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E se o Batman fosse vampiro? Batman - Trilogia de Sangue de Doug Monch & Kelley Jones (1991)


Amadurecer é perceber que Piada Mortal não é nem de longe a melhor história do Batman. 

Resenha com alguns spoilers!

Não é polêmico para ninguém dizer que as histórias do Batman tem um histórico de roteiros fracos, principalmente nos quadrinhos. Meio que Batman sempre vende muito, e os fãs notórios do morcegão estão mais atento a perfomance/maneirismos do que de fato o emaranhado de tramas. Só pegar as histórias que são elencadas como 5 melhores, parecem ligar apenas para o fator de vendas porque tem cada uma, melhor deixar baixo.

Tem outro fator, dos anos 90 pra cá (na verdade Batman pós-Frank Miller) ele entrou numas aventuras estranhas, cada vez mais violento e mais solitário, como diz o geek médio "BATMAN BOM É O QUE MATA!!!" esse senso comum está muito atrelado ao sucesso comercial que o revival do morcego teve nos anos 90, por conta dos inúmeros jogos, filmes, animação e obviamente: quadrinhos. 

Particularmente, não gosto dessa pegada dita como séria/adulta/meio emo do Batman. 

Nesse contexto CAVERNOSO (se me permitem o trocadilho) é que nasce a trilogia de sangue, na ideia de repaginar o herói, que era muito mais brincadeira do que traumas. Se vocês foram lembrar das histórias dos anos 50-70.

Batman o Bravo e o Audaz #85 do Neal Adams e Dennis O'Neil

E a cada novo trabalho noventista, com sucesso ou não, cada quadrinista tentava dar a sua interpretação do Batman, ou apenas imitar o Frank Miller copiosamente (cof cof Longo Dia das Bruxas) o que Monch e Jones trazem de novo para o Batman? Iremos descobrir agora. 

1. Desenhos
Primeiramente, como rito do Marginália 3, observos a questão gráfica: Kelley Jones é um quadrinista bastante famoso por essa HQ em específico, seu traço é sujo, tenebroso e tem um carater meio de monstruosidade, brincando bastante com proporções e forma do corpo. Definindo muito bem seria algo GROTESCO,  consegue tirar uma expressividade e movimento, casando muito bem com a proposta que conta com muitas cenas de porrada seca, saltos entre prédios e planagens de capa.

A sequência de ações mescla o estilo mais cinemátográfico (como closes de rosto e cenas SPLASH!) com algo mais próprio dos quadrinhos (como contar duas narrativas na mesma página) sabendo oscilar muito bem entre momentos de mais corridos e momentos mais dramáticos. Ou seja, não se demora nas cenas de ação, nem passa voando nas cenas de drama. O layout é bem conservador com poucas quebras de "barra branca" nem inventa layouts tortos, tudo retinho e segmentado.

Tudo isso só pra abrir um bueiro

Tudo é muito exagerado, emocional, pesado. Aquele quêzinho de novela mexicana com temática gótica. Nesse tema, há bastante ornamentos tipo as das gárgulas, a presença de muitas cenas no esgosto e arquitetura que me lembra de relance a versão do Tim Burton do Batman, MAS não fizeram o erro de pintar ele de preto. Por falar em cores elas entregam uma mistura sombria sem ser escura, rola uns constrantes, uma presença muito forte de roxo e umas estilísticas que deixam a coloração "suja", mais ou menos é um tom pastel invertido, no lugar de ser leve e desaturado, utiliza a saturação para entregar algo mais denso. PORÉM, sem nada que precise apertar os olhos para ver. 
Se ficou confuso, só pensar em qualquer álbum do The Cure, é nessa pegada. Apesar de muitas cores, é bastante sombrio.

Achei Chuva Rubra muito melhor elaborada no quesito artístico, já a segunda parte da trilogia que é Tempestade de Sangue a coloração e traços deixa muitíssimo a desejar... Pelo menos no scan que li.

Refaço minha colocação, talvez por um prazo mais apertado a questão técnica, em anatomias e formas cai em queda livre. Atrapalhando na intepretação de algumas cenas, mas... Quando é pra valer mesmo, as cenas chave, não deixam a desejar em nada. Kelley Jones pelo menos não falhou na hora errada.

Mesmo com a presença de cores fortes como amarelo, a composição continua sombria em Tempestade de Sangue. 

Belíssima composição de cores

Vou cornetar o Kelley Jones, tem o seu estilo, que ok, é mais grotesco, umas "erradas" ou "exagero" são toleráveis, mas tem umas cagadas de anatomia que não dá... Principalmente esse close supersexy na Selina Kyle, que tinha acabado de sofrer um ataque que poderia ser interpretado como tentativa de estupro... Enfim, eis a cena:

"ainn que delisiã, cair num rio de noitinhaaa"

Queria eu cair no lago PODRE de Gotham e sair pleníssima assim. Quer dizer, nem tanto... do que jeito que tá torta no primeiro quadro. O segundo quadro está até aceitável, de qualquer jeito a sexualização bizonha de qualquer personagem feminina é um problema crônico, nem dá pra falar em erro exclusivo aqui. Forçando a barra, a mulher-gato sempre teve um componete sexy, MAS DEPOIS DE SER ATACADA NÃO DÁ PORRA!

Outra coisa que o Jones peca muito são as partículas de sangue, além de mal desenhadas, na coloração fica parecendo calda de chocolate, aquelas de sorvete mesmo. 

Help me a help you

Lembrando sempre de culpar o patrão, existe apenas a remota possibilidade dos editores da DC colocarem aquele prazo no talo, o que dificulta a criação artística. Mesmo assim não carece de boas ideias, talvez se Kelley Jones se entregasse mais e confiasse no próprio estilo poderia sair algumas coisas interessantes, por mais que abstratas em alguns momentos.
No geral, é um trabalho na média do que os quadrinhos entregam, tendo alguns momentos de absolute cinema e outros de Rob Liefeld. Não irá estragar sua experiência com a obra, aliás o bom roteiro e a história envolve te faz ignorar algumas questões. Pois então iremos falar do bonito:

2. Roteiro

Essa vai para aqueles fiscais de fidelidade que fica em cima de qualquer adaptação que mude a menor coisa possível dos quadrinhos, o Batman do Doug Monch não é um garoto de oito anos que não cresceu, nem um investigador perfeito, ele é um completo lunático que se acha moralmente superior aos determinados "vilões" só porque ele não mata. Não matava, nessa ele mata. Então o Batman aqui está mais para PM do que Sherlock Homes. Aliás, Monch quebra algumas "premissas" básicas de qualquer história do Batman, em outros termos é o seguinte: No imaginário nerd geral há uma imagem do Batman, há uma imagem do Homem Aranha, há uma imagem dos X-Men que são um ponto de convergência das histórias mais lidas, na verdade um tipo de "sumário" do que aquele personagem é. Nem sempre, em verdade, representam de fato o "espírito" do personagem, o que importa é que ele existe.
No caso do Batman (por ser um personagem de muitas mãos em cima e muito antigo) é um pouco mais díficil de definir, mais ou menos seria um ricaço traumatizado que faz vigilância numa cidade muito caótica, e é um herói "sem poderes"* que trabalha mais de investigador na maioria das vezes.

*Apesar da premissa do Batman é não ter superpoderes ele notoriamente faz atividade que são muito além do que qualquer ser humano, e isso está presente em qualquer mídia do herói, então... Eu mesmo nem considero muito isso aí.

Vamos partir do princípio: O primeiro título trilogia, Chuva Rubra se passa em um mundo alternativo, onde a data não é específicada e nem nada sobre o Batman é apresentado, salve engano os seus pais sequer são mencionados. A história é direta: vampiros estão atacando Gotham City e há todo um arco, que envolve alguns delírios do Bruce (nada novo) sobre a investigação do que porra está acontecendo, um procesos ceticismo inicial e uma completa desilusão sobre o futuro de Gotham, essa parte é mais comum ao Batman. 

Todo o resto da premissa é totalmente corrompida do arquétipo que se é atribuído ao Batman, algo que ajuda o Monch a criar e elaborar o que bem entender, mas ainda assim, apresenta umas das mais autênticas histórias para se entender o morcegão, mas chegamos lá depois... 

O Batman não parece muito motivado em descobrir que porra está acontecendo, o sentimento é desespero, até porque abrange coisas até sobrenaturais que não é da compreensão humana, então se vê obrigado a precisar da ajuda de uma terceira pessoa que passa informações sobre a mitologia dos vampiros, Ariane:

Nessa parte, é tudo do normal convencionado sobre Vampiros dos anos 90, termos vampiros e caçadores de vampiros (que são vampiros), além de um debate se os vampiros são naturalmente ruins ou não. Sol, estaca no coração, visual de rave. Nada a acrescentar em relação a isso.

Eu arriscaria dizer, que essa é uma das versões menos inteligentes do Batman, não que ele seja burro, mas a história em momento algum retira dele alguma sacada genial ou solução de um grande mistério, até porque como mencionei, o mistério aqui é impossível do homem compreender, são questões quase mágicas... VAMPIROS!

O Batman desmonstra fraqueza por lidar com algo totalmente sobrenatural, afinal estamos falando do Drácula, que está "colonizando" Gotham City, no primeiro quebra pau entre os dois Batman sai de uma situação quase morte, assim como inúmeras histórias pós-Frank Miller, ele toma um coro e sai todo quebrado... Precisando de uma transfusão de sangue para continuar a viver... Justamente de uma caçadora, e aí que a história da trilogia começa de fato! Dá pra falar em termos filosóficos que a transfusão de sangue de um vampiro para o Bruce Wayne é a decretação da morte do Bruce, que inclusive tem uma das melhores representações visuais dele que já vi:


O término de Chuva Rubra decreta a morte do Bruce Wayne para a transformação completa dele no Batman, nesse caso em sentido literal. Olha o significado tá fácil, o "man" de Batman se foi, ao passo que ele vira uma criatura de fato. Isso fica muito claro quando ele decide detonar a batcaverna que estava virando um antro de vampiros, a Mansão Wayne tradicional casa de uma família e certa forma única coisa símbolica que seus pais deixaram de herança (além dos bilhões* de dólares).

*Só por curiosidade, Bruce Wayne não é mencionado como bilionários, mas "apenas" multimilionário nessa HQ

Como havia dito, a motivação inicial do Batman não era a clássica vingança, era mais um senso de urgência batendo na bunda pelo alto números de vítimas do que parecia um serial killer, lidar com bestas de outro mundo e ainda um sentimento de impotência, porque dessa vez seus inimigos não eram apenas alguém com doutorado que tinha ficado maluco, mas VAMPIROS serem imortais, dificultando a vida do (de ofício) morcegão. O tema Batman broxa, quer dizer, impotente dá pra decretar que é a marca registrada de suas histórias mais sombrias, em algumas ele é só mais um expectador do que sujeito ativo do processo (exemplo: Batman O Messias) mais ou menos igual ao cliché do superman fia da puta.

Essa quebra de paradigma estabelecido é sutil, Batman passa a se mover por vingança contra o Drácula quando Tanya (só uma gostosa vampira-caçadora que aparece exclusivamente para MORRER) morre nas mão do vilão, e agora o Batman (também quase-vampiro) precisa enfrentar o líder do covil.

As apostas feitas são conservadoras, estabelecendo e retirando seus próprios "conceitos novos" da história, seu trunfo principal é a condunção e construção do ambiente gótico que é muito bem feito, apesar de totalmente diferente daquela Gotham de prédios comerciais enormes, aqui termos ruas estreitas e casas menores. Inclusive depois da explosão passam a morar em um tipo de apartamento. 

Ou seja, mesmo com o Monch corrompendo a premissa do personagem, o seu movimento não é tão disruptivo assim, porque acerta na personalidade do Batman mesmo em contextos diferentes voltando a aquele velho Batman que todos nós conhecemos (mais ou menos). Pense em um movimento de pesca, por mais longe que a isca vá, ela sempre retorna ao pescador.

Sem nenhuma grande surpresa, Batman consegue matar o Drácula num sangrento duelo fechando em três capítulos a primeira parte da trilogia.

Só que a paz está longe de pairar sobre Gotham, porque os problemas só estavam por começar...

Batman bestializado, mas ainda Batman!

Ninguém sentiu a estranheza de nenhum dos personagens clássicos do Batman não terem sido mencionados aqui? Porque nenhum de seus vilões está presente em Chuva Rubra, os escritores do Batman sempre acham um jeito de encaixar o enorme leque de vilões nas histórias não é? O começo da segunda parte não é diferente, na verdade aparece todos o que gera aquele panteão desnecessário que nem vale a pena mencionar.

Para gozo de todos os nerdolas que adoram o Snyder, esse Batman mata! Em Tempestade de Sangue Batman, que se declarou como morto, no maior modo animal possível, decide sair matando vampiros a rodo, seguindo o legado de Tanya.

Pokas ideias mermo

Ué? Onde vai parar aquele dilema moral do Batman não matar para não se equiparar aos seus inimigos? Na cabeça dele, ele ainda está presente da seguinte forma: apesar de ele matar, ele não é um vampiro convencional porque não se alimenta de sangue, sendo um vampiro puro santo anjo do senhor.

Isso sintetiza muito a ideia de Batman na minha opinião, porque aquele clássico meme "Batman não mata, mas manda pra UTI" é a mais pura verdade. Se for colocar numa pespectiva que está presente em inúmeras histórias, Bruce Wayne é mais um problema para Gotham do que uma solução, mas as vezes é encarado como um mal necessário por estar colaborando do lado certo da história, nesse caso o HONESTÍSSIMO Comissário Gordon, ou seja... Batman é mais ou menos um PM ou um esquadrão da morte grupo tático operacional como o BOPE, que apesar de exagerar algumas vezes, continuam certos independente de qualquer coisa. Até porque é o vigilante cruel ou um palhaço colocando veneno no reservatório da cidade, mas até que ponto o Coringa é realmente pior do que o Batman?

Vamos racionar, mesmo o Batman não ""matando""* ele não ajuda em nada na diminuição da violência da cidade, já que seu serviço de vigilância truculenta só instaura o caos e medo nas ruas, sentimentos que não são nem um pouco almejados. Exceto pelos governantes, que tem muito a ganhar com o medo geral instaurado na cidade. Onde quero chegar com esse pensamento é: matando ou não, as meras razões morais do Batman não justificam seus atos tenebrosos e o Monch consegue deixar esse fator presente até de uma forma irônica, quando em determinado momento o Batman diz que "Não toma sangue" e um personagem que me esqueci o nome diz "mas derrama bastante".

*Minha gente, estamos em 2024, dizer que o Batman não mata é uma piada né? Até nas histórias infantis ele dá uns porradão que ia derrubar qualquer cristão mais firme na fé, além de outras que o batmóvel atira de metralhadora, joga bomba, taca bazookada ou ele anda de TANQUE. Eu diria melhor que o Batman não executa a sangue frio suas vítimas, isso é verdade, mas matar... Tem uma rapaziada que foi conhecer o Maradona mais cedo... 

E esse do Doug Monch não é motivado por trauma, vingança nem nada (seria uma pretensa moralidade mais comum que nem vale o debate), em Tempestade de Sangue é uma pura força maligna que voa pela cidade com sede de sangue, por mais que negue isso. 
A sede de sangue não tem sentido apenas figurado, o Batman passou toda história apenas se alimentando por um plasma que é um simulacro de sangue, aos poucos vai ficando cada demais mais fraco ao ponto dele não se sastifazer mais.



 Isso serve como alegoria para o Batman convencional, ele tem pulsão por violência, ele tem o genuíno desejo de matar, mas não o faz por amarras morais baratas, que passam longe de justificar sair de vigilante pela madrugada (OBVIAMENTE isso vai depender do autor que estar escrevendo o herói) e ainda, toda narrativa as vezes apresentada justifica sua própria existência, como apresentar poderes corruptos que não conseguem controlar Gotham. Basicamente, as histórias do Batman giram ao seu redor, não só o roteiro, mas como todo universo conspira ao seu favor (ou contra ele). Podemos falar de um Batcentrismo?

'Defeito' que não está presente nessa segunda parte, Batman é um MANÍACO que precisa ser controlado, ele só não tomou o lugar do Drácula como se tornou alguém PIOR do que o outro vampirão.

Resumindo a ópera, matando ou não matando, o Batman continua o mesmo, Doug Monch consegue sintentizar muito bem os debates presentes no personagem mesmo o corrompendo por completo,

Bem, por falar em moralidade, só existe um personagem capaz de tirar o Morcegão com Daddy Issues dos eixos, o Príncipe do Crime! O Coringa!

Cortando caminho, o Coringa tá sensacional aqui. É o único personagem comum do Batman bem introduzindo na história. Seu plano é assumir a legião de vampiros desamparados pelo Drácula, que estão sendo vítima do HOLOCAUSTO feito pelo Batman para tomar a cidade. Tomar na verdade o submundo do crime, porque ele transforma todos os maiores chefões da máfia em vampiros também, fazendo uma isca pro Batman. 

Enquanto o morcego aluncionado mata a rodo, Coringa ia tomando conta de tudo. Ou o plano do Coringa era matar o Batman mesmo, nunca se sabem as intenções peversas dele...

Nesse meio termo Selina Kyle é atacada numa cena rídicula por um tipo de lobisomem, virando um tipo meio lobo-meio gato, mas a história é tão foda-se para essa parte mitológica que eu faço questão de pular. A função da mulher-gato-lobisomem é fornecer closes de bunda e morrer lá perto do final.

Também vão aparecendo para ser mortos outros vilões do Batman, como o Espantalho, Pinguim, Crocodilo e o Charada? É o velho problema de colocar os vilões só como um adesivo na página sem profundidade nenhuma. 

De qualquer forma, a sede do Batman vai aumentando a cada página, seu desespero vai ficando mais evidente, ele está doidinho por uma mordida no cangote de alguém. Com isso aos poucos vai se apegando a mulher-gato em um verdadeiro affair (fica tão gritante que ela vai morrer também). Todo esse arco, apesar de alguns tropeços é muito bom de acompanhar e a história continua sendo, apesar de contextos diferentes, bastante fiel a personalidade e a ideia de Batman e universo Batman. 

Porque o Coringa é a única pessoa a tirar o Batman do sério, a ele quebrar seus próprios dilemas morais baratos que acredita tanto. Aqui não é diferente, pra variar, perde seu segundo par romântico e chegar a chorar! Coisa que poucas vezes vi nos quadrinhos... (não leio tanto Batman pra ratificar essa informação). 

Fazendo que o Batman chegue ao seu limite psicológico, igual ao fim de Piada Mortal, mas como essa HQ é melhor escrita do aquela-lá, não tem um final ruim. Finalmente consegue pegar o Coringa e o final apesar de previsível, surpreende por sua construção. Morde o pescoço do Coringa e toma seu sangue...
ISSO é uma verdadeira cena clássica

PECADO é a palavra, Batman não consegue conviver com o sentimento de culpa, da mesma forma que não lidou bem com seu desejo reprimido (falando assim até parece que comeu a bunda do Coringa).Percebendo que toda sua luta foi em vão, vampiros ainda existem, o crime ainda está a solta e pior, talvez ele mesmo fosse o responsável direto por toda bárbarie.

Ao final de tudo, pede que Alfred enfie uma estaca no seu peito, terminando trágicamente o segundo arco da história.

E aí na terceira parte (Bruma Escarlate), que é dividida em dois volumes começa tão mal, mas tão mal que nem vale a pena terminar de ler, sinceramente. Em termos: Alfred se vê desesperado com o aumento da malandragem em Gotham e decide reviver o Batman, caindo no problema do Batcentrismo que defini mais cedo. Sinceramente? Monch e Jones parecem jogarem tudo de diferente construíram nas outras duas partes. Um pouco dessa decadência já começa em Tempestade de Sangue e se perde totalmente depois. Então vou sumariamente ignorar a terceira parte.


Resumo da ópera:
Como comecei o texto, o Batman tem um pesado histórico de histórias mal escritas. Nem a Triloga de Sangue conseguiu escapar.

De qualquer maneira, vamos falar de seus valores: Retirar o personagem principal do seu próprio passado e localidade não é fácil, aliás deslocar o mesmo personagem de todo o contexto que justifica a sua existência, Doug Monch consegue trazer um imenso desconforto para o Batman, ao ponto dele está totalmente deslocado em sua própria HQ que leva seu nome. AINDA ASSIM consegue extrair a nata de sua personalidade e uns dos debates presente se ele deveria ser mais carinhoso ou não com os capangas do Pinguim.
Não carece essa HQ, em seu pontos altos, de personalidade. A estética gótica é muito bem acertada na medida, mesmo que o Kelley Jones não seja uns dos melhores, entrega um projeto nos limites de sua técnicas, sólido.
O projeto se perde, tanto na estética, tanto no enredo quando abandona a si mesmo em suas pretensões inicias. No final de tudo, Batman deixa o Doug Monch deslocado.

Vale a pena ler? Acredito que sim.
E passem bem longe de Bruma Escarlate. 







Leia mais...

Pabllo Vittar - Batidão Tropical Vol. 2 (2024)

 


Informações quentes: 
9 de Abril de 2024
14 músicas, 34 minutos
Forró, Brega, Tecnobrega, Melody, Piseiro a peste e o caraio tudo 
Sony Brasil

Se recuperando de uma tal Noitada que virou flop busca inspiração na sua raízes (de certa forma uma zona de conforto) Pabllo Vittar continua o projeto Batidão Tropical três anos depois do primeiro título e na boa, estamos em abril e já é o melhor álbum do ano. 

Pouco antes de falar do álbum eu preciso dizer que sou fã, muita fã, da Pabllo por um valor que prezo muito nos artistas que escuto: conseguir trabalhar em qualquer ritmo/gênero. Assim como o Prince, que é bastante próximo ao funk no começo da carreira e depois consegue cantar qualquer coisa, Pabllo Vittar tem essa qualidade parecida, ela se sai muito bem em qualquer coisa que se proponha a fazer, não é um indicativo de ser "melhor ou pior" (vamos parar de pensar tudo em ranking) apenas uma característica que me agrada bastante, então tenho mais facilidade em digerir tal projeto. Mesmo em zona 'habitual' entrega e ousa a apresentar determinada coisas, mas vamos com calma. 

Antes de mais nada, em nossa ritualística padrão, havemos de falar da capa primeiro. Com menos cores do que o primeiro título, mas mantendo o mesmo calor tropical presente, tonalidades quentes, uma paleta de cores bem discreta comparada a discografia da drag fontes bem blocadas e tímidas em vermelho com um "tropical" cursivo com um degradê entre o amarelo e o vermelho, bem ""anos 80"" o que nos indica um apelo a nostalgia, fato que pode ser observado com o "selo" de volume 2 no finalzinho do nome do álbum. 
Essa fonte cursiva misturada com texto blocado bem centralizado em cima do CD é um clássico das bandas de forró do período, isso denuncia a intenção de nossa querida Pabllo ao apresentar essa capa. A inspiração é mais "forrólesca" do que brega nesse caso.

Como em algumas que mostrarei embaixo: 

Clássico.

Pabllo bebe bastante dessa banda, falo depois

A capa da Magníficos também tá presente o degradêzinho, existe outros milhares de discos com mistura de fontes e cara, peak of design, termos que admitir. 

Resumidamente, a capa apresenta o mesmo calor do primeiro batidão tropical, mas dá alguns indicativos bem claros e consegue "atualizar" a estética do forró do finalzinho dos anos 90 comecinho dos anos 2000 sem parodiar nenhuma banda e ao mesmo tempo sem fazer algo genérico e sem personalidade, tem personalidade e tem apelo a saudade ao mesmo tempo.

Saindo inclusive em uma espécime de "revival" de algumas músicas consideradas retrô, fenômeno conhecido como báu pelas bandas antigas e contando com regravações ou até ressucitação de estilos praticamente mortos, como as músicas de vaquejadas (tipo Kara Véia) que voltaram a ganhar popularidade com Tarcísio do Acordeon, João Gomes e outros cantores que bebem dessa fonte. 

Esse último parágrafo resume tudo que eu tinha pra falar desse álbum, então é uma bela de uma capa que transfere precisamente o que o album precisa. Então assim que arrochamos o dedo no play vem...

Uma bela guitarrada de Pra Te Esquecer uma música do Calypso Algumas coisas presentes nessa música vão se estender ao resto do projeto, termos a clássica batida desse brega-pop (tipo Calypso**) com uma bateria bastante presentes, instrumentos de sopro, aquele guitarra mastigadinha com harmonias curtas e estrofes pequenas, o riff dos instrumentos de sopro são bem chicletinhos e precisamente todos os elementos da música da época.
** Eu NÃO SABIA que essa música era da Banda Calypso, descobri revisando o texto, então mesmo sem saber que era uma música regravada, ela me passou a impressão da música do período. Puxa vida... 

Não entendo NADA de brega paraense, mas aos meus ouvidos seria algo entre o "pico" do gênero, que é no período metade dos anos 2000 até o estourar dos anos 2010 (ou seja uns 2005-2012), só que com um porém, um polimento melhor na sonoridade até porque Pabllo tem muito mais recursos de produção hoje em 2024 do que essas bandas da época. Também um elemento bastante interessante na forma de cantar, não tenho outras palavras a não ser mencionar que ela "canta gemendo" (por mais hilário que pareça, não tem termo técnico para isso) o que também é beeeeem comum para as bandas do período, ao que me parece, um pouco abaixo do seu tom habitual que se aproxima melhor da voz da Joelma. 

Depois vem Idiota (música inédita talvez?) um tipo de forró atual (estilo Mari Fernandez, Fabinho Testado), um piseirinho bem básico sobre sentar em ex, nada diferente do gênero. Te falar, não que o arranjo do Mataderos tenha ficado ruim, mas se fosse uma seresta ou na pegada mais arrocha mesmo, acredito que ia dar um caldo muito mais palatável (pra mim) do que essa pegada de piseiro. Vou esperar sair a versão do Unha Pintada (cantor de arrocha daqui de Sergipe) para dar uma opinião melhor. 

Agora, Pede Pra Eu Ficar que é uma versão "traduzida"(na verdade brasileira mesmo) de uma música da Roxette (essa aqui) a senhora Pabllo Vittar entregou TUDO, foi o primeiro single lançado lá pra dois meses atrás e eu fiquei sem acreditar. A primeira coisa que veio a minha mente foi "caralho ela imitou aquela bandas de forró antigo" daí ela lança um álbum com estética de forró(e brega) antigo, isso é tudo que preciso dizer.

Ao traduzir uma música de tiozinho dos anos 80 Pabllo desmontra suas credenciais e entende perfeitamente o tipo de público que quer antigir com o projeto, é uma demonstração perfeita da estética que está visando sem precisar parodiar ou fazer uma caricatura de uma banda determinada, com o aportuguesamento fica evidente que é uma pessoa que ENTENDE claramente do assunto e tem propriedade para brincar com o gênero. 

Essa música poderia ter sido lançada, sem mudar uma vírgula da letra, pela banda Noda de Caju, Baby Som, Forrozão Tropykalia ou até Calcinha Preta ou seja, é a perfeita continuação do trabalho artístico feito no perído, uma continuação, um prosseguimento do legado de um gênero tão popular em nosso nordeste, é um passo a frente, sem pretensão alguma. 

Esse é erro muito comum de representação da cultura nordestina mídias a fora, inclusive em algumas feitos por alguns nordestinos (não vou querer mencionar aquele álbum tosco da Juliette). Na verdade uma série de erros, o primeiro é a caricatura, puxar só cacto, sertão, seca e chapéu de couro, não que esses elementos não façam parte da cultura nordestina, mas eles são mais efetivos para compor um personagem do Zorra Total do que um reconhecimento do nordestino nessas figuras. O outro elemento que se peca bastante é a paródia, a quase imitação de algo que já fez sucesso por aqui e daí fica algo meio tosco, forçado e pouco convincente, que na minha opinião entra o filme Bacurau (2019) um tipo de paródia de cidade pequena, que não me pegou legal. Continua sendo um filme decente. Alias tem bilhões de cidades fictícias na mídia tipo Bacurau. 

Longe de mim julgar produções que tentem reproduzir determinado período histórico (nesse caso o forró dos anos 2000) ou culturas como um todo, aliás uma tão complexa e rica como a nordestina até porque são NOVE estados, é um trabalho díficil, onde muitos se trupicam, mas quem consegue exercer com precisão sempre se destaca e ganha reconhecimento, do mesmo vale para a série Cangaço Novo, que tem uma resenha aqui nesse blog. 

Já que mencionei a obra, ela tem as mesmas valorações que Pede Pra Eu Ficar, faz o simples que dá certo, e as vezes a simplificidade consegue abarcar todo contexto cultural necessário e toda carga precisa para entender alguns temas, é o caso da música aqui, uma simples versão brasileira que só quem nasceu no nordeste ou viveu aqui no período sabe reconhecer a beleza e os objetivos da música. Acerta em cheio e puta que pariu QUE SAUDADES de músicas gringas traduzidas, melhores do que as originais, diga-se de passagem. 

Todo o exposto sobre o nordeste que apresentei aqui, se faz presente no brega que a Pabllo Vittar trouxe no álbum, mas estes tenho pouquíssimo repertório para falar, pois não entendo nada da cena mesmo assim a apresentação é agradável e conssoante com o resto do álbum não havendo uma divisão clara entre "momento brega" e "momento forró", ambos sempre se relacionaram bastante, havendo pontos de intercessão entre eles, esse álbum é um deles. 

Rubi que é originalmente da Banda Djavú. E cara, alguém desavisado pode achar que a música é original tá? Muito bem encaixada e muito bem regravada em comparação a original, não deve em nada o arranjo tecnobrega feito. Aliás só pesquisando hoje eu descobri que a Djavú é uma banda baiana, fica a informação.

Também na sequência termos São Amores que é originalmente do Forró Miúdo e que arranjo gostinho, a voz da Pabllo em seu belo tom habitual se encaixa muito bem no tema, uma boa escolha pro repertório. 

Achando pouco, a bonita decide regravar uns dos MAIORES HINOS da nossa música nacional, Me Usa, apenas. Cara, essa música me extraiu emoções que... Nossa, é algo inesperado; fantástico, pra não falar dizer magnífico e fazer trocadilho com a música. Bem, a versão da Pabllo não deve em nada em relação com a música original e é tão boa quanto, dá pra notar naturalidade de quem cresceu ouvindo esse tipo de música e hoje tem oportunidade de regravar. 

Vem uma regravação de uma música da Gaby Amarantos (uma música do Roxette de novo) junto com a própria Gaby, ok.

Só tenho a dizer que Pabllo Vittar gravou junto com Taty Girl, pra quem não conhece é uma verdadeira lenda viva do Forró eletronico/romantico chame como quiser, uns dos maiores nomes e cantou inúmeros sucessos, seja em carreira solo seja no Solteirões do Forró ou Forró Real, sou fã pra caralho, não esperava ouvir as duas juntas. Sem palavras totalmente me pegou com as calças arriadas. 

Nos finalmentes termos, nas Ondas do Rádio da Banda Companhia do Calypso que é a única música com o ritmo levemente diferente da original, mais 'piseirada'. Depois com Ai Ai Ai Mega Princípe da Banda Batidão que tem uma pegada muito diferente, se destoa bastante do resto da estilística do álbum.  Realmente é uma pegada muito diferente e pra fechar o caixão, Não Desligue o Telefone da Banda Djavu que tem uma pegada um pouco mais techno do que brega, mas é um mero detalhe, não me agradou bastante. 

Caixão e vela preta, está acabado Batidão Tropical Volume 2 

Resumidamente o álbum é uma coletânia de raízes da maranhense Pabllo Vittar com uma excelente música original no meio, ou mais de uma, não se Idiota é original ou não. Arranjos bastantes respeitosos sem um clima de homenagem que o EP recente pro Luiz Melodia tem. Estando mais na real regravação do que uma efeitiva homenagem. 

Tem um clima de na real apreciação, de celebração da cultura popular, que geralmente é escanteiada por ser "música meme" e tem pouca valoração artística no público geral. Eu digo com isso porque bandas como a Banda Djavu viralizam por serem 'engraçadas' ou enfadonhas, mas não no sentido leve da coisa e sim como algo que fosse de baixa qualidade, entendem? As vezes destacam só o amadorismo os poucos recursos e com isso acabam, mesmo viralizando a obra, a diminuindo de sua importancia na cultura brasileira.  
Ou seja, o povo acaba tendo uma vergonha de si mesmo ou vezes nem leva a sério, ainda assim há muitos que sentem saudades desse tempo e nessa saudades, não uma nostalgia barata, que se apoia todo o projeto. 
A nostalgia pode levar a um sentimento reacionário bastante comum de achar que tudo antigamente era melhor, mas na verdade você não sente falta da Banda Djavú, você sente falta das condições econômicas da época, idade mais jovens, das festas e uma vida com menos responsabilidades.

Saudoso, respeitoso e música popular levado a sério, é um belo extrato da marginal mercadológica brasileira, comendo igual a mingau quente, pelas beiradas. É um passo da frente ao invés de um olhar pra trás, um sopro de alívio e certeza que a nossa cultura continua viva. A cultura do forró é um gigante gesto de indepência cultural dos grandes artista e mídia do "eixo" (RJ/SP) que PRECISA ser tão levada a sério quanto. 

Mesmo com uma carga cultura fortíssima, o álbum funciona até para quem não entende de cara as referencias, por exemplo eu não conhecia nenhuma das músicas bregas regravadas, mas ainda sim ele funciona por completo, por casar muito bem os elementos de (tecno)brega e forró, é um ode a cultura e um ode ao amor. 

Por mais que pareça estar mais próxima e uma aparente zona de conforto, ousa na escolha de algumas músicas, percorrendo caminhos menos óbvios, o que garante PERSONALIDADE ao projeto ao invés de recorrer a escolhas preguiçosas. 

Esse álbum é um belíssimo convite ao norte do país para quem desconhece e um excelente passo adiante da nossa riquíssima cultura. Uma veradeira maniçoba, com gosto forte, convicta em si mesma e sem a menor preocupação de desagradar quem ache a aparência feia.  
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Pérolas Negras - Um Tributo Á Luiz Melodia (2024)


Informações legais:
2024
Universal MUSIC
MPB
Pouco mais de 10 minutos. 

Essa vai pra quem fala que esse blog só trata de velharia. No dia 6 de fevereiro a Universal de 2024 lança esse sinlge em homenagem aos 50 anos do álbum Pérola Negra, de 1973, sem palavras para tal, é o cartão de visitas do Luiz Melodia, um compositor responsável por inúmeros e inúmeros marcos da nossa música. O album conta com Sandra de Sá, Liniker, Zezé Mota, Analis Assumpção, Mahmundi e Mart'nália.

São cinco músicas selecionadas, será que ficou bão?

Pérola Negra - Criolo, 
Bastante fiel a versão original (a versão original é da Gal Costa (71) na verdade, original quis dizer do Melodia de 73), tem um ar de amadorismo no bom sentido, de parecer aqueles covers relaxante do youtube, uma sensação bastante confortável, música que o violonista (Webster Santos) e o Criolo gravaram em uma sentada, na paz e é um clima agradável para um álbum de tributo. Realmente é uma forma de "atualização" a versão de 1973 para 2024, porque mesmo em época e sonoridade diferentes, tem a exatamente mesma sensação. O que ajuda é o Criolo ter um timbre bastante parecido com o Luiz Melodia. Ainda assim, pessoalmente prefiro a versão da Gal Costa com a boca maior que a Bahia gritando "PEROLA NEGRA NEEEEEEEEEEEEEEEM SEI SE TE AMOOOOOOOO". De qualquer forma, uma excelente interpretação do Criolo, Webster e o clarinete tocado pelo Ivan Sacerdote. 


É uma música que eu sei tocar no violão, falo com propriedade que o Webster Santos detonou aqui. 
Fica de fun fact que essa música foi escrita para uma travesti, explico melhor numa resenha do Fa-Tal ou do próprio Pérola Negra algum dia. 

Estácio, eu e você - Mart'nália,
É uma das minhas músicas favoritas do Luiz Melodia, joguei grandes expectativa nessa. Ninguém melhor do que a Mart'nália para cantar, a versão soa muito mais limpa, mais 'bossa novística', com mais uma vez o Webster Santos roubando a cena, arriscaria dizer que o violonista desse álbum é a melhor coisa dele vou até parar de mencionar do coitado. No lugar da famosa flauta de Estácio, Eu e Você tem um sintentizador que de dá um ar da graça. Mais uma vez aquele elemento de 'atualizar' a música.

Estácio Holly Estácio - Mahmundi,
Arriscaria dizer, que na voz do Melodia, é a sua canção mais conhecida, ninguém menos capacitada para assumir essa bronca do que Mahmundi, que também é produtora do single. Entrega tudo, está a caratér. Cumpre bem a função, o violão é mais forte aqui, a percusão só da ritmo mesmo. Dá pra dizer que é a principal música do single porque é a música mais Melodia possível, da forma mais melodiosa possível. Mas nada de extraórdinário.
Não conhecia a Mahmundi, me interessou, vou ouvir mais dela daqui pra frente. 

Pra Aquietar - Sandra de Sá,
A música começa com uma cuíca gostosa, quebrando esse tom de música de barzinho que o álbum estava tendo, Sandra de Sá se divertiu cantando essa e até puxou Juventude Transviada no final, é uma música mais distoante das demais e ninguém melhor do que Sandra de Sá para fazer isso. A versão original é um suíngue fervoroso, devidamente equiparado com a do single analisado agora. Achei inteligente puxar para samba, ao invés de mais rock, como a de 73, iria quebrar muito a pegada do álbum, então mesmo sem respeitar o disco original, o single sabe como trazer seus elementos. 

Magrelinha - Zezé Motta, Anelis Assumpção,
Eu estava sentido falta do piano, que não tinha sido exatamente um problema nas outras músicas, ele chega em Magrelinha, mas meh. Achei paia, as interpretações entregam algo muito menos dramático que a música demanda, não que seja ruim, mas não curti. E NÃO TEM A FAMOSA GUITARRINHA NO COMEÇO, só pontuando isso.

Vale Quanto Pesa - Liniker, 
Eu não tenho palavras para descrever a Liniker, ver ela cantando Melodia é algo fodástico, disparado com um pé nas costas a melhor canção do álbum, ponto, ESCUTEM, sério. Vale Quanto Pesa também é uma das minhas favoritas do Melodia, e do álbum Perola Negra logicamente, como fã pessoal da música em específico, a interpretação está superando até as minhas próprias expectativas. Liniker + Luiz Melodia não tinha como dar errado, tudo isso que tenho a dizer.

Num geral:
 é um single muito respeitoso com a obra original, decisões conservadoras de produção (por exemplo o Lulu Santos lançou uma música com o Papatinho e João Gomes ano passado, sim o Lulu Santos tem oficialmente um piseiro) o que garante o seu relativo sucesso em "tributar" o Luiz Melodia, apostando pouco, se acerta mais. Uma das grandes surpresas que você pode tomar é ouvir Liniker, que é a minha favorita nesse single. Outro ponto magistral é Webster Santos colocando todas as músicas embaixo do braço, se fosse só instrumental de violão, valeria muito a pena. O single é conciente de suas próprias qualidades, sabendo explorar muito bem o de melhor que pode oferecer. 
Vale a ouvida, recomendo para os apaixonados MPB

Informações chatíssimas:

Vocalistas: Anelis Assumpção, Zezé Motta, Sandrá de Sá, Mahmundi, Mart'nália, Criolo e Liniker

Violão: Webster Santos

Clarinete: Ivan Sacerdote.

Produtor, Co-produtor e Synth  Pads: Josefe,  Mahmundi

Arranjo: Josefe

Piano: Samuel Silva (Sam Jazzy)

Compositor: Luiz Melodia

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O dia que uma simples voz abalou a ditadura brasileira.

Maria Alcina, 1972

O ano era 1972, o Maracanazinho sediava o sexto Festival Internacional da Canção, também conhecido pela Sigla FIC, as coisas já não começaram bem no festival, a Nara Leão foi proibida de ser júri da competição (pra quem não sabe da relação odiosa entre Nara e os militares), rapidamente todo júri foi trocado para jurados gringos. 

O ano era 1972, o Maracanazinho sediava o sexto Festival Internacional da Canção, tudo seguia mais ou menos em plena normalidade até uma mineira franzina de Cataguases, operária e ainda semianalfebta com um sonho de ser cantora sobe ao palco, estremece o Maracanãzinho com "Fio Maravilha" do Jorge Ben Jor e é campeã do festival! Só tinha um problema, a cantora tinha "voz de homem"! Uma moça tão magrinha, com um vozeirão grave o suficiente para estremecer não só o ginásio, o governo também. Os militares ficaram em cima, foi processada por "ato subversivo", sim, apenas por cantar, sua subversão era ter uma voz grossa, foi o suficiente para que ficasse banida dos rádios, televisões e shows por quase um mês! Apesar dos esforços do seu empresário. Por pouco não foi presa. 

Em um comentário técnico, acho injusto considerar a sua voz como de homem, são poucos homens que tem uma voz dessas, se eu tivesse um vozeirão desses, não estaria escrevendo um blog kk 

Seu nome é Maria Alcina, uma tímida mineira que foi tentar a sorte no rio, começou se apresentando na boate Number One e chamou a atenção de uns dos organizadores do FIC de 72. Debutou como artista naquela perfomance esotérica, soltou seus demônios para o público que adorou a perfomance, quem não gostou... vocês-sabem-quem, sua voz é única, seu timbre é belíssimo, o auge de sua carreira aconteceu um anos depois, em 1973 lança seu primeiro álbum, um homônimo de 73:

Lançado pela continental

Apesar do sucesso imediato, sua carreira nunca contou com assinatura de grandes gravadoras e nem outros hits arrasadores, é de esperar, uma cantora negra e com 'voz de homem', isso incomodava bastante. Apesar disso conseguiu se manter viva no imaginário brasileiro quando participou como jurada em programas de calouros (como o do Silvio Santos). 

Passeando pela borda do mercado fonográfico, Maria Alcina segue alegrando o povo com sua magia e sua raça!

Confira sua histórica apresentação no FIC:


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Blacksad: Cigarros, fumaça e sobretudos. Mais um noir? Díaz Canales e Juanjo Guarnido

O título não mentiu, esse black está muito sad. 

Blacksad é uma famosa bande dessniée/BD, ou em português de portugual uma banda desenhada, que é como os quadrinhos francos-belgas são chamados, tipo Tintin, Asterix, Lucky Luck e Smurfs (sim, caso você não saiba Os Smurfs são quadrinhos e belgas, sendo chamados de Les Schtroumpfs no original).



 Nunca li muitas BD, é um mercado meio desconhecido no meio de quadrinhos brasileiros, mas batendo o olho você consegue reconhecer uma, elas sempre são muito bonitas, Blacksad não é diferente. Voltando ao quadrinho do texto, foi lançado pela Dargaud inicialmente lá nos anos 2000 e no Brasil tem versões da SESI-SP, Panini e até Dark Horse.

Resenha do primeiro volume de Blacksad, Blacksad vol 1: Em Algum Lugar Entre as Sombras 
** SEM SPOILERS **


Do que se trata esse lindo gatinho? A história é ambientada nos Estados Unidos na metade do século vinte, o nosso protagonista, Jon Blacksad, é um detetive particular, conecte A + B e voilà, termos uma bela história "noir" em nossa frente

Interessante mencionar noir, que também é um termo em francês, preciso te atualizar o que é isso primeiro.

Filmes noir não são bem um gênero, mas digamos um estilo dentro dos filmes policiais, uma quase filosofia da forma de fazer cinema. E aí cabe determinar uma coisa previamente, filmes noir só existiram na década de quareta e cinquenta, esses são os ditos noir, que foram nomeados assim pela crítica especializada francesa. Noir significa negro, os filmes dessa época contava com jogos de sombra inovadores, iluminações diferente. O que contribuia na época é o fato deles serem em preto e branco, então o jogo de cena ficava muito mais harmonioso. Eis o exemplo do considerado primeiro filme noir já feito:

Stranger on the Third Floor (1940)

Por ser um movimento cinematográfico completo, os elementos noir vão além do jogo de cameras, também são elementos: histórias policiais (geralmente um crime muito obscuro e sem solução aparente), corrupção das elites, uma visão suja da elite, detetives particulares, climas urbanos, cenas noturnas, as famosas female fatales que são mulheres perigosas e pouco confiáveis, não sendo só uma princesinha inocente para ser salva pelo herói, que aliás não existem no cinema noir, o personagem principal (um detetive particular em 99% dos casos) é alguém de moral cinza, as vezes até imoral, de caratér duvidoso, mas sempre espertinho, de tiradas rápidas e fugindo de situações complicadas. As vezes se movem por vingança (como em Blacksad e Sin City) ou por uma pulsão de curiosidade mesmo. Esses detetives não são bons moços, e geralmente é o Humphrey Bogart que está interpretando ele, além de um chapéu, sobretudo, cigarro e uma .38 ou 32 acompanhando eles. 

Maltese Falcon (1941)

Os filmes participantes dessa coisa toda são como os que já citei. Tem um filme de boxing que é muito bom, The Set Up (1949), e lá vai outros tipo Out of the past (1947), Repeat Perfomance (1947), Undercurrent (1948), The Big Sleep (1946) e um francês lá na década de 60 que é um filmaço também, Le Samourai de 67
Citando Le Samourai, os filmes lançados fora da época noir e com elementos mais diferentes são chamados de neonoir, sendo os mais famosos dele Chinatown (1974) do Polanski e Blade Runner (1982) do Ridley Scott. 

Pessoalmente, eu adoro filmes dessa época. Falcão Maltes é uns dos filmes favoritos! Por sinal, eu também adoro Sin City, mas falar bem do Frank Miller é meio complicado... Mas Sin City é muito bom, não tem jeito negadinha. Mais noir que isso, impossível.
calma moreno, você não é assim

Então tá, fazendo uma grosseria, Blacksad é Sin City francês. Pronto, eram isso que queriam ouvir? Pois está estabelecido.

A arte.

Belíssimo, o estilo do Guarnido é de animais antropomorfizados, sem parecer fantasias furries como em Zootopia, ou qualquer produção disney-pixar na real, se bem que o Blacksad é muito gostoso, digo, ele é gatinho, se me perdoarem o trocadilho.


Diferente das obras noir, o quadrinhos é bastante claro, sem sombras marcantes e colorido (como a maioria das BD), optando por uma coloração mais "pastel", mas sem ficar com cor de cadavér, é menos saturada do que Asterix por exemplo, mas ainda continua num jogo de cores muito forte. Com carinha de outono e um bom chocolate quente nas mãos (pode ser nescau).
Ou seja, apesar de retratar a desgraça e miséria humana, não precisa ser tudo escuro, dá pra trabalhar isso muito bem com cores.

Apesar da pegada mais 'realista'* (é uma HQ 'adulta') ela não foge da natural cara de desenho animado que animais antropomorfizados tem, balanceando entre algo sério e algo mais leve, contando com poucas cenas cômicas bem inseridas. A cena desse leão marinho incorporando o John J Jameson, bastante Looney Tunes das ideia.

A riqueza dos detalhes no cenário pode deixar a sua experiência de leitura (caso seja por scan no digital) um pouco pesada, a primeiro momento, mas a suavidade dos traços e de certa forma o abraço a cartoonização que o Guarnido faz dá uma leveza que garante a boa experiência do leitor. A versão físcia deve ser um tesão. Isso é tudo que tenho a dizer. 
Apesar da opção de cores mais viva, as cenas noturnas não deixam a desejar em nenhum aspecto, há pouco da história que se passe de noite também.

Os filmes do Batman sonham em fazer isso aqui

A história é relativamente corrida, são quase 60 páginas que você lê parecendo 6. O enredo é simples, uma ex ficante/amante/peguete de Blacksad (relacionamentos estão variados hoje em dia) leva uma carimbada na cabeça, incube a ele descobrir com foi o assassino, ponto final. Um crime simples, que é conduzido com tranquilidade, não havendo nenhum grande plot twist ou revelação esotérica das coisas. Mas sinceramente, o que importa em Blacksad é o durante, a história em si não tem nada de mais, a experiência de ler e acompanhar os pensamentos do nosso detetive bem como a ambientação que é o barato, aliás, isso vale para inúmeras obras noir.
É só mais um crime entre tantos outros, não tem nada de interessante aqui, ou será que não? 

Os personagens são dotados de carisma, Blacksad representa alguém cansado de toda situação, bastante emotivo para uma personagem masculino que está mais preocupado em ser fodão e melhor que todo mundo, sensível em alguns momentos. Assim como outras histórias que envolvem animais quadrúpedes com polegar opositor, cada "grupo racial" pertence a determinada profissão, ao pouco que aparece, os caníedos são policiais, tem um bar só de réptis e demais pequenos detalhes que ainda irão aparecer durante os outros volumes.

Complicado 'desqualificar' uma história por não ser uma epópeia, na minha honesta expectativa contava com um alguma pegadinha, alguma coisinha que quebre a cabeça do leitor (algo muito comum nesses contos policiais), porém a história não é tão focada na investigação em si (por incrível que pareça), o Díaz Canales aposta em uma enredo que se arrisca pouco, optando pela boa condução ao invés de inventar demais. É bem conduzida e faz chegue até a última página, bastante competente. Funciona, por ser simples.

A obra vale a pedida para conhecer os quadrinhos franco belgas bem como a estilística noir como um todo. Espero pode comprar a versão físcia qualquer dia desses. 
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Dinastia M: Inverter para entender.

Legião Sapiens


Se-alguém-tinha-dúvidas do conteúdo político dos quadrinhos do X-Men a Dinastia M está aí para provar que esses elementos sempre estiveram presentes. 

Antes de mais nada, Dinastia M é uma imensa saga dos quadrinhos Marvel que compila mais de 50 issues, é a última grande saga antes do MCU chegar e varrer o resto de dignidade que os homenzinhos coloridos de collant tinham perante a cultura popular (falando assim nem parece que digo cultura pop). Ok, talvez não seja a maior saga antes do MCU, mas eu irei puxar sardinha pro meu lado, então sim, Dinastia M é a maior saga de todos os tempos, e quem discordar é DCzete. 

Pois bem, importante delimitar que esse post não é uma resenha, li apenas 1/5 da história, é um comentário da sua abordagem inicial das histórias que vou indicar ao final de tudo.
**Tem spoilers, foi lançado em 2006, mas custa nada avisar**

Na prequel da Dinastia M termos uma história da revista Excalibur (Excalibur #11 Chris Claremont e Adam Lopresti) sobre uma luta dos atuais X-Men contra o um golpe que está acontecendo na Zambia, através de mecenários enviados pela Rainha Branca, Courtney Ross. Não confundam com a Emma Frost, que é uma poderosa banqueira em Londres. Enquanto isso, Professor Xavier e o derrotado Magneto (eventos dos Novos X-Men, confira a resenha aqui) reconstruindo o que sobrou de Genhosa e o professor Xavier tentando recuperar a sanidade da Wanda (FILHA DO MAGNETO PRA QUEM NÃO SABE) que sofreu um colapso nervoso e deu uma péia nos novos vingadores. Aliás toda Dinastia M é sobre o colapso da Feiticeira Escalarte, foi nisso que Doutor Estranho 2 se baseou, só que o filme é uma porcaria! Nem deveria ter sido mencionado. Esse blog deve ser o único canal de mídia que lembra de Doutor Estranho 2, Marvel e suas produções esquecíveis. 

Como diria o carecão roxo:

Pois bem, só para fechar o arco, o grupo mecenário é derrotado, a Zambia vence sua "guerra civil" e recebe apoio para financiamento para reconstrução do país justamente da... Rainha Branca. Esse mini arco mostra bem a pegada do que estaria por vir.
 Ah sim, Wanda perdeu as estribeira, os heróis mais famosos da Big Apple se reunem para definir seu futuro, por insistência dos Vingadores, votam por deixar a Feiticeira Viva, ao desembarcarem em Genosha para uma conversa diplomática e avaliar a situação mental dela, plim plim. Um clarão surge. Com seus poderes descontrolados, Wanda bagunça a realidade e o universo senciente, tudo estava de cabeça pra baixo, agora os mutantes estão no poder. Em um reinado do Magneto e sua família como um todo. Depois de um clarão branco, tudo está mudado.


O que acontece nesse universo "paralelo"? Os mutantes vencem a guerra genética e asseguram a dominância do planeta terra em um reinado do Magneto, sim, dessa vez, o Magneto não é fascista, e os mutantes (aqueles com o gene X, o homo superior) estão no poder, sendo os dominados da vez os Sapiens (homo sapiens) e nisso que mora o barato dessa história, pra mim. Por um motivo simples, não é só um superman filho da puta sendo ditador genericamente (alô Injustice), mostra uma hegemonia verdadeira. Também não tem essa proposta de mostrar 'heróis realistas' (alô The Boys).

Sim, hegemonia completa tendo dominância ecônomica, cultural, religiosa e etc etc, é tanto a classe dominante, tanto a dirigente daquela sociedade, nesse "mundo ideal", Peter Parker, por exemplo, é um bilionário, casado com Gwen Stacy, e que raspa sua cabeça, por algum motivo.(?)

aliás, o Tio Ben é vivo nessa história

Se nas histórias originais o pobre do homem aranha tem dois empregos e é renegado por geral, aqui ele é uma lenda viva na cidade. As pessoas não adoram os heróis/mutantes por eles serem heróis ou mutantes, mas sim pela grande personalidade deles, um fato interno, isso se dá porque com a dominância total dos mutantes, o normal, esperado, é ser mutante, e uma vez que todes são mutantes, você avalia aqueles quadros que são os melhores, assim como os piores ainda existem, ser mutuna não tem nada de especial. Tá complicado de compreender? 

Vou puxar uma aspas do Gramsci para entender o raciocínio:
“uma classe é dominante em dois modos, isto é, é ‘dirigente’ e ‘dominante’. É dirigente das classes aliadas, é dominante das classes adversárias. Portanto, uma classe desde antes de chegar ao poder pode ser ‘dirigente’ (e deve sê-lo): quando está no poder torna-se dominante, mas continua sendo também ‘dirigente'."

Portanto, invertendo a situação, conseguimos entender como funciona a política de X-Men, aqui os mutantes correm soltos pelas ruas, voando, rastejando, o notíciario só se fala da fofoca dos mundo mutantes, com bastante êxito Dinastia M consegue demonstrar os processo de dominação e opressão que acontecem nessa sociedade ficcional, claro. (Ainda bem que é uma ficção, e não algo baseado no modelo de sociedade que vivemos.) E os humanos? Vivem lutando contra, sem muito sucesso a dominação mutante, mas não todos, apenas uma população mais marginalizada, pois a maior concentração de Sapiens é o pobre bairro cozinha do inferno em Manhattan, aquele mesmo que o Demolidor mora e faz a festa. Muitos teem relacionamentos com mutantes, outros chegam a trabalhar juntos em empregos menores, como políciais. Existem até grupos de resistência, terroristas mesmo. 
Ou seja, uma vez no poder, eles ditam tudo aquilo é da reprodução social, cultura, política e até psicologia, a psiquê social.

A pergunta que fica, "quanto poder! essa dominação é uma ditadura totalitária?' Não, as coisas acontecem em sua normalidade, os sentinelas até existem para perseguir alguns humanos, mas em aspecto gerais podemos dizer que o modo o qual se aconteceu essa dominação não fez precisa a extinção dos sapiens, toda segragação ocorre em plena normalidade moral, legal e ética. Até porque a moral, legalidade e eticidade é definida pela classe dominante, mas mesmos os valores esperados por eles mesmos não são rompidos. Os mutantes e os humanos estão segregados "naturalmente" ou seja, cada um ocupa o espaço o qual é devido, não se fazendo nescessário, um super plano de extermínio da raça humana. 

 Assim como, inclusive acontece na maioria das história dos mutantes, pelo menos aquelas que o Senador Kelly não aparece. Ou seja, por mais que vivemos em uma dita "democracia" (por mais que em Dinastia M seja uma monarquia) ainda há quem esteja passando por uma ditadura, toda democracia cheia de liberdades é ditadura para outras pessoas, especialmente aquelas idesejadas pelo grupo dominante/dirigente.

Essa 'direção' é tão aparente que quando o quadrinho vai mostrar o cenário do rap, termos um mutante lançando palavras de ordem e o famoso conscious rap (rap consciente) para uma platéia de humanos, mesmo sendo mutante. Um comentário bastante ácido sobre o mercado do rap. Achei uma passagem interessante também. Meio ácida, interpretem como quiser. 


Tudo é lindo e belo, exceto na Austrália. Lugar onde ainda existe o status quo mutante, porém o Estado da Austrália é completamente nazificado. Sim, com referências beeeeeem saltitantes aos olhos. Estamos na Austrália porque o Bruce Banner, em busca de misérios segundos de paz em sua alma acaba indo atrás de uma população aborígene (nativos australianos), em mesma aldeia que está sendo invadida por uma espécie de Gestapo Australiana. 

Tá nem óbvio isso aqui

Um ponto de contradição interessante é que esssa gestapo é formada justamente por HUMANOS (brancos), SAPIENS mesmo que estão assassinando seus próprios "parceiros de gene", todavia, toda essa perseguição, até genética mesmo, não é novidade para os povos aborígenes, que eram perseguidos tanto sob domínio Sapien por serem nativos (racializados) e agora são perseguidos por serem humanos. Em uma das falas o tipo de cacique do lugar relembra um episódio cruel da sociedade Australiana, a Geração Roubada. 



Essa parte não é ficcional, foi uma política do governo Australiano para o extermínio da população nativa do local, isso é genocídio no mais e simples sentido que a palavra pode ter.

 Óbviamente eles (australianos) possuem a anuência do Magneto, não que ele apoie, mas... Aquela coisa, a existência de um estado genocida de SAPIENS não é uma ameaça para o status quo MUTANTE, muito pelo contrário. Ou seja, existe uma dominação que funciona tanto em uma "democracia" tanto em uma ditadura descarada. 

Em modos gerais, ainda estou lendo a Dinastia M, achei os temas muito mais aprofundados do que a maioria das histórias que colocam heróis no poder. Voltarei com mais informações. 

informações chatíssimas, as HQ lidas
Excalibur #11 a 14 (Chris Claremont e Aaron Lopresti)
Dinastia M #1 e #3 (Brian Michael Bendis e Oliver Copel)
Homem Aranha Dinastia M #1 (Mark Waid, Tom Peyer e Salvador Larroca)
Quarteto Fantástco Dinastia M #1 (John Layman e Scol Eaton)
Hulk Dinastia M #1 (Peter David e Jorge Lucas)
Homem de Ferro Dinastia M #1 (Greg Pak e Pat Lee) 
Mutopia X #1 (Davide Hine e Lan Mendina)



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As vezes é preciso desagradar...


Anúncio do Daniel Craig como novo James Bond, outubro/2005

O ano era 2005/06, o mercado era outro, as demandas eram outras, porém, Casino Royale dá uma aula de como ressuscitar franquias conhecidas, aclamadas pelo público e pela crítica. Em um tempo onde estamos vivendo uma infestação de adaptações péssimas e um senso de nostalgia desenfreado que só querem tirar dinheiro de millennails, o que podemos observar com 007 Casino Royale (2006)?

Pois bem, quando Daniel Craig foi anunciado como o mais novo James Bond em outubro de 2005 sofreu um pesado boicote por parte da mídia e pela imensa maioria dos fãs, existindo inclusive um site chamado DanielCraigIsNotBond.com, que nem estar no ar mais (imagino o motivo), a CNN definiu como 'a maior controvérsia cinematográfica da memória recente', o tabloide inglês Daily Mirror o definu como 'James Bland' em uma tradução livre poderia ser chamado de 'James Meh', jornais consideravam um cast equivocado, mesmo sem o coitado sequer abrir a boca ainda. 
A torcida de nariz com o Craig ficou mais forte ainda pela especulação que se tinha da volta do Pierce Brosnan, o 007 do último considerável sucesso da franquia (na verdade praticamente o único filme bom depois dos anos 60) GoldenEye, olhando para o Brosnan, que era o padrão dos James Bonds entendemos porque a escolha do Craig foi tão "polêmica":

aquele olhar 43


O Daniel Craig é baixo comparado a outros atores que fizeram o espião mais famoso do mundo (1,80 em comparação a média de 1,85 a até 1,90), loiro, meio calvo sem o famoso topetão, orelhas de albano, mal encarado e talvez feio seria pegar muito pesado, eu não tenho uma posição para defini-lo como feio, coitado, porém com toda certeza não tem cara de galã do cinema mundial. Digamos que é uma estética não ortodoxa para filmes do gênero, definitivamente não tinha nada de James Bond, e o filme, sabendo disso, entrega exatamente o que prometera ao anunciar o Craig, um novo James Bond. funcionando de forma até metalinguística, aproveitando esse hype negativo que a escolha de seu espião principal levou.   

Até porque o filme é sobre o mais novo 007, com a franquia sofrendo um reboot total, não atoa, por todo filme o James Bond não é o 007, sendo apenas o 00, e ainda batalhando para se firmar no MI6, sempre muito alvo de críticas pela sua conduta estabanada, nesse filme não termos inúmeros apretchos tecnológicos mirabolantes, não termos a classe de um galã, apenas um agente secreto muito porradeiro, que sua e sangra bastante, e minha nossa, como o James Bond apanha em Casino Royale, com direito a famosa tortura em suas partes intimas no final do filme. Outro fator é suas falhas, ninguém estava acostumado a ver o 00(7) falhar, por ele ser o herói, o melhor e o mais inteligente, no filme o James Bond é até espertinho, mas carece de humilde e inteligência de enxergar o cenário completo, ou seja, ele até consegue pensar rápido, mas as vezes não pensa direito... 

Sobre o filme em si, em uma rápida resenha, é um filme pensado do inicio até a tortura, os trinta minutos finais eu considero meio gratuitos, meio off com o filme, poderiam estar muito bem na Quantum Solace (segundo filme com o Craig) mas enfim, acompanhamos a evolução do agente que aos poucos vai deixando o seu ego falar menos. Apesar de excelente, perde e apanha muita das vezes por excesso de confiança, porque quando você é bom, você pode para alguém melhor, mas quando você é o melhor, perde apenas para você mesmo. 
Termos um James Bond que começa explodindo uma embaixada no começo do filme, para no final matar alguém usando silenciador de forma bem discreta, já como 007 e pela primeira vez toca icônica música da franquia, mas sem perder a sua assinatura truculenta. Aliás, essa porradaria juntada a ações mais espertinhas em menos brucutus que pegam uma M60 e atiram para tudo que é lado é a assinatura de filmes de ação dessa época, mais "pé no chão", não visando um realismo, mas sim um humanismo do herói, olha como ele sofre de verdade, será que realmente vai conseguir? A exemplo de Busca Implacável (excelente filme, mas só o primeiro) e Agente Bourne.
A "bond-girl" também é diferente das outras, mas nesse blog você não verá eu comentando par romântico de ninguém.

Por falar em humanismo, humanidade do personagem principal vermos ele sentir mortes, mesmo sendo alguém com LICENÇA PRA MATAR, o sentimos titubear em algumas violências, por mais que ele tente transparecer que não sente nada todo frio e calculista peaky blinders, então termos uma excelente atuação do Daniel Craig fingindo interpretar alguém frio quando na verdade quer transparecer alguém que sente, densidade de personagem. 

Não é um filme nota 10, mas talvez seja aquele aluno que  acertou tudo e esqueceu de escrever o cálculo na prova naquela questão que valia 2 pontos, o professor é obrigado a tirar ponto, por mais certo que ele esteja.
sofreu mais do que Juliette no BBB 21

Todos esses fatores que eu listei, somado ao próprio fariam, por lógica, um 007 terrível, todavia, longe disso, Cassio Royale é admitido pelo fãs e pela crítica (agora a mídia trata bem o filme né) como uns dos melhores filmes da franquia (alguns dizem que Skyfall é melhor), por motivos simples de pensar além, e o mais importante, trazer o personagem pro século 21, é um James Bond do século 21, não aquele espião da guerra fria, apelar para isso poderia te causar uma nostalgia de ver seu bonequinho da juventude em tela novamente, e ser uma obra esquecível vinte minutos depois que se sai da sala de cinema. O 007 se tornou relevante novamente, só ao passo que deixou de ser uma caricatura de si mesmo a cada novo filme, Sean Connery ficou para trás.

Porque as obras foram feitas para serem superadas. 

E aqui chego no ponto dessa postagem:

Não importa o ano, Michael Keaton não consegue olhar pro lado

Os estúdios atuais parecem ter desistido de superar obras antigas, o motivo é bem razoável... Somado a prazos descabidos para produções desses filmes termos uma sequência maravilhosas de filmes horríveis, com um grande apelo a tempos passados e personagem clássicos, como as versões """"live action"""" da Disney, que ninguém aguenta mais. Ainda que tenha saído um filme bom que satiriza isso tudo, aquele do Tico Teco (Tico e Teco: Os Defensores da Lei de 2022), talvez você não tenha ouvido falar porque saiu direto pro streaming, o filme é bem ácido em relação ao fenômeno que estou descrevendo, e daí você entende, talvez, porque nunca tenha ouvido falar.
É óbvio que os filmes, incluindo o Casino Royale que elogiei tanto, são feitos para lucrar e dar bilheteria, porém, com as condições de trabalho e tecnologia que termos hoje é muito mais fácil fazer um projeto "genérico" e em 2023 mesmo sofremos com isso, A Pequena Seria (horrível), The Flash (péssimo) e Indiana Jones, coitado do Harrison Ford, foi obrigado, mesmo em quase 80 anos de idade a reviver o Indiana Jones, Rick Decard no Blade Runner 2049 e o Han Solo, que segundo as más línguas pediu para morrer no filme. Por falar em falecimento, os filmes recentes do Star Wars sequer respeitaram a morte da Carrier Fisher e colocaram ela de CGI no episódio 9 e em Rogue One, sinceramente, se você acha isso uma "homenagem bonita" é sinal que acredita muito bem no discursos das empresas. 

Sacanagem também é chamar o Michael Keaton pra fazer Batman novamente, sendo que ele fez Birdman (2014) que meio que explicita, suspostamente, a relação do ator com o homem morcego, só supostamente, vamos fingir que ele foi escalado para o papel por coincidência. Ironias do cinema.

E ainda de citar filmes consideravelmente não solicitados, como Detetive Pikachu, Sonic, Jumanji aquele com a pegada de "anos 80" que virou moda depois de Stranger Things (versão desqualificada de Os Goonies), tal qual o filme do Bumblebee que nem lembro o nome, o REMAKE DE IT,Jogador Número Um, Detona Ralph, aquele filme terrível do Adam Sandler de gamer (Pixels eu acho) e muitas produções dessa galera que tinha um Tamagotchi quando era criança. 
Eu posso ter citado coisas anos 90 aqui, mas o importante é o pensamento. O mandatório hoje é fazer o adulto se sentir uma criança, e das mais ousadas, que não podem receber um não. Tem pouquíssimas obras que saibam aproveitar os personagens, elas se sobressaem bem quando aparecem, O Homem Aranha no Aranhaverso que o diga, praticamente se mudou a forma de se fazer animação. (Batman lego não.) 
Os estúdios atuais não sequer ousam em desagradar a fã-base, aliás toda obra é pautada no fanservice, de quanto os nerdolas conseguem reconhecer easter eggs nos filmes. Falta ambição, falta ousadia, mas não falta uma coisa: grana e hegemonia cultural. A Marvel-Disney sempre vão faturar bastante em seus filmes, não importa o quão ruim ele seja. Não atoa essa empresa tá chegando na casa dos 40 filmes em 20 anos (considerando Homem de Ferro pra cá), o MCU é interminável, e até as marvetes mais apaixonadas estão perdendo o ritmo de acompanhar essa joça. Acorda nerdolinha, a Marvel não vai perder dinheiro por causa de lacração. 

Eu escrevi todo esse texto só pra reclamar do mal danado que o Tim Burton fez ao cinema ao trazer aquele Batman todo obscuro e de traje preto (pasmem Batman de 89 é o melhor filme), daí todos os filmes do Batman foram imitando ele, eu, com meu resquício de fã do morcego quero um filme diferente, Batman trevoso não dá mais. O ÚNICO BATMAN QUE TENTOU FAZER DIFERENTE FOI O DO JOEL SCHUMACHER, o filme é horrível, mas é disso que a gente precisa. Que pelos menos os filmes sejam ruins tentando fazer algo diferente, ao invés de incontáveis filmes genéricos.

um Batman drag queen ia balançar a história do cinema

Saio em defesa da Bat-tetas e bat-closes de bunda, aliás esse é uns dos poucos filmes do Batman que CONTAM UM ROBIN, algo que ninguém NUNCA parou pra pensar. É disso que o Batman precisa, sério.
Batman Eternamente é horrível, porém memorável, ao contrário desse The Batman de 2022, que daqui a um ano e meio ninguém vai lembrar, ao menos que saia uma sequência tão esquecível quanto.

O fã é uma criatura ingrata, mimada que precisa ser contrariado de vez em quando, até pela abrangência de novos públicos e novas pessoas que antes, talvez, nunca tenham se interessado naquela obra em questão, só pensar de quantas pessoas conheceram 007 pelo Casino Royale. É preciso a reciclagem, ao invés da reutilização.

(Como os anos 2000 eram cruéis, o Daniel Craig era considerado feio pra época...)

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Zito Righi e seu conjunto - Alucinolândia (1969)



Informações alucinadas 

1969
12 músicas, 30 minutos
Samba rock, Jazz, MPB wannabe, tem seu valor psicodelico 
Hot


Porra lá vem esse blog com disco de hiponga, sim, vamos lá:

Me escutem dessa vez, samba-rock psicodélico, vale a pena escutar. É um saladão de samba-rock com jazz, além de, claro, ter muito tempero de psicodelia e ser uma éspice de rito de passagem entre a música dos anos 60 e dos anos 70. Nesse álbum termos muitos elementos identificáveis de várias épocas, vamos nessa resenha decantar uma a uma.
Antes de mais nada, quem é Zito Righi? Não faço a menor ideia, toda biografia que achei não passava de um paragráfo, mas é um saxfonista tenor, líder de orquestra (dá as rédeas nesse disco), e tem nome de batimo Isidorio Righi, segundo seu próprio filho:

Achei essa informação comentada no blog "Esses Incríveis Músicos e Seus Maravilhosos Instrumentos" que Deus ou algo maior abençõe todos esses blogs obscuros de música, incluindo este que vós fala. 
Álbuns psicodélicos eram moda na segunda metade dos anos 60, até o Ronnie Von tem um (ainda vou fazer resenha), a estética do movimento hippie foi rápidamente, por ironia do destino, absorvida pela cultura, então meio que a contra cultura virou cultura de fato, isso aconteceu tanto em aspectos gráficos (como as fontes) e estilísticos, como a utilização de órgão agudo nas músicas e as guitarras elétricas que tanto pelejaram de entrar em nosso país. No Brasil, termos todo o tropicalismo que também impactou, a julgar a estética desse blog. 
Sobre o samba-rock é díficil dar uma definição precisa, mas eu gosto de definir como o "ritmo brasileiro que foi enxotado do mercado pela galera do disco" basicamente é a turma do suíngue, da batida, do boogie woogie antes dos ritmos estadunidenses se popularizar no Brasil, como a música de discoteca, funk e soul, tem como principal preominente o Trio Mocotó, algumas pessoas colocam o Jorge Ben Jor no balalaio, mas eu particulamente discordo. No mas, esse álbum é um ótimo exemplar para enteder o fenômeno do samba-rock, e vamos começar por sua capa.

A capa é terrível, eu diria até sem utilizar de palavras duras que é um pouco feia, tenta representar uma alucinação, mas tem cara de "badtrip" como a galera da droga fala, os olhos esbugalhados, gentilmente segurado por mãos queimadas, ou com aparência de cremação mesmo em um esquema de cores bem harmônico pra ser considerado psicodélico, como se conceita, acho que "arco iríco"? Tem as cores do arco íris, a capa me trasmite uma tensão, duvido que tenha sido a intenção dos artistas... Apesar de considerar ela feia, coitada, foi que me chamou atenção assim que a vi, foi amor a primeira vista, tem carinha de psicodélico eu fico daquele jeito, amor a primeira vista.

Assim que você desce o play tem uma introdução bastante cordial dizendo "a vida não vai tão mal, agora vejam que legal. Zito Righi e sua banda vindo de Alucionlânia para nos levarmos em um voo 'alucionológibom' nas delícias do seu som" e aí começa bem em um samba rock, pela presença do piano, uma matraca, apitos e a formação rítimica das palavras, a divisão dos versos, o pegada mastigadinha que o samba rock como característica, uma coisa interessante que rodeia toda obra é a voz da vocalista do conjunto, aquele vozeirão dos cantoras de rádio que foram extintas nos anos 60, um álbum "contra cultural" é interesse a combinação, a forma de cantar meio declamatória me lembra Gilberto Gil em Parque Industrial no famossíssimo álbum lá de 68, cansativamente mencionado nesse blog, também o mesmo em Marginália II no Frevo Rasgado.

A música seguinte é uma de protesto, meio pacifista das ideias não tanto apelativa politicamente, não tem um clima "governo filho da puta" (o que era plenamente razoável)  e mais "parem de brigar por favor, somos todos irmãos em cristo", o que não faz dela uma música de protesto, na verdade, mas uma de desabafo? A música de protesto só tem esse nome na época específica que foi produzida, então formalmente, é uma música de protesto, por mais que seu contéudo não seja revoltoso. Ela representa já a tensão que foram os anos de chumbo, tem algo ali no meio, mas não dá pra falar o que é direito, é o famoso "O que será que me dá, que me bole por dentro, será me dá" que o Chico Buarque escreve, engraçado essas músicas não mais de protesto como era no comecinho da MPB, mas a sensação de cansaço que já aparece aqui, em 69.

As músicas em inglês são jazzes, um tenor belíssimo, um hard bop clássico que não deixa fica muito pra trás dos clássicos saxofonistas tenores, com o Coltrane, Cannoball Adderley, Albert Ayler e essa turma boa do hard bop foi uma continuação do bebop lá pro finalzinho dos anos 50, especificamente em 1959, quando saíram 4 grandes álbuns de jazz que mudariam a histórica música, assim como a Bossa Nova surgiu nesse período o estilo é uma resposta a música antiga de jazz, trazendo essa carinha mais conhecida que termos hoje do gênero. Sabe esse jazz "sujo", noturno, pegada Taxi Driver do Scorsese? Hard bop. E sinceramente, se Once in a While tivesse no meio de um álbum do Miles Davis com essa execução do Righi, ninguém sequer notaria a diferença, um ótimo exemplar de jazz aqui.

Logo após, em Birimbau, a pegada vai um pouco mais pra MPB em geral, como era costumeiro a época, com o pézinho no tropicalismo, mas nada de tropicalista, afinal, a altura desse campeonato, o tropicalismo já tinha morrido, expliquei melhor aqui.

Também tem algumas faixas que são na pegada mais "Jovem Guarda" aqui, isso se dá pelo dedo do Roberval que era do show business dessa galera do iê-iê-iê, como Bye Bye, Adeus Amor e Sou Feliz Aqui, que tá entre a jovem guarda e o samba rock, mas nada que seja calça boca de sino demais.

Outro ponto de se ressaltar é de quão bom são as músicas de jazz aqui, onde há jazz há os irmãos Gershwin, nesse álbum é Love is Here to Stay, porém num ritmo desjazzustado, com a carinha mais brasileira, combinação polêmica, eu prefiro a versão da Ella Fitzgerald, porém comparar com ela é uma tremenda sacanagem, não é mesmo?
Por mim, o álbum acaba rápido com Hert, outra música gringa, e saí com aquela sensação de "mas já??", pois é tem um cumprimento ideal de um álbum, 12 músicas em 30 minutos, sucinto, sóbrio, bem apresentado. Me parece mais uma escolha editorial do que escolha própria dos artistas, todavia entrega muito bem um elemento da música psicodélica, a mistura, tem vários elementos aqui e todos estão bem coesos, uma verdadeira salada. Eu colocaria um pouco mais de jazz

Recomendo, principalmente as músicas de jazz e samba rock (metade do trabalho) 

Quebrou totalmente minhas expectativas, não esperava ouvir samba rock em um álbum com essa capa,
parece música psicodélica feita por gente que nunca usou psicotrópicos ou é bissexual. 

Informações chatas:
01.  Poema Rítmico do Malandro (Sônia Santos)
02. Somos Todos Irmãos (Roberval)
03. Once in a While (Green, Edwuares)
04.  Birimbau (Roberval)
05.  Primeira Conjugação (Wagner Santos)
06.  Bye Bye (Carlos Imperial)
07.  Love is here to Stay (George Gershwin & Ira Gershwin)
08.  Isn't a Dream (Zito Righi & Sônia Santos)
09.  Sou Feliz Aqui (Ruy P. Pereira)
10. 1 Adeus Amor (Roberval)
11.  Alvorada (Luís Freire & Maurício Einhorn)
12.  Hert (Richard Adler & Jerry Ross)
Pistons: Ubiratan e Barcelos, 
Trombone: Othon, 
Sax-Barítono: Renato, 
Órgão: Alberto, 
Contrabaixo: Paulinho, 
Bateria: Fernando, 
Ritmista: Nilo, 
Guitarra: Jorginho, 
Crooners: Verinha, Sônia Santos e Carlinhos, 
Saxofone: Zito Righi.

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