precode, sendo bastante popular nos Estados Unidos pós crise de 29.
Os filmes dessa época falavam de aborto, relacionamento de pessoas do mesmo sexo, divórcio e outras práticas consideradas libertinas pra época, a exemplo dos belíssimos closes de perna que 42th Street (1932) tinha, adoro esse filme, é belíssimo. 

Com a proibição de filmes com assuntos polêmicos deu início a "era de ouro de hollywood", porém essa hollywood dos anos 30-40 era uma sacanagem, porque basicamente viviam apenas em um cartel de 5 estúdios apenas, enquanto 3 estúdios "menores" (não independentes) batalhavam para parecer em suas salas de cinema.

Qual era o esquema de hollywood? As produtoras eram donas de cinemas, então só exibiam seus próprios filmes ou na boa vontade os filmes pertencentes daquele cartel organizado entre as 5, o que matava a chance da audiência americana ter contato com outros estúdios menores ou o cinema internacional. Essa gracinha teve fim em 1948, quando uma decisão da SUPREMA CORTE DOS ESTADOS UNIDOS obrigou a Paramount vender os seus cinemas, o que representou uma grandissíma chance de estúdios menores, ou estrangeiros, aparecerem nas telas. Com isso, aquela era de ouro de filmes caríssimos, filmes polidos e despolitizados teve fim.

(Com a decisão da Suprema Corte de no fenômeno conhecido como Paramount Decree, quem quiser pesquisar sobre)

Assim... Chegamos nos anos 50 e a ascensão meteórica de filmes baratos, formuleicos, melodramáticos, clichés e outras coisas que fazem uma bela trashzeira. Os temas contavam com conteúdos apelativos sexuais, histórias de ficção cientifica, de invasão extraterrestre e claro... Obras de terror... E toda aquela temática que volta a tona no halloween, muitas fantasias genéricas são oriundas desses filmes dos anos 50 e alguns raros do anos 30 (como Frankstein de 1931).

Olavo de Carvalho 2 (1959)


De certa forma, dando continuidade ao imagético macabro iniciado nos quadrinhos. Que também como nos quadrinhos, era bastantes popular no público mais jovem nos famosos drive-ins, onde você poderia assistir um filme dentro do carro ou praticar coisas mais interessantes, se é que vocês me entendem.

Vou deixar aqui essas listas para quem tiver interessante em ver alguns desses filmes, por exemplo eu vi o Monstro da Lagoa Negra ano passado, é divertidíssimo demais. IMBD com filmes de terror; BFI com filmes de ficção cientifica.

⛧Caldeirão cultural em evidência. Assim a criação do verdadeiro satanismo
Um termo que utilizo para uma época é caldeirão cultural, ou seja uma sopa daquela cultura com várias referências cruzadas que vai esquentando vai fervendo e quando você isola os ingredientes da sopa, todos irão ter o mesmo sabor.

Ou quando parece que todo mundo naquele tempo-histórico parece ter a mesma ideia, cabe a gente quando noticia esse fenomeno tentar desvender de onde vem essa ideia mãe, que geralmente está associado a questões materiais, já que ninguém nunca estará a frente de seu tempo, atrasado talvez.

Pegando de exemplo a postagem anterior: Se você isola o Little Richard e o Elvis, apesar de serem diferentes, possuem aquele sabor de rock dos anos 50 porque eles participaram do mesmo movimento. O caldeirão cultural com blues-rock e com música caipiria nos estados do Sul.

A imagética macabra/monstros gigantes pode ser percebida em algumas obras.
 
Os primeiros filmes do Gojira (Godzilla) saíram também, sendo um sucesso absoluto e apesar de um filme japonês, ele tem todas as características do cinema-B (baixo orçamento), mesmo eu considerando que é um pouquinho mais denso do que os filmes estadunidenses do período.

Foda que não sei se douram demais a pílula do Gojira ou é realmente um filme cabeça. Sei lá, um boneco gigante pisando em Tóquio e as vezes é só isso mesmo. 

Gojira, 1954

Falando de terras brasileiras, pô! Teve o primeiro filme do Zé do Caixão! A Meia Noite Eu Levarei a Tua Alma (1964) que é um filme bem macabro e bem extrato do caldeirão cultural dos anos 50.

A meia noite eu levarei a tua alma, 1964

Termos também a criação dos zumbis de fato pelo George Romero, que apesar de não ser um filme-B (minha opinião) está incluso nessa estética de terror.

Night of Living Dead (1964)
Um filmaço.

Pra não me alongar nessas obras que sintetizam o período, para mim a melhor é um desenho infantil... Scooby Doo! Que se você for parar para analisar é um grupo de jovens hippies indo atrás dessas lendas macabras muito comuns no cinema B, vampiros, monstros marinhos, robôs, fantasmas e em cenário como casas mal assombradas e cemitérios. Já tinha parado pra pensar nisso? É uma obra macabra, porém infantil ao mesmo tempo. O que até não mora contradição, já que a maioria do público eram justamente os jovens. 

Scooby-Doo, Where Are You! (1969)

E é dentro desse caldeirão cultural que outros tipos de mídias também começaram a brotar, como livros de ficção científica e a música que chega um pouco mais tarde. Ou bem mais tarde, já que a música gótica é pra para os anos 70 pro comecinho dos anos 80. 

Chegamos assim numa teoria, possa ser que a geração do rock que veio a produzir música nos anos 70 e 80 tenha vivido uma infância consumindo esse tipo de produção trash, decidindo apenas por levar esse imaginário dark para seu sons. É o caso das bandas Black Sabbath, Misfits, The Cramps ou Kiss, que usava aquelas pinturas de rosto.

Por mencionar o Misfits, o "mascote" da banda é um personagem dos anos 40, precisamente veio de um seriado de televisão de 1946, o Crimson Ghost (fantasma carmesim).

reconhece esse nobre senhor?



E tudo isso foi por mera reprodução da estética, sem nenhuma ligação comprovada com atividades religiosas alternativas, alguns até erão cristãos.

A título de exemplo, Tom Araya, vocalista da banda de Trash Metal Slayer é cristão, inclusive fez a primeira comunhão e mesmo assim tem letras "super satânicas" em seus albuns. Revelou isso em entrevista para o jornal New Times (tradução livre):

New Times: Há algum tempo corre um boato que você é um cristão nascido de novo.

Araya: (risada maniaca) Primeiro, eu só nasci uma vez (ri mais). Quando você usa o termo "nascido de novo" é porque achou algo que você perdeu, certo? Eu não perdi nada. Eu nasci e cresci católico, então está no meu sangue. Não vou para a igreja... Eu nasci e cresci católico, a qual é a extensão da minha religião. Meus pais fizeram um pedido, que fizesse minha primeira comunhão.

New Times: Você fez a primeira comunhão?!

Araya: Acredite se quiser, eu fiz minha primeira comunhão. Eu não sou ateu; acredito em Deus. Mas minha religião acaba aí. Tenho meu próprio sistema de crença e isso é tão forte que me permite fazer o que faço. Eu não tenho que me preocupar em ir pro inferno por causa do Slayer, sabe? Todo mundo tem suas crenças pessoais e acredita na vida de alguma forma"

Tanto quanto irônico ele dizer que não está preocupado se vai pro inferno quando fez Hell Awaits (1985).


Porque é tudo questão de entretenimento mesmo, é só pra ser macabro.

Bem que eu poderia fechar a postagem aqui, MAS CALMA AÍ.

O satanismo é real e também existem bandas que são verdadeiramente ocultistas. De uma maneira podemos atribuir que quem trouxe o diabo de fato pro rock foi a banda Coven (NÃO O BLACK SABBATH).

⛧Coven - Witchcraft Destroys Minds & Reaps souls (1969)

Em meio da psicodelia hiponga que já estava nos seus útlimos dias (e melhores álbuns) em 69, sai em fevereiro daquele ano um álbum de rock-blues com referência lendas urbanas, bruxaria e outros temas superfofos e confortavéis. Muito apoiado pelas linhas pesada de baixo do OZ OSBOURNE e a potência vocal da Jinx Dawnson. O álbum ainda conta um uma encenação de uma missa satânica na última faixa. Eu ouvi esse álbum mês passado, quando sobrar um espacinho faço uma resenha completa.

Bem, pelo título e temática pouco receptivo, foi esculhambado pela crítica e acabou caindo no esquecimento, a banda nunca alcançou o reconhecimento ou sucesso comercial de fato. Dá pra considerar uma joia escondida?

De qualquer maneira, definitivamente foi a primeira banda de rock a ser abertamente satanista (na verdades prática ocultistas LHP), fazendo valer todos os rumores ouvidos pelos rockeiros dos anos 50.

A Jinx que a responsável pela famosa "mão de chifrinho" é de família tradicional oculista, ela sempre participou dos rituais e cultos desde de criança, sobre a famosa mão, firma que nada tem a ver com o diabo. Em entrevista para portal português⁵:
"É um símbolo de bom acolhimento, de boas-vindas. Eu não o inventei, apenas o aprendi, mas foram os Coven que o começaram a usar na música", disse à agência Lusa Jinx Dawson.

Explicou que o símbolo "é ancestral, está cá há centenas de anos" e que contactou com ele, a primeira vez, ainda criança, quando acompanhou o avô e as irmãs deste a um ritual de LHP (sigla anglo-saxónica para Left Hand Path, o Caminho da Mão Esquerda ou o Caminho do Mal, uma tradição esotérica do mundo ocidental relacionada com a magia negra), numa cela na cave da mansão onde cresceu, em Indianápolis, na região centro-oeste dos EUA.

"Alguém apareceu à porta, fez isso [o sinal dos chifres] e deixou-nos entrar. E eu, que já tinha idade suficiente, perguntei o que era aquele sinal e responderam que significava que éramos seus semelhantes e que podíamos entrar, era um sinal de que éramos bem-vindos à cerimónia esotérica", disse Jinx Dawson.

Pra pior, o álbum não foi muito bem recebido pelo seus familiares citando que se arrependeu de ter gravado.

Foi o que bastou, argumenta a vocalista, para que outras bandas - que não nomeou - seguirem "o exemplo e a liderança" dos Coven, tendo chamado a si o uso e alguns a autoria do símbolo, algo que lhe desagradou.

"Não o fizeram bem e nem sequer sabiam o que significava. Não gostei, na altura, mas depois considerei que esta era a minha missão de vida, reintroduzi-lo e mostrá-lo às pessoas, não pensei era que fosse tanta gente, pensei que fosse uma coisa subterrânea, mas agora é omnipresente, está por todo o lado, é impressionante", frisou.

"O que é que eu fiz? Estraguei tudo, as minhas tias estão de certeza muito zangadas comigo", brincou a vocalista.

Mas bandas como Coven não desfaz a teoria de mera representação de filmes de terror, a maioria dos grupos de rock (especialmente o mainstream) não possuem qualquer ligação com práticas ocultistas. 
Há uma burburinho que o Black Sabbath teria copiado a banda, inclusive a faixa título do álbum da Coven é justamente Black Sabbath.

Mas tudo não passa de acusações sem muito fundamentos, apesar da coincidência dos nomes, o que inclui Ozzy e Os Osbourne, por dois motivos: Ozzy é um apelido de infância e o Black Sabbath foi fundado um anos antes do album, então... Enfim.

EU NÃO PRECISO MENCIONAR COMO BLACK SABBATH (1970) INFLUENCIOU TODOS OS RITMOS EXISTENTES, Metal, Heavy Metal, Black Metal, Doom Metal e afins. 

Mesmo não sendo a banda "pioneira" (mito de criação é uma idiotice) definitivamente para o imaginário comum ela sempre foi a grande primeira banda satânica e a principal referência. Por motivos óbvios cara esse álbum é um tesão de música.

⛧Quem são os satanistas e o que querem afinal? 

Anton LaVey, criador do satanismo

O "satanismo moderno" ou satanismo ateísta é o que termos de mais atualizada teoria sobre. Filosofia fundada por Anton LaVey em 1966 na Califórnia rompia com as tradições ocultistas de denominações "satanistas" (que na verdade era de religiões neo pagãs como Wicca) e claro, fazendo um ataque frontal aos ideários cristãos vigentes.

Atualmente a Black House (casa negra) sede da Church of Satan é presidida pelo Magnus Peter H. Gilmore e moveu da velha casa em São Francisco para Nova York, é dele um texto resumido sobre o que é satanismo (tradução livre):
Satanismo não é adoração ao diabo. Isso choca quem não explorou nossa filosofia e são concepções erradas de estranhos tem contra a Igreja de Satã. Nosso fundador Anton Szandor LaVey deixa isso claro desde do começo. Ao passar dos anos, individuos com a necessidade de serem abraçados por uma dividade disseram que Dr. LaVey passou de alguma forma a acreditar em um Satã literal. Se nos estudarmos sua obra, é bem claro que ele nunca mudou de ideia sobre isso, a crença do diabo jamais aconteceu no "círculo interno" de práticas da Igreja do Satã.⁶⁶⁶

A filosofia satânica é um mix da filosofia de Nietzsche com o individualismo objetivista de Ayn Rand, sempre foi um grupo inofensivo de ateus militante, porém sempre muito midiáticos, Anton LaVey era um verdadeiro showman! Que soube sempre muito bem atuar nas brechas morais oferecidas pelos conservadores religosos. Acredito que ele também seja responsável por unificar as simbologias associadas a satanás, como a cruz invertida, Baphomet, a bandeira de baphomet, cruz de são pedro, mulheres nuas em culto, bodes, caveiras e etc.

Ele foi um ícone das subcelebridades, mas não ficou apenas nos holofortes. Produziu muita teoria filosófica, sendo sua magnus opus a Bíblia Satânica de 1967, eu acho.

Quer um equivalente midático brasileiro? LaVey foi tipo o Inri Cristo deles, tipo que figura folclórica da televisão que você assistia em programas do sábado de tarde.


https://blogger.googleusercontent.com/img/proxy/AVvXsEgJeeVLhcZStT1NvFiq8uD1GlHjtCxFU-Y2DFScCaF6ucVG-KNk0ekOASe1ugwM0qj0b06s9Q0KXkgZkNvUdudQqIRrVc7fPwW15K7bvvAZ7QwaZyKkF9Q3B81MmZq0wiNM_OY8jDmOUB6C6rRHGHv0WahYDbIzWCSyvKAba5VkSvXDhLnomARkxNCtpvp7Xj09v9qMQwLdvac=

Mas tudo isso, assim como as letras do Slayer, não passa de larp, de fato apenas encenação para chamar atenção para a filosofia pregada de fato pela igreja. E o LaVey sabia MUITO trabalhar com mídia.
Baseando-se em seu repertório circense e ocultista prévio, ele começou a ministrar "seminário mágicos da meia noite" em sua casa (Black House, São Francisco). Isso provou popular o suficiente para fundar a Church of Satan (igreja de satã) em 1966. A base para seus rituais eram rituais nazistas gravados em videos top-secret que ele viu quando era adolescente. A showmanzisse (*acabei de inventar essa palavra) do LaVey levou a significante cobertura midiática de eventos como primeiro casamento satânico, primeiro funeral satânico, adorações com uma mulher nua no altar e uma aparição cameo como diabo no filme Bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968). LaVey fez uma amizade muito próxima com Sammy Davis Jr e teve um caso com Jayne Mansfield, duas celebridades membras da Church of Satan. Em seu auge, ele revindicou centenas de milhares de membros. LaVey morreu em 1997. 

E por que Satã? Dentro da filosofia de LaVey, que bebe do objetivismo de Ayn Rand, o diabo seria uma certa representação desse homem heroico autocentrado que define sua própria felicidade, própria moral e proposito de vida, dando os ombros para o mundo, assim como um Atlas que deixa o mundo cair. O homem como um fim em si mesmo, sua filosofia ainda casa muito bem o satanismo de LaVey por considerar o cristianismo um "atraso" para a razão humana, esta que sempre deve ser adorada a todo custo.

Sabe, eu não quero citar Ayn Rand no meu blog, então vou deixar essa entrevista para a Playboy onde a bela moça explica sua própria filosofia.

Da mesma forma que Lilith foi resgatada pelo movimento feminista como um símbolo de independência ou resistência ao machismo de Adão, Lúcifer/Satanás foi repensado como um símbolo de revolta egóica, onde preferiu ser rei do inferno do que vassalo do céus, liderando uma revolta contra deus e afins. Ou seja, reposicionando Satanás da figura do corruptor para alguém libertino, criador da própria moral e dono do próprio destino. Por isso, utilizado como símbolo da filosofia da LaVey.

A parte relativa ao Nietzsche acredito que dispensa explicações, é o além-do-homem, acima do bem do mal, etc etc.

Assim, podemos chegar a conclusão que apesar do imagético macabro tão pouco significavam alguma. Como o LaVey sempre menciona: satanismo demanda estudo, não adoração. Falando do LaVey em si, ele considerava o diabo mais um mascote do que uma entidade de fato.

⛧BÔNUS:
O caldeirão cultural resquentado, pânico satanista dos anos 80-90.


Tudo tem início, ou germina com as obras que citei, tanto Anton LaVey e sua super exposição midiática e o filme Bebê de Rosemary, que é baseado num romance de mesmo nome. Em outras palavras, talvez o Bebê de Rosemary deu rosto e imagem a todos os medos mais bizonhos que a tradição cristã fundamentalista tinha sobre "cultos satânicos", fazendo que o escritor da obra original tenha meio que se "arrependido" do feito (tradução livre).
Os efeitos de Bebê de Rosemary preocuparam até Ira Levin, autor da obra. Em uma reedição do livro em 2003, ele escreveu que "O sucesso de Bebê de Rosemary inspirou exorcistas e presságios e etc. Duas gerações de jovens cresceram até a idade adulta vendo descrições de satã como uma coisa real. Eis o que me preocupo agora: Se eu não tivesse pensado na ideia daquele suspense quase 40 anos atrás,  teria tantos fundamentalistas religosos hoje?" Levin foi atacado com cartas de cristãos raivosos de todo o país. Histórias de como alguém escapou de um cenário parecido com Bebê de Rosemary ficaram populares depois do filme.⁸
 
A título de exemplo, em 1972 surgiu a primeira grande história de sucesso desse "satanismo-pop", o livro The Satan Seller contava várias histórias de pessoas fugidas de cultos satanistas que se converteram evangélicas e teve a verdade revelada pela graça de cristo.

Ainda assim, para fins "antropologicos" o Satanic Panic (pânico satanista) teve um começo de fato depois do lançamento de outro livro chamado Michelle Remembers (1980) escrito pelo psiquiatra Lawrance Pazder e sua paciente Michelle Smith, que foi a faísca-bomba de todo aquele vazamento de gás que acontecia desde dos anos 60 (tradução livre).
O catalisador inicial do pânico foi o lançamento do livro Michelle Remembers em 1980. Michelle Remembers foi o arquétipico do que ficaria conhecido como Satanic Ritual Abuse (SRA) ou simplesmente "abuso ritualistico". O livro, escrito pelo psiquiaatra Lawrence Padzer, narra seu trabalho com uma mulher chamada "Michelle Smith". Durante seu tratamento, Smith começou a revelar uma alegada "memórias reprimidas" de sua infância nos anos 50. Essas "memórias" são de abusos horriveis como ver crianças sendo jogadas em fogueiras e sacrificada para Satã. Seu tratamento incluiu batizar ela na fé católica. A fábula contada por Padzer não está dissoante com histórias parecidas com o Satan Seller do Mike Warnke, mas dessa vez tinha a autoridade de um profissional psiquiatra por trás.⁹

Ressalto que porra nenhuma de próximo daquilo que Michelle Smith relatou foi comprovado, mesmo com toda repercussão do caso e muitas pessoas interessadas. 
 
O efeito prático foi a inflamação ou exposição mídiatica de crimes sexuais e um policiamento maior sobre as mídias, como as famosas paranoias de procurar mensagens ocultas em obras. São paranóias que todo brasileiro já conheceu, como as famosas músicas ao contrário ou imagens ao contrário que revelariam alguma imagem escondida. A Xuxa não sofreu com isso atoa, o cristianismo neopenteconstal brasileiro é de tradição 100% estadunidense.

Jorge on X: "COCACOLA AO CONTRÁRIO É ALÔ DIABO SIM POIS UMA MARCA AMERICANA  ÓBVIO QUE FEZ SEU LOGOTIPO PENSANDO NO AO CONTRÁRIO DOS BRASILEIROS  https://t.co/vr581BCTZ5" / X
olá, não sei seu nome, mas voce já viu essa imagem.

A tese de mestrado The Devil Is in The Details: An Analysis of the Satanic Panic  do James R. Lewis para a universidade de Memphis é a melhor sobre o assunto, depois de toda minha semana inteira de pesquisa, não achei fonte melhor para entender todo o contexto.

É muito por evidente que, também não por coincidencia, bandas de rock dos anos 80 nadaram de braçada em cima desse satanismo pop que estourou nos anos 80, não atoa, a maioria das bandas de metal (como Slayer) surgem nesse período de algazarra da mídia.

⛧CONCLUSÃO DA PESQUISA.
Desde quando era um bebezinho caipira, o rock foi demonizado pela sociedade mais conservadora da época, um processo que já virou natural de associação da música da juventude ser relacionada a prática pecaminosas como consumo de drogas e sexo, ou fornicação, já que é fora do casamento (ironia). 

Cortado pelo viés racial de associação das pessoas negras a essas atividades, colocando em um papel de corruptor da juventude branca. Mas o paradigma muda quando a cultura de massa passa a incorporar de fato elementos macabros cada vez mais populares, fato que só foi possível depois da queda cartel de cinemas, após decisão da Suprema Corte dos EUA.

Com a simpatia geral do público nesse tipo de obras (espíritos, zumbis, vampiros e demônios, casas mal assombradas e afins) deu popularidades para algumas leituras ocultistas realizadas por Anton LaVey ao ponto dele ganhar espaço mídiatico e fundar sua própria religião, o satanismo. Ao passo que livros mais ousados como Bebê de Rosemary fossem escritos e chegassem nas telonas. Também por outro lado bandas como Coven e Black Sabbath mencionam práticas macabras de fato. 

Mas o caldo entorna mesmo quando pipoca o frenesi anti-satanismo dos anos 80, muito graças a relatos similares ao filme/livro Bebê de Rosemary, circulando entre meios cristãos enquanto as bandas de rock do período também dobram a aposta, ao fazerem menções mais explícitas ao inferno e afins.

Em outras palavras, uma decisão do STF estadunidense gerou todo esse efeito borboleta.

The History Book Club - SUPREME COURT OF THE U.S.: #13 - CHIEF JUSTICE  FREDERICK M. VINSON Showing 1-14 of 14
Composição da corte que derrubou a Paramout



⛧Fontes
ps: estudos sobre cultura (no caso cinema e hq) tem pouquissima produção a disposição, minhas fontes na primeira parte do texto são sites bem banais e até wikipedia (infelizmente) então nem linkei os sites. Mai é tudo verdade, pode confiar
¹ Tales From the Crypt Wiki
² Idem
³ Folklore scotland
⁴ 5 MITOS repetidos sobre a campanha anti-quadrinhos, Quadrinhos na Sarjeta: Youtube
⁵ https://www.antenalivre.pt/
⁶⁶⁶ www.churchofsatan.com
⁷ Diabolical Authority:Anton LaVey,TheSatanicBible and the Satanist "Tradition" James R. Lewis
⁸ The Devil Is in The Details: An Analysis of the Satanic Panic, Travis James Brooks 
⁹ Idem
Leia mais...

⛧O COMEÇO DO ROMANCE ENTRE ROCK E SATÃ⛧



O primeiro batismo satânico, 1967

Mwahahaha! Após vender minha alma para o capetão pra pagar a conta do spotify no mês, fui coagido a escrever essa postagem no blog. Espero que gostem... Ou não.

Prefácio: Essa postagem se propõe a ser uma investigação da ligação do rock'n'roll com o satanismo/satã/simbologias satânicas, o pânico moral em cima do rock, um breve resumo do verdadeiro satanismo e uma explicação mais densa do que "FOI O BLACK SABBATH!!!" apesar da banda inglesa ter contribuido muito para o universo da música, e de antemão já falo: eles estão longes de serem os pioneiros.

Por conta de ser um assunto muito extenso, será dividido em duas postagens, ao menos que encontre material para fazer três, então fique ligado a Marginalia 3
Teremos fontes!
Uma boa leitura.

⛧Música de jovem é música do diabo (drogas e sexo também).

Antes de falarmos propriamente dito do Rock em si, bom pontuar alguns ritmos-mães do gênero.
Essa associação de rebeldia-drogas-diabo sempre fora muito comum durante o século 20 lá no Estragos Unidos da América, e todo mundo ocidental. A primeira vítima desse fenomeno foi o jazz, que era música do momento durante a 'era do proibicionsimo', pré grande depressão, quando vigorava a proibição do álcool clubes noturnos tocavam jazz! E o jazz era muito mal visto pelos setores mais conservadores ou apenas desconfiados. 

Esse mal ver era associação básica a drogas, sexo e "satanismo", em palavras de universitários: (tradução livre) 

“Insanidade, abuso de drogas, caos, primitivo e bestial, criminalidade, doenças infecciosas, o infantil, o sobrenatural e o diabólico”(Connie Allen Tipton, “Who’s Afraid of the Jazz Monster?: For Many Americans Jazz was the Music of Demons, Devils, and Things that go Bump in the Night,” History Today 69 (October 2019)


O motivo para tal é um quanto óbvio, é musica também negra e essa nem era a pior parte, havia uma grande mistura de várias etnias no jazz, brancos, negros, latinos e romanis, valendo ressaltar o gypsy jazz que foi popular 20 anos mais tarde, o que era o verdadeiro pavor de um país que ainda vivia sua segregação racial. É o pânico moral de perversão da juventude, principalmente as mulheres (tradução livre):

Essas associações causaram grande ansiedade que o jazz iria filtrar a mente de jovens ouvintes e os tornar insanos, viciados em drogas, primitivos, criminosos, crivados com doenças e intenções do mal. Por exemplo, mulheres libertinas que participavam da cultura do jazz era vistas como perigosas (talvez por serem bissexuais, nota do tradutor) e eram referidas como "vampiras" ou "vamps" (também por talvez serem bissexuais, nota do tradutor) Mais do que as mulheres participantes da cultura do jazz, as musicistas eram especialmente demonizadas, muito por termos racializados e primitivos linkando a música e os seus criadores a estados regressivos da humanidade, originando a "Selva Africana" que estava fazendo seus ouvintes desenvolver "andar de quatro".¹

Ok, os bailes dos anos 20 realmente eram porra louca, mas nada justifica o evidente racismo presente nessas atribuições negativas que parte da cultura ocidental tinha em cima do jazz. Cantoras como Billie Holiday, compositora da música de denúncia de violência racial Stranger Fruits (VOCÊ PRECISA OUVIR) chegou a ser declarada como inimiga número #1 do país, chegando a ser presa diversas vezes durante a carreira.² Inclusive foi "presa" em seu leito de morte, isso é história para outra postagem.

Love, Billie | MODO DE VOLAR


Clarificando que o jazz não era um lugar imaculado de tensões raciais, mas o seu público era diverso, talvez o primeiro ritmo de massa que ganhou esse status de música universal, em um país tão severamente segregado como o EUA. Talvez seja o primeiro furar de bolha entre as culturas, nesse caso através da música, que alavancou a carreira de diversos músicos negros, apesar de vim com duras penas. De certa maneira, mesmo longe do ideal, era um lugar de música multiétnico. Apesar de restrito aos grandes centros urbanos.

Sendo esse lugar, para o imaginário conservador tradicional onde a música negra corrompia a juventude com suas práticas de drogas e "liberdade sexual", lembrando que no começo do século 20 a cocaína era associada a população preta dos EUA, antes de ser gourmetizada...

Então o caminho do texto fica mais claro: Música negra será demonizada, do mesmo mal sofreu o blues e o rock, como veremos nos tópicos seguintes.

⛧A herança maldita do jazz. Onde o rock começa e onde o blues termina?

Pelo breve resumo apresentado ficou claro qual seria também o tratamento oferecido aos músicos de blues dos anos 30 e 40, os bluesman como eram conhecidos, tinham a fama de serem advindos de prisões do sul do Estados Unidos³, região onde se originou o ritmo, apesar de existirem outros tipos de blues supervenientes, como o Chicago Blues, popularizado pelo Muddy Waters, que ascendeu em um contexto onde o rock já estava formalizado.

O blues tem componentes a mais para serem demonizados, é um ritmo 100% negro e havia um subtipo que falava abertamente de prática sexuais, vivendo seu "pico" (ou pica, se me permitem o trocadilho) lá no pré guerra, entre a grande depressão e a invasão na Polônia pelo terceiro reich, vou deixar essa lista no wikipedia de alguns exemplares.

E não é metafora, não é "quero ser um peixe para passar a noite acordado em você" é putaria mesmo, das boas, tipo e Shave 'Em Dry a Lucille Bogan fala que tem algo no meio das pernas que faria um homem morto levantar (considerando um trocadilho entre come e cum). Uma mulher falando abertamente de relações sexuais não deveria ser uma prática bem quista na época. Pontuando que essa música foi escrita ainda nos anos 20.

Lembrando que é um recorte da cultura do blues, pontuei o dirty blues porque desmonstra uma cultura em outra rotação da cultura dominante da época.

E aí... aí que começa o problema com o Rock. Rock em si tem uma teoria que seria uma expressão sulista para prática sexual ou fuder como os populares dizem, mas há ocorrência desse mesmo termo em uma música gospel lá no comecinho do século 20 (INFELIZMENTE NÃO TENHO FONTE), então para garantir uma precisão maior, rock seria algo como balançar, chacoalhar, agitar ou gozo (em ambos os sentidos), a ligação de rock com música gospel é estreita, buscando uma "origem" do gênero musical conseguimos mapear Sister Rosetta Tharpe*, uma irmãzinha guitarrista da igreja que resolveu misturar a 'sujeira' do blues com o 'sagrado' do gospel, dando começo a todo esse novo gênero, inclusive seu primeiro single foi justamente Rock Me em 1938. 

que mulher, amigos

Ela merece uma postagem só pra ela, farei quando tiver literatura o suficiente!!

*Cabe ressaltar uma coisa, a "passada de bastão" do blues pro rock nunca aconteceu de fato, não há um momento histórico que podemos separar um do outro, não acreditem em mitos de criação que "fulano inventou x", a Sister Rosetta Tharpe é apontada como pioneira pela sua evidente influência em roqueiros futuros, sendo a pessoa mais importante da época que culminou na criação daquilo que conhecemos como rock atualmente, ou como conhecíamos nos anos 40/50. O blues e o rock por muita vezes são só rótulos arbitrários daquilo que o caldeirão cultural sulista dos EUA produziu no período.

Até o próprio termo rock'n'roll só foi surgir lá pros anos 50 (1954), quando Alan Freed popularizou em uma rádio de Ohio, a essa altura todos os elementos já estavam formados, só não havia um nome.

Nisso podemos apontar o primeiro ponto de antagonismo dos cristãos x rock de maneira mais clarificada, a poluição da música gospel. 

⛧Ninguém gosta de misturar com essa gentalha. 

Como eu classifiquei acima, o rock pode ser descrito, inicialmente, como a incorporação de elementos da música gospel, de igrejas evangélicas (tradição religiosa do EUA) com o blues, o tão mal visto e mal falado blues.

Falo com propriedade que a tradição evangélica americana odeia a secularização de suas tradições, ou seja, trazer "coisas do mundo" para dentro da igreja. É característico do protestantismo americano toda a criação de uma indústria cultural própria, que seja limpa, imaculada e própria para consumo de famílias evangélicas. Isolando seus fiéis do mundo exterior pecaminoso, quer um exemplo perfeito? As novelas bíblicas da Record, que é oriunda do fenômeno televangelista dos anos 80, que chegou com força no Brasil nos anos 90, chegaremos nesses pastores de televisão mais tarde.

Essa cultura de igreja nos Estados Unidos é muito forte, principalmente nos estados com tradição conservadora e mais rurais, os sulistas e é essa tradição de criação de bolha que foi importada para o Brasil. Um fenômeno interessante a se observar naquele país podre do hambúrguer e calça jeans são as MegaChurches (sic), igrejas estupidamente grandes com cultos de números impressionantes. Grandes eventos evangélicos e afins. Em outros termos, a indústria cultural gospel, que sempre foi forte na terra do Tio Sam.

Igreja de Lakewood, Texas.
É tipo uma cristopalooza...

Essa cultura de igreja também é presente em comunidades negras, com adicional da música que sempre foi a marca registrada dos cultos batistas. Os famosos corais superanimados

Com isso, sobrou até para cantores como o Ray Charles e Aretha Franklin serem mal falados no circuitos evangélicos, ou como melhor descreve em entrevista Randall J. Stephens que é escritor do livro The Devil’s Music: How Christians Inspired, Condemned, and Embraced Rock ‘n’ Roll (tradução quase livre): 

Bem, eles demonizaram, em tantos casos, porque eles viram um tipo de apropriação pecaminosa. Cristãos brancos e negros acusaram Ray Charles de blasfêmia por conta de como ele secularizou música sacra (gospel). A lenda do blues Big Bill Broonzy certamente acreditou que Charles foi longe demais. Um ex-pastor in Pine Bluff, Arkansas, Broonzy disse que Charles "tinha aquele blues", mas "está chorando" santificado. Ele está misturando blues com espiritual". Ou, como o/a critico/a Holly West disse sobre Aretha Franklin, quando ela "uma vez clamava por Jesus, ela clama "baby" (muito comum nas canções de blues para se referir ao par romântico). ela cantarola e geme com o ecstasy transfixo de uma irmã da igreja (freira) que está experienciando o Espírito Santo."⁴ (um grande abraço para minha amiga Sofia voltairine que me ajudou a traduzir essa parte)

Que apesar de já não serem tão bem visto por comunidades conservadores, todas as figuras basilares do rock são de igrejas, especialmente pentecostais, que muito influenciaram o gênero. 

Portanto dá pra considerar que o rock germinou entre esse cruzamento da música gospel negra e o blues, é um tipo de proto-rock nascendo por ali, mas por extenso estudos de cultura, não é considerado o nascimento de fato. O trabalho de reconhecimento de artistas negros no meio do rock é bastante importante e vem sido feito nos últimos anos.

Ressalto que o blues, o rock e o jazz coexistiram por muito tempo, especialmente blues e rock a todo momento se inspiravam e originavam entre si, apesar do blues ter aparecido primeiro ele veio apenas a se consagrar a partir do momento que o rock'n'roll começou a ter sucesso também. É uma zona meio cinza de qual é qual. E partir de que momento o rock se consolida? Anos 50.

⛧Origem do rock de fato. Cultura sulista dos Estados Unidos.

O Estragos Unidos da América é um país enorme, multifacetado, porém bastante segregado. Entre brancos e negros, negros e negros, brancos e brancos e afins. Uma dessas dualidades presentes é entre o sul e o "norte" do país, essa segregação estava presente na música enquanto os grandes centros urbanos, como Nova York tinha o jazz, multiétnico (apesar de racista também) o sul vivia com a música caipira branca e o blues negros. Alguns especialistas atribuem que o transito entre essas duas culturas que fazem surgir o Rock'n'roll de fato lá nos anos 50. Lembrando do contexto de apartheid vivido no período, mais forte nos estados do Sul (tradução livre):
Alguns autores veem o crescimento do Rock & Roll como uma reconciliação de ambas as culturas, onde músicos negros e brancos tem estilos parecidos, chegando a hits consideráveis (Garofalo, 2002) e endereçam suas músicas para uma audiência heterogenea (Fowler, 2022). Ao contrário, outros autores consideram que o Rock & Roll foi resultado da adaptação de músicas rhythm and blues para uma audiência conservadora branca (Drever, 2015; Rabaka, 2016).⁵

Ou seja, todo o sul do Estados Unidos estavam ouvindo as mesmas músicas, só que com um muro que segregavam as duas culturas. Ambos ouviam as mesmas coisas, só que infelizmente não podiam sequer frequentar os mesmo clubes de dança. Artistas de rock brancos começaram sua carreira e se consolidaram fazendo covers de artistas negros (tradução livre):
Músicas cover são interpretadas como resultado dessa apropriação, que novos artistas brancos começaram (Elvis Presley, Pat Boone, Bill Haley) sistematicamente regravar artistas negros para ganhar sucesso e popularidade (Aquilla 2000; Cooper, 2016).⁶
 
Só que esse movimento aconteceu também do inverso, em menor grau, onde artistas negros incorporaram elementos da cultura caipira branca em suas músicas, o melhor exemplar para tal foi quando Chuck Berry fez uma versão rock Maybellene, uma música caipira tradicional sulista.

Isso foge um pouco do tema da postagem, mas o link desse artigo do José Luiz Ortega que fez um mapeamento de covers das música dos anos 50 que demonstra o percentual de influência e de quem fez cover de quem. Como nesse gráfico.

Portanto esse senso comum criado recentemente que "artistas brancos de rock tiveram que roubar a música negra para fazer sucesso" não é de toda verdade, já que a maioria das regravações se dava entre eles mesmos. Muito pela política de regravação adotada pelos gravadoras, como está descrito no artigo. 

Voltamos para a temática, a influência da música negra não ficou apenas em questões técnicas de acordes e formas de cantar, a atitude mudou. Só ver como era as perfomances do Little Richard com seu topetão, ousadia e barulho! Uma das primeiras figuras de destaque no rock'n'roll, talvez o primeiro grande rockstar de fato, que a irmã Rosetta Tharpe me perdoe. 

um cara gay cantando rock no quintal da KKK, tem que respeitar.


Músicos como Little Richard não furavam a bolha da segregação, por ser 'música racializada' ela ficava restrita ao público negro, por tocar apenas em rádios negras (isso é uma mácula ainda muito presente no mercado atual) enquanto Elvis Presley regravava suas músicas e estourava para a população branca, foi o caso de Tutti Frutti. (fonte)

Falando do Elvis em específico, a atitude de performances mais associada a artistas negros fez que ele se tornasse a um símbolo sexual, o cara era gostoso mesmo (pra época), o que o garantiu o apelido safadinho de Elvis The Pelvis, especialmente por AQUELA PERFOMANCE em 1956.

Jailhouse rock, 1956

Pra fechar essa parte, trago que Elvis não gostava do apelido Elvis the Pelvis e não tinha intenções de fazer algo sexual, apenas estava sentindo a música e não conseguia cantar sentado, como a TV Insider resgatou uma entrevista do Elvis para uma revista (tradução livre).

"Não, senhor," ele disse "Eu não gosto que eles me chamem de Elvis The Pelvis. É a expressão mais infantil que já ouvi de um adulto. Elvis the Pelvis"

"E outra coisa" ele disse. "Eu não balanço minhas - como eles dizem 'girações pélvicas' - meu quadril não tem nada a ver com o que faço. Eu apenas - Eu sinto o ritmo da música. Faço porque gosto do que estou fazendo. Não estou tentando ser vulgar, não estou tentando estimular sexo. Apenas bastante balanço e tremedeira (no sentido de rebolar), mas eu nunca sarro ou me esfrego. Eu não consigo sentar quando eu canto, então as crianças também não conseguem"

E quando foi perguntado sobre seus fãs serem delinquentes, Elvis responde:
"Eles são crianças decentes de alguém, provavelmente foram criadas em casas decentes... Se eles querem pagar para vir e pular (no sentido de diversão) por aí, é da conta deles. Eles irão crescer algum dia e amadurecer sobre isso. Mas quando estiverem jovens, deixem se divertir."

Em outras palavras, como dizem os jovens, Elvis Presley tinha O MOLHO, se apresentando de forma similar a artistas de rock, só seu público é o branco sulista conservador ou até o branco caipira, o que gerava enorme choque cultural nesse """primeiro contato""".

Por ironia da industria musicial tinhamos um país segregado racialmente que consumia os mesmos produtos, havendo uma intercessão entre si chamado de rock-a-billy, misturando o rock com a música caipira (hillbilly) dos estados do sul.

O bicho vai pegar mesmo dos anos 60 pra frente, tinha até uma banda que era maior que Jesus, mas calma aí! Isso ficará para a próxima postagem!

⛧Resumidamente, no frigir das almas condenadas pelo fogo eterno...

https://i.redd.it/01pqhxuzomab1.gif

 A cultura negra estadunidense foi demonizada por associação negativas as supostas práticas realizadas, em pecados associados a peversão, ou seja o diabo representando aquela figura do corruptor muito presente do cristianismo, da tentação, dos desejos mais podres do ser humano. 

Aliás essa é uma das multifacetas do racismo, no Brasil a título de exemplo era comum a expressão "da cor do pecado".

Da parte vinda de próprias comunidades negras, o rock foi condenado por misturar a arte sacra com coisas mundanas, por outro lado, o intercambio cultural entre a cultura de blues negra e os ritmos caipiras sulistas gerou um "estranhamento cultural" (racismo por tabela) entre os setores mais conservadores da sociedade a figuras do rock como Elvis Presley, ligando seus movimentoss de dança a práticas sexuais e símbolos de rebeldia, que por sua vez, teve grandíssima inspiração em roqueiros negros, assim colocando em contato para uma sociedade totalmente branca algo fora do comum. Ou seja, mais uma vez a mera associação da figura do corruptor. Também acontecendo em menor grau, aquele velho esteriotipo da masculinidade negra como uma ameaça constante.

Tem muitos outros fatores em jogo, que serão melhor debatidos na próxima postagem

⛧Fontes bibliográficas:
¹ FOR UNLAWFUL CARNAL KNOWLEDGE:THE SATANIC PANIC IN THE UNITED STATES, Joshua Hanna
² Idem
³ Idem
⁴ Religion Dispatches (link)
⁵ The racial origins of Rock & Roll: network analysis of cover songs in the 1950s United Sates, José Luíz Ortega
⁶ Idem


 Todas as traduções foram feitas pelo autor da postagem.



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O dia que uma simples voz abalou a ditadura brasileira.

Maria Alcina, 1972

O ano era 1972, o Maracanazinho sediava o sexto Festival Internacional da Canção, também conhecido pela Sigla FIC, as coisas já não começaram bem no festival, a Nara Leão foi proibida de ser júri da competição (pra quem não sabe da relação odiosa entre Nara e os militares), rapidamente todo júri foi trocado para jurados gringos. 

O ano era 1972, o Maracanazinho sediava o sexto Festival Internacional da Canção, tudo seguia mais ou menos em plena normalidade até uma mineira franzina de Cataguases, operária e ainda semianalfebta com um sonho de ser cantora sobe ao palco, estremece o Maracanãzinho com "Fio Maravilha" do Jorge Ben Jor e é campeã do festival! Só tinha um problema, a cantora tinha "voz de homem"! Uma moça tão magrinha, com um vozeirão grave o suficiente para estremecer não só o ginásio, o governo também. Os militares ficaram em cima, foi processada por "ato subversivo", sim, apenas por cantar, sua subversão era ter uma voz grossa, foi o suficiente para que ficasse banida dos rádios, televisões e shows por quase um mês! Apesar dos esforços do seu empresário. Por pouco não foi presa. 

Em um comentário técnico, acho injusto considerar a sua voz como de homem, são poucos homens que tem uma voz dessas, se eu tivesse um vozeirão desses, não estaria escrevendo um blog kk 

Seu nome é Maria Alcina, uma tímida mineira que foi tentar a sorte no rio, começou se apresentando na boate Number One e chamou a atenção de uns dos organizadores do FIC de 72. Debutou como artista naquela perfomance esotérica, soltou seus demônios para o público que adorou a perfomance, quem não gostou... vocês-sabem-quem, sua voz é única, seu timbre é belíssimo, o auge de sua carreira aconteceu um anos depois, em 1973 lança seu primeiro álbum, um homônimo de 73:

Lançado pela continental

Apesar do sucesso imediato, sua carreira nunca contou com assinatura de grandes gravadoras e nem outros hits arrasadores, é de esperar, uma cantora negra e com 'voz de homem', isso incomodava bastante. Apesar disso conseguiu se manter viva no imaginário brasileiro quando participou como jurada em programas de calouros (como o do Silvio Santos). 

Passeando pela borda do mercado fonográfico, Maria Alcina segue alegrando o povo com sua magia e sua raça!

Confira sua histórica apresentação no FIC:


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O dia que Israel declarou guerra ao Hulk. O Incrível Hulk #256 (1981) - Bill Mantlo e Sal Buscema


"Hulk não sabe onde ele está! Hulk não liga"

Vou começar pelos agradecimentos: dedico a uma grande amiga minha que mandou um painel sem contexto desse quadrinho, e perguntou se conhecia, não conhecia de fato, mas fui atrás e aqui estamos.
 Falo de antemão que todas as imagens aqui estarão em inglês porque essa edição talvez não tenha saído no Brasil, ou ninguém pensou em scannear pra tropa.



A fase Bill Mantlo e Sal Buscema é uma das favoritas dos fãs do pepino agressivo,  eles foram responsáveis pelo Hulk na Encruzilhada, grande clássico da Marvel lançado lá em 86 eu acho. Sal Buscema já vinha desenhando o Hulk desde da metade dos anos 70, Bill Mantlo, nessa edição, tinha acabado de chegar, começou a escrever o Hulk na edição 246.

Em uma opinião pessoal, gosto bastante dessa interpretação do Hulk, por aspectos que vou delimitar lá na frente, e pela arte do Sal Buscema, porque faz um Hulk bem parecido com o Lou Ferrigno:
adoro esse Hulk

Qualé a história? Antes termos um pequeno prólogo sobre a desativação da base gama, onde Hulk, Dr Samson e o Líder foram criados (preocupante essa exposição aos raios gama), e a demonstração do verdão como uma ameaça ao Estados Unidos e por tabela ao planeta terra, principalmente depois de quase derrubar um viaduto cheio de civis na briga que teve contra o Thor na edição anterior. 

*efeito de soco do Chaves *

Ué? Mas o Hulk não é um vingador? Ele não é tipo um herói? Porque está brigando com o Thor? - pergunta o leitor confuso, então, essa fase do Hulk (a série dele ajudou a criar isso) ele não é mais um herói, não é mais a dinâmica do médico e o monstro, Bruce Banner perdeu totalmente o controle de suas ações e consciência, significa que ele virou o Hulk de vez? Não, mas é a maior parte do tempo, o que deixa situação mais dramática, melancólica, Bruce virou algo parecido com um viciado em crack, não tem ideia onde está, não tem controle do que está fazendo e vive vagando pelo mundo em busca da paz que não encontra em si mesmo. 
A sua raiva não vem mais do mundo exterior, vem da sua própria condição, se transformar vira uma espécie de válvula de escape, o que gera um ciclo vicioso, ele precisa se transformar em Hulk para dissipar a angústia da mente, mas toda vez que se transforma a sua condição só piora.

Nessa edição do Thor o próprio Hulk fala "Bruce Banner odeia o Hulk e Hulk odeia o Bruce banner" então é uma dinâmica de um viciado, um dependente químico, do que dupla personalidade, já que a personalidade do Médico se espaireceu totalmente, até pela distância que ele está do Rick Jones (seu melhor amigo) e de Betty (sua esposa), ele está distante, perdido, se transformando e Hulk e acordando em lugares aleatórios, totalmente sem rumo da própria vida. E assim, é que ele acorda em Israel, após os eventos da HQ anterior.

ressaca é foda

A mera presunção de que está sendo capturado é suficiente para entar em agonia. Falo agonia porque nesssas duas histórias o Hulk mal é movido pela "raiva", o desequilíbrio que Bruce vive é tão grande que qualquer pertubação mínima é suficiente para virar o Hulk. e a porrada come seca, no porto de Tel Aviv Hulk desmembra por completo as forças de segurança de Israel, que são meio burrinhas. 

Pensa, você está lidando com uma criatura que se alimenta de raiva, ele é capaz de quebrar a porra toda, qual a solução? ATIRA VELHO, claro, o comandante até mete um "FORÇA BRUTA!!"


Quem assiste a tudo isso é a nossa heroína da vez, a capitã Israel, digo Sabra, uma mutante que trabalha como policial e quando está de collant trabalha para o governo Israelense. Não é a sua primeira aparição, ela é mencionada pela primeira vez no Incrível Hulk #250, mas apenas mencionada em tela, mal sabemos seu nome aqui;

(Caso não tenha percebido, é ela no círculo vermelho.)

Sabra voa, tem superforça e lança um tipo de "espinhos" com as mãos que deixam as pessoas desacordadas, o que faz total sentido, já que Sabra é o mesmo nome de uma fruta-cacto típica da região ali de Israel, também é o mesmo se dá (ou dava talvez nos anos 80) aos habitantes de Israel, nativos. É uma mutante meio esquecida por motivos bleh, quem vai interessar por uma Homelander Israelense?

A sua apresentação aqui não dura muito tempo, porque quando estava se arrumando pra sair como Sabra recebe uma porrada de um saco de batatas na cabeça, durante o frenesi do Hulk. Logo após que acorda, termos a sua devida apresentação, Sabra!



Traduções livres: "Mas com sabra Super heroína do Estado de Israel" "Elaé determinada a preserva sua  terramãe da fúria de Hulk" 

Que logo passa quando a poeira baixa, daí Bruce Banner anda na feira de Tel Aviv, lá protege um pequeno gatuno que está roubando frutas da freira, o Sahad, um menino que é mostrado na história como "árabe", bem, sabemos que árabes no meio de Israel só podem ser palestinos não é mesmo? Mas ainda que não seja, os outros países árabes da região também se encaixam no que a história trás. Depois da perseguição (por uma mera melancia), lá trocam uma ideia franca, e Sahad conta das dificuldades de ser 'árabe' em Israel:


"As vezes é muito díficil ser árabe em Israel. Ambos, meu povo e os Israelis dizem que a terra é deles. Eles poderiam dividir, mas dois livros muito velhos dizem que devem se matar entre si. Eu? Não leio livros" (tradução livre)

Depois desse hot take uma conversa mais profunda, a HQ faz questão de lembrar que é uma história ocidental escrevendo o oriente, então termos TERRORISTA, BOMBAS, TIROS DE AK 47


Então, com o barulho da explosão, Sabra encontra o Hulk, que se revoltou ao ver o pobre garoto Sahad morrer, e Sabra ao ver a cena, pensa que Hulk estava colaborando com os terrorista, com isso, precisa PROTEGER a sua terra mãe:

Hulk foge com o corpo de Sahad, para enterra-lo dignamente, ao ser encontrado por Sabra que o acusa de matar o garoto, Hulk se revolta e chega a CHORAR, ao explicar que Sahad foi morto pelo conflito. Pesado. Eu nunca esperaria ver-lo chorar desse jeito, ainda mais com a expressividade do Sal Buscema.

Sabra, se comove com o acontecido, e toda passagem dá uma certa humanização a personagem, que, de subtexto, parece estar envolvida com ataques a comunidade palestina...

Tradução livre: Ela é, depois de tudo, uma Israeli, uma super-agente... Uma soldada... Uma máquina de guerra. Mas, ela é tamvém uma mulher, capaz de sentir e de se importar. Foi preciso o Hulk para ela ver que o garoto árabe é um ser humano. Foi preciso um monstro para acordar seu senso de humanidade. 

Sim, Sarab estava lutando contra o Hulk não pelas vidas que ele supostamente tirou, mas, primeiro por estar apararentemente colaborando com os terroristas, segundo por estar pertubando as ordem de sua terra mãe, a grande Israel (com ironias), ou seja, uma preocupação chauvinista barata, pela punição a aqueles que pertubam a sua terra. Imagine levar uma lição de moral de uma criatura verde que mal sabe onde está direito. Vendo a verdadeira face da guerra, que não é desejada por ninguém, a morte de civis, inocentes, que mal acreditam nas coisas os quais estão SUPOSTAMENTE sendo "protegidos", o garoto nunca leu os livros, e morreu em nome deles. 

Talvez você não ache a posição correta reduzir a questão palestina em um conflito, primeiramente, já que alguns grupos consideram um genocídio e regime de apartheid, e depois em uma questão meramente religosa, ok, não é o ideal, mas surpreende uma obra dos EUA não ter uma escrachada propaganda Israelense, comprando o discurso de fazendo mera propaganda, era 1980, ter esse tipo de obra que questiona brevemente a posição de Israel é bacana, relativamente.

Um ponto que achei interessante é o garoto ser morto pelo seu próprio povo. Vai muito na linha que considero mais acertiva de que o terrorismo não trabalha em favor da Palestina, esses ataques esporáticos, como o que gerou a volta a mídia da questão Palestina, não possuem apelo popular, só fode mais ainda os próprios Palestinos. O Hamas NÃO É "o que tem pra hoje"; Em linhas gerais, não é uma história tão bem escrita, mas tem uma posição bacana (considerando de onde veio e de quando), toca em um assunto caro aos dias atuais e é relativamente comica de ver uma capitã Israel. 

Continue acompanhando o Marginália 3 para mais posts como esse

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50 anos atrás surgia o primeiro artista gay do Brasil: Edy Star, o astro esquecido

esta bicha é tão velha que a palavra gay nem existia ainda

Sim, é óbvio que existiam artistas gays antes do Edy Star, porém, Edy foi o primeiro a se declarar gay assumidamente! Em 1973, em plena ditadura militar e seus pânicos morais a solta. Vamos com calma, vem conhecer a história dessa estrela.

Antes de adentrar no tema, precisando do ponto principal:

Quem é Edy Star?

É exatamente aquele tipo de pessoa pública que não é reconhecida quando pega um ônibus, e olha só, ele deve pegar ônibus, pois nunca conseguiu ser milionário com a música, mas admite ter dinheiro suficiente para viajar e viver bem, em suas próprias palavras: 
"Mas quem ganha dinheiro são autores de músicas. Artistas ganham pelo show. Faço uma média de um ou dois show por mês. Tem meses que eu faço sete shows e em outros nenhum. Tem vezes que me pagar a passagem, hospedagem e ajuda de custo e também vou fazer o show. Gosto de viajar" (Entrevista para a revista Quem. Junho/2020)

A sua discografia é menor que sua importância na música

Isso se dá por ser um músico satélite, ou de segunda prateleira, ou seja, não é pequeno o suficiente ao ponto de ser independente ou regionalizado, ao mesmo tempo que nunca recebeu holofortes o suficiente da mídia, apesar de ter gravado em gravadoras grandes, e ser próximo de artistas famosos, como Caetano e Gilberto Gil, amigos da juventude e Raul Seixas, amigo de infância com quem gravou Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, junto ao Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. Além de Sweet Edy que já ouvi e vai sair resenha essa semana ainda! E um disco de 2017 idealizado por Zeca Baleiro cunhado de Cabaré Star. 

Edy Star não é de uma família de artistas, muito pelo contrário, quando decidiu largar seu emprego para ir embora de sua cidade com o circo da cidade causou o maior bafafá, o pai revoltado disse "minha família nunca teve artista!" e o jovem Edy respondeu "estava na hora de ter um então", vamos admitir que a largada era compreensível, ele trabalhava em plena petrobrás, apesar de estar ganhando bem, decidiu largar tudo, aos 20 anos para virar artista. Edy Star nunca gostou de trabalhar na petrobrás, pela homofobia do local de trabalho, tanto que nunca teve vocação nenhuma:
“Odiava aquilo tudo. Eram 1.500 homens no campo e uns quatro ou cinco gays, todos enrustidos. A gente soltava a franga, mas chegava alguém e a gente tinha que mudar a voz, falar de mulher. Sempre escutava umas piadinhas e, ainda por cima, ficava todo sujo de petróleo. Um horror.” (Entrevista a Revista Trip maio/2010)

Depois de seguir a vida se apresentando em circos, trabalhou em algumas emissoras de rádio, mas o episódio mais marcante foi na TV Itapoan, quando cobrou os 3 meses de salário atrasados ao vivo! E foi expulso da emissora em seguida, sendo jogado no estacionamento pelo próprio dono da emissora.

"E ele nunca vinha pra televisão. Sabe, nesse dia o filho da puta estava na televisão, aí eu estou no palco e "Alô seu Paulo! Eu tenho um problema chamado estômago!". Quem gosta desse caso é Jerônimo, Jerônimo adora. "Olha eu tenho um problema chamado estômago, o supermercado não quer aceitar aplausos, só quer aceitar dinheiro, como é que é? Vai me pagar quando?"."(Entreivsta ao programa Espelho com Lazáro Ramos agosto/2019)

Logo após ser demitido, encontra Raulzito (Raul Seixas) em um bar, tomando um choppe, por acaso do destino Raul Seixas estava procurando justamente Edy, para gravar o disco sessão das 10 pela CBS, qual Raul era produtor. Tem uma história sensancional sobre esse disco, mas irei comentar quando fazer uma resenha pro blog.

Raul Seixas, Miriam Batucada, Sergio Sampaio e Edy (que não era star ainda)

4 quatro anos depois dos eventos da CBS (que culminharam na saída), grava a convite da som livre o clássico Sweet Edy, que terá resenha nesse blog ainda nessa semana, não percam.

Seguiu se apresentando em cabarés do Rio e de São Paulo, até o modelo de boates assim irem se esgotando aos poucos, Edy Star não se adaptou bem a nova modalidade de apresentação noturnas, o playback, ao invés das bandinhas da noite que estava acostumado, o que acarretou em sua saída do Brasil, na verdade um exílio para a Espanha, após ter sido ameaçado pelo regime militar

"Porque não tinha mais como trabalhar, as boates não tinham mais conjuntos acabaram com os conjuntos na boate, toda boate tinha um conjunto: piano, baixo, bateria, um trompete ali. Então a gente cantava, tinham os cantores da noite, né? Emílio (Santiago) era cantor da noite, Everardo, tinham vários cantores... A Auréa Martins, Djavan, (Maria) Alcina todos eram cantores da noite, acabaram com isso.
Eu só sabia cantar, e fazer meus numerozinhos de publicidade e não tinha mais onde trabalhar. Daí eu tive que viver cantando com playbacks, as pessoas me davam Alcione me dava, Emílio Santiago me dava, a Beth Carvalho, as gravações, o fundo musical, das gravações deles, só que isso você tem que se adaptar a respiração, as paradas, os timmings dessas pessoas que não é o seu timming, muita das vezes você quer inventar e não pode. Aí, eu fiquei muito chateado com isso, não dá mais" (Entrevista ao programa Espelho com Lazáro Ramos agosto/2019) 
 
A gota d'água foi uma censura que sofreu somado a ameaça de que "vão sumir comigo" como o próprio Edy diz. Pelos anos seguintes se aventurou pelas artes plásticas, e só voltou aos estúdios praticamente 40 anos depois, com uma idealização do Zeca Baleiro para gravar seu segundo disco, Cabaré Star, que conta com vários artistas convidados.

Além da música, Edy Star também trabalhou em algumas peças, dirigiu alguns puteiros em Madrid, e até se aventurou nas artes plásticas, muito além de cantor, era um artista completo. Inclusive, participou da primeira versão nacional do musical Rock Horror Picture Show  em 1974/75, substituindo o Eduardo Conde, sinceramente, Edy é o Frank N Furter em pessoa! A peça também contava com Zé Rodrix, que já tem resenha de álbum aqui.

uma pena da peça ter sido picotada pela censura
Se era quem eu precisava apresentar, está entregue, Edy Star por ele mesmo.

Conheça mais sobre ele em, fontes que utilizei:
https://lucassville.blogspot.com/2011/04/rocky-horror-show-montagem-nacional-de.html
https://www.youtube.com/watch?v=ndHFItxJ4ss
https://www.youtube.com/watch?v=9QbYSLkyuLQ
https://revistatrip.uol.com.br/trip/o-primeiro-gay-a-gente-nunca-esquece
https://revistaquem.globo.com/Entrevista/noticia/2020/07/edy-star-sobre-ser-o-primeiro-artista-se-assumir-gay-no-brasil-sai-quem-pode-e-quem-quer.html
https://disconversa.com/disco-da-semana/disco-da-semana-edy-star-e-sua-naturalidade-transgressora/

• A saída do armário, quer dizer, no armário nunca esteve.

O fato aconteceu em 1973 para a revista Fatos & Fotos, eu não achei a porra da fonte original, mas o fato é conhecido consolidado e público. Foi nessa mesma época que começou a adotar o sobrenome artístico de Star, quando foi "adotado" pela mídia como o Pasquim, que ditava a opinão pública da época.
Apesar da declaração pública, duvido bastante que alguém ainda estivesse dúvidas, pois Edy sempre foi do vale, desde de sua adolescência, de quando andava com gilete embaixo da língua e descia a porrada naqueles que o chamava de "viado", teu apelido de praça era Bofélia, assim como todas as outras tinham seus nomes, isso em pleno anos 50. Deve ter causado bastante confusões. 

Qual a importância de termos artistas gays e outras letrinhas do meio LGBTQIA+?

De duas figuras públicas gays antigas que me veem na mente penso em dois, João do Rio, o criador (praticamente) do modelo de "crônica carioca", inovador lá pros anos 20, porém a sua homossexualidade nunca fui assumida de fato, também me vem a mente Johnny Alf, que nos anos 50 foi o primeiro músico a se pensar bossa nova, ou modelo que viria a ser bossa nova, já que tocava em salões algo que viria a ser inovador, pórem a história do Johnny Alf* é tão triste, tão vazia de informações, que enfim. Nem vou falar de tristeza que não combina com a simpatia do Edy Star, curiosamente, todos os citados além de gays, são negros.
*Posso falar de Alf em outro momento.

O próprio Edy conta que até conhecer a turma gay/travesti lá da Bahia se sentia "a única bicha do mundo", sofrendo com a "maldição" (muita homofobia interna), após o conhecido de uma comunidade reconheceu a si mesmo se enxergando nos pares, porque a normativa da sociedade reprime qualquer comportamento minimante fora da linha, como homens chorarem! SIM, chorar (uma emoção humana) é proibida aos homens, por demonstrar fraqueza, como os homens mais emotivos podem se reconhecer como homens emotivos se a norma manda ele parar de ser daquele jeito? É praticamente impossível ter uma autoaceitação.

Mais importante pelo direito de escolher (no sentido de escolher viver) a sua sexualidade e viver em paz, é importante a peversão daquilo que reprime, da subversão da norma que foi imposta de forma violenta em nossa sociedade, assim como aconteceu nos anos 70, com o próprio Edy Star, o grupo Dzi Croquettes, Ney Matogrosso,  Maria Alcina, Rogéria em menor medida Gilberto Gil e Caetano Veloso, e mundo a fora com o surgimento do Glam Rock. 

Por falar em Gil e Caetano, sabemos que não tem um fodido hétero nesse meio da MPB, porém nem todos quebravam a cisheteronormatividade de forma tão escancarada, porém, isso não é de forma nenhuma demérito desses artistas, a luta deve ser tanto para quem quebra com tudo, tanto para quem não se expressa de forma tão 'colorida', digamos. Dialectamente a isso, a possibilidade não-pressão em figuras públicas que não falam tão abertamente sobre sua sexualidade só é possível porque termos aqueles que afrouxam a corda de nossos pescoços com a provocação e subversão.

A ideologia dominante prevalece, por isso que todo processo de aceitação levam uma vida inteira.
 O próprio Edy fala sobre:
“Antes de mim, durante e até hoje tem muito artista que ainda está no armário. Muitos artistas que nós sabemos que são bichíssimas, mas que estão no armário, casadas, que são pais… Assim como lésbicas também. Todos sabem, mas isso é uma coisa de cada um. Alguns anos atrás, existia uma militância para fazer os artistas saírem do armário. Não concordo com isso. Ninguém é obrigado a nada! Sai quem pode e quem quer. Tem gente que tem receio e eu entendo. Porque o mundo não é gay! Ele é feito de uma convivência de homossexuais com heterossexuais. O mundo nunca foi gay.”  (Edy Star para a revista Quem. Junho/2020)

O mundo nunca foi gay, também, nunca foi hetero, essa dominação nada mais passa de uma ideologia, assim como todas as outras, imposta de forma violenta, ela deve ser combatida, para inclusive até aqueles que não aptidão ao combate, possam conviver bem, então se queremos um cenário onde a sua sexualidade não seja motivo de debate, precisamos de mais debate sobre sexualidade e comportamento humano, parece contraditório, mas assim que é bom.

Aliado a outras grandes figuras da música, e a arte um geral, Edy Star faz parte, sendo pioneiro, na subversão, no combate e embate nessa ideologia caquéctica, que irá de perecer, junto com a velha ordem.

Por mais que ele seja modesto em relação a isso, a sua memória deve ser preservada e viva, segue vivão e simpático como sempre, vida longa a Edy Star! 


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