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Xote dos cabeludos não foi uma "disstrack" para o Roberto Carlos

Roberto Carlos: a canção do Rei contra a ditadura - Vermelho
"Cabeludo" isso aí?

 Se tem uma figura na história da música brasileira que foi do céu ao inferno no quesito imagem pública essa é o destituído 'rei' Roberto Carlos, que para as gerações anteriores (como sua mãe/vó) é um ídolo! Pra nossa... É um coroa insuportável que só aparece no fim de ano. Ou alguém totalmente ODIADO, apático pra dizer o mínimo.

 E quando uma figura é odiada pelo público geral, fica mais suscetíveis a lendas, mitos ou fake news sobre sua carreira. Assim como tem gente que acredita que o Tim Maia foi humilhado pelo Roberto Carlos - deixar muito claro que isso NUNCA ACONTECEU - algumas pessoas também acreditam que o Luiz Gonzaga lançou uma indireta, uma diss como falam no mundo do rap para o Roberto Carlos, que no caso seria "Xote dos Cabeludos" (1967).

Essa história tá muito embaraçada, vamos pentear e esclarecer tudo agora mesmo.

O que é falado?

Vou parafrasear algumas postagens da internet, muitas dizem que o Roberto Carlos teria dito algo contra o Luiz Gonzaga lá em 64 e então o rei do Baião lançou Xote dos Cabeludos em resposta, já outras versões só atribuem que essa música teria sido endereçada ao Roberto, pois bem. 

 Primeiro, a música é de 1967! Do álbum Óia Eu Aqui De Novo. Segundo, a música NÃO FOI COMPOSTA pelo Luiz Gonzaga, o seu compositor é o José Clementino. Não há evidências de treta do Roberto Carlos contra o José Clementino. Assim só podemos concluir que essa conversa é uma lorota das grandes. Ou declarações do então Rei sobre nordestinos, ou termos degradantes contra o forró.

 Atribuir Xote dos Cabeludos ao Roberto Carlos é um anacronismo.

 A altura do lançamento do LP (meio de 67) o Roberto Carlos era conhecido, mas talvez não tão famoso assim, pelo menos não ao ponto de incomodar um compositor nordestino. O programa Jovem Guarda foi lançado em 66, no mesmo ano o Roberto tem uma faísquinha de sucesso com sexto álbum (Roberto Carlos 1966), mas ele vem mesmo a ESTOURAR e ser essa imagem rarefeitamente parecida com o personagem de xote dos cabeludos no FINAL de 67, depois que a música foi lançada, com o lançamento do álbum Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967), onde tem por exemplo alguns hits como Eu Sou Terrível e Como É Grande O Meu Amor Por Você.

 Muitas pessoas consideram uma diss pela música começar com "desabafo de um quadradão", mas aí é tipo inventar história e tentar encaixar os fatos nela

 Outros pontos que acho importante destacar, a música na minha interpretação, nem parece ser referenciar a jovem guarda especificamente, me parece mais aquela coisa de cabra macho e cabra frouxo, e o cabra frouxo ser meio viadinho, ou afeminado. Por que eu trago essa coisa do afeminado? Só ver as características, cabelo grande, cintura fina (de pilão), salto alto, calça apertada e PULSEIRAS. E aí tem a contra posição que é o cabra de verdade, que trabalha o dia todo e de noite vai a missa. 

My Homophobic dog masterpost
momento cachorro homofóbico

 Sacou? Se fosse uma referência DIRETA Iê Iê Iê/Jovem Guarda teriam outras conotações. Algo mais associado a rebeldia, fervor e pra mim o mais importante: o CONTATO entre as culturas do matuto e a cultura do rock. É só comparar a música com outros forrós da mesma época, ou mais antigo que referenciar rock'n'roll ou Iê Iê Iê, antes de fechar a postagem vou mostrar elas.

 Assim, é impossível cravar como uma pessoa dos anos 60 pensaria em relação a jovem guarda, mas dá pra comparar com outras músicas que saíram do mesmo lugar comum onde Xote dos Cabeludos foi composta e com isso, extrair uma tentativa de "pensamento médio" dessa figura de observador de dois fenômenos culturais diferentes. Ou seja, os compositores dessas músicas utilizaram suas vivências (a mesma que o José Clementino) para descrever como o rock é.

Baiano Burro Nasce Morto | Álbum de Luiz Wanderley - LETRAS.MUS.BR
baiano burro nasce morto (1960)


MATUTO TRANSVIADO, do João do Vale interpretado Luiz Wanderley de 1960.
Foi regravada pelo Tim Maia em 1970, mas saiu como Coroné Antonio Bento

O mais impressionante de tudo é que essa música é de 1960, a turma dos Beatles ainda deveriam estar na Escola, o Elvis voltava de seu alistamento e no Brasil não se havia ainda o breve cheiro de rock no ar, exceto pela Nora Ney, que já tinha gravado A Ronda das Horas, interpretação brasileira de Rock Around The Clock em 55, clássico do rock americano. 

A música não possui essa postura de "no sertão não tem espaço não", mas sobre um casamento matuto onde o Bené Nunes, pianista de samba que existe, resolve desembestar e meter uns rock, com isso o povo fica maluco com aquele som. Que é uma percepção muito certeira do que o rock causava nas pessoas, esse ritmo frenético. Uma coisa interessante foi que o rock caiu nas graças das pessoas presentes no casamento, como pode ser visto nessa parte:

Mеia-noite o Bené se еnfezou
E tocou um tal de rock'n'roll
Os matutos caíram no salão
Não quiseram mais xote, nem baião
Era briga se falasse no xaxado

Foi aí que eu vi que no sertão
Também tem os matuto transviado

TRANSVIADO é uma referência a essa juventude rebelde dos anos 50, o nome é oriundo do filme do James Dean Rebel Without A Cause (1955) que saiu no Brasil como Juventude Transviada. Coisas da língua portuguesa. 

Jackson do Pandeiro - É Sucesso (1967)
Jackson do Pandeiro - É Suceso (1967)

Lançado no mesmo ano de Xote dos Cabeludos, esse álbum tem um descrição bem diferente de uma suposta percepção sobre o Roberto Carlos (por exemplo) em duas músicas. A primeira é parecida, Iê Iê Iê o Cariri com Matuto Transviado, o eu lírico vai ao Cariri para ver caipiras dançar o tal do rock, a descrição não tem nada de conotativo ou essas coisa de "ahhh isso não é música de macho não", vejam a letra, escutem a música.

Eu chegar francamente até gostei
E aqui vou contar o que eu vi
Vi um velho com mais de oitenta anos
De calcinha apertada na gandaia

Dançando com uma velha de setenta
A coroa tava de mini saia

Vi muita caipira bonitinha
Mastigando chiclete no embalo
E matuto com pinta de playboy
Falando na giria como eu falo
Sanfoneiro tocando Iê Iê Iê
Pois se o cabra no fole era raçudo
Até o Coronel dono da festa
Esse era um tremendo cabeludo

Tem até uma referência a cabeludo, mas é diferente. Tem como ponto em comum a presença dos instrumentos, em Matuto Transviado é um piano tocando rock e aqui é uma sanfona. O instrumento também é determinante em Mãe Maria, uma música onde conta a subida de vida de um matuto que estava morando em Copacabana, eventualmente entra na da Jovem Guarda. 

Comprei uma viola americana
E deixei o meu cabelo crescer
No embalo eu entrei na juventude
Misturando baião com iê iê iê

A música trata sobre uma mudança de vida pra melhorar, dentre elas crescer o cabelo, veja como não há referencia a cabelo grande, o que é diferente de ser cabeludo. Enfim, o ponto está feito.

Assim, para concluir, três fatores importantes:
1) Xote dos Cabeludos não foi composta contra o Roberto Carlos 2) Na minha OPINIÃO a música nem se referencia diferentemente a jovem Guarda no geral, 3) A percepção do forró sobre o rock não era necessariamente conservadora, o forró é um ritmo que sempre viveu da mistura de uma caralhada de coisa, então não faz sentido escrotizar um gênero.

até porque historicamente o único setor que se opôs ao rock e as guitarras elétrica foi a turma da MPB, que era uma elite artística com seus interesses econômicos, talvez os quadradões do sertão gostavam bastante.

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Pabllo Vittar - Batidão Tropical Vol. 2 (2024)

 


Informações quentes: 
9 de Abril de 2024
14 músicas, 34 minutos
Forró, Brega, Tecnobrega, Melody, Piseiro a peste e o caraio tudo 
Sony Brasil

Se recuperando de uma tal Noitada que virou flop busca inspiração na sua raízes (de certa forma uma zona de conforto) Pabllo Vittar continua o projeto Batidão Tropical três anos depois do primeiro título e na boa, estamos em abril e já é o melhor álbum do ano. 

Pouco antes de falar do álbum eu preciso dizer que sou fã, muita fã, da Pabllo por um valor que prezo muito nos artistas que escuto: conseguir trabalhar em qualquer ritmo/gênero. Assim como o Prince, que é bastante próximo ao funk no começo da carreira e depois consegue cantar qualquer coisa, Pabllo Vittar tem essa qualidade parecida, ela se sai muito bem em qualquer coisa que se proponha a fazer, não é um indicativo de ser "melhor ou pior" (vamos parar de pensar tudo em ranking) apenas uma característica que me agrada bastante, então tenho mais facilidade em digerir tal projeto. Mesmo em zona 'habitual' entrega e ousa a apresentar determinada coisas, mas vamos com calma. 

Antes de mais nada, em nossa ritualística padrão, havemos de falar da capa primeiro. Com menos cores do que o primeiro título, mas mantendo o mesmo calor tropical presente, tonalidades quentes, uma paleta de cores bem discreta comparada a discografia da drag fontes bem blocadas e tímidas em vermelho com um "tropical" cursivo com um degradê entre o amarelo e o vermelho, bem ""anos 80"" o que nos indica um apelo a nostalgia, fato que pode ser observado com o "selo" de volume 2 no finalzinho do nome do álbum. 
Essa fonte cursiva misturada com texto blocado bem centralizado em cima do CD é um clássico das bandas de forró do período, isso denuncia a intenção de nossa querida Pabllo ao apresentar essa capa. A inspiração é mais "forrólesca" do que brega nesse caso.

Como em algumas que mostrarei embaixo: 

Clássico.

Pabllo bebe bastante dessa banda, falo depois

A capa da Magníficos também tá presente o degradêzinho, existe outros milhares de discos com mistura de fontes e cara, peak of design, termos que admitir. 

Resumidamente, a capa apresenta o mesmo calor do primeiro batidão tropical, mas dá alguns indicativos bem claros e consegue "atualizar" a estética do forró do finalzinho dos anos 90 comecinho dos anos 2000 sem parodiar nenhuma banda e ao mesmo tempo sem fazer algo genérico e sem personalidade, tem personalidade e tem apelo a saudade ao mesmo tempo.

Saindo inclusive em uma espécime de "revival" de algumas músicas consideradas retrô, fenômeno conhecido como báu pelas bandas antigas e contando com regravações ou até ressucitação de estilos praticamente mortos, como as músicas de vaquejadas (tipo Kara Véia) que voltaram a ganhar popularidade com Tarcísio do Acordeon, João Gomes e outros cantores que bebem dessa fonte. 

Esse último parágrafo resume tudo que eu tinha pra falar desse álbum, então é uma bela de uma capa que transfere precisamente o que o album precisa. Então assim que arrochamos o dedo no play vem...

Uma bela guitarrada de Pra Te Esquecer uma música do Calypso Algumas coisas presentes nessa música vão se estender ao resto do projeto, termos a clássica batida desse brega-pop (tipo Calypso**) com uma bateria bastante presentes, instrumentos de sopro, aquele guitarra mastigadinha com harmonias curtas e estrofes pequenas, o riff dos instrumentos de sopro são bem chicletinhos e precisamente todos os elementos da música da época.
** Eu NÃO SABIA que essa música era da Banda Calypso, descobri revisando o texto, então mesmo sem saber que era uma música regravada, ela me passou a impressão da música do período. Puxa vida... 

Não entendo NADA de brega paraense, mas aos meus ouvidos seria algo entre o "pico" do gênero, que é no período metade dos anos 2000 até o estourar dos anos 2010 (ou seja uns 2005-2012), só que com um porém, um polimento melhor na sonoridade até porque Pabllo tem muito mais recursos de produção hoje em 2024 do que essas bandas da época. Também um elemento bastante interessante na forma de cantar, não tenho outras palavras a não ser mencionar que ela "canta gemendo" (por mais hilário que pareça, não tem termo técnico para isso) o que também é beeeeem comum para as bandas do período, ao que me parece, um pouco abaixo do seu tom habitual que se aproxima melhor da voz da Joelma. 

Depois vem Idiota (música inédita talvez?) um tipo de forró atual (estilo Mari Fernandez, Fabinho Testado), um piseirinho bem básico sobre sentar em ex, nada diferente do gênero. Te falar, não que o arranjo do Mataderos tenha ficado ruim, mas se fosse uma seresta ou na pegada mais arrocha mesmo, acredito que ia dar um caldo muito mais palatável (pra mim) do que essa pegada de piseiro. Vou esperar sair a versão do Unha Pintada (cantor de arrocha daqui de Sergipe) para dar uma opinião melhor. 

Agora, Pede Pra Eu Ficar que é uma versão "traduzida"(na verdade brasileira mesmo) de uma música da Roxette (essa aqui) a senhora Pabllo Vittar entregou TUDO, foi o primeiro single lançado lá pra dois meses atrás e eu fiquei sem acreditar. A primeira coisa que veio a minha mente foi "caralho ela imitou aquela bandas de forró antigo" daí ela lança um álbum com estética de forró(e brega) antigo, isso é tudo que preciso dizer.

Ao traduzir uma música de tiozinho dos anos 80 Pabllo desmontra suas credenciais e entende perfeitamente o tipo de público que quer antigir com o projeto, é uma demonstração perfeita da estética que está visando sem precisar parodiar ou fazer uma caricatura de uma banda determinada, com o aportuguesamento fica evidente que é uma pessoa que ENTENDE claramente do assunto e tem propriedade para brincar com o gênero. 

Essa música poderia ter sido lançada, sem mudar uma vírgula da letra, pela banda Noda de Caju, Baby Som, Forrozão Tropykalia ou até Calcinha Preta ou seja, é a perfeita continuação do trabalho artístico feito no perído, uma continuação, um prosseguimento do legado de um gênero tão popular em nosso nordeste, é um passo a frente, sem pretensão alguma. 

Esse é erro muito comum de representação da cultura nordestina mídias a fora, inclusive em algumas feitos por alguns nordestinos (não vou querer mencionar aquele álbum tosco da Juliette). Na verdade uma série de erros, o primeiro é a caricatura, puxar só cacto, sertão, seca e chapéu de couro, não que esses elementos não façam parte da cultura nordestina, mas eles são mais efetivos para compor um personagem do Zorra Total do que um reconhecimento do nordestino nessas figuras. O outro elemento que se peca bastante é a paródia, a quase imitação de algo que já fez sucesso por aqui e daí fica algo meio tosco, forçado e pouco convincente, que na minha opinião entra o filme Bacurau (2019) um tipo de paródia de cidade pequena, que não me pegou legal. Continua sendo um filme decente. Alias tem bilhões de cidades fictícias na mídia tipo Bacurau. 

Longe de mim julgar produções que tentem reproduzir determinado período histórico (nesse caso o forró dos anos 2000) ou culturas como um todo, aliás uma tão complexa e rica como a nordestina até porque são NOVE estados, é um trabalho díficil, onde muitos se trupicam, mas quem consegue exercer com precisão sempre se destaca e ganha reconhecimento, do mesmo vale para a série Cangaço Novo, que tem uma resenha aqui nesse blog. 

Já que mencionei a obra, ela tem as mesmas valorações que Pede Pra Eu Ficar, faz o simples que dá certo, e as vezes a simplificidade consegue abarcar todo contexto cultural necessário e toda carga precisa para entender alguns temas, é o caso da música aqui, uma simples versão brasileira que só quem nasceu no nordeste ou viveu aqui no período sabe reconhecer a beleza e os objetivos da música. Acerta em cheio e puta que pariu QUE SAUDADES de músicas gringas traduzidas, melhores do que as originais, diga-se de passagem. 

Todo o exposto sobre o nordeste que apresentei aqui, se faz presente no brega que a Pabllo Vittar trouxe no álbum, mas estes tenho pouquíssimo repertório para falar, pois não entendo nada da cena mesmo assim a apresentação é agradável e conssoante com o resto do álbum não havendo uma divisão clara entre "momento brega" e "momento forró", ambos sempre se relacionaram bastante, havendo pontos de intercessão entre eles, esse álbum é um deles. 

Rubi que é originalmente da Banda Djavú. E cara, alguém desavisado pode achar que a música é original tá? Muito bem encaixada e muito bem regravada em comparação a original, não deve em nada o arranjo tecnobrega feito. Aliás só pesquisando hoje eu descobri que a Djavú é uma banda baiana, fica a informação.

Também na sequência termos São Amores que é originalmente do Forró Miúdo e que arranjo gostinho, a voz da Pabllo em seu belo tom habitual se encaixa muito bem no tema, uma boa escolha pro repertório. 

Achando pouco, a bonita decide regravar uns dos MAIORES HINOS da nossa música nacional, Me Usa, apenas. Cara, essa música me extraiu emoções que... Nossa, é algo inesperado; fantástico, pra não falar dizer magnífico e fazer trocadilho com a música. Bem, a versão da Pabllo não deve em nada em relação com a música original e é tão boa quanto, dá pra notar naturalidade de quem cresceu ouvindo esse tipo de música e hoje tem oportunidade de regravar. 

Vem uma regravação de uma música da Gaby Amarantos (uma música do Roxette de novo) junto com a própria Gaby, ok.

Só tenho a dizer que Pabllo Vittar gravou junto com Taty Girl, pra quem não conhece é uma verdadeira lenda viva do Forró eletronico/romantico chame como quiser, uns dos maiores nomes e cantou inúmeros sucessos, seja em carreira solo seja no Solteirões do Forró ou Forró Real, sou fã pra caralho, não esperava ouvir as duas juntas. Sem palavras totalmente me pegou com as calças arriadas. 

Nos finalmentes termos, nas Ondas do Rádio da Banda Companhia do Calypso que é a única música com o ritmo levemente diferente da original, mais 'piseirada'. Depois com Ai Ai Ai Mega Princípe da Banda Batidão que tem uma pegada muito diferente, se destoa bastante do resto da estilística do álbum.  Realmente é uma pegada muito diferente e pra fechar o caixão, Não Desligue o Telefone da Banda Djavu que tem uma pegada um pouco mais techno do que brega, mas é um mero detalhe, não me agradou bastante. 

Caixão e vela preta, está acabado Batidão Tropical Volume 2 

Resumidamente o álbum é uma coletânia de raízes da maranhense Pabllo Vittar com uma excelente música original no meio, ou mais de uma, não se Idiota é original ou não. Arranjos bastantes respeitosos sem um clima de homenagem que o EP recente pro Luiz Melodia tem. Estando mais na real regravação do que uma efeitiva homenagem. 

Tem um clima de na real apreciação, de celebração da cultura popular, que geralmente é escanteiada por ser "música meme" e tem pouca valoração artística no público geral. Eu digo com isso porque bandas como a Banda Djavu viralizam por serem 'engraçadas' ou enfadonhas, mas não no sentido leve da coisa e sim como algo que fosse de baixa qualidade, entendem? As vezes destacam só o amadorismo os poucos recursos e com isso acabam, mesmo viralizando a obra, a diminuindo de sua importancia na cultura brasileira.  
Ou seja, o povo acaba tendo uma vergonha de si mesmo ou vezes nem leva a sério, ainda assim há muitos que sentem saudades desse tempo e nessa saudades, não uma nostalgia barata, que se apoia todo o projeto. 
A nostalgia pode levar a um sentimento reacionário bastante comum de achar que tudo antigamente era melhor, mas na verdade você não sente falta da Banda Djavú, você sente falta das condições econômicas da época, idade mais jovens, das festas e uma vida com menos responsabilidades.

Saudoso, respeitoso e música popular levado a sério, é um belo extrato da marginal mercadológica brasileira, comendo igual a mingau quente, pelas beiradas. É um passo da frente ao invés de um olhar pra trás, um sopro de alívio e certeza que a nossa cultura continua viva. A cultura do forró é um gigante gesto de indepência cultural dos grandes artista e mídia do "eixo" (RJ/SP) que PRECISA ser tão levada a sério quanto. 

Mesmo com uma carga cultura fortíssima, o álbum funciona até para quem não entende de cara as referencias, por exemplo eu não conhecia nenhuma das músicas bregas regravadas, mas ainda sim ele funciona por completo, por casar muito bem os elementos de (tecno)brega e forró, é um ode a cultura e um ode ao amor. 

Por mais que pareça estar mais próxima e uma aparente zona de conforto, ousa na escolha de algumas músicas, percorrendo caminhos menos óbvios, o que garante PERSONALIDADE ao projeto ao invés de recorrer a escolhas preguiçosas. 

Esse álbum é um belíssimo convite ao norte do país para quem desconhece e um excelente passo adiante da nossa riquíssima cultura. Uma veradeira maniçoba, com gosto forte, convicta em si mesma e sem a menor preocupação de desagradar quem ache a aparência feia.  
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Lista: aves citadas na música brasileira


Não sei se é um consenso no mundo de apreciadores da fauna, mas eu, particulante, gosto bastante de pássaros, por motivos de design e funcionalidades. São uns bichinhos da hora, por isso, fiz uma lista de alguns pássaros citados na nossa música nacional!


#1  Tico Tico no Fubá - Zequinha de Abreu
um clássico absoluto da música popular, uma das melodias mais conhecidas que existem e bastante interpretada por diversos músicos mundo a fora. Tico Tico no Fubá é uma música obrigatória em qualquer meio de música "erudita" (a galera mais pomposa) e estou linkando a versão da Duo Siqueira, a melhor já feita. Tico Tico (Zonotrichia capensis) é um humilde passarinho que tem em média 15 cm, bastantes comuns nas areas urbanas do Brasil

olha o topetinho dele, que fofo

#2 Lá Vem O Bicho - Sá e Guarabyra 
Um épico conto (na pegada) sobre o espanta boiada, também conhecido como quero-quero (Vanellus chilensis) que é mais comuns na areas gaúchas do país, porém tem presença em todo território nacional.

eu não sabia que o quero-quero tinha esse nome

#3 Carcará - João do Vale
Já que é pra falar de conto épico, termos a música mais foda já feita, Carcará! (pega, mata e come!) é uma das minhas músicas favoritas, especialmente na versão do Zé Ramalho, a que linkei. Composta pelo maranhense João do Vale contando da pespectiva quase de uma criança maravilhada com o mundo sobre o carcará (Caracara plancus) um feroz falconiforme que vive nas áreas mais quente do país, próximo ao litoral também. Bastante comum no nordeste, todo nordestino já viu esta besta voando por aí ou rodeando por próximo, símbolo da região e uma ave da mulesta. 
Para fins de arquivo cito também a versão da Nara Leão, mais soft, mas muito gostosinha de ouvir. Registro a música pipira do João do Vale cantada por Nara também

Ele é malvado é valentão/É a águia de lá do meu sertão


#4 Assum Preto - Luiz Gonzaga e Herbet Texeira 
Herbet Texeira e Luiz Gonzaga renderam vários, inúmeros clássicos da música nacional que dupla, dentre elas termos uma música que narra uma tragédia, quando furavam os olhos do assum preto na supertição dele cantar mais bonito, uma tristeza. Que música triste, mas bonita, também uma das minhas favoritas. Assum preto (Gnorimopsar chopi) também é conhecida como graúna em outras bandas, um belíssimo bicho negro que costuma viver mais em zonas rurais.
Falando no Gonzagão também registro Pássaro Carão e Sabia. 


#5 Acauã - Zé Dantas 
Essa música também ficou famosa na voz do Luiz Gonzaga, contudo trago a melhor versão registrada que é do Quarteto Violado em 1972, valendo de menção a versão da Gal Costa também. Acauã (Herpetotheres cachinnans) conhecido como Laughing Falcon em inglês é mais um falconiforme da lista, apesar de ser conhecido como passáro risonho em inglês devido ao seu canto em alguns lugares do país é visto como um mau-agoro (presságio) da sua morte ou de um conhecido, sendo chamado de deus-quer-um e até gavião-coveiro o que é uma sacanagem, ele é tão fofinho (se alimenta de cobras) 

Majestoso, fofo, esbelto.

 

#6 Canto da Ema - João do Vale
Mais uma do João do Vale, essa vez famosa na voz do Jackson do Pandeiro, aliás tem um registro INCRÍVEL dele cantando ao vivo, o rei do ritmo mostra suas habilidades nessa música de uma forma espectacular, ninguém cantava como Jackson do Pandeiro e ninguém chegará perto até hoje. A música fala do mau-presságio que é ouvir a ema cantar, o que é justificável já que se trata da maior ave da américa do sul. A ema (Rhea americana) é típica do cerrado brasileiro, não atoa termos as famosas emas da alvorada que viralizaram na internet após rejeitar cloroquina do então presidente Bolsonaro.  

olha as eminhas aaaaaaaaaa

#7 Urubu - Rogério Skylab
Skylab acabou virando meme (não acredito que tenha sido contra a sua vontade) e alguns acabaram esquecendo que ele realmente é músico, entre os trabalhos mais decentes tem esse primeiro álbum. Um fato curioso é que Skylab abriu um show do Paralamas do Sucesso cantando essa música no violão, só que com o pênis pra fora da calça, uau. Os urubus dispensa apresentações, é uma ave conhecida do público geral e até popular por ser símbolo da torcida do Flamengo. A música não especifica qual urubu é, dentro de vários da família catharidae, mas a imagem mental que tenho é o urubu-preto (Coragyps atratus), aquele mesmo que agardece antes de comer sua refeição.

Flamengoo-go-go


#8 Saudade D'Ôce - Vital Farias 
Apesar de não falar de um passáro precisamente eu queria terminar a lista com um número par, então aqui estamos. Na versão do grande encontro 2, aquela boa trupe que é símbolo da música nordestina até hoje. A música cita a "encomenda" de um beijo de saudades dum beija-flor, passarinho bem citado na música nacional. Este pequeno indíviduo de milhares de batidas de asa por segundo vive cheirando flores alheias pela flora, o específico da foto é o beija-flor-de-fronte-violeta  (Thalurania glaucopis) um nome bastante pouco criativo para um bichinho tão belo.


Menções honrosas, apesar de Beija-Flor do timbalada ter esse nome, a música claramente não fala sobre o pássaro, apesar de ser um absoluto banger! (yo quiero te enamoraaaaaaar amooooor), o mesmo vale para Pássaro de Fogo e a banda de arrocha Asas Livres, que pouco fala sobre pássaros também. Aqui termos rigor! (Na maioria dos casos)

No mais, todas as informações foram retiradas do site www.wikiaves.com.br tendo a eles todos os direitos reservados. 
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O bode que concorreu pra vereador!


Sim, você não está alucinando, hoje vamos falar sobre a votação de um bode, na cidade de Jaboatão/PE.   

Não antes de mencionar uma coisa, tal fato, não é incomum no Brasil. O caso mais conhecido é o Chimpanzé Tião, lá no Rio de Janeiro que se "candidatou a prefeitura do Rio" em 88, chegou a ganhar 400 mil votos! O que colocaria na terceira posição, mas todos nós sabemos que Tião não poderia chegar a prefeitura, afinal, ele era inelegível por ser analfabeto. 

Outro caso animal e famoso é a rinoceronte cacareco, em 1959 na cidade de São Paulo. Mas a história de hoje não envolve o sudeste e nem saiu no Wikipédia! É sobre o Bode Cheiroso, candidato a vereador. História descrita na música Bode Cheiroso, lançado em 1960 na voz do Luiz Wanderley, naquele famoso álbum Baiano Burro Nasce Morto. Arrocha no botão do play e vem conhecer.





Bem, o bode cheiroso era uma figura conhecida no Jaboatão velho, apesar de ter dono, vivia solto, vagueava pela cidade, passeava até de trem e dava cabeçadas nos moleques que ousavam perturbar a autarquia, o apelido se dava pelo seu cheiro característico. Sua primeira fama de fato foi quando um vereador de Jaboatão sugeriu prende-lo pela sua catinga, foi quando virou matéria nos jornais pernambucanos pela primeira vez.  

Nas eleições de 55, alguns jornais imprimiram a foto do bode com a frase "Queremos cheiroso", não foi muito votado, passou até despercebido até que certo dia, o Jornal paulista de grande circulação (Diário da Noite) deu uma pequena aumentada na história dizendo que o bode levou muito mais votos do que realmente aconteceu, enquanto as cédulas de Jaboatão contava apenas 4 votos, a história aumentou para 400, o que trouxe grande fama ao bode Cheiroso, que chegou a dar entrevista para rádio e começar a cobrar por fotos, no caso, o dono.

Dizem até que o bode saiu no New York Times, de qualquer forma ele está imortalizado pela garganta do Luiz Wanderley e vivo na memória do povo de Jaboatão, que até conta a história oralmente para as próximas gerações.

cara de honesto...

Alínea: Também não é o primeiro caso de bode nordestino vereador, tem o famoso caso do Bode Ioiô de Fortaleza nos anos 20, que esse sim teve uma votação muito expressiva, mas novamente, não pode ser eleito por ser analfabeto. 

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Lista: A influência da música nordestina na obra do Tim Maia

pense num caba lindo


Vai depender do critério utilizado, mas tenho certeza que em 4 em cada 5 listas de maiores artistas da nossa música brasileira Sebastião Rodrigues Maia estará lá. Em muitos aspectos, Tim Maia sempre se destaca, foi um músico nato, não era muito além do que música pura, se a música não existisse em seu tempo seria ele, Tim Maia, o seu inventor.

Pode ser lembrado por muitas coisas nesta presente postagem vou lembrar a sua memória por suas músicas "nordestinas". 

Pois bem, pouco antes do início do anos 70 a música nordestina estava desenvolvida, com os cantores e compositores do norte (terminologia da época) gravando em estúdios da Guanabara (Rio de Janeiro) e fora aqueles de circulação interna, essa onda de cantores nordestinos de forró (e alguns de coco) dos anos 60-70 a exemplo de Jackson do Pandeiro, Marinês, Jacinto Silva, Trio Nordestino, Luiz Gonzaga, Zito da Borborema, Ary Lobo e etc é diferente da "segunda onda" como os monumentos da nossa música como Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Amelinha e Xangai. Ainda vou fazer uma postagem da história do forró, esperem por tal.

Bem, vale ressaltar que nem todo cantor/artista nordestino tem um apelo nordestino ou porque não tocam ritmos associados com a cultura nordestina ou não tem essa pretensão, isso acontece bastante com artistas baianos, que tem aos montes na nossa música, já nessa época de anos 60, João Gilberto, os doces bárbaros (Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Betania), continuando na tropicália tem o Tom Zé, valendo citar Dorival Caymmi e o soteropolitano Raul Seixas que vinha a estourar nos anos 70. O exemplo mais clarevidente é Belchior, que fez sucesso ao mesmo tempo a onda da segunda onda de artistas nordestinos, mas não é colocado no mesmo balaio, nem merece estar. Ou seja, não porque um músico nasceu no nordeste que a sua música necessariamente é nordestina de fato, assim como músicos de fora do nordeste podem contribuir bastante ou até de fato fazer música nordestina, é o caso do Tim Maia, que parece ter uma profunda admiração por nossa música. 

Resumo: Nem todo músico nordestino faz música nordestina.

Dito isso, Tim maia deixa BASTANTE claro na sua primeira música, do seu primeiro álbum, o famoso Tim Maia 1970, com Coroné Antônio Bento, composta por João do Vale e Luiz Wanderley, Tim Maia conheceu essa música após ver ser tocada em um show dos Os Diagonais (banda de Cassiano e Hyldon), contudo, a primeira gravação foi registrada no nome de Matuto Transviado, existindo todo um segundo verso ocultado na versão soul, confere o músicão aí

#1 Coroné Antônio Bento

Aliás, das 12 músicas do seu álbum de estreia, termos 2 músicas nordestinas, a outra fora composta pelo próprio Tim Maia junto ao Cassiano que é um grande poema heroico ao nosso Padre Cicero (ou padin ciço). Eu particularmente adoro essa música, que aliás foi adaptada para a trilha da novela Irmãos Coragem a pedido da Globo.

#2 Padre Cícero

Partido para o seu segundo álbum, de novo na primeira música termos uma canção sobre um evento folclórico que talvez não seja tão nordestino, mas costuma acontecer aqui também, a Folia de Reis, na música A Festa de Santos Reis

#3 A Festa de Santos Reis

Tim Maia estoura bastante com seus dois primeiros álbuns a carreira descola, apesar daquele álbum da desgraça que ele lançou em 72, vai amadurecendo seu estilo e esse traço nordestino se espairece entre os discos. Dizem que Jackson do Pandeiro influenciou Tim Maia, aliás eu conheci Jackson num documentário sobre o síndico, mas não tenho a fonte primária dessa informação.

Ah, tem aquela "O Nordeste É Lindo" do álbum Voltou A Clarear de 94, que não é a melhor versão, Tim Maia já em fim de carreira, porque iria vir a morrer 4 anos depois. Escrita pelo próprio Tim

#4 O Nordeste É Lindo

E também O Que Vem da Bahia do mesmo álbum

#5 O Que Vem da Bahia 

Pra fechar a lista, elenco um álbum póstumo de gravações deixadas em estúdio que foram transformadas em forró! Lançado em 2003, durante a onda do forró eletrônico e aquelas grandes bandas que fazem sucesso até hoje (Aviões do Forró, Solteirões do Forró, Calcinha Preta, Garota Safada, Matruz com Leite, as composições da Rita de Cássia) o álbum vai num estilo mais "forró universitário", que se assemelha ao grupo Falamansa e Rastapé, apesar que eu adoraria ouvir Tim Maia versão Aviões, pagaria caro pra ver isso.

O álbum conta com algumas regravações e talvez tenha alguma inédita no meio, me comprometo a fazer uma resenha desse BANGER da música nacional.

#6 Pra Fazer Você Feliz 





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Análise: Chiclete com Banana contra o imperialismo

click baitei

Agora que ganhei a sua atenção, essa postagem NÃO VAI SER sobre a banda baiana de axé. Muito menos a famosa revista de quadrinhos do Angeli e aquela turma boa, se bem que o Angeli merece uma postagem nesse blog. Gostaria?

Cara-caramba-do-que-estou falando afinal? Da música composta por outro grande baiano desse país, Gordurinha (e Almira Castilho), sendo interpretada, e talvez o seu maior sucesso, pelo Jackson do Pandeiro, lançada em 1959, aqui teremos uma análise da música "Chiclete com Banana" que tem muito a revelar da nossa terra brasilis.

Devagar. Primeiro é bom ressaltar uma coisa, a primeira versão é de Odete Amaral, 1958 é uma versão amigável, mas muito corporativa. Sobre a música em si, foi lançada em 59, como disse, naquele LP que lançou o Jackson para o resto do país (passou da Bahia é resto), dizem os rumores que os compositores da música são Gordurinha e o Rei do Ritmo, mas Jackson do Pandeiro pediu para que a sua esposa fosse creditada no seu lugar, um cavalheiro? Talvez só questões contratuais mesmo. 

Da Paraíba para o Brasil inteiro, eternamente na história da música

Deixando claro que o homónimo de 59 não é o seu álbum de estreia, apenas seu primeiro trabalho aportes nacionais, por ter sido gravado no Rio de Janeiro chegou mais longe do que seus outros trabalhos, que já eram apreciados em solo nordestino. 

Chega de enrolação, vamos para a análise da letra

Vou postar ela inteira e ir referenciando ao decorrer do texto. Trata-se de um samba coco, gênero bastante comum na música "nortista" (palavra utilizada para artistas do norte e do nordeste na época) que são essas 'emboladas', algumas improvisadas e muitas com esse caráter mais cômico, não sendo essa uma exceção regra. É bem verdade que em algum momento da fonografia brasileira o samba coco se fundiu com ritmos do forró (baião e xote) ficando um pouco difícil de diferenciar, podemos atestar que é um samba pelo compasso binário 2/4 e os instrumentos característicos do samba coco. 

Também vou postar a música em seguida

Chiclete com Banana - Jackson do Pandeiro, versão 1959

(Gordurinha e Almira Castilho)

Só boto bebop no meu samba

Quando o Tio Sam tocar um tamborim 

Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba 

Quando ele aprender que o samba não é rumba


Aí eu vou misturar 

Miami com Copacabana 

Chiclete eu misturo com banana

E meu samba vai ficar assim


Tu-ru-ru-ri-rui-u-rui-iu

ba-be-bap-be-bap

Tu-ru-ru-ri-rui-u-rui-iu

ba-be-bap-be-bap

Tu-ru-ru-ri-rui-u-rui-iu

ba-be-bap-be-bap


Eu quero ver a confusão!


Tu-ru-ru-ri-rui-u-rui-iu

ba-be-bap-be-bap

Tu-ru-ru-ri-rui-u-rui-iu

ba-be-bap-be-bap

Tu-ru-ru-ri-rui-u-rui-iu

ba-be-bap-be-bap


É um samba-rock meu irmão!


É mas em compensão 

Eu quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão  

Quero ver o Tio Sam de frigideira 

Numa batucada brasileira


(Solo instrumental com metais e acordeon)

(Refrão e a música repete)



Logo no primeiro verso termos noção do que se trata, o eu-lírico está cogitando adicionar o ritmo estadunidense chamado bebop, que é o Jazz dos anos 50 (Charlie Parker e Dizzy Gillespie) no samba brasileiro. Lendo essa frase você pode considerar que Gordurinha estava falando da bossa nova, só que não é verdade, porque a bossa nova é lançada em 59 com Chega de Saudades do João Gilberto antes disso, nenhum artista estava lançando* coisas que fundiam elementos do jazz com elementos do samba, já que a música é de 58, esse tom é praticamente profético. Não é mesmo? 

Mas nem tanto assim, a música em um geral é um atestamento do softpower pesado que os Estados Unidos jogou em cima da américa latina pós segunda guerra mundial, especialmente o Brasil que entrou no conflito por causa de uma siderúrgica. Softpower trata-se da propagação dos ideais de um certo país através de produção cultura, ou seja, é como os países penetram os outros países sem partir para artimanhas bélicas, o Brasil sempre comprou bastante o softpower gringo, mas no contexto do pós-guerra as aproximações ficaram indecentes, e não ficou só na cultura... 



 
Nada representa isso melhor do que o Otávio Mangabeira beijando a mão do General Eisenhower. O resultado dessa subordinação  aproximação, resultou no treinamento das nossas forças militares (o que inclui policiais) pela CIA. Se quiser mais sobre como foi esse contato, dá uma lida nesse artigo aqui 

Em termos musicais, o Jazz ficou relativamente popular entre a juventude, fora outros artistas de rock que culminou no iê-iê-iê da Jovem Guarda, a bossa nova "infectando" o samba e eu diria até aquela leve influência hippie no tropicalismo. E a música segue dizendo que a relação não pode ser só de cabeça baixa, uma troca autêntica entre culturas: Quando o Tio Sam tocar um tamborim/Quando ele pegar no pandeiro e no zambumba /Quando ele aprender que o samba não é rumba.

Tio Sam obviamente representa o Estados Unidos que precisa conhecer o tamborim, que é uns dos principais instrumentos do samba, seja de roda ou de passarela, assim como o pandeiro. Já a zabumba é aquela tamborzão mais grave que marca os compassos do forró!

Neste caso, como segue o eu-lírico, Miami com Copacabana, misturando o que dá nome a música. Mora duas curiosidades aqui, a música fala da relação EUA-Brasil, mas o chiclete sendo bastante criterioso não é de origem americana, sendo um costume Azteca, tão pouco a banana é uma fruta brasileira. Se bem que Big Mac com jabuticaba não tem uma sonoridade legal. E chegamos no refrão, a melhor parte.

A música, ironicamente, utiliza o scat para o seu refrão (descubra o que é scat) que mescla frases do jazz/blues com a batida característica do samba, diria até que é um pandeiro, e tenho certeza que foi o próprio Jackson que compôs essa frase melódica. É a cara dele. E fica de curiosidade, nessa gravação termos o primeiro registro histórico da palavra SAMBA-ROCK ao dizer É um samba-rock meu irmão! Jackson, (a primeira versão não tem isso) acaba por alcunhar um ritmo brasileiro bastante popular nos anos 70.

O samba rock é bem díficil de definir, daria uma excelente postagem sobre, mas para afins didáticos cito o grupo Trio Mocotó e a música Nego Dito, do Branca di Neve, que é o melhor samba rock já feito. 
Gosta de samba rock? Agradeça a esse paraibano

No terceiro verso, lá pro lado do interlúdio, fala-se em compensação, como uma certa negociação, o eu-lírico aceita colocar, ele se propõe como positivo a mistura, mas com a condição, de como já foi dito aqui o Tio Sam saber das coisas e conhecer a NOSSA cultura, nisso mora a diferença entre troca de culturas e dominação mesmo.

Não podemos confundir "globalismo" e "mundo sem fronteiras" com um país mandando e desmandando no planeta por conter mais de 800 bases militares mundo a fora. Se não há um trânsito orgânico entre culturas e povos, é só "influência" mesmo (leia-se tem um grande porrete na nossa cabeça) e é isso, mesmo que não intencional, que a música nos alerta. 
Em muitas interpretações é colocado como uma crítica a elementos do jazz no samba,  como se fosse algo negativo, mas na verdade o problema não é misturar, aliás  a confusão é o que queremos ver, o mundo sem diferenças e barreiras entre si, mas será que essa troca é de mão dupla? Ou estamos se matando de estudar o boogie-woogie enquanto os gringos pensa que falamos espanhol?

Para um mundo mais confuso, não pode haver culturas superiores ou inferiores, sendo cada canto trazendo o que se tem de melhor de fato, não enfiado goela abaixo como melhor.

Pra mim, era isso que Gordurinha e Almira estavam querendo nos alertar, em 1958, com o advento das mídias sociais (apesar disso ser em um blog) a sua mensagem e legado se fazem mais importante ainda.


*Johnny Alf já estava todo jazzístico nessa época, mas seu álbum foi lançado apenas em 61, vamos considerar que nem Jackson, nem Gordurinha conheciam Johnny Alf.

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Lista: 9 versões totalmente inesperadas de músicas famosas

essa postagem não foi aprovada pelo Prince

Disclaimer: Para ouvir as músicas, basta clicar no nome de cada uma delas
 
#1: Prince - Creep,
Para quem não acredita em destino, atração universal e coisas assim, o que explica Prince fazer um cover de Radiohead? Trata-se de uma performance no festival Coachella em 2008, mais uma sensacional de suas performances ao vivo, talvez eu faça um lista só disso.
O melhor dessa história toda é que quando vivo, o Prince mandou retirar todas as gravações dessa versão MARAVILHOSA, por motivos de sabe-lá-Deus, a versão é tão boa que os autores originais autorizaram a reprodução de volta no youtube é sabido que Prince odiava a internet e coisas do tipo, não atoa era bastante difícil de achar seu trabalho nas interwebs, incluindo Spotify que ficou vazio por muito tempo.

#2 Igor Kannario - Força Estranha
De Prince para o nosso querido príncipe do gueto cantando um clássico da MPB, óbvio que foi uma música bastante regravada, mas na versão swinguera, definitivamente é uma coisa que não se vê todos os dias.

#3 Daniela Mercury - Prelúdio e fuga em dó menor, BWV 847
Aliás, para continuar em ritmo do carnaval da Bahia, Bach, sim, o compositor barroco Johann Sebastian Bach sendo tocado em um trio elétrico, é um misto se sensações que me faz ter inveja de quem estava presente lá. 

#4 Só Pra Contrariar - Astronauta de Mármore (Starman)
Tecnicamente seria um cover de Nenhum de Nós, mas é sabido que Starman é uma música do David Bowie, então sendo a melodia sendo composta por ele, termos Só Pra Contrariar tocando David Bowie, e na moral? A versão é muito boa, diferente da próxima música na lista...

#5 Um crime contra a humanidade, crime de guerra e 15 sanções imposta pelas nações unidas
Estou falando da versão do Sambô de Sunday Blood Sunday é relativamente conhecida pelo meme e digo mais, eu acho isso motivo suficiente para a Irlanda declarar guerra ao Brasil. 

#6 Anderson Porto - Tempo Perdido 
Para ser honesto, essa música foi o que levou a fazer essa lista, é incrível, Anderson Porto, conhecido por suas músicas de paredão, cantando a banda queridinha dos circuitos xovens alternativos com 1 mês de violão, Legião urbana! Nota: esses ad-libs do Anderson são muito bom "EITA" UaahhhHOOOW" 
só lembrando que foi a Calcinha Preta que primeiro trouxe tempo perdido pro forró, mas vindo da Calcinha Preta, não podemos considerar inesperado 

#7 Nelson Gonçalves - Ainda é Cedo
Sim, a grande voz dos boleros dos anos 50 cantando Legião Urbana, aliás música que dá nome do álbum onde Nelson Gonçalves canta hits da juventude como Meu Erro do Paralamas do Sucesso e Como Uma Onda com o próprio Lulu Santos. 
Foi uns dos seus últimos álbuns, já que ele morreu 1 ano depois de seu lançamento, com 78 anos 

#8 Zezo - Kriptônia
Grande música do Zé Ramalho na voz do Zezo Potiguar, o príncipe dos teclados 

#9 Xand Avião - Menina Veneno
Pra começo de conversa Xand é muito maior na música do que o Ritchie, então o Ritchie tem muito a agradecer por essa versão, mais do que inesperada é como ela funciona no ritmo de forró!


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